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Dans le document 2005 - 2006 2005 - 2006 (Page 89-92)

No processo de prática de pesquisa, a abordagem utilizada deve levar em conta os limites e as potencialidades dos instrumentos de ação, considerando os objetivos de pesquisa e as especificidades da realidade estudada. No contexto dessa investigação, utilizamos a abordagem qualitativa. As abordagens qualitativas têm se firmado em pesquisas no campo das Ciências Sociais e Humanas, entendemos que essa abordagem

nos possibilita apreender o fenômeno em sua complexidade, permitindo perceber as diferentes interações presentes nos contextos sociais, constituídas e constituintes dos sujeitos.

Segundo Flick (2004), nas Ciências Sociais e na Psicologia, a pesquisa qualitativa tem sido cada vez mais utilizada e sua relevância “para o estudo das relações sociais deve-se ao fato da pluralização das esferas de vida” (FLICK, 2004, p.17). Para Minayo e Sanches (1993), a abordagem qualitativa entende a realidade social como um mundo de significados passível de investigação, sendo a linguagem matéria-prima dessa abordagem, além disso, essa abordagem permite uma aproximação entre sujeito e objeto.

A abordagem qualitativa realiza uma aproximação fundamental e de intimidade entre sujeito e objeto, uma vez que ambos são da mesma natureza: ela se envolve com empatia aos motivos, às intenções, aos projetos dos atores, a partir dos quais as ações, as estruturas e as relações tornam-se significativas. (MINAYO; SANCHES, 1993, p. 244).

Nesse sentido, não é à toa que como pesquisadora, jovem e mulher, a minha escolha seja justamente estudar jovens mulheres. O sentimento de empatia com as participantes acompanhado do desejo que a minha voz possa abrir espaço para outras tantas vozes, esteve presente ao longo desse processo.

O autor Augusto Triviños (2008) alerta para a exigência de, na coleta e análise dos dados da pesquisa qualitativa, atenção tanto ao participante da pesquisa, quanto ao observador, que é o/a pesquisador/a, e, às anotações feitas por este/esta em campo. Além disso, dados sociodemográficos acerca da população estudada podem ser utilizados no sentido de ampliar a compreensão do campo-tema de investigação.

Na pesquisa qualitativa as técnicas e métodos utilizados interagem dinamicamente, podendo ser reformulados, exigindo flexibilidade por parte do/a pesquisador/a. Como nos afirma Triviños (2008), nesse tipo de pesquisa, os dados podem ser imediatamente analisados e interpretados, recomendando o/a pesquisador/a para o uso de outras técnicas e métodos no campo que não haviam sido pensados até então.

Dentro do contexto da pesquisa qualitativa, optamos por utilizar a pesquisa qualitativa de inspiração feminista. Entendemos que deixar claro a partir de qual perspectiva nós estamos trabalhando é importante uma vez que esse posicionamento é um ato político e como tal traz implicações práticas na condução da pesquisa.

O feminismo tem se apresentado enquanto um movimento político, mas também como um projeto teórico-epistemológico que traz importantes avanços para o

desenvolvimento de pesquisas no campo científico. As epistemologias e metodologias feministas, assim como o pensamento feminista, não é um campo estável, uma vez que existem várias formas de se produzir conhecimento a partir das diferentes teorias. As epistemologias feministas se caracterizam por ser um campo multidisciplinar, defenderem a pluralidade metodológica e entenderem que homens e mulheres produzem ciência de formas diferentes (KOLLER; NARVAZ, 2006).

Segundo Neves e Nogueira (2005), as metodologias feministas têm trazido nos últimos anos novas possibilidades para o estudo das dinâmicas sociais. Um dos principais pontos que as metodologias feministas têm ressaltado é a responsabilidade do/a pesquisador/a no trabalho científico, ou seja, a necessidade da adoção de uma postura reflexiva tanto durante o processo de pesquisa quanto às implicações dos resultados da sua investigação. As metodologias de caráter feminista têm resgatado o valor da crítica e da reflexão na avaliação dos efeitos da dimensão social e relacional na produção dos discursos científicos, a reflexividade é um instrumento de crítica e pressuposto intransponível dentro das metodologias feministas.

No modo tradicional de fazer ciência positivista, a objetividade foi associada à masculinidade, estando à objetividade científica ligada a uma separação entre razão e emoção, o feminismo dentro da ciência contesta essa noção de objetividade, de verdade e de neutralidade que estava muito presente no conhecimento científico. Para as epistemologias feministas, o conhecimento é sempre posicionado e contrário à imparcialidade, uma vez que é necessário ser parcial, se comprometer com o saber produzido na busca pela mudança social. As metodologias feministas são comumente descritas como importantes instrumentos para a construção dessa mudança social (NEVES; NOGUEIRA, 2003; HARAWAY, 1995; KOLLER; NARVAZ, 2006).

É com base neste princípio da igualdade entre os sexos que as metodologias feministas pretendem, acima de tudo, garantir a criação de um compromisso científico, social, cultural e político que legitime e valorize, numa perspectiva de equidade, as experiências dos homens e das mulheres, bem como os significados que homens e mulheres constroem acerca das suas realidades sociais. E é precisamente esta lógica de compromisso declarado que consideramos ser a mais-valia das metodologias feministas, e por inerência, a mais-valia da utilização dos princípios feministas ao serviço da Psicologia (NEVES; NOGUEIRA, 2003, p. 47).

Nesse sentido, essa forma de produzir ciência vai ter uma relação importante com grupos minoritários, grupos que estão em situação de desigualdade social, em especial às mulheres.

A pluralidade metodológica utilizando-se de vários instrumentos tanto na coleta quanto na análise de dados também tem sido um dos pressupostos das metodologias feministas. O argumento principal é que as várias metodologias utilizadas no contexto da investigação aumenta a possibilidade dos/as pesquisadores/as entenderem melhor o que estão estudando, além de proporcionar maior credibilidade aos achados e conclusões.

A opção da pluralidade metodológica pelos/as investigadores/as feministas é assim uma opção técnica deliberada, na medida em que expressa preocupações em prol do compromisso que esta visão da ciência assume face à mudança social. Também por esta razão muitos/as autores/as insistem na ideia de que não há apenas uma metodologia feminista específica, mas antes um conjunto de metodologias que, ao ser usado ao serviço dos princípios feministas, pode ser denominado de metodologias feministas (NEVES; NOGUEIRA, 2003, p. 50).

No contexto de nossa investigação, utilizamos diferentes instrumentos de coleta: a observação registrada em diário de campo, entrevistas semi-estruturadas e análise de letras de rap, corroborando, assim, com os princípios de pluralidade metodológica das pesquisas qualitativas de inspiração feminista. Todos os materiais coletados trazem questões sobre juventude e gênero que pretendemos discutir a partir dos objetivos propostos na pesquisa.

Dentro do campo das metodologias feministas esse processo é mais complexo, uma vez que a preocupação envolve todo o processo de condução da investigação e assumem que os pressupostos epistemológicos, ontológicos e éticos implícitos nos processos de investigação têm implicações políticas, podendo estar a serviço de interesses diversos (KOLLER; NARVAZ, 2006).

Segundo Neves e Nogueira (2003), dentro da psicologia as pesquisas com metodologias feministas são poucas, embora tenha acontecido um crescimento gradual de projetos de investigação e de intervenção que se caracterizam como feministas, e são desenvolvidos por mulheres e com mulheres.

As metodologias feministas têm como objetivo a mudança social e se preocupam com o resgate da experiência feminina, o uso de linguagens não sexistas e com o empoderamento dos grupos minoritários. Outra preocupação especial nesse tipo de pesquisa é a relação do pesquisador/a com os e as participantes, a influência dessa relação nos resultados da investigação e o impacto da investigação nos e nas participantes da pesquisa (KOLLER; NARVAZ, 2006).

Na investigação feminista, a relação desigual de poder entre o/a investigador/a e o/a investigado/a é trabalhada de forma a que a perspectiva do/a último/a seja

validada e reconhecida como fundamental, considerando-se os/as participantes especialistas das suas próprias experiências (KOLLER; NARVAZ, 2006, p. 651).

As pesquisas de inspiração feminista tem contribuído para a transformação social, o engajamento político, para dar voz aos sujeitos pesquisados, tematizando as desigualdades sociais. É a partir desses pressupostos que procuramos trabalhar na presente pesquisa.

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