• Aucun résultat trouvé

Chapitre V : Caractérisations Optiques et Perspectives

V.3 Perspectives

Competências A1 e D1

Durante o estágio na ECCI, tenho desenvolvido um plano de reabilitação, com o Sr. J., cujo membro inferior direito foi amputado, no contexto de uma infeção por úlcera diabética. Nos primeiros contactos, reparei que o Sr.J. recorria a um certo humor negro (relacionado com o facto de só ter um dos membros inferiores) e dizia uma ou outra piada dirigida aos profissionais. Também me apercebi que, quando lhe era pedido para realizar algum exercício, se desconcentrava facilmente e que tinha uma considerável necessidade de demonstrar que era capaz de o realizar (ainda que o fizesse de forma errada e insegura). Na altura, conversei com a Srª Enfª Orientadora Clínica (OC) sobre a possibilidade desta atitude ser um mecanismo de defesa para lidar com a situação e com a eventual incapacidade perante determinado exercício. Abordámos, ainda, as consequências de tal atitude na eficácia das sessões de reabilitação e no sucesso da reabilitação. Percebemos que teríamos que adoptar uma atitude mais assertiva com o Sr J. e procurar que ele se consciencializasse da importância da reabilitação e de realizar adequadamente os exercícios, sendo claras no que lhe pedíamos, mas dando-lhe espaço para exprimir eventuais preocupações. Nos contactos seguintes, foi isso mesmo que procurei fazer. Procurei direcionar o Sr.J para a sessão (explicando que esta exigia concentração e que, após a sua conclusão, já poderia dizer uma ou outra piada), e tentei ser mais clara no que pretendia que o mesmo realizasse. Notou-se uma maior concentração do Sr.J. na execução dos exercícios e uma tentativa de os realizar de forma mais controlada e segura. Perante um exercício de treino de equilíbrio, o Sr.J. reconheceu que não o conseguia realizar, explicitando as suas alternativas ao mesmo. Ainda se notou um ou outro momento de desconcentração, mas em que se procurou reorientar o Sr. J.

Face à situação, não pude deixar de pensar “Qual a diferença de perceção entre um enfermeiro assertivo e um enfermeiro agressivo, para a pessoa?”, “Como conseguirei impôr limites numa relação, que se quer terapêutica e de confiança, no contexto da pessoa?” ou até mesmo “Conheço-me o suficiente, enquanto pessoa e Enfª, para estabelecer uma prática profissional assertiva e ética?”. Assim, senti- me desconfortável e com alguns receios… tive receio de ser mal interpretada pela

2

pessoa cuidada, de não conseguir ultrapassar a atitude do Sr.J. face à situação de saúde e às suas vulnerabilidades e, por conseguinte, do processo de reabilitação não ser efetivo.

Avaliando a situação, evidencio alguns aspetos positivos. Destaco como produtivo o trabalho de consciencialização que tive que fazer, antes de tudo, sobre mim. Também o trabalho de reflexão informal sobre o porquê do comportamento do Sr.J., em conjunto com a OC, trouxe melhorias ao meu desempenho e contribuiu para a capacidade de me colocar no lugar do Sr.J. Para além disto, perante a dualidade entre assertivo e agressivo, tive necessidade de consultar o Código Deontológico, o que serviu para melhor “balizar” os limites da minha ação, de forma ética e profissional. Do ponto de vista do Sr. J., considero que houve um avanço na construção de uma relação de confiança, proporcionando um espaço para este começar a assumir as suas vulnerabilidades, e futuramente a identificar as suas potencialidades. Considero, ainda, que o próprio Sr.J. iniciou um processo de comunicação assertiva, assumindo o que consegue ou não fazer, manifestando as suas preocupações e abrindo espaço para um processo de reabilitação efetivo. Ainda assim, devo identificar como aspeto menos positivo, o facto do Sr.J. ainda não se sentir à vontade para abordar a forma como lida (e lidou) com a sua nova condição de saúde, ou qual a necessidade que ele considera ter, para recorrer ao humor e para adotar uma atitude desconcentrada, perante uma sessão de reabilitação. Paralelamente, considero como menos positivo, o facto de eu (enquanto Enfª de reabilitação) ainda não ter conseguido criar um momento para que esse trabalho de reflexão do Sr.J se inicie.

Analisando a situação, considero que uma das questões é a informação e outra é a forma como esta deve ser transmitida, através de uma comunicação assertiva. O Enfº tem o dever de informar a pessoa/família no que se refere aos cuidados de enfermagem. Mas, para fazê-lo, deve garantir um ambiente propício ao desenvolvimento das potencialidades da pessoa cuidada, analisando e reconhecendo eventuais falhas, que mereçam mudança de comportamento (Nunes, Amaral, & Gonçalves, 2005). Neste caso, para que a informação sobre os cuidados de reabilitação (como realizar os exercícios, perspetivas futuras de recuperação, …) fosse eficazmente transmitida e percecionada, tornou-se necessário trabalhar as falhas deste processo comunicacional, trabalhando numa mudança de atitude no Sr.J. e mesmo em mim. Isto vai ao encontro da literatura que defende que a comunicação é a ferramenta mais importante nos cuidados de saúde (Grilo, 2012).

3

Tal como na situação, alguns autores sentiram necessidade de distinguir o limite entre a resposta assertiva e a resposta agressiva. A resposta agressiva diferencia-se pela focalização nos objetivos do próprio e, por conseguinte, pela desvalorização dos interesses/direito do outro (Grilo, 2012). Por seu lado, a comunicação assertiva destaca-se pela coordenação entre as perspetivas do próprio e as do interlocutor, formando-se uma relação de equidade e respeito entre os dois, que possibilita o aumento da autoconfiança (Mesquita, Paulino, Galante, & Alves, 2011; Grilo, 2012). Assim, a assertividade surge como algo que abrange a comunicação interpessoal verbal e não-verbal, que exige capacidade para gerir emoções, para analisar adequadamente a situação e para implementar comportamentos assertivos (Mesquita, Paulino, Galante, & Alves, 2011). Desta forma, a clareza e honestidade (inerentes à comunicação assertiva), transmitem segurança e, logicamente, contribuem para uma maior adesão ao tratamento (Grilo, 2012). Face ao referido, considero que a construção de um processo comunicacional assertivo - tal como aconteceu com o Sr.J.- permite manter um padrão de conduta pessoal dignificador da enfermagem (e da enfermagem de reabiltiação), tal como previsto no Código Deontológico (Nunes, Amaral, & Gonçalves, 2005).

Assim sendo, considero que estou a construir uma relação terapêutica e de confiança, desenvolvendo um processo de autoconhecimento e de

assertividade (Competência D1), ajustando os recursos (a OC, eu e o Sr. J) à

necessidade de ajustar a atitude face ao cuidado e vulnerabilidade. Tal foi (e é) possível graças à reflexão informal com a OC e ao desenvolvimento do presente jornal. Na mesma ótica, considero que estou a desenvolver uma prática

profissional e ética (Competência A1), na área da enfermagem de reabilitação, ao

demonstrar uma tomada de decisão suportada em normas deontológicas.

Finalmente, creio que ainda ficou por proporcionar um momento para o Sr. J. exprimir como vivencia o processo de adaptação à nova condição de saúde e para explorar se a adoção do humor é de facto um mecanismo de defesa. Por isso, no futuro, procurarei criar esse momento e, se o Sr. J.concordar, ajudá-lo na adaptação à sua nova realidade, questionando sobre o porquê da sua atitude e convidando a explicar-me o que sente em relação à sua de incapacidade.

4

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Grilo, A. M. (2012). Relevência da Assertividade na comunicação profissional de saúde - paciente. Psicologia, Saúde Doenças, 13(2), pp. 283-297.

Mesquita, A., Paulino, C., Galante, C., & Alves, S. (Abril-Junho de 2011). Comunicação Assertiva: uma aprendizagem efectiva e salutar na relação com os pares. Percursos, 20, pp. 3-15.

Nunes, L., Amaral, M., & Gonçalves, R. (2005). Código Deontológico do Enfermeiro:

5

1

Promoção dos direitos humanos e das responsabilidades