Séminaire interdisciplinaire d’une année sur la guerre
3. EXEMPLES DE SUJETS DE RECHERCHE a. Problèmes conceptuels
alfabetizadores
Levando em consideração as especificidades relativas ao papel do formador da IES e do orientador de estudo no Pacto, analisaremos as aproximações e distanciamentos presentes na rotina formativa desses sujeitos, a partir das estratégias formativas utilizadas pelos orientadores de estudo no papel de formador dos professores alfabetizadores.
A partir da identificação das diferentes estratégias que compuseram a rotina de formação, escolhemos aquelas que deram mais visibilidade à fabricação de táticas nas situações analisadas. São elas: socialização da tarefa de casa, leitura deleite, exposição dialogada, avaliação da formação.
Analisando o trabalho desenvolvido pela formadora da IES e dos orientadores de estudo do município de Recife, destacamos algumas das estratégias formativas que se assemelham com as vivenciadas pelos orientadores nos seminários do Pacto e as fabricações destas estratégias, quando passaram a dialogar com os professores alfabetizadores. Apresentaremos, a seguir, um quadro no qual essas informações possam ser visualizadas.
Quadro 09 – Relações entre as estratégias formativas utilizadas nas formações da IES com os orientadores de estudo de Recife e destes com os
professores alfabetizadores
Estratégias formativas efetivadas nos
encontros dos formadores das IES com os orientadores de estudo de Recife
Estratégias formativas efetivadas nos encontros dos orientadores de estudo de Recife com os professores alfabetizadores de Recife
Socialização das experiências formativas (apresentação das atividades, das práticas desenvolvidas pelo orientador de estudo na formação com os professores alfabetizadores).
Socialização da tarefa de casa (apresentação das atividades, das práticas desenvolvidas pelas professoras alfabetizadoras em sua sala de aula).
Leitura deleite - Clube do leitor: “O frio pode ser quente”? Leitura realizada pela formadora Ana para a turma.
Leitura deleite - “O frio pode ser quente?” livro de Jandira Mansur. Leitura realizada pela orientadora de estudo.
Exposição dialogada - Ludicidade em sala de aula.
Exposição dialogada - “Brincando na escola: estudando a ludicidade”
Fonte: Maria das Graças Gonçalves da Silva (2014).
Socialização das atividades
Como presente no quadro acima, no que se refere à socialização de atividades, podemos perceber que há semelhanças entre elas, no entanto, os encaminhamentos foram traçados, levando em conta os lugares ocupados pelos sujeitos envolvidos nesse processo.
Podemos dizer que tanto o formador da IES quanto o orientador de estudo, nessa atividade, tomaram como objeto de reflexão o campo da prática, ou seja, discutiram o lugar de atuação, como estavam sendo tratados metodologicamente os conhecimentos sobre a língua portuguesa e quais conhecimentos trabalhados na formação foram mobilizados na sala de aula dos professores alfabetizadores.
Outro aspecto comum diz respeito à forma pela qual as atividades foram socializadas nas formações. Percebemos que os orientadores de estudo de Recife seguiram as orientações recomendadas por seus formadores em relação à organização do espaço formativo, pois, em todas as socializações as cadeiras estavam dispostas em círculos, de modo que todos pudessem se ver.
Foi perceptível que os dois momentos formativos tiveram a intenção de promover as aprendizagens coletivas, das trocas de experiências, da construção de práticas exitosas que, de fato, pudessem ajudar o alfabetizador em seu fazer pedagógico cotidiano, tal proposição aponta em direção aos estudos de Tardif (2008) em relação à
natureza do saber docente como aquele carregado de complexidade e, por isso, um “saber plural”.
Notamos também que os conhecimentos sobre a língua portuguesa estavam em torno do trabalho de reflexão e apropriação do Sistema de Escrita Alfabética (SEA), numa perspectiva do alfabetizar letrando, da interdisciplinaridade e na inserção de jogos de alfabetização, que foram mobilizados nos momentos de socialização das atividades.
Constatamos, a partir de nossa análise, que os orientadores de estudo de Recife seguiram os caminhos propostos pelo Pacto para formar e auxiliar o professor alfabetizador no cotidiano de sua sala de aula. No entanto, percebemos que, ao desempenhar seu papel de formador desse professor, fizeram uso de “táticas” e, com isso, desenvolveram as atividades apreendidas em sua formação de maneira diferenciada.
Tomaremos como exemplo a formação realizada pela orientadora de estudo Lúcia com os professores alfabetizadores de Recife, no momento da socialização da tarefa de casa. Para tal, os orientadores de estudo desse município utilizaram um slide específico para chamar atenção dos alfabetizadores.
Esse slide foi exibido no IV encontro de formação continuada dos orientadores de estudo com os professores alfabetizadores de Recife. A escolha do título “A cena é sua professora”, evidenciou a importância atribuída pelos orientadores de estudo ao momento em que as práticas recomendadas para serem vivenciadas em sala de aula puderam não apenas ser conhecidas por todos, mas usadas como objeto de reflexão e (re) construção dos conhecimentos forjados nessa teia de relações em que são gerados os saberes docentes.
As orientadoras de estudo criaram um momento em que as práticas dos professores alfabetizadores pudessem ser contempladas por todos, de modo que elas se tornassem objeto de constante reflexão na formação, num movimento de idas e vindas, de mudanças e permanências e de (re) construção individual e coletiva de práticas de alfabetização. Tais movimentos favorecem a visibilidade e a compreensão do alfabetizador sobre o seu fazer docente que, a partir e com o outro, tem a grande chance de se ver e se entender melhor.
Compreendemos que são momentos como esses, da socialização de práticas consumadas no contexto real de ensino, que devem ser promovidos nos espaços das formações continuadas de professores para que, de fato, elas possam ser verdadeiramente validadas e incorporadas aos saberes e aos fazeres docentes de forma
exitosa, já que são nessas interações, nas trocas e no compartilhamento de conhecimentos que os professores, além de terem acesso a situações semelhantes às vividas por eles no “miudinho” e na solidão de sua sala de aula, têm a oportunidade de se fazer ouvir.
Acrescentamos, ainda, que a utilização pelas orientadoras de estudo de Recife dessa estratégia formativa cumpriu com o objetivo de problematizar, de colocar o professor como sujeito da formação, como capaz de produzir conhecimentos e não como meros reprodutores, repetidores de práticas que foram produzidas sem levar em conta a complexidade que envolve ensinar a ler e escrever, a alfabetização.
Destacamos também que é a partir dessas experiências que os professores fabricam as táticas de ensino, reconstroem seus conhecimentos, teorizam suas práticas e forjam sua identidade docente. Para isso cumpre motivar a participação e o engajamento na proposta formativa como elementos essenciais para,
Levar à prática a formação, de maneira que se estabeleça um processo contínuo de modificações e introdução das estratégias baseado na experiência acumulada e, ao mesmo tempo, nas novas necessidades detectadas (IMBERNÓN, 2009, p. 55, grifo do autor).
Nessa perspectiva, ao fabricar sua ação formativa, o orientador de estudo de Recife priorizou atividades permeadas por princípios da aprendizagem colaborativa, dialógica e participativa, já que o momento da socialização das atividades vivenciadas pelos alfabetizadores com sua turma trouxe como matéria prima a complexidade do trabalho educativo e as situações problemáticas enfrentadas por eles para o cotidiano de formação ao “compartilhar dúvidas, contradições, problemas, sucessos e fracassos” (idem, p.64).
Com isso, as práticas recomendadas para serem vivenciadas em sala de aula puderam não apenas ser conhecidas por todos, mas usadas como objeto de reflexão e (re) construção dos conhecimentos forjados nessa teia de relações em que são gerados os saberes docentes.
A importância atribuída a esse momento ficou evidente também na forma como a orientadora de estudo Lúcia mediou a formação. Entre seus gestos e sua fala havia um discurso convincente e uma linguagem própria de quem conhecia o espaço praticado pelos alfabetizadores, consideramos que isso foi fundamental para promover uma maior participação e envolvimento dos professores funcionando como motivação para que os professores alfabetizadores socializassem como estão construindo suas práticas de alfabetização em sala de aula.
Compreendemos assim, como Nóvoa (1995), que o caminho a ser percorrido em direção às mudanças significativas no fazer docente é possível quando ele tem de refletir acerca de suas concepções e práticas. Consideramos que o Pacto representa um modelo de formação que trabalha nessa perspectiva de dar voz aos professores e de valorização de seus saberes.
Constatamos isso ao percebermos a participação de uma docente26 que não havia socializado nenhuma de suas experiências anteriormente e compartilhou de sua prática demonstrando grande satisfação. Inferimos que a forma descontraída de se relacionar e de conduzir esse momento, desempenhada pela orientadora Lúcia, foi um elemento que favoreceu o engajamento do grupo nas atividades propostas.
Consideramos que a maneira escolhida pela orientadora de estudo Lúcia para conduzir a formação com as professoras alfabetizadoras se caracterizou como uma forma sutil de fabricação de táticas que surtiu efeitos significativos no modo de convivência na formação e nas trocas de experiências. Percebemos também uma postura de valorização e reconhecimento dos saberes docente já consolidados e aqueles que estão em processo de consolidação, no que diz respeito à alfabetização. Isso tudo contribuiu para que os professores, a partir do que disseram e ouviram, criassem suas táticas de ensino da língua portuguesa.
Entendemos, com isso, que a estratégia formativa utilizada pelos orientadores de estudo de Recife procurou tornar o momento de socialização das tarefas de casa como uma forma de chegar mais próximo da sala de aula, de conhecer e tornar conhecidas as práticas de alfabetização validadas e legitimadas pelo professor alfabetizador e que, possivelmente, se multiplicaram em outras salas de aula de alfabetização.
Leitura deleite
No que se refere à leitura deleite, observamos que os orientadores de estudo de Recife levaram em conta na organização de seu planejamento as recomendações sugeridas pela formadora do Pacto para os encontros com os alfabetizadores. Isso ficou explícito no X encontro em que a leitura deleite “O frio pode ser quente?” foi a mesma vivenciada por eles no IV seminário do PNAIC.
26 Cf. a descrição no tópico “1.2 A rotina dos orientadores de estudo com os professores alfabetizadores de Recife” - Socialização da tarefa de casa de uma professora do 1º ano – 31/08/2013.
Podemos perceber que, ao levar esse mesmo texto para a formação com os alfabetizadores, os orientadores de estudo de Recife conservaram alguns gestos e posturas apreendidas com seu formador como, por exemplo, a forma de organização da sala e o suporte (exibidos em slides) utilizado para apresentar a leitura deleite, a maneira de realizar a leitura, o uso de estratégias de leitura para levantamento dos conhecimentos prévios em relação ao texto a ser apreciado, mas, também, acrescentaram elementos e recriaram situações para promover aprendizagens. Tal proposição dialoga com o que corrobora Ferreira (2007) que, em consonância com as ideias de Certeau, quando esclarece que:
[...] a formação de professores foi, durante muito tempo, compreendida como uma série de orientações construídas externamente e que deveriam ser seguidas ou materializadas por diferentes professores, tal qual foram estrategicamente pensadas. Na realidade, entendendo as práticas cotidianas como Certeau (1974), tais orientações não são completamente reproduzidas como foram estrategicamente elaboradas; elas são reconstruídas, apropriadas e “fabricadas” em diferentes realidades escolares, valendo-se da trajetória de vida, da política e do saber de seus atores. (p.66).
Observamos que tanto a formadora da IES quanto a orientadora de estudo Lúcia realizam a leitura do texto “O frio pode ser quente?”, não delegando esse papel aos participantes da formação. Vimos também que elas promoveram a divulgação das obras literárias construídas pelo Pacto para viabilizar a perspectiva do alfabetizar letrando na prática pedagógica do alfabetizador. Para mais, as relações entre a leitura realizada e o conhecimento a ser tratado na formação, como sugerido pelo formador do Pacto, foram destacadas pelos orientadores de estudo de Recife.
Além dos pontos em comum citados anteriormente, em relação à leitura deleite, reconhecemos que a orientadora de estudo Lúcia, em sua prática formativa, mobilizou seu repertório como alfabetizadora e fez pequenos ajustes na forma como proceder à leitura do texto “O frio pode ser quente?”, pois, diferentemente de sua formadora, durante a oralização do livro, fez encaminhamentos e sugeriu propostas de como usá-lo no trabalho em sala de aula, direcionando-as para o ensino do SEA, explorando os sentidos e significados das palavras.
Podemos dizer que a orientadora de estudo Lúcia acrescentou à sua prática formativa elementos que considerava relevantes para garantir a atenção e o interesse do professor como, por exemplo, introduziu reflexões à margem do texto para enriquecer a leitura, sua interpretação e comentários, pontuando o que poderia ser explorado da obra de Jandira Mansur em relação ao ensino da língua portuguesa.
São, especificamente, essas formas singulares do sujeito se reapropriar, de fazer uso do que apreendeu nos espaços formativos, da capacidade de resignificar suas práticas que são fabricadas as táticas cotidianas, quando o indivíduo, a partir de seu contexto e de suas demandas, busca criar maneiras que possam dar respostas e resolver situações problema vivenciadas pelo professor em sala de aula.
Exposição dialogada
No que tange à exposição dialogada, percebemos que tanto a formação da IES quanto dos orientadores de estudo com os professores alfabetizadores, em seus respectivos espaços formativos, procuraram ativar os conhecimentos relativos à concepção e ao ensino da língua portuguesa advogados pelo Pacto. Essa estratégia formativa foi coordenada pela orientadora de estudo Paula que se mostrou segura em relação ao domínio do conhecimento teórico, ao falar aos professores de forma clara e objetiva.
A orientadora de estudo Paula iniciou a exposição dialogada apresentando o texto, em slide: “Brincando na escola: estudando a ludicidade”. Após indicar para o grupo qual seria o conteúdo a ser estudado, incentivou a todos para que participassem ativamente do momento intervindo, sugerindo ou socializando alguma prática.
Essa estratégia formativa é caracterizada por apresentar o conteúdo teórico da formação com a colaboração dos participantes, levando em conta e valorizando os conhecimentos prévios dos cursistas, sendo o orientador de estudo o mediador e problematizador de todo o processo.
Assim como os formadores da IES27, os orientadores de estudo28 de Recife problematizaram o trabalho com o lúdico na sala de aula, no entanto, as indagações propostas por aqueles estavam mais voltadas para o campo teórico, enquanto que os orientadores dos professores alfabetizadores fizeram adequações e encaminharam as questões para o campo do uso, da construção de práticas.
Paula acrescentou ainda acerca da importância da inserção de jogos no cotidiano escolar com o objetivo de alfabetizar, tocou também na questão da heterogeneidade quando orientou os alfabetizadores para direcionarem seus olhares para as crianças que ainda não consolidaram a aprendizagem do SEA, de modo que eles pudessem
27
Por que trabalhar o lúdico na sala de aula? Qual o sentido do lúdico na sala de aula?
28
Como compreendemos que brincando podemos aprender? Como aproveitar essas atividades das brincadeiras para potencializar a alfabetização no universo escolar?
intensificar a atenção pedagógica com esses educandos para avançarem nos níveis de escrita.
Durante a exposição dialogada mencionada, à medida que os professores alfabetizadores iam se colocando, a orientadora de estudo Paula sugeriu práticas que viabilizassem uma proposta de ensino da leitura e da escrita de forma reflexiva como, por exemplo, formar os agrupamentos produtivos, ou seja, reunir crianças de hipóteses diferentes, todavia próximas entre si. A postura ativa dos professores alfabetizadores em sala de aula com os orientadores de estudo, a compreensão em face dos objetivos propostos, pode ter relação com as experiências e a cultura de formação instituída na Rede de Ensino do município de Recife ao longo de seu professo de profissionalização.
As orientações de Paula vão ao encontro do que foi proposto por Vygotsky (1991) em relação à relevância de agrupar as crianças privilegiando as interações, o confronto de ideias, as informações, a relação com o outro, os conhecimentos e as aprendizagens.
4.5.2 Entre o pensado e vivido: o lugar das fabricações no espaço da formação