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Na nossa revisão de literatura, constatámos que existe a opinião consensual de que têm de existir momentos em que os guarda-redes treinam individualmente e momentos em que treinam com o resto da equipa. No entanto, parece-nos que existem alguns pormenores sobre aquilo que pode ser feito individualmente e em grupo, que merecem alguma discussão com a forma como os nossos entrevistados treinam os seus guarda-redes.

O primeiro aspecto que nos parece importante salientar e ao qual ambos os nossos entrevistados dão muita importância é à necessidade do treino possibilitar que o guarda-redes se forme segundo o perfil e o modelo definido para a formação no clube. E se Wil afirma que o processo se deve reger pelas mesmas directrizes desde os sub-9 até aos seniores, sendo a continuidade do processo um traço de equilíbrio e de coerência, Peres foca a importância de um modelo de trabalho que seja coerente e permita que todos os guarda-redes treinem segundo os mesmos objectivos ao longo da formação.

O segundo aspecto prende-se com a forma como o guarda-redes deve ser treinado para que consiga funcionar como um elemento da equipa e consiga evoluir nos seus desempenhos.

De acordo com Wil Coort, a eficiência nas acções dos guarda-redes é dada pela capacidade deles reconhecerem as situações de jogo e isso será efectuado tanto mais cedo, quanto maior for a quantidade de situações de jogo promovidas pelos exercícios de treino. Por isso é que Wil afirma que na sua visão, o guarda-redes não pode ser treinado apenas individualmente, ele tem de treinar e interagir com a equipa na resolução de problemas colectivos. Wil explica o seu trabalho na formação: “O que tento fazer aqui é, uma vez na semana treinamos separadamente com os guarda-redes e depois eles treinam- se durante o resto dos dias com o grupo. Posso treinar cruzamentos, um contra um, bolas no espaço ou mesmo defender a linha, porque também é importante que o saibam fazer. Para mim isto é muito importante e o que tento dizer aos treinadores é o que é que eu treinei nesse dia e tento sensibilizá-los para que eles ao longo da semana realizem alguma situação com os guarda-redes e com o grupo, o que transmite aos guarda-redes a noção de coerência” (Anexo

I). Ou seja, uma vez por semana os guarda-redes têm uma sessão só com o treinador de guarda-redes, mas depois ao longo da semana, o objectivo é que o treinador principal seja capaz de elaborar pelo menos um exercício em que o guarda-redes exercite bastante o conteúdo que treinou individualmente e que assim possa treinar aquilo que fez adequado aos colegas de equipa e em situação de jogo reconhecendo tanto timings de acção, como melhorando a comunicação com os colegas. Isto porque na opinião de Wil: “o grupo não é composto por vinte jogadores mais dois guarda-redes! É um grupo de vinte e dois jogadores e os treinadores têm de saber também qual é o trabalho do guarda-redes” (Anexo I). Então o treinador principal também deve saber qual é o trabalho dos guarda-redes, deve perceber de treino de guarda-redes e deve saber como os corrigir ao longo da semana contribuindo para o desenvolvimento de todos os jogadores.

Ricardo Peres tem uma opinião semelhante ainda que o trabalho no seu clube seja diferente porque neste momento todos os escalões da formação têm um treinador de guarda-redes, o que faz com que esteja sempre ou quase sempre presente um treinador para os guarda-redes. Mas Peres denota igual preocupação em que o guarda-redes seja um elemento importante e identificado com o colectivo: “Eu vejo o guarda-redes como um jogador singular, dentro do colectivo, fazendo parte deste mas com as suas características muito singulares, penso que é um elemento que tem assumido ao longo dos anos e ao longo dos tempos uma maior preponderância no jogo…” (Anexo III). Ou seja, existe de facto a noção de que os guarda-redes têm funções muito específicas e distintas dos demais, mas isso não quer dizer que não faça parte da equipa, pelo contrário! Deverá estar ainda mais integrado para que essas suas acções distintas não estejam alienadas da forma de jogar da equipa. Daí que Peres quando questionado se se preocupa tanto com a especificidade das técnicas dos guarda-redes como com a especificidade dos comportamentos com a equipa, responda: “Sim, completamente de acordo. É aquilo que estávamos a falar há pouco, é o singular dentro do colectivo. Primeiramente, o guarda-redes está inserido no colectivo, com características diferentes, mas dentro do colectivo” (Anexo III). Daqui podemos depreender que o guarda-redes tanto deve treinar individualmente as questões táctico-técnicas como em grupo, sendo que o

estar a realizar as acções em situação de jogo e com a equipa promove a criação de interacções que no jogo emergirão mais facilmente e tornarão os processos mais fluidos e eficazes.

Na nossa revisão de literatura, todos são da opinião de que o guarda- redes deve treinar individualmente e colectivamente. Mas individualmente surgem alguns aspectos que achamos que não têm de ser necessariamente assim. Cabezón (2001) refere que, na sua opinião, no treino individual o guarda-redes exercita as acções técnicas e as capacidades físicas através de tarefas analíticas. Tanto Wil como Peres apontam a criação de situações de jogo como fundamentais para uma aprendizagem mais eficiente. Para além disso, o analítico pressupõe que o guarda-redes saiba sempre exactamente aquilo que vai fazer e portanto a variabilidade, a tomada de decisão e a antecipação são processos pouco treinados e segundo os nossos entrevistados são absolutamente fundamentais e indispensáveis. Vásquez et al. (2002) sugere que essas situações de tarefas não especializadas (de desenvolvimento físico e variabilidade e incerteza nulas) podem surgir tanto individualmente como com a equipa. Parece-nos que, tal como referimos anteriormente neste trabalho, o treinar o físico não tem de impedir que todas as outras dimensões não sejam treinadas e os nossos entrevistados apresentam uma visão que coloca o físico numa posição de presença constante na exercitação. Ou seja, o exercício ao conter todas as dimensões trabalha-as a todas num contexto específico.

Portanto, podemos afirmar que o guarda-redes tem de ser trabalhado de forma individual e com a equipa e o facto de estar a treinar individualmente não implica que faça tarefas analíticas. Deve sim realizar situações que permitam a sua melhoria nas acções técnicas, sempre com um cunho táctico presente (nem que seja ao nível da tomada de decisão que é um acto táctico em si) e com a componente física e psicológica associada.

Os nossos autores têm opiniões semelhantes mas a diferença de realidade na forma como os dois clubes têm os treinos de guarda-redes estruturados acabam por ditar ligeiras diferenças ao nível do entendimento que existe sobre o papel do treinador principal. No caso de Peres, apesar de nos parecer que a equipa técnica funciona como um todo, ele acaba por não referir aquilo que Wil salienta porque isso não é uma preocupação para si. O treinador

principal não tem necessariamente de estar tão atento a intervir com os guarda-redes, ainda que concordemos em absoluto que todos os elementos da equipa técnica devem dominar tudo aquilo que é feito por todos. O facto de se ser especialista numa determinada área do treino não implica desconhecimento das restantes e todos têm de saber aquilo que querem para os seus jogadores, logo devem saber corrigir no sentido de direccionar para o que se pretende.

4.3.2 Treinar em Especificidade: um imperativo para o alcançar de

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