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Chapitre 3. La particularité du développement des personnes avec des TED sur

1.3.1. La perception du temps et la construction temporelle chez les

O personagem Simeão, de Joaquim Manuel de Macedo, acaba por evidenciar a posição que alguns negros possuíam dentro das famílias brasileiras. Em seu caso, após alguns anos, a “sua família” pretende expulsá-lo do lar por ser ele de origem negra, raça na qual, de acordo com alguns personagens, não se deveria confiar.

Em As vítimas algozes, é possível observar que temos um negro, aos vinte anos de idade, benquisto por sua família, assim como Pedro, em O demônio familiar. Simeão, o crioulo, tido como afilhado de Domingos Caetano e Angélica, foi criado quase que à mesma maneira que a filha do casal, Florinda, pois a mãe de Simeão, uma escrava, tivera de amamentar ambos, uma vez que Dona Angélica não podia amamentar sua própria filha. Portanto, Simeão e Pedro possuem algumas características em comum, como terem sido criados em ambiente familiar e não possuírem a consciência, até determinado momento de suas histórias, do que é a liberdade.

Diante disso, é importante observar a diferença que os escravos domésticos possuíam quanto aos outros escravos que ficavam na senzala. Flávio Aguiar, em sua A

comédia nacional no teatro de José de Alencar (1984), ajuda-nos a desenvolver um pouco

mais essa questão:

Os escravos domésticos formavam uma categoria especial entre os próprios escravos. Era comum, em casos de revolta ou de agitações, ficarem do lado dos senhores, ou mesmo servirem como informantes, para manterem o “privilégio” de serem escravos domésticos, e não trabalhadores do campo; de terem o “seu” mundo na casa-grande, não na senzala. Pedro, portanto, é urbano e é doméstico: duplamente “domesticável” pela civilização. A ação da peça acompanhará seu processo de exclusão e reincorporação ao “concerto civilizado”, enquanto passa de escravo (criado) a trabalhador livre (cocheiro)107.

Ao contrário de Pedro, garoto de recado que pode ser considerado um personagem sagaz, criando intrigas entre os demais personagens e que é desenvolto até na língua francesa; Simeão é descrito como um crioulo que possuía “seus modos à expansão que só parece própria do homem livre: ele não tinha nem as mãos calejadas, nem os pés esparramados, vestido com asseio e faceirice” e que havia sido “[...] apadrinhado, protegido e acariciado pela família livre, pelo amor dos senhores”108.

107 AGUIAR, Flávio. A comédia nacional no teatro de José de Alencar. São Paulo: Ática, 1984, p. 82.

108 MACEDO, Joaquim Manuel. As vítimas algozes: quadros da escravidão. São Paulo: Martin Claret, 2010, p. 26.

Nota-se, assim, apesar das semelhanças, uma distinção nos modos de ser dos personagens. Enquanto aquele é um menino descarado, que não tem problemas em intervir nos negócios dos seus senhores, realizando artimanhas para que tudo corra da maneira que deseja, e que não almeja a liberdade; este possui jeitos de um homem livre, ainda sem o saber, obviamente, o que é ser um homem livre, pois os modos que tem se dão devido à criação dentro de uma família que o tinha como filho, conforme pontua Macedo.

O narrador, na obra do autor carioca, nos conta sobre o crescimento e o entendimento que o negro, criado ao lado de Florinda, sua irmã de ama de leite, tinha de sua posição e de si mesmo até certo período de sua juventude quando é açoitado pela primeira vez. Domingos Caetano, que até então nunca havia sido tomado pela cólera, castigou-o ao ver que sua filha, Florinda, havia sido insultada por Simeão, por ter sido acusado de ter furtado algo do quarto de seu senhor.

Acreditamos que é importante destacar essa passagem do texto por corroborar com o pensamento de José de Alencar quanto ao discernimento que os próprios negros tinham acerca da emancipação naquele período, e o que para ele poderia justificar sua crença em que os escravos possuíam a mente embotada:

Até os oito anos de idade Simeão teve prato à mesa e leito no quarto de seus senhores, e não teve consciência de sua condição de escravo. Depois dos oito anos apenas foi privado da mesa e do quarto em comum; continuou, porém, a receber tratamento de filho adotivo, mas criado com amor desmazelado e imprudente, e cresceu enfim sem hábito de trabalho, abusando muitas vezes da fraqueza dos senhores, sem atingir a dignidade de homem livre, e sem reconhecer nem sentir a absoluta submissão do escravo.

Era o tipo mais perfeito do crioulo, cria estimada da família109.

Apesar de não concordarmos com o pensamento alencarino, observa-se, assim, que o personagem de Macedo não tinha condição de saber o que era ser livre, pois criado com amor desmazelado já queria se entender como um cidadão, algo que nunca o fora, a não ser tratado como tal, o que, futuramente, foi posto em dúvida através da violência sofrida. Assim, como poderia Simeão pensar em se emancipar, uma vez que não tinha consciência de que nunca esteve livre? Seu modo aparentava o de um homem livre por nunca ter trabalhado pesado, porém nunca lhe fora ensinado nada acerca da liberdade. Pedro, ao contrário, apesar de garoto, trabalhava servindo aos seus senhores da maneira que lhes aprouvesse, tendo consigo apenas o objetivo de ser cocheiro. Ou seja, parecia entender que ser cocheiro o faria

109 MACEDO, Joaquim Manuel. As vítimas algozes: quadros da escravidão. São Paulo: Martin Claret, 2010, p. 27.

se elevar frente aos outros negros, o que evidencia a falta de consciência do que era liberdade, ou se a conhecia não era esse seu principal objetivo, pois buscava uma melhor condição para si enquanto escravo, ao contrário de Simeão, que ao ser chicoteado começou a se questionar sobre a liberdade.

Notemos que em ambos os casos não há um conhecimento do sentimento de liberdade até que algo ocorra aos dois personagens. Simeão, aos poucos, vai tomando consciência de que, se o seu senhor vier a falecer, é que poderá ser emancipado, pois ele havia prometido ao negro que isso ocorreria. É através da narrativa que vamos observando o desenvolvimento da consciência de Simeão ao conversar com outros negros. Aos poucos, Simeão vai desejando ser livre, mesmo sem ter noção do que isso poderia lhe significar no futuro.

Já o personagem de Alencar não quer ser livre, exceto ao final da peça, quando tudo é descoberto e ficamos sabendo que o responsável por todos os problemas foi Pedro. Eduardo, seu senhor, comentará perante os familiares e os amigos que os acontecimentos não se deram por culpa do escravo, mas da sociedade brasileira, que por se manter à margem desse problema, acaba contribuindo para que ele se difunda.

Tal cena acaba por evidenciar que José de Alencar não via o negro como um monstro ou um animal sem alma, mas que a vivência do “demônio familiar”, existente nos lares brasileiros, era culpa da própria sociedade, como julga Eduardo. O que o senhor de Pedro diz também está ligado ao que foi explicitado por nós quando classificamos Pedro de “inocente”.

A peça chega ao seu ápice com a alforria de Pedro por seu senhor. Essa não vem como um prêmio, mas como forma de castigo, pois Eduardo acredita que, enquanto homem livre, Pedro irá sofrer as consequências pelos atos que cometeu, tendo que responder por eles, não ficando mais a seu encargo as ações que o negro venha a realizar. O que condizia com o momento tendo em vista a maneira como os negros seriam tratados quando libertos.

Pedro, então, beija a mão de Eduardo, e a peça acaba. Não podemos afirmar se o negro o faz como forma de agradecimento por estar vindo do seu senhor, e por lhe ter respeito ainda, ou por ter discernimento sobre a sua liberdade. É algo que deve ser também posto em dúvida a favor dos que se posicionam afirmando que a peça de Alencar não possui um cunho abolicionista, pois o próprio autor não dá fins para que o seu pensamento seja totalmente conhecido.

Porém, quando em comparação com as narrativas de Macedo, o que se observa é que há uma tentativa de mostrar como a sociedade teria de visualizar o quadro da escravidão

entre a sociedade brasileira. Eduardo, ao afirmar que a culpa não era de Pedro, mas de todos, acaba por corroborar o mesmo pensamento que, anos mais tarde, poderá ser lido na história de Simeão, de Joaquim Manuel de Macedo, e no prefácio do livro As vítimas algozes.