professores alfabetizadores
Durante o período de observação foram identificadas algumas estratégias formativas utilizadas tanto pelo formador da IES quanto pelo orientador de estudo. De acordo com a descrição a seguir, destacamos as estratégias formativas mais utilizadas e que apresentaram maior percepção em relação à fabricação de práticas formativas, levando em conta os “lugares” ocupados pelos sujeitos envolvidos nesse processo.
Quadro 10 – Relações entre as estratégias formativas utilizadas nas formações da IES com os orientadores de estudo de São Lourenço da Mata e destes
com os professores alfabetizadores
Estratégias formativas efetivadas nos
encontros dos formadores das IES com os orientadores de estudo de São Lourenço da Mata
Estratégias formativas efetivadas nos encontros dos orientadores de estudo com os professores alfabetizadores de São Lourenço da Mata
Acolhimento Acolhimento
Leitura da pauta do encontro Apresentação oral da pauta do encontro Retorno das formações dos orientadores de
estudo
Retorno da tarefa de casa
Leitura deleite Leitura deleite
Socialização das atividades Socialização das atividades
Exposição dialogada Leitura compartilhada (comentada)
Acolhimento
Como é possível notar, o acolhimento foi vivenciado tanto na formação dos formadores do Pacto com os orientadores de estudo, quanto destes com os professores alfabetizadores no Município de São Lourenço da Mata. No entanto, ao mudar o espaço e o lugar de vivência houve adequações, ajustes e acréscimos de outros elementos considerados relevantes que foram incorporados para atender as demandas do contexto formativo para que, de fato, o momento do acolhimento cumprisse com seu papel.
Em relação à estratégia formativa do acolhimento, constatamos, no IV Encontro, que Bia, assim como Suzi, fez uso de músicas infantis, bem como se utilizou de vídeos cujo conteúdo temático estava relacionado à ludicidade, tema a ser estudado. Em seguida, mobilizou os conhecimentos prévios dos alfabetizadores referentes a esse assunto. Com base nas proposições feitas pela orientadora de estudo Bia, constatamos adequações e ajustes em relação à condução da atividade do acolhimento, como, por exemplo, a mobilização dos alfabetizadores para participarem de uma brincadeira chamada “corre cutia”.
Além disso, Bia não apenas apresentou e coordenou a brincadeira como também se envolveu, participou da vivência do lúdico junto aos professores. Ela também articulou o momento do acolhimento ao tema do encontro que era “Ludicidade na sala de aula”.
Dessa forma, percebemos na prática formativa da orientadora de estudo Bia elementos presentes na rotina de formação continuada do Pacto, experienciada por ela
quando na condição de cursista, como, por exemplo, de acolher com músicas os orientadores de estudo. Mas percebemos também que, entre o ouvir e o fazer, outras práticas foram sendo (re) construídas, fabricadas ao longo do processo e, outras eliminadas no momento de planejar os encontros dos orientadores de estudo de São Lourenço da Mata, como foi o caso da não utilização de recursos tecnológicos (computador, datashow) que dinamizariam e sistematizariam as atividades propostas.
É nesse movimento de constante recriação e invenção que as práticas cotidianas vão sendo “fabricadas” pelos sujeitos praticantes e atuantes, por meio da utilização de “táticas” e da capacidade inerente ao ser humano de criar e inventar maneiras de agir no cotidiano com as cartas lhes são dadas e com sua “arte de fazer”.
Leitura da pauta do encontro
A exposição da pauta foi realizada tanto pela formadora Suzi quanto pela orientadora de estudo Bia. A primeira apresentou um registro escrito, utilizando recursos tecnológicos (notebook e datashow) que permitiram o acompanhamento de todas as atividades a serem realizadas nos Seminários do Pacto. A segunda, diferentemente da primeira, informou oralmente o que seria trabalhado no encontro sem apresentar nenhum registro escrito que pudesse ser visualizado pelos professores alfabetizadores.
Mesmo tendo vivenciado nos seminários do Pacto, a leitura da pauta ser utilizada constantemente pela formadora Suzi, não foi o bastante para que esse modelo de organização de rotina fosse seguido pela orientadora de estudo Bia com os alfabetizadores, de um modo geral, o que vimos foi uma prática distinta daquela experimentada pela orientadora de São Lourenço da Mata nos seminários do Pacto.
A forma escolhida pela orientadora de estudo Bia para deixar o alfabetizador ciente do que iria ser estudado na formação foi a oral, pois não havia um registro, um roteiro previamente preparado para orientar e situar o professor na formação. Os professores terminavam uma atividade, e logo em seguida, a orientadora dava os comandos, também sem registro impresso, para iniciarem outra.
A falta de sistematização da rotina formativa da orientadora de estudo Bia pode ter representado uma menor participação e engajamento do professor na formação, já que os recursos didáticos auxiliam a operacionalizar o tempo, além de ampliar o acesso com os vários gêneros textuais que circulam na sociedade. Tal resistência ou recusa em organizar uma pauta para o encontro pode ser explicado por Zeichner (1993), quando diz que o agir do professor na sala de aula é informado pelas suas teorias pessoais. De
fato, a orientadora de estudo não considerou a pauta como um elemento problematizador e dialógico que poderia ser utilizada como mais um componente importante para construção de rotinas de sala de aula.
Retorno da tarefa de casa dos professores alfabetizadores
Assim como na formação com a IES, pudemos verificar que a orientadora de estudo Bia valorizou o momento da socialização das experiências das práticas pedagógicas desenvolvidas pelas professoras alfabetizadoras com os alunos em relação à apropriação do SEA.
A partir de nossas observações, analisamos que a orientadora de estudo Bia se aproximou da formação recebida pelo Pacto quando procurou orientar os professores alfabetizadores em relação ao conteúdo a ser socializado para o grupo; quando, em algumas ocasiões, atuou como mediadora durante a socialização das atividades desenvolvidas pelos docentes em sala de aula; e no momento em que teceu comentários e sugestões após as falas das alfabetizadoras, fomentando reflexões e incentivando o uso dos materiais didáticos do PNAIC.
Ademais, reconhecemos aproximações entre as estratégias formativas da orientadora de estudo Bia e a formadora Suzi, pois ambas tinham como objetivo ter acesso, conhecer como os conhecimentos tratados e estudados no Pacto estavam sendo desenvolvido em sala de aula. Percebemos que a maneira de conduzir a dinâmica das socializações das formações dos orientadores de estudo e das práticas pedagógicas dos professores alfabetizadores aconteceram de forma aleatória. Mas, nem só de semelhanças sobrevive e se constrói o cotidiano. Para além dos encontros, dos fatos corriqueiros, das repetições, das linearidades, do invisível, está o espaço praticado vivo e em movimento ocupado e fabricado pelos próprios sujeitos que o reinventam a cada dia a partir de si, do outro de seu contexto.
Desse modo, além das semelhanças mencionadas entendemos a partir das contribuições de Certeau (1990) que, ao passar de um espaço para outro, a orientadora de estudo Bia fez adequações para que fosse possível se utilizar, pôr em prática, nos encontros de formação com os alfabetizadores, os conhecimentos sobre o ensino da língua portuguesa considerados importantes para serem trabalhados em sala de aula.
Constatamos isso, na atuação da orientadora de estudo Bia quando resgatou o que havia solicitado como tarefa de casa, os recursos didáticos pedagógicos e a
construção de atividades que contemplassem os direitos de aprendizagens de língua portuguesa.
Observamos também que a maneira de proceder a socialização e a forma de ocupar o espaço da sala de aula não pode ser modificado pela orientadora de estudo Bia em nenhum dos dias observados. Diante desse contexto ela procurou ser flexível em relação ao momento de apresentar as vivências da tarefa de casa em que a mobilidade dos professores estava prejudicada.
Mesmo diante das dificuldades descritas referentes ao seu contexto de atuação, analisamos que a prática formativa da orientadora de estudo foi recriada a partir de uma orientação e de um modelo experimentado e significado por ela.
Os conteúdos socializados também foram distintos. Enquanto que o formador do PNAIC focalizou como os orientadores estavam fazendo uso das estratégias formativas nos encontros com os professores alfabetizadores, procurando verificar quais delas foram mais utilizadas, bem como as dificuldades encontradas por eles em ensinar determinados conteúdos referentes ao ensino da língua de berço. De outro modo, a orientadora de estudo Bia ao propor a socialização da tarefa de casa demonstrou interesse em saber como os professores alfabetizadores estavam ensinando os conteúdos relacionados à língua materna e se faziam uso dos materiais recomendados pelo Pacto na sua prática pedagógica.
No que se refere aos recursos utilizados, percebemos que a formadora Suzi diversificou a forma de exposição dos conteúdos, ora disponibilizando-os em recursos tecnológicos, tais como notebook e data show, ora permitindo que as vivências fossem apresentadas oralmente. Quanto à orientadora de estudos Bia, mesmo disponibilizando aos professores alfabetizadores recursos tecnológicos para a socialização da tarefa de casa, as apresentações aconteceram verbalmente e também com apresentação do material trabalhado na escola como, por exemplo, os jogos de alfabetização confeccionados em sala com os educandos ou, ainda, a sistematização de uma sequência didática num cartaz.
A não utilização, por parte dos professores alfabetizadores, dos recursos tecnológicos como computador e datashow, para socializarem suas práticas de alfabetização com sua turma, pode ser reflexo também da falta de uso pela orientadora de estudo nos encontros de formação.
Leitura deleite
No que diz respeito à leitura deleite, analisamos que, assim como a formadora do Pacto Suzi, a orientadora de estudo Bia fez uso dessa estratégia formativa em seus encontros de formação com os alfabetizadores, diferenciando-se em relação à frequência e à maneira de desenvolvê-la.
A partir de nossa análise, constatamos que, enquanto, a formadora Suzi apresentou regularidade e um repertório diversificado em relação às obras apresentadas na leitura deleite, como foi o caso do “Clube do leitor” e “Eu recomendo” em que os orientadores de estudo apresentaram e compartilharam suas preferências e experiências com as práticas leitoras, dentro ou fora do contexto escolar, à orientadora de estudo Bia se utilizou minimamente dessa estratégia formativa com os alfabetizadores.
No encontro do dia 09/11/2013 diferentemente dos outros encontros observados, houve um momento reservado a leitura deleite e, com isso, pudemos analisar como a orientadora de estudo Bia organizou o grupo; utilizou os recursos didáticos e as possíveis modificações na passagem de um espaço formativo a outro.
Verificamos que tanto na formação de Bia quanto na de Suzi, o espaço da sala esteve sempre estruturado para acomodar a turma de duas formas: com o mobiliário em círculo ou formando grupos. Ambas as possibilidades foram vivenciadas nos seminários por Suzi, no caso da orientadora de estudo de São Lourenço da Mata, não identificamos variações na organização do espaço formativo, já que não havia condições físicas para ser de outra maneira, senão em grupos.
As recomendações da formadora Suzi, em relação a escolha e o papel da leitura deleite na formação, foram consideradas no planejamento e na prática da orientadora de estudo Bia. No tocante ao uso de recursos didáticos, ao passo que a formadora Suzi se utilizou de diferentes suportes para a realização da leitura deleite, ora apresentando-a em vídeo ora em material impresso, ou seja, no livro. Já a orientadora de estudo Bia elegeu empregar um único suporte didático acrescentando a esse momento uma dinâmica entre os grupos para sistematização coletiva da obra “A arca de Noé”.
Mesmo a orientadora de estudo Bia tendo vivenciado em todos os seminários oferecidos pelo Pacto à leitura deleite, não vimos isso se transformar em prática ou fazer parte de sua rotina com a mesma proporção e da mesma forma que fora experimentada por ela. Isso corrobora a ideia de que os docentes fabricam as “táticas” ajustando diversos saberes ao seu fazer pedagógico como um modo de atender as demandas cotidianas do espaço formativo.
Conforme a imagem abaixo, constatamos que a escolha da leitura deleite estava respaldada com base no material disponibilizado pelo Pacto para serem empregados nas formações com os professores alfabetizadores.
Recorte do Caderno do Pacto Ano 01 Unidade 06 - “Planejando a alfabetização; integrando diferentes áreas do conhecimento projetos didáticos e sequências didáticas”
A proposta de leitura deleite foi viabilizada pela orientadora de estudo Bia no VIII Encontro de formação com os alfabetizadores e, assim como Suzi, Bia, antes de ler o texto de Vinícius de Moraes, teceu comentários sobre o autor e sua obra, além de fomentar no grupo a reflexão em relação à leitura a ser realizada e o cotidiano da sala de aula.
Destacamos ainda que em alguns momentos, o espaço formativo da formadora Suzi e da orientadora de estudo Bia estiveram organizados de modo semelhantes. Tanto a sala de aula da formadora Suzi quanto a da orientadora de estudo Bia eram de pequeno porte e isso deve ser compreendido como um elemento determinante na hora de (re) planejar as atividades a serem desenvolvidas por elas.
Socialização das atividades em grupo
No que se refere à socialização de atividades propostas pela formação, podemos dizer que essa estratégia formativa foi bem aproveitada tanto pela formadora da IES com os orientadores de estudo quanto destes, com os professores alfabetizadores, pois foi contemplada em todas as formações do Pacto. As socializações dos grupos aconteceram sempre ao término de cada estudo ou atividade finalizada.
Em relação à utilização dessa estratégia formativa nos encontros dos orientadores de estudo com os alfabetizadores, reconhecemos similaridades com a prática que eles tiveram acesso nos seminários do Pacto, mas também, percebemos o uso de táticas para atender as especificidades, no que tange aos conhecimentos teórico- práticos, as demandas do contexto de formação como, por exemplo, estrutura física da escola e a relação constituída entre os sujeitos envolvidos no processo de aprender para ensinar.
Identificamos a orientadora de estudo Bia fez uso, por diversas vezes, da socialização (das experiências, de estudo e de atividades) a fim de mobilizar vários tipos de conhecimentos constituintes do ser docente, torná-los explícitos, ampliá-los e compartilhá-los. Percebemos que a prática da orientadora de estudo Bia apresentou aspectos em comum com a formação recebida, contudo, sobressaíram-se as modificações realizadas em diálogo com os alfabetizadores durante as socializações.
A organização do espaço para os encontros com os alfabetizadores não foi alterado, pois a sala de aula não possibilitava mudanças, já que não tinha como movimentar as cadeiras para serem agrupadas de outro modo. A perspectiva do alfabetizar letrando e os direitos de aprendizagens da língua portuguesa e das diversas áreas do conhecimento se tornou objeto de reflexão nos momentos de socialização dos grupos.
Essa estratégia formativa contribuiu para a construção de vínculos entre os sujeitos envolvidos nas formações. Percebemos um diálogo constante entre orientador de estudo e professor alfabetizador que contribuiu para as tomadas de decisões de forma colaborativa. Observamos ainda que os conteúdos sobre a alfabetização apreendidos pelos orientadores de estudo nos seminários do Pacto, ao passaram de um campo formativo a outro, foram retomados e, por vezes, problematizados nas socializações das tarefas de casa, do estudo em grupo, dentre outras.
Constatamos, dessa forma, que diante das recomendações, das trocas de experiências, da construção de conhecimentos e discussões desenvolvidas nos momentos de socialização que a orientadora de estudo Bia foi mostrando amadurecimento no modo de pensar e fabricar práticas formativas voltadas para formar professores capazes de gerir e inventar situações promotoras de aprendizagens.
A estratégia formativa tem relação com as questões teórico-práticas, pois, é por meio delas que são conhecidas e discutidas as perspectivas teóricas a luz da prática dos sujeitos praticantes. A leitura compartilhada contribuiu para a promoção da reflexão e um melhor entendimento acerca dos princípios que norteiam, direcionam o PNAIC.
Ao observar a formação da orientadora de estudo Bia percebemos que ela fez uso da leitura compartilhada para tratar dos aspectos teóricos do Pacto. Essa estratégia formativa não foi recorrente nos encontros com os professores alfabetizadores de São Lourenço da Mata quando ela surgiu foi para reorganizar uma atividade já iniciada como, foi no caso do IV encontro em que Bia havia iniciado com o grupo o estudo do texto e, no decorrer do processo, ela mudou de estratégia formativa para tentar alcançar objetivo de fazer com os docentes estudassem o tema da formação.
A situação vivida pela orientadora de estudo Bia se caracterizou como complexa, em que foi necessário pensar e agir concomitantemente, ou seja, ela realizou o que Schön (2000) denominou como reflexão na ação que é como operam os professores diante das adversidades, dos imprevistos e das questões problemáticas enfrentadas por eles cotidianamente. É justamente nesse terreno de complexidade, de incertezas, de saberes, de subjetividades e de tensão que o professor descobre que as questões práticas não são meramente instrumentais.