3.4 Étude de l’échantillon de sursauts Fermi
3.4.6 Pourcentage de sursauts avec redshift et calcul du V/V max
As diferenças políticas e econômicas entre os dois franceses refletiram sobre o modo com que viam o mundo. Ordenavam a política internacional em opostos:
441 Esse projeto nacionalista extrapolava os limites territoriais em Chapuis e em outros oficiais
bonapartistas. No caso de Chapuis, como havia lutado nas guerras napoleônicas e convivido dia a dia o calor da batalha, desenvolveu um sentimento negativo pelos ingleses, o que levou em suas viagens para outros países. Dessa maneira, seu “nacionalismo” ia além da França, pois não reconhecia a nacionalidade encerrada em fronteiras e chamava a si próprio como “Cidadão do Mundo”. Cf: PUIGMA; NUNEZ MUNOZ, 2010, p.245; CHAPUIS, 1826, p.4;
442 Cf. NAPOLEONI, 1988
443 Assim como Plancher, Visconde de Cairu também defendia as ideias liberais. Cf. BELCHIOR,
Elysio de Oliveira. A Introdução das Ideias de Adam Smith no Brasil. Revista Brasileira de
Economia. Rio de Janeiro, n. 31, pp.21-30, jan/mar. 1997.
444 Maiores informações sobre o liberalismo e a fisiocracia e a economia brasileira podem ser
encontradas em: REIS, Arthur Ferreira. Entre Smith e Quesnay: o debate econômico entre Plancher e Chapuis no Rio de Janeiro (1826). Revista Escritas. Tocantins, v. 7, n.2, pp. 176-193, jun/dez. 2015; PAULA, João Antônio de; CERQUEIRA, Hugo E. A. da Gama; ALBUQUERQUE, Eduardo da Motta e. Nações e estilos de economia política. Revista de Economia Política, vol. 27, nº3 (107), julho- setembro/2007, pp.357-374; DEYON. Pierre. O Mercantilismo. 4ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001; NAPOLEONI, Claudio. Smith, Ricardo e Marx. 6 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988; KUNTZ, Rolf Nelson. Capitalismo e Natureza: ensaio sobre os fundadores da economia política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982; CERQUEIRA, Hugo E. A. da Gama. Adam Smith e o contexto: o iluminismo escocês. Belo Horizonte: UFMG/CEDEPLAR, 2005, p.20; OLIVEIRA, Flávio dos Santos. Sobre a Origem e Função Precípua do Governo na Concepção dos Contratualistas, David Hume e Adam Smith. Revista da Academia Brasileira de Direito Constitucional, Curitiba, 2014, n. 6, p.68- 85. MATTOS, Ilmar R. de. O Tempo Saquarema: a formação do Estado Imperial. 2º ed São Paulo: Hucitec, 1990; DIAS, Maria Odila Leite da Silva. “A Interiorização de Metrópole”. In: DIAS, Maria Odila Leite da Silva. A Interiorização da Metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2005, p.16; SILVA, 2009; LENHARO, Alcir. As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do Brasil – 1808-1842. São Paulo: Símbolo, 1979; MARTINHO, Lenira Menezes; GORENSTEIN, Riva. Negociantes e caixeiros na sociedade da Independência. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes – Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural – Divisão de Editoração, 1993.
Europa x América, Velho Mundo x Novo Mundo, ordem x liberdade, monarquias x repúblicas/federações.
O Spectador reforçava a ideia de que a república era o governo da anarquia, uma característica indissociável da linguagem política pedrina e que vinha sendo construída desde o processo de independência445. A América seria o local de “guerrilhas Republicanas”446, do “abuso do poder”447 e das “mais violentas tempestades”448. Um local, enfim, que o Brasil não devia ter como exemplo.
Do outro lado estava a Europa. Naquele continente existia um conflito constante entre liberdade e despotismo, o qual os protagonistas eram a Inglaterra e a Santa Aliança449. Os partidários da Santa Aliança viviam tramando contra os governos constitucionais, buscando aniquilar as constituições e as instituições legislativas, buscando “retardar as eleições” e “nomear Deputados para muito tempo” reduzindo também “as Sessões ao menor número possível”450.
Do lado oposto estavam países como Inglaterra, Prússia e Suécia, que buscavam o meio termo entre a licença e o despotismo, entre a república e o absolutismo. A Inglaterra era um governo “robusto e forte”, que não nascendo de uma revolução451, estava sempre em busca da “melhoria social”. Para o periódico, a vantagem da Inglaterra sobre os demais países foi ter se concentrado em seu próprio desenvolvimento através da indústria e do comércio, deixando de lado as intrigas palacianas e absolutistas nas quais a Santa Aliança se envolvia. Por isso ela marchava “com rapidez a uma nova prosperidade”, ficando cada vez mais rica e poderosa452.
Dessa maneira, o Spectador propagava uma Europa dividida em “duas grandes Nações”: a primeira, que rejeitava “obstinadamente as ideias novas”, e agarrava-se “as antigas máximas e aos velhos usos”; e a segunda, “apressada em acolher e
445 Alguns jornais publicados durante o processo de independência, tais como O Espelho,
Reclamação do Brasil, O Regulador Brasileiro, A Atalaia, e o já analisado Estrela Brasileira,
partilhavam de um vocabulário político parecido. A existência de uma linguagem política áulica consistente deve ser confirmada através do estudo desses jornais, e de outros do Primeiro Reinado, em conjunto.
446 O Spectador Brasileiro, nº 27, 30 de agosto de 1824. 447 O Spectador Brasileiro, nº 05 de abril de 1826. 448 O Spectador Brasileiro, nº 251, 22 de março de 1826. 449 O Spectador Brasileiro, nº 130, 15 de junho de 1825. 450 O Spectador Brasileiro, nº 167, 29 de agosto de 1825. 451 O Spectador Brasileiro, nº 257, 10 de abril de 1286. 452 O Spectador Brasileiro, nº 223, 13 de janeiro de 1826.
propagar as luzes e a indústria. Uma “pertence exclusivamente ao passado”, e a outra “apodera-se do presente para vir a ser a senhora do futuro”453.
Enquanto a América estava envolvida em “anarquias republicanas” e parte da Europa ainda propagava o absolutismo inspirado pela Santa Aliança, os ingleses seriam o exemplo de moderação a se seguir, pois haviam encontrado o equilíbrio entre anarquia e despotismo.
O Verdadeiro Liberal expressou opinião diferente. Concordava com Plancher sobre o problema da Santa Aliança na Europa, porém achava que a Inglaterra era um inimigo natural dos brasileiros e que a América, principalmente os Estados Unidos, era o exemplo para o Brasil.
Para ele, o mundo estava dividido em dois partidos: o partido “da bandeira popular”, que contava com a América, a Inglaterra, os Países Baixos, alguns espanhóis e portugueses além da “Nação Italiana, e grande massa dos Alemães e de seus governos”; e a “Santa Aliança” que contava com a Rússia, a Áustria, a Prússia e alguns espanhóis454. Para o Verdadeiro Liberal, não haveria uma guerra armada, mas sim uma guerra comercial e ideológica. O Brasil, obviamente, devia estar ao lado “da bandeira popular”455.
A posição na política mundial não fazia com que o Brasil se tornasse aliado da Inglaterra. Como já mostramos, Chapuis tinha uma visão extremamente negativa dos ingleses, pois os considerava interesseiros e ambiciosos456. Em vista disso, o Verdadeiro Liberal pregava uma guerra comercial à Inglaterra. O Brasil deveria, juntamente com a Europa, “adotar o sistema continental de Napoleão”457 e, privilegiado por “sua posição geográfica” e seus “portos seguros e cômodos para toda a espécie de reparos” devia liderar os países do mundo contra o “jugo da Inglaterra”458.
453 O Spectador Brasileiro, nº 231, 03 de fevereiro de 1826.
454 Tanto o Spectador quanto o Verdadeiro Liberal atribuíam à França uma posição dúbia. Para eles,
ela ainda estava dividida entre o absolutismo e a modernidade.
455 O Verdadeiro Liberal, nº 07, 16 de março de 1826. 456 O Verdadeiro Liberal, nº 08, 18 de março de 1826.
457 Achamos pertinente destacar um poema impresso pelo Spectador em resposta aos artigos de
Chapuis contra a Inglaterra: Não há que teimar / He dar tiros no ar / Os amigos para vós / São os Donos do mar. Cf. O Spectador Brasileiro, nº 257, 10 de abril de 1826.
Para o Verdadeiro Liberal, a base diplomática e política do Brasil deveriam estar na América, principalmente nos Estados Unidos. As constantes notícias do Congresso do Panamá459 e o destaque dado aos norte-americanos eram sinais dessa aproximação necessária. O jornal noticiou o convite Congresso ao Brasil460, e o colocou como membro irrevogável do congresso continental, constituindo uma flor exótica monarquista, junto com o Paraguai, nesse continente composto por nações republicanas461.
As notícias davam a entender que os Estados Unidos lideravam o Congresso do Panamá, tendo enviado para lá deputados “para ajudar a América a consolidar a destruição das três escravidões, das metrópoles, exclusões e colonização”. Nas palavras do presidente norte-americano, apenas assim a “América será completamente livre”462. Além do mais, o presidente “James Monroe” atribuía aos Estados Unidos o dever de proteger a América “das pretensões da Santa Aliança”, afirmando que não admitiria outro sistema se não o representativo, “como se admite o princípio que os Americanos querem ver arraigado no Continente”, e lembrava o periódico que, continuando o Brasil nesse sistema, “não tem nada que temer da nossa parte, e nós nada que recear da sua”463.
Os Estados Unidos, nas páginas do Verdadeiro Liberal, eram o exemplo não só para a América, mas também para a Europa. Segundo discurso do presidente norte- americano impresso no periódico, “todos os Governos da Europa tem aprendido a conhecer sucessivamente, sejam quais forem as suas Constituições, que o fim das suas instituições é a felicidade do Povo”, e os Estados Unidos seriam o melhor exemplo dessa missão464. Dessa maneira, diferente do Spectador, nem Europa nem Inglaterra, o exemplo para o Brasil era os Estados Unidos, exemplo de liberdade e constitucionalismo.
459 O Congresso do Panamá é uma série de reuniões que reúne países latino americanos para discutir assuntos
da região. O primeiro foi realizado em 1826 e idealizado por Simon Bolivar, que, dentre outras questões, discutiu assuntos como o fim da escravidão e alianças militares.
460 De fato, o Brasil foi convidado, mas seu enviado, Theodoro José Biancardi não chegou a tempo.
Cf. ALEIXO, José Carlos Brandi. O Brasil e o Congresso Anfictiônico do Panamá. Revista Brasileira
de Política Internacional. Brasília, v. 43, n. 2, p. 170-191, dezembro. 2000.
461 O Verdadeiro Liberal, nº 14, 01 de abril de 1826. 462 O Verdadeiro Liberal, nº 13, 30 de março de 1826. 463 O Verdadeiro Liberal, nº 04, 09 de março de 1826. 464 O Verdadeiro Liberal, nº 13, 30 de março de 1826.
Chapuis via a política internacional dividida entre América e Europa, no qual a primeira era associada à liberdade, e, normalmente, com o republicanismo ou o federalismo, sendo os Estados Unidos o principal modelo465. Por isso, as instituições políticas americanas466, e o “sistema americano” estavam, nas análises deste redator, diretamente relacionadas à democracia ou, pelo menos, ao federalismo467.