A introdução dos medios no circuito da esfera pública torna ainda mais complexa a discussão posto que os mídias como legítima esfera de visibilidade pública modifica as formas públicas de comunicação. Na atualidade, se contrapõem visões que consideram que espaço público midiatizado não passa de simulacro e com aquelas que não concordam que a mídia destruiu as interfaces entre a sociedade civil e o Estado. Os esforços dos movimentos sociais para chamarem a atenção dos mídias para as suas reivindicações, geralmente através de ações espetaculares, são percebidos, por autores que comungam da primeira visão, muito mais a demonstração da habilidade destes movimentos em manipular os recursos comunicativos do que uma ação para convencer a sociedade dos seus propósitos. Neste sentido, os movimentos sociais ao utilizarem todos os aparatos técnico e tecnológico da comunicação para fazerem-se presentes na mídia, forçando a entrada no circuito informativo e apelando, muitas vezes, para expedientes espetaculares estariam atendendo muito mais os interesses dos mídias em criarem história, em fomentares dramas, do que levar para a esfera pública reivindicações latentes da sociedade22.
A desconfiança deve-se as escassas possibilidades de realização da esfera pública, na sua acepção argumentativa, num contexto midiático; uma desconfiança que surge com a
22 Entidades da sociedade civil como o Movimentos dos Sem Terra (MST) , dos zapatistas mexicanos , do
Greenpeace fazem uso rotineiro de expedientes espetaculares para atrair a cobertura midiática, chamando,
assim, a atenção do público. Os resultados obtidos por estas entidades expressos em vários trabalhos (Almeida, 1998) e (Rubim, 1996) demonstram que os resultados têm sido satisfatórios para a aceitação destes movimentos na esfera social e política. Vale ressaltar aqui que há nestes movimentos uma
própria estruturação do conceito em A Mudança... Já no clássico de Habermas é apontada uma incompatibilidade entre a mídia e a esfera pública de participação democrática. O que, convenhamos, à luz do seu pensamento, é algo completamente plausível. Gomes (1999), ao avaliar Habermas, volta a destacar os pontos que diferem a esfera pública burguesa da esfera pública midiática. A saber: a consolidação do Estado de Direito, com legalização da esfera pública e a inclusão do estado; a perda da capacidade de produzir as posições legítimas e a transformação do espaço público apenas num espaço de visibilidade.
A esfera pública midiática seria, portanto, uma esfera de representação pública de posições geradas de forma não pública. Porque discursiva ganha a aparência de esfera pública enquanto na realidade é esfera pública encenada, espetacular, espaço de exibição, vitrine de opiniões em disputa pela atenção e adesão. (p. 207).
Opondo-se a esta visão e na tentativa de encontrar a “verdadeira esfera pública” – já que “ a democracia se constituiu pela decisão de que o reconhecimento social de pretensões praticas e vontades se dão apenas quando estas ganham a forma palavra, do discurso, da argumentação “ (p.205) -, Gomes acaba cunhando o conceito de esfera de
visibilidade pública ou cena política. É neste espaço amplo de visibilidade, atualmente
comando pelos mídias, onde constituir-se-ia e se desenvolver-se-ia a sociabilidade. O destaque é que, afirma Gomes, numa democracia de massa, não há como se estabelecer-se consensos, reconhecer as questões relativas ao bem comum e as posições de disputa eleitoral sem que se passe por um medium essencial de sociabilidade”. (p.210). Diferente da esfera pública, na perspectiva de Gomes que conserva os supostos de Hebermas, - mantém a característica da visibilidade mas tem muito mais interesse em gerar opiniões seguindo procedimentos argumentativos e não apenas mostrar-se, exibir uma opinião já formulada, a esfera de visibilidade conteria somente “fragmentos de discursos de todos os tamanhos, às vezes com peças inteiras, que não compõem nenhum
quadro orientado ma que o acaso faz conviver aos caprichos das correntes marinhas” (p.221).
Como na sua origem burguesa, a esfera de visibilidade pública sempre foi fundamental para a existência da esfera pública. E é por ter esta percepção que Gomes vai afirmar que existe possibilidade de esfera pública no interior da cena política23. O problema é que Gomes atrela a possibilidade de esfera pública numa cena política midiática à capacidade dos cidadãos de editar estes fragmentos de discursos espalhados na mídia. A partir daí eles poderiam vivenciar uma autêntica esfera pública nos mídias. “Os media não constituem uma esfera pública para todos, portanto, uma esfera pública monolítica e universal; porém é fato que os media, o sistema expressivo dos media, melhor dizendo, podem ser usados, praticados como esfera pública por aqueles que reunirem as condições e o interesse para fazê-lo” (p.228). Concordamos que a conservação de esfera pública discursiva é fator fundamental tem para a democracia. No entanto, avaliamos que a tentativa de Gomes ao enxergar “luz no fim do túnel” para a esfera pública na cena política midiática acabou voltando à condição inicial. Quem está em condição de fazer esta edição? Quais os concernidos são capazes de transformar polêmica, discursos dogmáticos em debate? Frente a uma realidade de pobreza e analfabetismo como a brasileira, parece-nos que esta alternativa acaba restringindo em demasia a participação na esfera pública.
Preferimos pensar na formação da opinião a partir de uma perspectiva mais ampla que leva em consideração a ação das mídias, de entidades e atores e instituições da sociedade civil, partidos, sindicatos, parlamento e as esferas estatais. Na rede de formação da opinião pública incluí-se ainda as sondagens de opinião, que tornam o debate mais complexo por se associarem às mídias, conforme veremos no capítulo
seguinte. Outros autores, mesmo sem definir soluções para o problema que tem fôlego para persistir por vários anos, apontam outras perspectivas para a esfera pública midiática. Schudson (1995), por exemplo, considera o Estado como parte da esfera pública, sendo a relação entre eles indissolúvel. Neste sentido, a opinião que emana da sociedade civil seria fraca se não for inserida na soberania parlamentar, que além de emitir opinião tem o poder de deliberar. Daí a importância de considerar-se os partidos como membros do Estado e da sociedade civil.
Entre as suas principais funções o Parlamento faz eco das queixas e supervisona às demais componentes do aparelho do Estado. (p.154) (...) “a esfera pública não exige apenas que a capacidade para participar e a própria participação na tomada de decisões políticas (ou o voto) seja a mais ampla possível, mas também que a tomada de decisões tenha alguma qualidade. Interessa tanto a qualidade como a quantidade da participação. (p. 161).
Numa posição teoricamente ousada, Dominique Wolton (1995) também oferece-nos uma contribuição ao afirmar que “a informação das media sobre os acontecimentos, por um lado, e as informações das sondagens sobre o estado da opinião, por outro, são as condições de funcionamento do espaço público alargado da democracia de massa” (p.169). Ao avaliar as contradições do espaço público mediatizado24, o autor chega, entretanto, à conclusão de que a comunicação “não pode, por si própria, garantir a qualidade do funcionamento deste espaço público democrático, o qual pressupõe também valores políticos que são relativamente heterogêneos perante os valores comunicacionais” (p. 86). Com esta ponderação Wolton acaba se aproximando do
24 Wolton aponta dez contradições do espaço público mediatizado. A saber: 1) a tirania do acontecimento,
o império do novo; 2) a incapacidade da informação em aproximar as elites do resto da sociedade; 3) a liberdade de comunicação favorece muito mais as indústria da comunicação do que aos cidadãos; 4) padronização dos valores e atitudes; 5) personalização da política; 6) a interdependência crescente entre informação. Comunicação e ação política; 7) a transparência pode levar a homogeneidade da representação; 8) a fusão incorreta de que a política se restringe à comunicação; 9) a velocidade da veiculação das mensagens em escala global se confronta com a necessidade de tempo para a compreensão numa recepção diferenciada e 10) os limites da extensão do espaço público continuamente alargado.
pensamento de Bobbio que condiciona o avanço do processo de democratização da sociedade à democratização dos meios de comunicação.