Relativamente às qualidades físicas, os nossos entrevistados apesar de não terem um entendimento totalmente distinto do papel da componente física no treino do guarda-redes, a verdade é que nos parece que existem ligeiras diferenças.
Wil afirma que nas suas sessões de treino apenas se preocupa com os aspectos táctico-técnicos e que não se preocupa em realizar exercícios para a vertente física. E isto porque segundo o treinador holandês: “…ao longo da semana eles têm muito trabalho com a equipa que os tornam bem preparados fisicamente! Têm de defender a linha, têm de sair rapidamente para bolas no espaço…por isso gosto de os treinar nas questões táctico-técnicas” (Anexo I). Então existe um entendimento de que o guarda-redes fica fisicamente apto através do esforço que realiza nos exercícios, desde que estes exercícios representem situações de jogo e da forma de jogar da equipa, pedindo por isso acções físicas específicas da forma de jogar naquela equipa. Wil acredita que em termos físicos, tem de preparar o guarda-redes exactamente para aquilo que ele vai ter de fazer. A única excepção surge na pré-época em que o treinador holandês afirma que realiza exercícios com objectivos físicos, mas sempre com uma determinada acção técnica ou táctica presente, sendo o físico reduzido a situações com bastante corrida num sentido específico, isto é, o guarda-redes tem de correr mas no espaço e nas zonas que terá de correr durante o jogo, preparando assim as suas acções.
Peres, apesar de ser um acérrimo defensor da criação de situações de jogo para a compreensão das tarefas pelos guarda-redes e para a aquisição dos comportamentos táctico-técnicos e de tentar que nas situações de treino estejam contemplados todos os factores de rendimento (ou seja, procura uma abordagem holística), não concorda totalmente com Wil. O treinador português afirma que: “…se tiver de realizar um exercício que contenha apenas a dimensão física, apesar de raramente o fazer, faço-o! Agora, tenho é de saber porque é que o estou a fazer, com que objectivos! E muitos olham para os outros e vêm que está a fazer físico, não tem bola…mas a questão é: porquê?” (Anexo III). Ou seja, podemos perceber que o ponto de vista é diferente, apesar de ambos procurarem que todas as dimensões estejam incluídas nos exercícios. Mas há um aspecto que Peres salienta que é muito importante: temos de saber o porquê de fazermos aquilo que fazemos! Independentemente da metodologia que seguimos, temos de a saber sustentar e de ser competentes naquilo que fazemos, seguindo um caminho coerente.
Agora, aquilo que podemos verificar em ambos é que o físico surge como algo que está necessariamente presente. Enquanto Wil atesta claramente que tirando o período da pré-época nunca realiza tarefas em que o físico seja um objectivo a atingir, Peres “nunca diz nunca” e apesar de tentar incluir todas as dimensões nos exercícios, afirma que se tiver de criar uma situação só com objectivos físicos, também o faz, desde que tenha esses objectivos claramente definidos e haja uma razão sustentada para o fazer. Na nossa revisão de literatura, Madeira (2002), Hoek (2006) e Sainz de Baranda et al. (2005a) têm opiniões semelhantes aos nossos entrevistados na medida em que concordam que o físico deve surgir relacionado com as restantes dimensões e entendem a vertente física como um complemento fundamental para a execução dos gestos táctico-técnicos. Quando se entende a força no guarda-redes como algo importante para o salto, do soco na bola ou do lançamento com a mão, nota-se que essa visão é distinta das demais. Sainz de Baranda et al. (2005a) refere mesmo que os deslocamentos, os saltos e as quedas são as acções físicas a serem treinadas e apresentam aspectos do jogo em que estas acções estão presentes e referem que são nelas que o guarda-redes tem de se aperfeiçoar.
Um entendimento distinto dos nossos entrevistados tem Cabezón (2001) que sugere que o treino físico do guarda-redes deverá ser realizado analiticamente. Parece-nos que tanto as ideias dos autores anteriormente referidos, como dos nossos entrevistados têm uma maior possibilidade de se alcançarem desempenhos tácticos melhores e mais rapidamente. Podemos afirmar que estas diferenças estão necessariamente relacionadas com aquilo que se pensa sobre a táctica e sobre aquilo que o treino deverá induzir. Se pensarmos a táctica como a aquisição de comportamentos e de intenções em contexto de acção, percebemos que tudo tem de estar incluído e que nenhuma das dimensões se poderá treinar isoladamente (pois mesmo o melhoramento da técnica tem as outras dimensões presentes). Nesse sentido temos de comparar aquilo que Carta (2001) refere que deve ser o período da pré-época com a opinião de Wil Coort (acima exposta) e mesmo a de Peres que salienta que: “Nas primeiras semanas o nosso principal objectivo é tentar de forma progressiva criar uma aproximação geral ao Microciclo tipo” (Anexo III). Ou seja, existem objectivos muito para além dos físicos nesta fase da época e é por isso que quando Peres é questionado sobre a altura da época em que começa a dar importância aos princípios que pretende ver nos seus guarda- redes realizarem, responde da seguinte forma: “Desde o primeiro dia” (Anexo III).
Se as diferenças entre Wil e Peres são mínimas, quando os comparamos com a revisão de literatura, encontramos semelhanças e diferenças claras que nos levam a referir mais uma vez que não queremos afirmar que uns são melhores do que outros, mas o estar preparado fisicamente não implica deixar de treinar as restantes dimensões, até porque o treinar dessas mesmas dimensões não poderá nunca excluir o físico (é parte do ser e o esforço é inegavelmente mental e físico). Por isso, a reflexão é no sentido de procurarmos a melhor forma de ter os guarda-redes mais preparados e dentro do modelo o mais cedo possível, sem que com isso demonstrem lacunas em qualquer uma das dimensões do rendimento.
4.2.3.3.7 Qualidades Psicológicas
Por tudo isto que foi referido, a nossa visão sobre os factores psicológicos alinham pela mesma ideia: a melhor forma de os desenvolver é
em situações onde todos os restantes elementos estejam incluídos. Mas psicologicamente, para que aspectos têm os treinadores de guarda-redes dirigir a sua instrução e intervenção?
Wil Coort levanta uma questão muito importante relativamente ao papel que o guarda-redes desempenha no jogo. Numa equipa que passe a maior parte do tempo no meio campo ofensivo, o treino do guarda-redes deve-o preparar para que situação? Como diz Wil: “Então a questão é: temos de o preparar fisicamente para o extremo ou para os vinte minutos seguidos que ele tem sem tocar na bola? Porque a segunda opção é mais um problema de concentração, por isso, temos de o preparar sobretudo para situações de jogo que possam surgir” (Anexo I: 9). Ou seja, a capacidade de concentração que é apontada por todos os autores da revisão de literatura como fundamental para o guarda-redes é também aqui referida, mas sob um prisma distinto: o do treinar para essa realidade que surge frequentemente! A ideia é de que, se o guarda-redes não necessita de uma concentração que lhe exige uma intervenção constante, então necessita de se concentrar de forma distinta, para intervir espaçadamente e o treino deve procurar prepará-los para isso. O treinador holandês também refere a necessidade dos guarda-redes serem mentalmente fortes e equilibrados e de terem uma grande motivação interna para se conseguirem manter ao mais alto nível, ou seja, uma estrutura mental que suporte o erro, o falhanço, a crítica e que simultaneamente seja capaz de alimentar o corpo para continuar.
Ricardo Peres refere que: “…os nossos guarda-redes têm de ser muito fortes psicologicamente, muito seguros de si e do valor que têm (…) têm de ser humildes o suficiente para beberem tudo quanto possam do modelo que lhes queremos aplicar. E é essa humilde, a par do valor, da aplicação do modelo e com o trabalho psicológico que deve ser feito no trabalho do dia-a-dia que nos levará a alcançar o perfil de guarda-redes para o clube “ (Anexo III). Ou seja, podemos depreender que existe um consenso quanto à necessidade dos guarda-redes serem fortes psicologicamente e isso é fundamental para ajudá- los a ultrapassar alguns dos aspectos focados por alguns autores da nossa revisão de literatura: a capacidade de lidar com o erro e a pressão da própria posição. O próprio Peres refere mesmo que quer nas suas equipas, guarda- redes que saibam lidar com o erro e que cresçam com ele, que sejam
corajosos e que sejam capazes de se manterem frios em situações de maior pressão e tensão, mantendo igualmente a eficácia. A confiança neles mesmos também é referida por Peres e surge a humildade como um aspecto apenas focado por Peres e que do nosso ponto de vista reflecte muito da cultura do clube onde está o treinador de português, já que como o mesmo aponta, esse é um aspecto importantíssimo para que o guarda-redes possa alcançar o perfil que o clube definiu para essa posição.
Resumindo, a capacidade de concentração, de superar o erro e a pressão do jogo possuindo uma estrutura mental forte e equilibrada, a coragem, a confiança e a humildade são aqueles aspectos que sobressaem das afirmações dos nossos entrevistados. Podemos ainda depreender que tanto a capacidade de antecipar como a comunicação com os colegas de equipa são aspectos igualmente importantes e aos quais os nossos entrevistados darão importância, já que ao longo das entrevistas vão referindo que é fundamental que o guarda-redes esteja preparado para percepcionar e antecipar cenários que o jogo pode fornecer (treinando isso) e focam a necessidade dos guarda-redes comunicarem com os colegas de equipa nas situações de bolas paradas e de cruzamentos, coordenando-os e cooperando. Estes aspectos vão de encontro àquilo que encontramos na revisão de literatura, sendo que até temos ainda mais aspectos que são referidos pelos nossos autores que poderão ser igualmente exponenciados caso seja essa a ideia do treinador de guarda-redes. Aqui foi apenas apresentada a visão dos nossos entrevistados.
Do nosso ponto de vista, até este momento, a diferença mais evidente que podemos verificar entre Wil Coort e Ricardo Peres está ao nível da concepção ideológica, o que poderá estar influenciado tanto pelos aspectos culturais, como pelas próprias experiências de cada um. Wil Coort tem a formação da escola holandesa, uma escola que nas suas raízes tem a ideologia do Futebol ofensivo e como referência o Futebol Total de Rinus Michels, mais tarde reavivado por Johan Cruyff. Como já pudemos verificar, Cruyff tinha um entendimento sobre o guarda-redes muito semelhante àquele que vemos nas ideias de Hoek e também nas de Wil Coort. Por outro lado, Ricardo Peres não tem estas referências como um passado vivido e
experienciado. Claramente que as conhece, mas é diferente ouvir falar ou ler sobre, de ter estado no terreno a trabalhar segundo uma determinada ideologia. Por isso, tem a sua ideia de jogo e de treino, diferente da de Wil, mas com ideias muitíssimo interessantes e com grande preocupação em trabalhar os guarda-redes com base nos processos de decisão, percepção, apoiados em progressões pedagógicas muito bem delineadas para os diversos escalões da formação e para os seniores. De referir que para se ser competente, basta dominar o conhecimento a que temos acesso e tal como pudemos ver na estruturação dos conteúdos e na definição dos princípios que ambos privilegiam, ambos são competentes.