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SIGMA 5-9 BPM/CP-V FLAO DESCRIPTION PRINTED

Tratando-se o Ser Humano de um animal social, a consciência surgirá e desenvolver-se-á, perspectivada enquanto capacidade de compreensão e actuação perante a realidade circundante, sempre que ocorrer a relação entre indivíduos, e entre estes e o meio que as alimenta.

40 “The theory of evolution regards consciousness from the point of view of its survival value. For it

consciousness is one of the manifestations of life whose function it is to assure the survival of the organism.” BRIGHTMAN, Edgar Sheffield- The Importance of Being Conscious, Journal of Philosophical Studies. 4:16 (1929) 498.

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Talvez por isso, para Pöppel41, mais uma vez, a consciência se define pela possibilidade de comunicação, ou seja, “ a consciência é algo (...) que tem de ver-se e pensar-se numa relação comunicativa.” 42

Deste modo,

“o outro é constitutivo para a minha consciência, o que mais uma vez demonstra a tónica relacional da mesma.” 43

Pelo que foi descrito anteriormente, e considerando ambas as tradições, pode ser concluído que uma das características apontadas por (quase) todos os filósofos e cientistas é a natureza relacional da consciência, chegando mesmo, para alguns desses pensadores, a ser a característica definidora da consciência.

Um destes autores é Yves Chesni, que considera a interacção, pedra angular da consciência:

“A consciência é fundamentalmente relacional e diversos tipos de relações contribuem para sua a matização qualitativa ”44

Numa perspectiva psicológica mas também de certa forma concordante com a visão de Merleau-Ponty, ou seja, que a intencionalidade com a qual nos dirigimos a um objecto, nos possibilita estar consciente dele, Koops considera que:

“(…) existem três facetas da consciência -cognitiva, emocional e conotativa (em que) (…) cada componente envolve um conjunto de processos que podem operar de diferente forma nos indivíduos enquanto função de influências culturais, históricas, desenvolvimentalistas e sociais ”45

Langston, por sua vez, coloca uma importância acrescida no facto de que nenhum componente, nem as combinações entre eles, servirem para descrever o

41 PÖPPEL, Ernst -As fronteiras da consciência -A realidade e a experiência do mundo. Lisboa:

Edições 70, 1985. p.178. Col. Universo da Ciência.

42 Ibidem. 43 Ibidem.

44 “La conscience est fondamentalement relationnelle et diverses sortes de relations contribuent à la

nuancer qualitativement.” CHESNI, Yves- Recherches sur le développement de la conscience. Paris: Diffusion Champion, 1984. p. 12-3.

45 “(There) are three facets of conscience (cognitive, emotional and conotative) in (…). Each component

involves a complex set of processes that can operate differentially in individuals as function of cultural, historical, developmental and social influences.” KOOPS [et. al.] ed.-The development and structure of

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fenómeno consciencial. Deste modo, ele entende a consciência como um sistema coordenado de relações entre os campos emocional, cognitivo e conotativo46.

Podemos então compreender como a natureza relacional da consciência condiciona toda a actividade por ela desenvolvida.

A questão da relação, no ser-se humano sobrepõe-se a muitos outros ideários humanos estáticos, até porque desde o início do séc. XX, devido também aos contributos das ciências sociais e biológicas, o Homem passou a ser encarado como um ser -em -relação47, principalmente, como já vimos, pelas correntes existencialistas e fenomenológicas.

Recentes publicações, sobre empatia e perspectiva na segunda pessoa, apontam para a relacionalidade como sendo um ponto fulcral do Ser Humano48.

Em termos práticos e independentemente das diferentes correntes filosóficas que abordam a natureza e propriedades da consciência, um facto é certo, todas são unânimes em concordar que a consciência e o conhecimento consciente, abrem-se sobre si mesmos, sem que nunca se perca a ligação do Eu com o mundo exterior. É a experiência de vida e a respectiva visão do mundo, Weltanschauung, que vai possibilitar, a cada indivíduo, transformar a compreensão de si e do próprio meio em que se insere. Ou como Neil Manson que pertencente à tradição anglo-saxónica, considera,

“estar consciente é uma propriedade que o estado mental tem em virtude de o sujeito estar consciente disso. Quando estamos conscientes de algo, estamos conscientes dessas coisas via o estado epistémico: estado perceptivo ou outro estado cognitivo. (…) O primeiro ponto para considerar é que a consciência epistémica é relacional. Dizer-se que alguém está consciente de algo é indicador da relação epistémica entre o sujeito e o objecto epistémico (o que é que eles estão conscientes de). Nós podemos estar conscientes de um peixe, de rochas, dos ciúmes de alguém. Nós podemos estar conscientes disso.”49

46 KOOPS -cit.45, p. 2-3.

47 Ver subcapítulo desta tese- “Sobre as diferentes tradições filosóficas na problemática da consciência.” 48

DINIS, A.; CURADO, J. M. orgs. -Consciência e Cognição. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia- Universidade Católica Portuguesa. 2004. p. 39. Col. Pensamento Filosófico.

49 “Consciousness is a property that a mental state has in virtue of the subject being conscious of it. But

when we are conscious of something we are conscious of those things via an epistemic state: a perceptual state, or some other cognitive state. (...) The first point to note is that epistemic consciousness is relational. To say that someone is conscious of something specifies an epistemic relation between a

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Apesar de ser complexa a tarefa de conhecer a consciência dos outros, não podemos negar a sua relação com a nossa própria consciência. E apesar da nossa consciência irreflexiva estar mais próxima da nossa reflexiva, do que da consciência dos outros, isso não impede o esforço de alguns fisiologistas e comportamentalistas de a querem isolar do resto do sistema humano.

Pode-se ainda acrescentar que a vida social humana, e com alguma certeza de alguns animais superiores, é moldada, se não fundada, sobre a inferência implícita, ou até explicita, da consciência que cada um faz em e de si, numa conexão com o mundo interno e externo.

Como relata Yves Chesni,

“a consciência (…) é um aspecto característico dos sistemas psicofisiológicos originais, relacionais, de certa maneira acumulativo, conotando a evolução das espécies, dos indivíduos, das sociedades, das civilizações, numa palavra a História, a partir de um certo grau de acréscimo, (…) surge como um sinal, uma consequência e um factor de diferenciação e correlação. A consciência irreflexiva vive-se como uma relação (…) como uma consciência de qualquer coisa que não é ela mesma mas que não se separa desta.”50

Aliás como já foi mencionado no capítulo anterior e segundo a perspectiva neodarwinista, a capacidade de aprender, a inteligência e a mais elevada forma de consciência, foram factores determinantes na capacidade de sobrevivência, conferindo- nos uma acrescida vantagem adaptativa, pois são sinais e consequências desse progresso de diferenciação e de correlação com o meio.

Para correntes como a psicanálise, a epistemologia genética ou a psicofisiologia, a consciência está intimamente relacionada com o processo de interiorização, o que mais uma vez sublinha a natureza relacional da mesma.

subject and an epistemic object (what it is that they are conscious of ). We can be conscious of fish, rocks, of someone’s jealousy. We can be conscious that.”HEINÄMAA, Sara -cit.29, p. 288-90.

50

“La conscience (…) est un aspect caractéristique de systèmes psychophysiologiques originaux, relationnés, d’une certaine façon croissants, connotant l‘évolution des espèces, des individus, des sociétés, des civilisations, en mot l’Histoire à partir d’un certain degré de croissance, (…) apparaît á la fois comme un signe, une conséquence et un facteur de la différenciation et de la corrélation. La conscience irréfléchie elle-même se vit comme relation (…) comme ‘conscience de quelque chose’ qui n’est pas elle-même et donc elle n’est pas séparée.” CHESNI, Yve- cit. 44, p. 30-1.

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Apesar de não existir acordo entre estas teorias quanto ao início deste fenómeno na vida de cada sujeito, segundo qualquer delas, a consciência envolve a criação de imagens e a capacidade de rememoração. Para tal, de acordo com a abordagem epistemológica genética, são as sucessivas estruturas mentais, dependentes das virtualidades genéticas, que capacitam o Ser Humano a criar a consciência. Foram as relações passadas e actuais, que moldaram, no seio da evolução das espécies, a consciência.

O Ser Humano, através das relações com o mundo e por sucessivas interiorizações das mesmas, condição sine qua non das operações mentais, vai ser capaz de ir deliberando, sem que com isso se desinteresse do mundo exterior. Pode, então, considerar-se que a consciência surge da relação, na relação, por e para relação com o Eu e o meio.

Mais uma vez se acentua, o carácter relacional da consciência, pois é na comunicação entre o ser e si próprio e este e o mundo que o envolve, que a consciência de cada ser se constrói, autonomiza e desenvolve.

E é tanto mais assim quanto os próprios processos mentais associados, independentemente da sua qualidade, se formam e se desenvolvem na e para a relação entre uns e outros. Para a evolução destes processos e da própria consciência concorre a aprendizagem que a vai, por consequência, alterar e também consequentemente tornar mais apto o indivíduo. Mesmo considerando os comportamentos possivelmente inatos, as estruturas que os induzem estão sempre em relação e até normalmente em subordinação com os centros superiores, os quais mais tardiamente se tornaram totalmente funcionais. Estas estruturas mais complexas estão sempre em articulação com a consciência.

Uma outra dimensão deveras importante para a formação e modelação da consciência é a dimensão social. Esta é especialmente importante porque, independentemente da forma como se dão as relações entre os indivíduos e a sociedade, esta tem uma potente força formadora, orientadora e correlacional sobre os sujeitos. A interferência entre a consciência e as relações sociais dá-se a dois níveis distintos: nos próprios indivíduos sociais e destes nas suas relações sociais. Independentemente do caso a que nos possamos referir, existe sempre uma troca de elementos e informação entre ambos.

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Também no plano existencial, a consciência irá influenciar o projecto de cada um. A imagem da vida humana impõe à consciência reflexiva várias estruturas, que se relacionam no âmbito em que se constroem os projectos existenciais, uma vez que o Ser Humano não é indiferente ao mundo e portanto, vai reflectir a tensão que existe entre ele e o mundo em que se insere. É neste tipo de situações que a dimensão ético -moral da consciência, vai sustentar as decisões valorativas tomadas, para cumprir o plano pessoal de cada indivíduo.

Em jeito de conclusão, o objectivo deste capítulo foi estabelecer a natureza relacional da consciência enquanto ferramenta mental necessária para que o sujeito se situe no mundo. Neste cosmos cabe toda a realidade mental e física, ela própria modeladora e condicionadora do funcionamento e das características da consciência. O dinamismo consciencial, garantido por esta conexão, é em si influenciador das capacidades de interagir do sujeito, porque é capaz de o ligar intencionalmente e reflexivamente a tudo. Esta última dimensão irá conferir ao sujeito a possibilidade de avaliar a forma como se relaciona e como se deverá relacionar com o mundo. No caso desta tese, será o mundo natural e as diferentes formas como este se apresenta aos sujeitos (os biocativeiros), o outro “sujeito” da relação. A ponte relacional entre ambos irá afectar consciencialmente o Ser Humano, criando nele uma certa “visão” do que é o outro lado e de como ele deverá relacionar-se com ele.

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