Os jovens estudantes entrevistados apresentam suas dúvidas em relação à escolha profissional e sentem-se incomodados com as incertezas ante uma escolha “para toda a vida”.
Planos eu tenho, só não sei muito bem quais são eles! As pessoas falam: [...] se você está fazendo edificações, você tem que fazer engenharia civil, arquitetura! Eu não tenho que fazer! [...] Me incomoda o fato de eu não ter certeza do que eu sou realmente boa, [...] porque eu acho assim, as pessoas falam muito que adolescente não é responsável e que não sabe
escolher nada, só que colocam em cima do ombro de um adolescente o fato dele ter que fazer uma escolha do que ele vai fazer prá vida inteira. Aí, depois vira um adulto infeliz porque foi um adolescente infeliz que não soube escolher bem [...] (E 14, 17 anos, sexo feminino, curso de Edificações).
Embora o ensino do Ifes seja destinado à educação profissional, científica e tecnológica, tal fato não implica que os alunos que nele estudam, necessariamente, escolherão profissões específicas da área tecnológica e associadas aos cursos que frequentam.
Meu sonho é...eu sempre gostei da área de pediatria, porque eu sempre gostei muito de criança! Quando eu era novinha, queria ser babá, mas eu vi que não dava muito dinheiro! (risos) (E 05, 17 anos, sexo feminino, curso de Eletrotécnica)
Só que eu tenho um sonho de escrever, ser escritor! Se um dia eu puder...ou trabalhar só como escritor ou fazer à parte, entendeu?! Aí, não sei...Eu já escrevi crônica, não sou muito habilidoso em poesia não, mas eu gosto de escrever muito história, crônica, conto e tal. (E 15, 16 anos, sexo masculino, curso de Edificações)
No passado, tão somente o diploma era necessário para conseguir um bom emprego. “Hoje, as empresas não contratam apenas pelo diploma. Há uma bateria de exames para saber se aquele certificado vem acompanhado de pessoas que sabem aquilo que em tese deveriam conhecer” (POCHMANN, 2011). Para além do diploma, existe a preocupação de aliar teoria e prática, a necessidade de ser um bom profissional e de ser reconhecido por sua futura profissão.
Plano para o futuro? Tenho, eu pretendo ter a minha própria firma de construção civil e fazer sucesso, sabe, ser reconhecido pelo o que eu faço! (E 16, 17 anos, sexo masculino, curso de Edificações)
[...] mas tem coisas, na prática, que eu não entendo porque estou fazendo ...Ai, meu Deus, como eu vou ser uma boa profissional se eu não entendo o que eu faço!? Eu quero fazer uma coisa que eu seja boa! Igual...eu entendo que seja uma boa profissional, e ser reconhecida, né...aí, eu sei que eu vou ganhar bem e tal...e poder concretizar meus planos... (E 03, 19 anos, sexo feminino, curso de Eletrotécnica)
Quero ser engenheira, depois eu já me imagino fazendo uma especialização... me especializar na parte de arquitetar, sabe, depois fazer arquitetura como especialização. Eu venho pensando nisso...(E 07, 17 anos, sexo feminino, curso de Estradas)
Segundo dados fornecidos pelo IBGE, o número de jovens dobrou no período de dez anos no ensino superior, passando de 6,9% em 1998 para 13,9% em 2008. No entanto, esse crescimento esteve mais associado ao incentivo à iniciativa privada do que ao investimento para ampliar o acesso à universidade pública (SALATI, 2013). A maioria dos jovens estudantes entrevistados apontou como aspiração o ingresso em uma universidade pública, gratuita e de qualidade.
Pretendo fazer Ufes porque eu quero ficar aqui (no estado), então eu quero ficar aqui com meus pais, não quero estudar fora. Mas, se eu não conseguir, se conseguir federal só fora, eu vou prá fora, eu não quero particular, não, entendeu!? (E 05, 17 anos, sexo feminino, curso de Eletrotécnica)
Ingressar numa universidade boa! [...] Eu vou tentar o IME15, gostaria muito de passar, vou tentar a Ufes, vou tentar UERJ16, também tem...Viçosa17, vou ver se tem (o curso de Engenharia Mecânica, eu não vi...Mas, assim, faculdades boas! (E 11, 17 anos, sexo masculino, curso de Mecânica)
Nunca pensei em fazer uma faculdade particular, até pelo meu pai porque nunca...até porque ele prefere até me mandar para fora do estado do que pagar por aqui. Na cabeça dele sempre foi assim, em relação ao Ifes: Ah, é bom estudar lá porque você passa na Ufes! (E 10, 18 anos, sexo masculino, curso de Estradas)
Para esses jovens estudantes, as expectativas em torno do ingresso no mundo do trabalho frequentemente estão associadas ao fim da formação escolar, apontada como um evento relevante da trajetória individual, uma vez que “[...] ingressar no mercado de trabalho seria a continuidade de uma trajetória de saída do sistema escolar, faces de uma mesma moeda, do processo de individualização [...]” (GUIMARÃES, 2006, p. 172).
A construção dos projetos de vida desses jovens remete a incertezas e conflitos. Cabe ressaltar que para alguns jovens existe a possibilidade de uma segunda escolha: outro curso superior (ou outra profissão) a ser considerado como uma atividade prazerosa, além disso, como outra fonte de renda.
O meu foco é ser engenheiro e trabalhar nessa área de eletricidade, mas eu sempre gostei de cozinhar, também [...] Queria um lugar que eu trabalhasse e sentisse prazer. Eu, por exemplo,eu faço o que gosto e o que me dá
15 Instituto Militar de Engenharia – RJ.
16 Universidade Estadual do Rio de Janeiro – RJ. 17 Universidade Federal de Viçosa – MG.
prazer. Assim...é uma coisa que de fato dá dinheiro, tem como você ser um profissional bem remunerado é o que eu gosto de fazer, e eu não teria só isso para trabalhar, porque fazendo gastronomia que é outra coisa que eu gosto de fazer, me dá prazer também, eu teria mais uma outra função e se no caso, acontecesse alguma coisa com a engenharia lá, eu já teria uma segunda função e eu já fazendo francês aí, já é mais um caminho para eu poder ir para outro lugar, acontecendo alguma coisa...Então, eu penso assim, eu vou ser um profissional que tem uma ampla gama de trabalho aí, um leque muito grande para poder trabalhar. (E 01, 19 anos, sexo masculino, curso de Eletrotécnica)
A cozinha é um hobby, eu gosto de estar lá, ajudar minha avó a fazer as coisas! Gosto de fazer bolo, pão, torta...esses negócios assim, mais massa e doce! [...] (Penso em) fazer gastronomia, abrir um restaurante ou fazer qualquer coisa assim relacionada à comida. Porque é uma coisa que eu gosto, assim... e, vai ser uma fonte de renda, também! (E 11, 17 anos, sexo masculino, curso de Mecânica)
Observa-se aqui uma questão presente nos planos dos jovens estudantes: é necessário aliar trabalho e prazer, mesmo que seja necessária uma formação complementar. Para os jovens entrevistados, há uma diferença entre a profissão como fonte de dinheiro e prestígio e a profissão como fonte de prazer.
Para Rocha (2008), os jovens que estão em busca do primeiro emprego são afetados pelo contexto adverso do mercado de trabalho atual, “uma vez que, normalmente, já estão em situação de desvantagem devido às suas características específicas, como a falta de experiência e a busca de experimentação” (p. 534). Uma das primeiras oportunidades de os jovens obterem experiência profissional é por meio da prática do estágio, e, atualmente, para concorrer a uma vaga como estagiário(a) é também exigida uma prática profissional anterior, dificultando ainda mais a situação do jovem com esse propósito.