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De acordo com Mancebo (2002), os meios de comunicação proporcionam a incorporação de novos conceitos sobre as nossas necessidades. Novos modos de consumo e estilos de vida caracterizam as práticas de sociabilidade e lazer na contemporaneidade. Dessa forma, o mercado globalizado promove novas formas de consumo, como é o caso da compra coletiva. A compra coletiva, realizada por meio de sites da internet, consiste em um grupo de consumidores reunidos para alcançar o menor preço de um produto ou um serviço. Para esses jovens estudantes, a compra coletiva, além proporcionar diversão, é uma oportunidade de reunir os amigos de turma.

Amigos, sempre a gente sai, e assim...aqui na escola (Ifes) , como a gente ainda é estudante, não tem muito dinheiro, né!? Aí, o que a gente faz: a gente compra no Peixe Urbano, um site de compra coletiva e sai para se divertir, porque sempre tem coisa, pizzaria, cinema, então, tudo a gente sai, a gente não fica parado, dá para arrumar tempo, bem que a semana é apertada, mas a gente sempre arruma um tempo para sair, a gente nunca fica parado não, dá para fazer muita coisa! No final da semana a gente faz muito, mas dentro a semana ainda dá, pega um final do dia, para tarde, dá para encaixar aí, não é difícil não, dá tempo! (E01, 19 anos, sexo masculino, Eletrotécnica)

[...] tem as ofertas de compras coletivas, a gente tá sempre antenado e, sempre que tem alguma coisa interessante, que a gente pode passar para a

turma, aí a gente passa porque fica mais em conta e dá prá todo mundo se divertir, entendeu, ainda mais que a gente que é estudante, né, com pouca grana...(risos).(E04, 18 anos, sexo feminino, Eletrotécnica)

Além do usufruto das ofertas de compras coletivas, outras práticas de sociabilidade juvenil, na esfera do lazer e do tempo livre, são apresentadas pelos jovens estudantes entrevistados.

Sábado e domingo geralmente fico em casa [...] Eu não sou muito da balada, eu até gosto de sair, mas...assim...as minhas maiores amizades estão aqui dentro, aí, aqui como um fica em Vila Velha, um na Serra, outro...muita gente espalhada é difícil de juntar. Geralmente, a gente sai no meio da semana mesmo, a gente sai daqui (do Ifes) e vai ali na pizzaria, alguma coisa assim...então, final de semana não faz muita coisa. (E02, 18 anos, sexo masculino, Eletrotécnica)

Final de semana, às vezes, vou prá praia, vou comprar umas coisas, nada fora disso. Final de semana eu adoro assistir filme, ir prá praia de vez em quando, não com muita frequência, mas vou, e assim...é isso! ... (E04, 18 anos, sexo feminino, Eletrotécnica)

No entanto, o preenchimento do tempo livre encontra-se associado ao gerenciamento de um cotidiano ocupado, em grande parte, pelas obrigações escolares, principalmente para os jovens estudantes que têm o objetivo de “passar no vestibular”.

Eu não tenho tempo, prá sair mesmo! [...] Por exemplo, prá sair, eu tenho muito peso na consciência, se eu tenho que estudar... tipo assim, tenho uma prova amanhã, aí hoje eu não posso sair, eu não consigo! (E05, 17 anos, sexo feminino, Estradas)

A existência de tempo livre não implica, necessariamente, lazer. Para alguns jovens, além das atividades escolares, a realização das tarefas domésticas preenche a ocupação do tempo livre nos fins de semana.

Final de semana é para arrumar a casa, porque todo mundo estuda durante a semana. Domingo, eu descanso, vejo alguma coisa na internet, também, arrumo a casa, fico com a família, estudo. Domingo é o almoço tradicional de domingo mesmo, aí, é isso! (E01, 19 anos, sexo masculino, Eletrotécnica)

As redes sociais também ocupam parte do tempo livre desses jovens estudantes. As interações sociais mediante a tecnologia digital

abarca uma gama variada de espaços de troca, que vão desde os correios eletrônicos (e-mails), passando pelas salas de bate-papo (chats), os

programas de mensagens instantâneas (MSN, Google Talk), até chegar nas chamadas comunidades online (Orkut, MySpace, Facebook). (NEVES & PORTUGAL, 2011, p. 15).

Dessa forma, o uso do computador, o acesso à internet e obtenção de notícias por meio de redes sociais são atividades que fazem parte do cotidiano dos jovens entrevistados durante a semana, mas principalmente nos fins de semana. A praticidade e a rapidez ao acesso às informações necessárias são mais um atrativo para esses jovens.

Final de semana, [...] assisto um pouco de tv, [...] computador...Internet, basicamente...Facebook, essas coisas... (E13, 18 anos, sexo feminino, Edificações)

(Computador) Ah, uso bastante! Ou é prá alguma coisa superficial, como usar rede social, ou jogando algum jogo, ou é prá estudar quando você entra prá fazer alguma pesquisa, porque eu acho mais prático. Eu tenho uma enciclopédia em casa, mas na maior parte das vezes eu prefiro usar a internet porque é mais rápido, mais prático. Geralmente, eu fico umas 2 horas por dia. (E16, 17 anos, sexo masculino, Edificações)

No computador, eu passo umas 4 horas por dia, mas não no só no Facebook, checando email, lendo alguma coisa de curiosidade ou lendo...mais lendo ou ouvindo música. Quando tem uma coisa interessante e que tá me prendendo, às vezes eu fico procrastinando...ah, mais um pouquinho! (E14, 17 anos, sexo feminino, Edificações)

As tecnologias de comunicação e informação (TICs) fazem parte da vida da juventude contemporânea e estão cada vez imbricadas na sociabilidade e construção de identidades (NOVAES, 2013). Entretanto, nem só a tecnologia e outros atrativos hightech preenchem o tempo livre dos jovens estudantes entrevistados.

Final de semana, geralmente eu tô estudando ou fazendo alguma coisa prá minha iniciação (científica), mas assim, eu intercalo mais um pouco, não fico estudando 6 horas direto! Aí, assisto um pouco de tv, toco violão, ando de bicicleta, eu vou prá casa dos meus pais, no interior, em Domingos Martins, aí, é basicamente isso... (E12, 18 anos, sexo feminino, Mecânica)

(Nos finais de semana) eu costumo ir ao cinema ou com um outro grupo de amigos meus (que não são do Ifes), ir a Pedra da Cebola, eu ando por ali, toco violão, converso com eles. Não sou muito de descansar e de dormir não. (E16, 17 anos, sexo masculino, Edificações)

Ainda nos fins de semana, os jovens estudantes também dedicam seu tempo livre à religião. A religiosidade entre os jovens entrevistados revela que praticam a mesma religião de seus pais, predominando a católica e a protestante (evangélica).

No domingo, de manhã e à noite eu vou prá igreja, eu sou cristã protestante da Assembleia de Deus, aí então na sexta feira tem ensaio, a noite, do coral da igreja, então também vou e mais tarde a gente sai porque tem as orações dos jovens, aí eu fico, aí então [...] é mais ou menos isso! (E14, 17 anos, sexo feminino, Edificações)

Geralmente, eu não abro mão de ir à igreja, mas as outras coisas eu abro mão para estudar! Vou à igreja e depois eu saio prá lanchar com os amigos e depois eu volto prá casa. Sou atuante na igreja, faço parte do grupo de jovens, sempre tem encontro, eu vou...sou do EAC (Encontro dos Adolescentes com Cristo) (E11, 17 anos, sexo masculino, Mecânica)

O namoro também é influenciado pela família e pela religião por ela praticada, conforme declara a jovem estudante.

Não, não! (não tem namorado) Nosso Deus, meu pai me pega! Casar, ter filho é uma coisa muito longe...Namorado assim, pelo menos daqui a uns dois anos, não tenho prazo não! Não tenho esse desespero. Igual, eu acho engraçado, as meninas reclamando, ah, eu não tenho namorado, eu morro de rir e tiro sarro da cara delas! Se for prá casar, eu acho que eu não me casaria antes dos meus 25 não! Mas, sei lá, até lá, acho que Jesus já voltou e o mundo já acabou! Não acho que eu vá casar ainda nesse século, também! (risos). (E14, 17 anos, sexo feminino, Edificações)

11.6.2 A JUVENTUDE, O FUTURO E SUAS POSSIBILIDADES

As viagens também fazem parte dos projetos desses jovens estudantes. Conhecer outros lugares para aprender novos idiomas e conhecer outras culturas, além da possibilidade de aliar prazer, lazer e adquirir novos conhecimentos para aperfeiçoamento educacional e/ou profissional são projetos vislumbrados para a juventude globalizada.

Porque assim, eu penso em terminar minha Engenharia, na..., na França, porque eu já faço francês na Ufes, [...] por exemplo, eu sendo tecnólogo em Gastronomia e já tendo francês, quando eu for fazer lá na França, terminar a minha Engenharia, eu já posso arranjar algum emprego lá em algum restaurante porque é mais fácil, eu falando francês e tendo conhecimento, pelo menos, prá lá, de Gastronomia, é mais fácil (E01, 19 anos, sexo masculino, Eletrotécnica)

Eu pretendo viajar muito, conhecer outros países, outras culturas. [...] só quando eu tiver meu emprego mesmo! Eu tenho muita vontade de conhecer a Europa, os Estados Unidos, a África, também...acho tudo muito interessante!( E03, 19 anos, sexo feminino, Eletrotécnica)

Importa ressaltar a diversidade existente no Ifes. Enquanto alguns jovens pretendem conhecer novos lugares depois da conclusão de seus estudos, outros viajam, com frequência, principalmente com suas famílias em período de férias.

Vou prá Rússia daqui a duas semanas. Todo ano a gente (a família) viaja prá um lugar diferente prá não ficar repetindo! Já fui para os Estados Unidos e Espanha... (E16, 17 anos, sexo masculino, Edificações)

Já fui à França e à Suíça, aqui (no Brasil), fui a Gramado, muito bom, adorei, é, São Paulo... e tô prá ir pro Canadá este ano, passar um mês lá. (E12, 18 anos, sexo feminino, Mecânica)

Chamamos a atenção para essa jovem estudante que tem o propósito de viajar para estudar, mas, com a economia do próprio dinheiro, ajudada por seu pai.

Vou pro Canadá fazendo curso de inglês, na verdade no Canadá francês, fazer curso de inglês, que aí eu tenho as duas línguas, tenho que aproveitar ao máximo. Essa viagem pro Canadá, eu que tô pagando, porque...assim, não porque, mas eu que quis pagar! Eu acho que seria interessante assim eu tá indo viajar com meu próprio dinheiro que eu juntei esses últimos anos prá...justamente prá isso (para aperfeiçoar os idiomas)! (E12, 18 anos, sexo feminino, Mecânica)

Ainda ela complementa que suas intenções quanto ao futuro são de uma jovem estudante que parece saber o que quer e para onde vai, com tudo alinhavado entre presente e futuro. Essa jovem estudante parece ter um projeto de vida bem delineado e representa a possibilidade de programar um futuro e elaborar outras formas para atingi-lo.

(Quero) entrar na faculdade, começar a fazer aula de alemão, é...provavelmente tentar um Ciências sem Fronteiras, ou alguma coisa assim, prá estudar fora, na França ou na Alemanha. Por que a França? Porque minha madrasta é francesa, então eu falo alemão, falo francês um pouco, tenho onde ficar, então...sou apaixonada pela França [...] Nossa! A França é perfeita, é não querer voltar! (risos). [...] Depois que eu passar, se eu conseguir um Ciências sem Fronteiras...meu projeto (de iniciação científica) também...foi uma das coisas que me animou fazer o meu projeto é porque os créditos dele contam bastante na seleção prá esse programa, essas bolsas do governo e tal.(E12, 18 anos, sexo feminino, Mecânica)

Além dos planos de conhecer novos lugares, o desejo de constituir uma família é relatado como uma possibilidade em longo prazo. A fala de um jovem chama a atenção sobre a responsabilidade de constituir uma família e suas consequências.

No lado pessoal, ou me casar ou morar junto com alguém e acho que eu não quero ter filhos não! Por enquanto eu acho que não, quem sabe no futuro, mas agora eu acho...não ter filhos agora, agora eu penso que no

futuro...quem sabe depois eu mude de ideia, mas por enquanto...(E 16, 17 anos, sexo masculino, curso de Edificações)

O relato de uma jovem estudante indica que casamento e maternidade parecem não fazer parte, de forma imediata, de seu projeto de vida.

Casar e ter filhos não aparece nos meus planos, não! Sinceramente, não! Pelo menos, agora não, assim por enquanto...Eu não me vejo assim, sabe!? Tendo filho? Não! (E12, 18 anos, sexo feminino, Mecânica)

Certamente, os projetos de vida desses jovens são plurais e construídos com base em suas experiências e suas subjetividades. Concluir ensino médio, ingressar no ensino superior, entrar no mercado de trabalho e conhecer novos lugares e casar foram aspectos apresentados que, possivelmente, farão parte do futuro dos jovens estudantes do Ifes. Dessa maneira, um mosaico de possibilidades será evidenciado em uma perspectiva de atualização de seus planos individuais (MAIA & MANCEBO, 2010).

12. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As transformações do mundo contemporâneo e seus desdobramentos no mundo do trabalho trazem repercussões psicossociais, sobretudo para os jovens que, em transição para a vida adulta, vivenciam suas dúvidas ante as escolhas profissionais e a imprevisibilidade quanto ao futuro.

Qualificar a juventude como plural significa apreciá-la como uma categoria heterogênea, complexa e pertencente a um contexto contemporâneo em que prevalecem as mudanças, as incertezas e os desafios (VELHO, 2006; GARCIA, 2009).

O trabalho que, também, possui um caráter plural e polissêmico ocupa grande parte do tempo e do espaço da vida dos indivíduos. A centralidade atribuída ao trabalho na sociedade capitalista contemporânea permite considerar dois aspectos: de um lado, existem (muitas) pessoas sem empregos; de outro, (muitas) outras que executam um trabalho excessivo que, por vezes, causa adoecimento.

Consideramos que não se pode naturalizar juventude e trabalho, já que surgem de condições sociais, históricas e culturais em que foram produzidos, como fenômenos.

De acordo com os jovens entrevistados, ser aluno do Ifes sugere, em princípio, um projeto de vida que pode proporcionar outros projetos. Os principais motivos para o ingresso no Ifes e para a escolha dos cursos profissionalizantes encontram-se alinhados com o campo de possibilidades, podendo favorecer opções de oportunidades e facilitar o ingresso em universidades públicas e, consequentemente, a entrada desses jovens no mercado de trabalho. Permanecer como aluno do instituto requer persistência e dedicação desses jovens estudantes. Suas trajetórias escolares são lineares, sem reprovações nem interrupções, e todos consideram ser bem sucedidos.

Com base nas entrevistas realizadas com os participantes desse estudo, observamos que suas perspectivas de futuro e seus projetos de vida revelam uma apropriação da ideologia no mundo do trabalho, na qual a qualificação é uma

exigência premente. Por isso, para esses jovens estudantes, estudo e trabalho encontram-se atrelados.

A noção desses jovens de que “o trabalho é a evolução do estudo” é baseada na lógica do mercado de trabalho que exige profissionais escolarizados e qualificados. Por meio do ideário da “sociedade do conhecimento”, os jovens estudantes associam a conquista de um bom emprego à maior qualificação.

O sentido do trabalho apresenta-se de forma contextualizada nos projetos de vida dos jovens estudantes. O trabalho é reconhecido como “um dever”, “uma coisa tão comum”, como meio de concretização de desejos de consumo, mas também como realização pessoal. Dessa maneira, o trabalho parece constituir um valor relevante para os participantes, apresentando-se como central em seus projetos de vida.

O lazer e a ocupação do tempo livre também são apresentados por esses jovens estudantes. O “tempo livre” é preenchido por atividades que não prejudicarão as tarefas escolares. Para os estudantes que acumulam os estudos do Ifes e as obrigações do pré-vestibular, o “tempo que sobra” é destinado ao sono e descanso.

Medos e esperanças também são relatados por esses jovens estudantes. Enquanto uns parecem acreditar no futuro, outros relatam seus medos. Medo de perder tempo, medo de não passar no vestibular ou medo de fazer uma escolha errada são apresentados por esses jovens.

É preciso considerar que os sentidos atribuídos ao trabalho pelos jovens estudantes, bem como os outros aspectos que foram evidenciados por este estudo como integrantes de seus projetos de vida, não esgotam todos os significados socialmente construídos sobre o trabalho, assim como os estudos existentes não foram suficientes para abarcar toda a complexidade que envolve trabalho e juventude. Tais fenômenos merecem novas contribuições em virtude da relevância que ambos representam para a sociedade contemporânea.

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