É difícil a tarefa de analisar todos os dados obtidos nesta investigação, uma vez que não existe uma fórmula ou modelo padrão para ser seguido (pelo contrário, esta etapa da pesquisa exige uma profunda capacidade reflexiva e criativa por parte do pesquisador). Assemelha-se, metaforicamente, a um trabalho
de esforço artesanal, de entrelaçamentos de fios condutores, visando à construção de um produto final satisfatório. Tal criação foi alimentada pela literatura sobre análise de conteúdo, pelo referencial teórico adotado para a leitura das práticas e, evidentemente, pela natureza das informações obtidas.
Outrossim, também influiu a atualidade do tema (Formação Continuada de Professores em Museus); são escassos os estudos disponíveis na literatura nacional sobre ele, a que se pudesse usar como referência direta, especialmente em se tratando de formação de professores de Arte em museus ou instituições culturais. Assim, a análise aqui registrada caracterizou-se pela triangulação de fontes, métodos e teorias.
Para análise e interpretação dos dados, utilizamos a análise de conteúdo. Segundo Bardin (1979, p. 42), essa análise pode ser definida como “um conjunto de técnicas de análise de comunicação visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens”.
Utilizamos a análise temática, que se baseia na definição de um tema, relacionado a uma afirmação a respeito de um determinado assunto, podendo ser graficamente apresentada através de uma palavra, uma frase ou um resumo. Segundo Bardin (1979, p.105), “o tema é a unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia”.
Na exploração dos depoimentos, inicialmente, foi realizada uma análise temática com o recorte dos textos das entrevistas em unidades de registro, que podem ser uma palavra, uma frase, um tema, etc. Assim, nesse primeiro momento, um tanto tumultuado diante de tantas informações, ao explorar o material das entrevistas, trabalhamos com as palavras-chave formação continuada e formação multicultural e com a frase museu como espaço pedagógico para o ensino de Arte – que correspondem às nossas categorias teóricas. Buscamos, inicialmente, perceber qual a ideia ou as concepções dos sujeitos sobre tais categorias teóricas, organizadas nos seis primeiros quadros dos apêndices.
Visando a uma maior precisão das análises, recorremos à técnica da triangulação dos dados, na qual usamos “diferentes maneiras para investigar um
mesmo ponto” (ALVES-MAZZOTTI & GEWANDSZNAJDER, 2001, p. 173). Através da análise dos documentos dos museus, tivemos acesso a outras informações complementares aos dados das entrevistas e vice-versa, ou seja, alguns dados não obtidos nos documentos foram coletados através dos nossos sujeitos, possibilitando o atendimento aos nosso objetivos.
Ao final desse minucioso trabalho de agrupamento dos dados, a partir das categorias referidas acima, foi possível sistematizar as informações em tópicos de análise referentes à identificação das práticas realizadas por grupo investigado (coordenadores pedagógicos, professores mediadores e gestores de museu). Assim, obtivemos um quadro demonstrativo das principais estratégias que envolvem os processos de mediações dos museus, a que denominamos de estratégias de mediação.
Para cada grupo de sujeitos correspondem determinadas estratégias específicas às funções exercidas no museu. Dessa forma, as estratégias de mediação foram classificadas em: estratégias pedagógicas, realizadas pelos coordenadores; estratégias didáticas, concretizadas pelos professores ou artistas convidados; e, por último, estratégias institucionais, implementadas pelos gestores. Assim, tendo como parâmetro nossas categorias teóricas, chegou-se ao quadro nº 7 - Estratégias de Mediação dos Museus - como se pode conferir no apêndice C.
CAPÍTULO IV
O SIGNIFICADO DAS EXPERIÊNCIAS DE FORMAÇÃO
DE (ARTE) EDUCADORES NOS MUSEUS
“A Arte só é verdadeira quando deseja ardentemente transformar o homem e o mundo” (Frederico Morais)
Neste quarto e último capítulo, será apresentado o resultado das análises desta pesquisa, enfatizando a relevância do conjunto de museus e espaços culturais existentes na cidade do Recife que representam e narram a história da diversidade cultural existente no Estado de Pernambuco, além daqueles que têm investido na Formação Continuada de Professores de Arte.
Mostraremos o hibridismo de concepções de formação continuada (tradicional e crítico-reflexiva) desenvolvidas nos dois campos investigados, bem como a atuação dos sujeitos selecionados, organizada num quadro de Estratégias de Mediação dos Museus (pedagógicas, instrucionais e institucionais) e a relevância do papel desses atores para que o museu seja uma instituição verdadeiramente formativa e educativa de professores, estudantes e do público em geral.
Apresentaremos, também, a concepção de Arte implícita nas atividades de formação dos museus, assim como nos materiais pedagógicos distribuídos aos professores participantes.
Finalizaremos avaliando como a formação multicultural se encontra face à demanda de públicos diversos, sem dúvida um grande desafio aos educadores, coordernadores e gestores de museus.
Selecionamos a obra “A criação: pássaros e peixes”, de Samico, para ilustrar, simbolicamente, a leitura dos dados coletados, ou seja, o resultado da pescaria. A composição da obra mostra, acima, três grandes peixes; na parte intermediária, uma quantidade bem maior de peixes menores, que parecem transformarem-se em pássaros. No plano inferior, encerra-se a obra com novos tipos de pássaros e de peixes. Tal composição pode ser comparada à estrutura organizacional e hierárquica encontrada nos museus investigados, em que uma equipe administrativa e executiva mobiliza a participação de outros sujeitos – agentes multiplicadores – para a construção de novos saberes construídos nesses espaços.