2 Production d'énergie
2.8.1 Irradiance
Howe & Scovell (1991; Folgueira, 1981, cit. por Madeira, 2002) afirmam que o guarda-redes deve ter um sentido correcto em relação à marcação de cantos, de livres, de cruzamentos, de grandes penalidades, etc. Concretamente, o que é que isto nos diz? “Um sentido correcto” é demasiado abstracto para podermos perceber o que é estar na baliza de forma correcta ou incorrecta. Pelo que já foi dito, o táctico exige uma intenção individual relacionada com o colectivo, pelo que o posicionamento nas situações referidas tem de ser contextualizado e adequado àquilo que pretendem que ele faça.
Wil Coort acredita que o guarda-redes nunca poderá ser responsabilizado pela defesa da baliza toda porque essa é uma tarefa praticamente impossível de alcançar, logo existe a necessidade de se designarem tarefas colectivas para a defender nos livres e nos cantos. De acordo com Wil, na constituição da barreira nos livres, “o segundo e terceiro jogadores a partir de fora têm de ser os mais altos porque é esse o ponto fraco do guarda-redes, é a parte mais difícil para ele alcançar e depois o guarda- redes fica sempre mais preocupado com o outro lado da baliza. (…) Então, num livre directo, ele é responsável por cobrir o seu lado e a metade mais
próxima da distância que a barreira cobre” (Anexo I). Nos cantos, o treinador holandês divide a área em três zonas: a primeira até ao primeiro poste (a partir do local onde é batido o canto), a segunda que abrange a zona entre ambos os postes, ou seja, o meio da área e a terceira que é a zona do segundo poste. Segundo ele: “Não lhes podes dizer para defender as três áreas, porque para começar, à primeira área o guarda-redes não deve ir, fica muito deslocado do local que devia ocupar e como a bola demora menos tempo a lá chegar, ele tem menos tempo para analisar a sua trajectória! Então tens de treinar e tentar concentrar a acção do guarda-redes nas segunda e terceira áreas. Eles são responsáveis por essas áreas e quando a bola entra ao primeiro poste, ele apenas tem de defender a linha! Eu digo-lhes: «não vão lá, porque em cada dez vezes que lá vão, sete vezes falham a bola!» Há muitos jogadores nessa primeira área, então porque há-de o guarda-redes lá ir? Não é necessário” (Anexo I). Portanto, conseguimos perceber que existe uma clara preocupação em concentrar a decisão e a acção do guarda-redes em aspectos muito específicos, em que tanto ele como os restantes colegas da equipa sabem como defender a baliza e a área nos livres frontais e nos cantos. Ou seja, é aquilo que chamamos de princípios porque a acção é determinada por um certo início que lhes diz o que realizar. Qualquer acção técnica tem como base uma intenção e uma decisão que se inicia a partir de um determinado estímulo que o jogo fornece (bola ao 1º poste ou para o meio num canto, designam comportamentos colectivos distintos, respectivamente).
Ricardo Peres salienta a importância de se transmitir aos guarda-redes que nas situações de bolas paradas, em que existem muitos elementos na área, o guarda-redes tem de focalizar a sua atenção na bola. Nesses momentos, em que a quantidade de estímulos que são fornecidos aos guarda- redes são enormes e vão aparecendo sucessivamente e com diferenças de milésimos de segundo, Ricardo procura que os seus guarda-redes tenham bem presentes na sua mente que: “É impossível processar tanta informação em tão curto espaço de tempo já que, não é desde que a bola sai do pé do jogador que bate o livre, é quando ela se começa a aproximar dos locais onde alguém lhe pode tocar” (Anexo III). Por isso, os guarda-redes têm como princípio de base focalizarem a atenção na bola e Peres conclui dizendo que: “Logo, aquilo que dizemos aos guarda-redes é: focalizem a vossa atenção na bola! Se
ninguém desviar, continuam a realizar a acção para defender a bola porque continuam concentrados no ponto mais importante: a bola” (Anexo III). Depois disso, nas situações de livre frontal e livre lateral, o número de jogadores adversários junto da bola, o número de jogadores que estão na barreira e a posição da bola são aspectos que influenciam tanto o posicionamento como o próprio comportamento do guarda-redes. Nos pontapés de canto, a sua equipa marca homem a homem, portanto a preocupação do guarda-redes será em se posicionar de acordo com o pé dominante de quem irá realizar o esquema táctico e em coordenar as marcações na área, preocupando-se em dominar o seu espaço. De referir que este tipo de trabalho é efectuado desde a formação, portanto os guarda-redes que chegam à equipa principal já têm as ideias e os princípios bastante assimilados e isso é um aspecto importante na realização dos comportamentos: saber-se exactamente aquilo que se tem que fazer!
Apesar de ambos os entrevistados darem importância à estruturação de princípios de acção para a forma como o guarda-redes se deve comportar nas situações de bolas paradas, existe uma diferença entre ambos: enquanto Wil define claramente as zonas da área onde o guarda-redes tem de intervir e onde não tem de o fazer, Ricardo dá mais importância a um constante ajustamento ao contexto e são as informações que o contexto acaba por dar (local da bola, adversários junto à bola e jogadores na barreira) que define a forma como o guarda-redes se vai posicionar e como vai tentar agir. Mesmo nos pontapés de canto, é do processamento de informação e da leitura da forma como a bola vai (a qualquer zona da baliza) que vai definir se o guarda-redes sai ao cruzamento ou não.
Parece-nos que as ideias de Wil concentram a atenção do guarda-redes para acções muito específicas e definem papéis muito claros tanto para os jogadores como para o guarda-redes o que é benéfico. Mas sabendo que toda a formação do clube de Peres trabalha segundo as suas ideias (que são as estabelecidas no modelo de formação do clube) e sabendo que o Futebol, enquanto habilidade motora aberta é sempre executado sob diferentes situações entre os treinos e as competições, faz todo o sentido que os jogadores sejam confrontados com o maior número de situações possíveis.
Ambos procuram que seja o jogo a ditar a acção do guarda-redes, mas a diferença nas ideologias está no facto de Wil centrar muito mais a atenção do
guarda-redes reduzindo a sua acção a duas zonas, enquanto que Peres não realiza essa distinção e fornece indicadores contextuais mais variáveis para que o guarda-redes decida a sua acção.
Então conseguimos entender que quando Esteves (2006) afirma que nos cantos o guarda-redes se deverá situar no último terço da linha de baliza, ele está a tentar dar um cunho definitivo ao comportamento táctico, e é esse entendimento que julgamos ser importante implementar na definição dos conteúdos tácticos do guarda-redes: não podemos afirmar que “é desta ou daquela forma”, o guarda-redes deve estar posicionado de acordo com aquilo que é treinado e nesse desempenho deve ser o mais eficaz possível.
Então, numa fase inicial, a nossa atenção deve-se centrar na definição dos princípios que vamos pretender que o guarda-redes realize. Após sabermos aquilo que queremos que ele faça, podemos começar a eleger os conteúdos técnicos pois serão estes que darão resposta as nossas intenções. Como afirma Wil: “…os princípios estão escritos na nossa filosofia e a única coisa que temos de fazer é guiar as coisas para que haja coerência entre o que fazemos e aquilo que escrevemos” (Anexo I)
Já apresentamos os princípios que os nossos entrevistados privilegiam nas bolas paradas, passamos agora a expor aquilo que eles pretendem que os seus guarda-redes façam nos restantes momentos do jogo.