O uso das sondagens qualitativas e quantitativas para organização das campanhas eleitorais não é algo que emerge nas eleições de 1998. Publicitários e dirigentes partidários de praticamente todos os candidatos a cargos majoritários utilizam este expediente para organizarem os discursos dos candidatos, destacarem seus pontos positivo e os negativos dos adversários no horário eleitoral. As sondagens mostraram-se como verdadeiras armas de disputa política no campo político e não foi diferente na eleição da reeleição.
Mantendo uma “tradição”, FHC valeu-se de sondagens de opinião para acompanhar a sua popularidade durante seu primeiro mandato. Semelhante ao que fazem os presidentes americanos, FHC recorreu as sondagens na hora de tomar algumas decisões importantes. Em A contradição de FHC (Veja. Nº. 1535 p.22-28, 04.mar.98), a revista mostra que o governo encomendou questionários detalhados para avaliar a opinião dos eleitores sobre as reformas constitucionais, montando uma equipe, liderada pelo sociólogo pernambucano Antonio Lavareda, para analisar os dados das sondagens.
Faz pesquisas a toque de caixa, através de consulta telefônica, para analisar a repercussão das crises inesperadas – por exemplo, a morte dos sem-terra em Eldorado dos Carajás, em 1996. Realiza pesquisas mais simples, mensalmente, para acompanhar os índices de aprovação do governo, do Plano Real e da imagem do presidente (...) Em seu gabinete no palácio, o presidente é constantemente municiado com estatísticas. Lá ele guarda gráficos que registram o índice de aprovação de todos os
presidentes (medido pela parcela de eleitores que acham o governo ‘ótimo’ ou ‘bom’) mês a mês, desde o tempo de José Sarney. Esse indicador é uma das bases de confiança na reeleição. Desde o início do mandato, esse número fica sempre na faixa dos 40%, que é justamente o equivalente ao eleitorado dele em 1994. (p.26-27).
A matéria detalha algumas ocasiões em que a ação do presidente foi comandada pela orientação das sondagens de opinião. Após o surgimento das denúncias de compra de votos, as sondagens encomendadas pelo governo indicaram que a imagem do presidente fora afetada e por isso os assessores orientaram FHC a não receber parlamentares por um tempo. A orientação foi atendida. A recepção à marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) a Brasília, no ano passado, foi decidida com base nas sondagens. Os estrategistas de FHC perceberam que o movimento havia ampliado seu apoio entre as classes médias e recomendou ao presidente a receber as lideranças do MST.
Na campanha eleitoral FHC, as sondagens passaram a ser feitas diariamente. Em depoimento durante o II Encontro Nacional de Estudos de Comunicação e Política, realizado em Salvador em dezembro de 1998, Cláudio Barreto, um dos publicitários da campanha de FHC, afirmara que as sondagens eram peças fundamentais para a montagem do programa eleitoral.
Tínhamos pesquisa diária, do que estava dando certo, do que estava prejudicando, no que eles iam bater forte no outro dia, o que já não ia aparecer mais. São equipamentos que já temos, as pesquisas qualitativas, quantitativas, as informações das pesquisas, as análises e todo esse conjunto de coisas. Sob um comando na área de comunicação, isso produz resultados fantásticos!4
Com Lula não foi diferente. Venturi (2000) mostra que o Núcleo de Opinião Pública (NOP) da Fundação Perseu Abramo, ligado ao partido, detectara desde o final de 1997,
4 Barreto participou da mesa-redonda sobre campanha eleitoral na mídia em 1998. Os depoimentos dele e
os pontos positivos e negativos da imagem dos candidatos Fernando Henrique e Lula e conclui que os traços registrados naquele momento permaneceram evidentes até 04 de outubro de 1998, o dia das eleições. Almeida (2000) também nos revela que sobre o desastroso programa inaugural do PT no Horário Eleitoral Gratuito na TV5 foram feitas pesquisas qualitativas, realizadas em grupos de discussão. A avaliação é péssima.
A larga predominância é de rejeição ao programa de TV de Lula. Além de identificarem uma falta de programa de governo de Lula, os entrevistados (mesmo aqueles que têm intenção de voto estimulada neste candidato), não creditaram na sinceridade do choro e avaliaram que Lula tinha mudado, mas para pior e perdendo autenticidade (p.167).
A avaliação negativa também foi percebida, segundo o autor, através das mensagens recebidas via e-mail, fax e telefonemas de militantes e apoiadores da candidatura. Esta percepção força o partido a redirecionar seu discurso para um tom mais agressivo, de modo a recuperar a identidade. Em outro momento decisivo da campanha, o PT também recorreu as sondagens de opinião. Desta vez, para ir de encontro as suas orientações.
O PT tinha um compromisso, a Frente tinha um compromisso, político de dizer que a crise está aqui. Nós tínhamos certeza que existia a crise. Com cinco minutos não tínhamos como explicar para uma população estritamente passando fome. Nós tínhamos que explicar a crise, ter uma teoria para explicá-la. Perdemos votos, perdemos tempo, sabíamos disso. Tínhamos pesquisas dizendo que a melhor pessoa para resolver essa crise seria o Fernando Henrique.6
A influência das sondagens de opinião no campo político nas eleições de 1998, entretanto, foi mais forte após a divulgação de uma série de resultados nos meses de
5 “O primeiro programa foi ao ar no dia 18 de agosto, uma terça-feira no horário do almoço. Nele,
predomina o tom emocional, Lula fez um discurso leve falando dos seus e seu currículo foi apresentado. O jingle foi tocado e a âncora, uma jovem negra, lançou como símbolo da campanha uma bandeira branca, que, assim, substituía a cor vermelha do PT e de outros partidos da coligação. O segundo programa, apresentado no mesmo dia à noite, também vai carregar no emocional. Nele, Lula é entrevistado pelo veterano ator Mário Lago e são apresentados depoimentos de amigos e parentes do candidato falando de sua vida. Lula aparece chorando” (Almeida, 2000, p.166).
6 Trecho do depoimento de Eduardo Godoy, responsável pela campanha de Lula em 1998, registrado em
maio e junho, que demonstrou desvantagem de FHC e crescimento do candidato petista. Estes dados ditaram o ritmo da campanha, transformando este momento em paradigmático para as relações de eleições e mídia em 1998.
Após a divulgação da sondagem do Vox Populi, que indicara empate técnico entre FHC e Lula, os aliados de FHC reuniram-se, segundo a revista Veja para “anular as pesquisas” e lançaram propostas, a maioria de cunho social, para reverter à imagem de insensibilidade nesta área, demonstrada por sondagem qualitativa.
O senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL, propôs ao presidente que fizesse algumas demissões na área responsável pela seca no Nordeste, para demonstrar que o governo está preocupado com o assunto. Pediu uma medida provisória para reduzir o valor das multas de trânsito e que o governo aliviasse a fiscalização da Receita Federal sobre os sacoleiros de Foz do Iguaçu (...) O governador de São Paulo, Mário Covas, sugeriu que o governo lançasse um plano de moradia popular (...) Pela primeira vez desde que a emenda da eleição foi aprovada o Palácio tremeu. Lula antes tratado com ironia transformou-se num fantasma de respeito. (CABEÇA a cabeça. Veja. Nº. 1550, 10.jun.98, p.47).
Os resultados das sondagens também alteraram o esquema de reeleição. Pretendia-se isolar Lula, colocando FHC, sempre na figura de presidente, com poucas viagens de campanha, sem dar qualquer vez a Ciro Gomes. Com os números contrários, FHC passou a assumir a condição de candidato, indo ao encontro do eleitor, em campanha aberta pelo interior do país, além de perceber Lula como candidato e não uma peça do cenário do esquema da reeleição. O governo apressa também o lançamento das novas moedas de níquel, cobre e latão do Real. Ao custo de R$ 300 milhões em cinco anos, o governo apostava nos “santinhos” do Real, tal qual fez em 1994, com a cédula de um real. Inspirado por pesquisas que apontam como ponto fraco do presidente seu distanciamento do povo. FHC também foi a padaria da cidade satélite de Brasília, Gama, para tomar cafezinho na mesma padaria que havia visitado em 1994.
De posse da máquina governamental, FHC regulamenta o programa de renda mínima para famílias pobres que mantenham os filhos na escola, anuncia a liberação de R$1,4 bilhão para combater os efeitos da seca, reduziu os juros do crédito agrícola, aumentou o financiamento da safra agrícola de R$7 bilhões para R$11 bilhões, além da promessa de criação de linhas de financiamento para compra de imóveis de baixa renda, um total de R$6 bilhões para gerar cinco mil empregos (VOLTA ao palanque. Veja. Nº. 1554, 08.jul.98, p.48-49).
A principal ofensiva direta foi feita pelo PFL que reeditou a chantagem FHC ou o caos. O comercial do partido dizia que o PT, apoiado pelo MST, iria espantar o investimento externo do Brasil, gerando caos e desemprego. Como FHC evitava responder aos ataques da oposição, o senador Antonio Carlos Magalhães assumir esta função. Bem no seu estilo, partiu para o ataque chamando Lula de despreparado, incompetente e desconhecedor dos problemas nacionais. Utilizando imagens dos saques do MST, o programa do partido na televisão anunciava: “Desemprego se combate atraindo investimentos e qualificando mão-de-obra. Este é o país em que o PFL acredita. E não o país do caos e da desordem”7. Esta mudança de tom acompanha efetivamente os
resultados das sondagens, já que FHC quando estava com altos índices pretendia responder as acusações com apresentação de propostas.
Assim que as sondagens deram a Lula à condição de candidato começaram as movimentações dos oposicionistas. Além da participação em manifestações de protesto contra a política econômica governamental, Lula e Brizola percorrem o Nordeste em campanha “não oficial” para chamar a atenção para o problema da seca e da fome (FATURANDO com a seca. Isto É. Nº. 1496, p.36, 03.jun.98). Evitou-se também debater temas econômicos. Os petistas articularam uma campanha para arrecadar
fundos para visitar as principais cidades do país. As sondagens animaram o candidato, e a militância preocupando os adversários. E as pressões também começam a surgir. O agora candidato também estava obrigado a apresentar um programa de governo, afinal ele tinha possibilidade concreta (identificada pelas sondagens) de vir a ser eleito para governar o país do Real. A cobrança generalizada expressa na voz de empresários, políticos governistas, consultores do mercado, cientistas políticos e jornalistas especializados em economia e política seduziram os coordenadores da campanha de Lula que passaram a responder várias questões econômicas como controle do câmbio, inflação, privatização nas áreas de energia e telecomunicações, recursos para cobrir as despesas do social. Modifica-se, portanto, o cenário ao tirar de cena os debates sociais sobre desemprego, fome, educação e reforma agrária. Até mesmo a declaração do vice de Lula, Leonel Brizola gerou polêmica. Brizola havia dito que se Lula vencesse ele deveria tomar de volta a Vale do Rio Doce, empresa já privatizada, mesmo que não houvesse irregularidade. Foi iniciado então um movimento pela defesa dos contratos, dando a idéia de que o governo Lula seria de ruptura da ordem constitucional. Com FHC voltando a abrir vantagem nas sondagens8, em julho, estas questões são
amenizadas, os ataques diminuem e o presidente passa então a preocupar-se em compor um novo ministério. O novo cenário apontado pelas sondagens casa-se então com a estratégia de esfriamento da eleição.