• Aucun résultat trouvé

Considera-se fundamental, nos estudos sobre a participação coletiva em projetos arquitetônicos, a citação das experiências de Kroll (1975) e Alexander13, ocorridas nas décadas de 60 e 70.

Uma das principais experiências de Kroll remete ao ano de 1969, data em que o arquiteto belga é convidado para a realização dos edifícios destinados à moradia estudantil da Faculdade de Medicina da Universidade de Louvain. O convite para a realização do projeto partiu dos próprios estudantes, e não dos gestores da universidade (KROLL, 1975).

Tal iniciativa se configura em um dos pilares fundamentais da participação, de que ela deve partir do principal interessado na sua existência, no caso, os futuros usuários a quem o projeto se destinava.

Outra questão fundamental no contexto deste projeto está ligada à busca de uma nova postura do arquiteto diante do processo, mais próxima dos usuários (neste caso, os estudantes) através de um planejamento horizontalizado, cuja colaboração coletiva de todos os atores é fundamental. Kroll (1975) cita a figura do Maitre

L’Ouvrage Habitant (que equivale ao arquiteto tradicional) como o exatamente

oposto à sua posição nesse processo.

Outra questão tratada por Kroll (1975) foi a busca de uma linguagem comum entre arquitetos e não arquitetos, uma dificuldade freqüente nesse tipo de metodologia de projeto. Tal busca se deu através da realização de encontros no próprio atelier do arquiteto, com a presença da equipe técnica e de grupos de estudantes, além da presença de amigos e especialistas no assunto. Segundo o arquiteto esses encontros serviram também, acima de tudo, para estruturar um complexo projeto social que serviria de base para a elaboração do projeto. Nesse

instante Kroll (1975) estabelece nova crítica à postura do arquiteto tradicional, que se julga, na opinião do autor, algo próximo ao mestre superior na produção do objeto arquitetônico, concebido sem a busca das unanimidades, contradições e incompatibilidades que configurariam um ambiente complexo.

A questão da complexidade é fundamental nos projetos desenvolvidos por Kroll (1975). Na opinião do autor o arquiteto deve considerar o ambiente enquanto objeto de análise amplo e expansivo, um sistema de elementos indefinidos. Essa forma de abordagem é contrária à lógica que se restringe somente aos elementos pré-definidos e mensuráveis. Kroll (1975) considera que se o projeto for elaborado somente a partir de alguns elementos definidos em um dado momento, o objeto produzido será parcial e se tornará obsoleto em um curto espaço de tempo. A tradução desta complexidade em formas arquitetônicas se deu através de um sistema de modulação que permite a geração de edifícios complexos e com uma maior possibilidade de intervenção do usuário durante a ocupação da unidade. Esse sistema, além de ser coerente com a realidade de projetos desenvolvidos a partir da colaboração de diversos atores, abre a possibilidade de que os usuários configurem- se de modo heterogêneo, permitindo soluções diferenciadas de acordo com as várias demandas possíveis. Não se pode dizer que os estudantes da Faculdade de Louvain formam uma unidade homogênea somente pelo fato de estudarem medicina, e o mesmo pode ser dito para as famílias de baixa renda que reivindicam uma habitação no Brasil, uma vez que os critérios que as agrupam são somente a ausência de casa própria e uma determinada faixa de renda.

Outro arquiteto pioneiro nas experiências de participação coletiva é Christopher Alexander. A experiência mais conhecida do arquiteto nesse campo é o caso da Universidade de Oregon, ocorrido no início da década de 70. Nesse trabalho Alexander (1978) buscou um processo de desenho vinculado ao corpo dos usuários que habitam os lugares desenhados. Os conceitos desenvolvidos nessa experiência, no entanto, estão vinculados ao Plano Diretor da Universidade e, desse modo, possuem uma escala de abordagem diferente dos projetos habitacionais coletivos, objetos de estudo deste trabalho. Na escala do projeto arquitetônico a principal experiência de Alexander ocorreu durante o ano de 1976, em Mexicali, México, em um projeto conhecido como Builder´s Yard (HAILEY, 2006). Esse trabalho também possuiu como premissa básica a questão da busca por novas formas de representação, sem se limitar ao uso exclusivo de desenhos e

incorporando técnicas de discussão na escala 1:1, através de modelos físicos e instruções processuais orientadas.

Diferentemente dos casos de Louvain e Oregon, o trabalho em Mexicali foi direcionado a uma população de baixa renda, o que, pelo menos em tese, aproxima este caso da realidade dos projetos habitacionais participativos desenvolvidos no Brasil.

No projeto de Mexicali as chamadas “buiders yards” se configuraram como núcleos estruturadores nas diversas etapas do processo. Segundo Hailey (2006), Alexander chegou a considerá-las, inclusive, uma nova instituição social, em que seriam dadas às comunidades o controle direto dos padrões e dos processos construtivos. Tal processo estaria vinculado à uma filosofia de descentralização social do trabalho, que se estenderia à dispersão geográfica das builders yards ao longo das comunidades, cidades ou regiões em que seriam implantadas. Alexander previu diferentes usos para as builders yards, desde espaços para o desenvolvimento dos projetos participativos, passando por um centro de informações durante a fase de obras, até seu uso enquanto centro comunitário na fase de ocupação das unidades habitacionais.

Outra característica fundamental desse projeto foi a proposta de “carcaças” ou seja, o projeto desenvolvido pela equipe técnica com a participação dos futuros moradores se limitaria à envoltória, ou seja, as divisões internas seriam livres e realizadas em um segundo momento pelo próprio morador (HAILEY, 2006).

Tal solução é interessante uma vez que prevê a participação em dois momentos distintos do processo, sendo o primeiro momento constituído pela elaboração dos objetos arquitetônicos junto com a equipe técnica. A outra etapa desta participação se daria na pós-ocupação dos edifícios, quando o usuário iria interagir com o objeto arquitetônico ao executar as divisões internas da sua unidade. É importante ressaltar, no entanto, que uma das principais críticas a esse método foi justamente a falta de um arquiteto residente nas builders-yards para assessorar as intervenções realizadas pelos moradores. Hailey (2006), em uma análise crítica sobre a experiência de Alexander em Mexicaly, afirma que o uso das builders-yards, altamente intenso durante as etapas de projeto e obra, reduziu-se progressivamente à medida que as unidades ficavam prontas. O mesmo autor ressalta também que esse método se resumiu a experiências pontuais, uma vez que em pouco tempo o

governo mexicano optou por edifícios acabados, desenvolvidos pelas formas tradicionais de projeto e obra.