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Kernel au 1 er voisin

I.2.2. Transformations de phases

I.2.2.3. Précipitation de la phase σ

Anderson Gomes, em E por falar em mulheres: relatos, intimidades e ficções na

escrita de Marina Colasanti (2004), analisa textos publicados pela escritora Marina Colasanti

durante a década de 80, no Brasil. Este período histórico compreende o final do regime militar e o início do processo de redemocratização do país, bem como da visibilidade de um discurso feminista mais concreto e da consolidação do movimento feminista brasileiro. Seu enfoque foi analisar artigos compilados dos livros A nova mulher (1980), Mulher daqui pra frente (1981) e Intimidade Pública (1990), além de uma seleção de contos destinados ao público infantojuvenil e adulto, além de usar citações do livro E por falar em amor (1984), com o objetivo de mostrar o engajamento da escritora dentro do movimento feminista, por meio de

uma escrita direta e direcionada a mulher que encontrava-se em fase de adaptação de uma nova realidade.

A autora, através de seus textos, desafiava algumas noções dominantes na vida das mulheres e tentava romper com certos modelos excessivamente rígidos de comportamento, buscando abrir um horizonte de novas possibilidades, informando, esclarecendo, fazendo refletir. Em outras palavras, estes artigos, quando reunidos e analisados na sua diversidade temática, constituem uma narrativa representativa do período em que foram escritos e possuem o condão de representar uma espécie de “pedagogia” da “nova mulher”. (2007, p. 162)

O primeiro texto abordado é “Abaixo a ditadura”, inserido em A nova mulher, onde Colasanti apresenta um panorama sobre os aos 70 e 80, as conquistas alcançadas pelo movimento feminista, salientando que muito ainda poderia ser feito. Ao lermos este livro, percebemos que Colasanti cria uma espécie de manual de comportamento, com o cuidado de tecer um material em linguagem clara, mas eficaz sobre a situação das mulheres ou, como ela mesmo as chama, “as minhas iguais” (1976, p. 11).

Na análise do artigo “Daqui pra frente”, do livro Mulher daqui pra frente, Colasanti argumenta que homens e mulheres são diferentes, porém não um melhor que o outro e que a independência não se confunde com o fato de a mulher não precisar do homem e vice-versa. A escritora aponta os altos e baixos do movimento feminista que, por vezes, acabou comprometendo a identidade da mulher, pois, segundo ela, a tal igualdade foi interpretada ao pé da letra, embora ambos os sexos possuam suas peculiaridades.

Em “Chega esta culpa pra lá”, artigo proveniente da obra Mulher daqui pra frente, Colasanti discorre sobre a sensação de fracasso que as mulheres sentem frente às dificuldades em conciliar os papéis de mãe, esposa e profissional, e menciona que a mulher não deve sentir culpa, pois a falha não é dela e sim da sociedade que não colabora e não se adapta a este novo modelo de mulher. Em seguida, Gomes argumenta sobre o artigo “Independência que bonita que é”. Neste, a escritora compara a Independência do Brasil com a independência da mulher, que obrigatoriamente está ligada a independência econômica, pois sem dinheiro a mulher dificilmente terá legítimo direito de escolha. Para isto ela terá que estar disposta a enfrentar os preconceitos de uma sociedade machista, que não vê com bons olhos a concorrência oferecida pelas mulheres que ocupam seu lugar de direito.

O artigo “O que esperar do casamento”, do livro A nova mulher, traz uma referência ao casamento enquanto instituição falida. Colasanti argumenta que é feliz, mas que casar-se não é garantia de eterna harmonia, que a lenda do “foram felizes para sempre” não é uma realidade e o crédito nessa ideia pode levar a grandes frustações. No artigo seguinte, parte do

livro Mulher daqui pra frente, a escritora questiona a passividade e submissão das mulheres e o papel do homem dominador que impõe à esposa regras a serem atendidas, que vão desde a escolha da roupa, a linguagem e os ambientes frequentados. A aceitação por parte da mulher, segundo a jornalista, faz parte de uma herança cultural impositiva e o controle ideológico faz- se tão forte que a mulher não percebe que está tendo seus direitos sonegados.

Em “Contra o direito masculino de trair”, também do livro A nova mulher, percebemos que a argumentação deixa claro que este “direito” está intrinsicamente ligado à cultura, pois o homem enquanto detentor do poder econômico sempre controlou o discurso e colocou-se como aquele que tinha mais desejo e, por isto, procurava outras mulheres para satisfazê-lo. O medo de ter o casamento desfeito faz com que muitas mulheres encarem a traição como algo normal. A cultura imposta concede à mulher o direito de aceitar e perdoar o adultério, mas ao homem soa como desonroso que sua propriedade tenha servido a outro. Em “Sozinha, mesmo com um homem ao lado”, ainda no mesmo livro, a argumentação gira em torno da dificuldade de expressão da mulher em relação a seus desejos, ansiedade em decorrência do pouco espaço social que lhe foi reservado desde a infância. Esta solidão acompanhada, segundo Colasanti, é resultado da depressão causada pelas frustrações e que a solução não está no outro, mas sim na resolução desses conflitos interiores, pois o essencial é conviver bem consigo mesmo, independentemente de sermos casados ou solteiros.

“Fantasiando um amante”, contido no livro Mulher daqui pra frente, aborda as fantasias criadas por mulheres quando se sentem frustradas em relação ao casamento ou são reprimidas sexualmente. Estas fantasias muitas vezes estão ligadas a atos violentos, como o estupro, pois salvaguarda a mulher da traição, pois o acontecido teria sido alheio a sua vontade. “Amor, infinito enquanto dure”, integrante de Mulher daqui pra frente, traz à tona que o amor não pode ser confundido com outros sentimentos, como solidão, carência, admiração, etc, e que não se deve imputar ao amor características que não lhe próprias, a exemplo da eternidade deste sentimento. Isto pode confundir-se com o comodismo ou com o medo da solidão. Não obstante, ligamos a ideia do casamento com o metafísico, atribuindo- lhe a característica de eterno, de sagrado.

Em “Amor responsável”, ainda do livro mencionado, Colasanti afirma que o amor deve ser encarado como algo simples, pertinente, porém não menos nobre do que as fantasias de contos de fada que se distanciam da realidade e podem gerar frustrações. O amor deveria trazer a complementariedade do casal, mas o antagonismo próprio da nossa herança cultural gera um clima de opressão onde a parte mais forte acaba por sobrepujar a outra. No artigo “Em busca da felicidade”, parte do livro A nova mulher, a escritora afirma que a felicidade

não é aquilo que as pessoas aparentam aos outros, mas sim aquilo que de fato ela sente. Tampouco está ligada a bens materiais, com sucesso instantâneo, mas provém da paz interior, alcançada pela superação dos conflitos interiores.

O pesquisador salienta que separa a abordagem a respeito das cartas por temas em comuns, e que as duas primeiras, “Não tenho forças pra nada” e “Todos falam mal de mim”, abordam a incapacidade das leitoras de tomar uma atitude por si própria, quer seja por dependência afetiva ou econômica; são mulheres que usam o espaço como uma oportunidade de desabafo, mas que não demonstram vontade de mudar, se auto titulando como mulheres “sem ânimo para nada”, uma vez que se sentem inertes perante a situação que lhes foi inculcada.

Na subseção, “Grandes e pequenas preocupações da classe média”, Gomes argumenta que a revista custa caro para o contexto da época e deveria dirigir-se a classe média, mas que as cartas das leitoras são oriundas de todas as classes e não espelham uma preocupação com as conquistas de direitos, mas sim conflitos internos que são inerentes a mulheres de todos os meios, a citar a preocupação com o corpo, a solidão, a baixa autoestima, e o sentimento de sufocação por não viver sua própria vida.

Em seguida, o pesquisador aborda o livro Eu sozinha (1968), em que Colasanti questiona suas leitoras sobre o fato de a conquista da felicidade estar ligada ao casamento, que possui, na visão destas, um caráter obrigatório, estando diretamente ligado à condição de sentirem-se realizadas. No caso de desentendimentos, a escritora afirma que a separação pode ser uma saída viável. Ressalta-se que a escritora considera o papel do homem na vida da mulher como fator importante, mas salienta que a independência constitui-se fator crucial, pois ela atribui ao sexo feminino seu poder escolha.

Na subseção de sua dissertação “Em nome dos pais e dos(as) filhos(as)”, Gomes declara que a escritora questiona a proteção e cuidado para com os filhos. Segundo ela, o excesso de proteção pode se confundir com o domínio total sobre os filhos, fato este que pode gerar sensação de desconforto e conflito entre ambos os pais, pois pode cercear a liberdade de um em detrimento da sensação de poder do outro. Gomes propõe-se a analisar uma carta atípica de um leitor-homem, designada “Um amor só de sonho”, e outra correspondência, intitulada “Meu marido tentou me estrangular”, ambas partes do livro Intimidade Pública, além do artigo “Mulheres assassinadas”, extraído da obra Mulher daqui pra frente. Na primeira missiva citada, Marina aponta para os dados de violência e obsessão embutidos no seu interior; na segunda carta, aponta a situação de impotência da leitora que, exposta à violência, sente-se obrigada a manter-se no casamento. No artigo supracitado, a escritora

refere-se ao assassinato de Ângela Diniz, cujo assassino, Doca Street, foi condenado a uma pena inferior a dois anos. O movimento de mulheres em torno do tema “Quem ama não mata” fez com que o réu fosse levado a júri novamente e, desta vez, fosse condenado a 15 anos de reclusão.