Como pudemos constatar na revisão de literatura, o conceito de Especificidade, como algo que é único de cada equipa e que reflecte uma determinada forma de treinar e de jogar, é muito importante para que os Princípios e os Sub-princípios se possam articular em todos os momentos do jogo. Existem alguns autores que apenas se reportam à especificidade como um conjunto de funções comuns a todos os guarda-redes de Futebol. No entanto, consideramos que a noção de Especificidade é imprescindível para a construção de uma forma de jogar coerente e identificativa de uma equipa e como tal, terá de estar sempre presente.
Tanto Wil Coort como Ricardo Peres entendem o conceito de Especificidade com “E” grande. Ou seja, aquilo que é realizado no treino é no sentido de promover a aquisição de comportamentos únicos, porque são identificativos da forma como se pretende que os guarda-redes joguem para a equipa. Ou seja, as acções do guarda-redes estão perfeitamente enquadradas no jogar colectivo. Como Peres afirma, a especificidade dos comportamentos colectivos é tão importante como a especificidade das técnicas do guarda- redes, porque: “Primeiramente, o guarda-redes está inserido no colectivo, com características diferentes, mas dentro do colectivo” (Anexo III). Wil Coort é explícito quando afirma que os seus treinadores de guarda-redes ao longo dos anos não moldaram a forma como actualmente vê o treino de guarda-redes, pois muitos deles: “trabalhavam da mesma forma que muitos trabalham, apenas na linha de baliza…” (Anexo I). Então não restam dúvidas de que, independentemente daquilo que todos os guarda-redes têm de fazer, é
necessário que se desenvolvam situações que permitam o entranhar do jogar da equipa.
Um dos melhores exemplos das ideias de ambos os treinadores de guarda-redes está presente nas suas afirmações sobre aquilo que privilegiam nas transições. Ambos os treinadores referem que treinam aquilo que querem que os guarda-redes façam, em função dos jogadores da sua própria equipa e que é fundamental que eles saibam as diferenças entre colocar a bola para uns ou para outros. Isto é Especificidade! Saber como aplicar uma acção técnica a um contexto táctico e dependente de informações dadas pelo contexto.
Quando Coort afirma: “Por isso, tens de construir exercícios relacionados com a forma de jogar da equipa e com vários momentos de intervenção em que possas dar a cada guarda-redes o feedback que ele precisa para evoluir” (Anexo I), percebemos claramente o conteúdo dos seus treinos e em que medida eles contribuem para o envolvimento colectivo do guarda-redes. E a Especificidade é algo que terá de estar presente no processo desde o primeiro dia, pois como afirma Peres: “Nós já temos um modelo bastante cimentado e desde o primeiro dia que o guarda-redes se treina congruentemente com o modelo da equipa. Portanto, não há espaço para que isso possa não acontecer…” (Anexo III). Destas afirmações podemos depreender que as ideias que queremos implementar têm necessariamente de entroncar na criação de situações de jogo pois são estas que permitem o desenvolvimento de hábitos contextualizados aos vários cenários que podem surgir. Tal preocupação é evidente na afirmação de Wil: “Eles têm é de treinar na forma em que se relacionam no jogo” (Anexo I). A variabilidade e a incerteza do jogo podem ser diminuídas se o processo de treino tiver isso mesmo em consideração, pois quando Wil afirma que o Hulk sabe como o Helton lhe vai tentar colocar a bola ou o Peres refere que o Yannick e o Derlei sabem que o guarda-redes conhece a forma como lhes deve tentar colocar a bola, estamos a falar de comportamentos intrínsecos da equipa, que são treinados para que o sucesso possa surgir mais frequentemente.
E estas ideias devem partir da formação. Se Wil afirma que essa é uma incondicionalidade do seu processo de formação pois dos sub-9 até aos séniores a linha de formação deve ser a mesma, Peres também é claro quando salienta a importância de se ensinar aos jogadores mais novos a forma como
devem jogar: “Eu quero guarda-redes com perspectivas de futuro e devo fazê- lo de acordo com o perfil a alcançar…e quanto mais cedo se começar a trabalhar isto melhor…” (Anexo III). Então podemos afirmar que a Especificidade de um Modelo que seja transversal a todos os escalões de formação, permite a criação de uma cultura no clube e o desenvolvimento de um perfil de guarda-redes sustentado pela coerência.
Para ambos os autores a Especificidade é um conceito nuclear que tem de estar sempre presente e que desde os escalões de formação se deve fazer sentir para que se desenvolva a inteligência específica do guarda-redes, no jogar da(s) equipa(s) que se deverá apoiar no Modelo de Jogo, quer este seja transversal a todos os escalões do clube, como no caso do clube de Wil Coort, quer existam diferenças entre os Modelos de Jogo para a formação e o Modelo de Jogo da equipa sénior, como no caso do clube de Peres (ainda que actualmente exista uma linha contínua porque o próprio Ricardo Peres considera isso fundamental). Mas a Formação não pode mudar a sua forma de jogar de cada vez que chega um treinador novo, portanto, este é um aspecto que deve ser sempre tido em conta pois depende das pessoas que estão nos clubes.
Para os nossos entrevistados, não há espaço para que a Especificidade de comportamentos não exista e mais uma vez é importante salientar que isso não implica que não existam acções específicas comuns a todos os guarda- redes mas não podemos reduzir o conceito a apenas isso. Portanto, temos de tentar entender que certos estudos sobre a frequência de comportamentos do guarda-redes, se referem à realidade que estudaram e não obstante a sua importância, não os podemos generalizar e pensar que isso são comportamentos específicos de todos os guarda-redes e que todos temos de treinar para que assim seja. O processo de treino deverá ser o de cada um e os guarda-redes deverão fazer parte dele para que, tal como salienta Tamarit (2007), o ADN da equipa possa emergir e possa representar a concepção de jogo de cada treinador, contribuindo os diferentes “jogares” para a existência de um Jogo mais rico e diversificado.
4.3.3 Período Preparatório e Microciclo Semanal Tipo: que