4. RADIOLOGICAL CONSEQUENCES
4.2. On-site consequences inside the reactor building
Uma pesquisa do Boston Consulting Group (BCG) de abril de 2014 aponta um crescimento no consumo das cidades do interior devido a afluência das famílias de classe média (CUNHA et al., 2014). Segundo a pesquisa, esses consumidores podem representar mais de US$ 600 bilhões até 2020, o que representará mais da metade do crescimento do consumo do país até lá. Essa parcela de consumidores será fonte importante de crescimento em setores relevantes como o automotivo, o vestuário e o de serviços financeiros.
Portanto, há a questão de explorar as regiões interioranas com suas características peculiares. Marcas que souberam perceber o potencial e o estilo de vida das cidades do interior do estado de São Paulo e da região sudeste tiveram um sucesso rápido.
Segundo a pesquisa, as cidades brasileiras do interior têm um grande potencial de consumo ainda pouco explorado. Apesar do Brasil ser fortemente urbanizado, com 85% de seus mais de 200 milhões de habitantes residentes em áreas urbanas, as cidades menores localizadas no interior do país representam a metade da população do país, segundo o estudo.
De acordo com outro estudo do site Business of Fashion (YOUNG, 2014), as cidades do interior representam a metade da população do Brasil. “Em 2020, uma empresa precisará estar presente em mais de 400 cidades para atingir 75% da população do Brasil, em comparação com 229 cidades em 2000”. O mesmo estudo ainda mostra que poucas empresas estão preparadas para aproveitar as oportunidades dessas regiões.
Apenas metade da classe média abastada dos lares entrevistados relataram que consideram marcas de roupas importantes, comparado com 70 a 80% dos entrevistados que disseram que marcas são importantes quando se trata de comprar celulares, carros, comidas e bebidas assim como artigos de cuidados pessoais e bens de consumo duráveis. A boa notícia nesta descoberta é que as marcas ainda não estão fixadas nas mentes da maioria dos consumidores de cidades do interior. Há uma oportunidade considerável para as empresas de vestuário se estabelecerem como líderes com suas marcas no interior (CUNHA et al., 2014).
Segundo o estudo, as empresas para conquistarem essa fatia de mercado das cidades interioranas, precisam de tomar as seguintes atitudes:
• mapear a vida cotidiana das famílias das cidades do interior com o intuito de descobrir como esses consumidores entram em contato com as marcas e fazem suas escolhas;
• construir estratégias de chegada ao mercado eficazes. A maioria das empresas precisam expandir suas pegadas tanto físicas como online nas cidades ou nos conglomerados urbanos, a fim de estar mais perto das concentrações dos lares da classe média. Essa presença física precisa ser apoiada por logística de cadeia de fornecimento e ações de marketing mais pé-no-chão e até mesmo fabricação local. • fazer um upgrade nas suas competências no e-commerce para que a experiência de
compra seja confiável;
• adotar modelos de negócios inovadores, como por exemplo, introduzir uma variedade de formatos de lojas de escala menor e flexíveis, com conceitos mais viáveis economicamente, se dirigindo a preferências específicas e necessidades dos consumidores do interior.
O Brasil é descrito como uma “colcha de retalhos” de pequenos países, com diferenças relevantes no clima, na cultura e até no biotipo da população (LECTRA, 2015).Para uma marca estar presente nas diversas regiões tem que se endereçar aos diferentes estilos de vida desses muitos brasis. As diferenças começam pela percepção da cor devido ao clima, a luminosidade e questões intangíveis como o próprio gosto regional, o que implica em criar uma cartela de cores adequada ao clima e ao gosto de cada região. As diferenças de clima tornam mais complexa a oferta de coleções das empresas que estão em todas as partes do país.
Apesar destas diferenças, o antropólogo Darcy Ribeiro abordou a história da formação étnica e cultural do povo brasileiro no livro “O Povo Brasileiro” (RIBEIRO, 1995). Ribeiro (1995) estabeleceu 5 “brasis” diferentes: o Brasil sertanejo, o Brasil crioulo, o Brasil caboclo, o Brasil caipira e o Brasil sulino. Apesar das diferenças desses “brasis”, Ribeiro (1995) acreditava que os brasileiros são um só povo, todos pertencentes a uma mesma etnia, a etnia nacional. “O povo brasileiro é um ‘povo-nação’”, ele afirmava.
Estudos mais contemporâneos discutem a inexistência dessa dicotomia urbano e rural. Há a teoria da urbanização do campo, que traduziria o fim da realidade rural (WANDERLEY, 2001). E também há a teoria que reafirma a existência do rural, aproxima o rural-urbano, sendo que mesmo com a aproximação de suas semelhanças, suas peculiaridades não desaparecem (SIQUEIRA; OSÓRIO, 2001). Outra teoria defende o processo de urbanização do campo e a ruralização da cidade (GRAMMONT, 2005). Girardi (2008) afirma que:
Falamos na urbanização do campo porque foram incrementadas as ocupações não agrícolas no campo, os meios de comunicação em massa (rádio, televisão, telefone, rádio de ondas curtas) chegam até as regiões mais distantes, as migrações permitiram o estabelecimento de redes sociais e a reconstrução das comunidades camponesas nos lugares de migração com o qual nasce o conceito de comunidade transnacional. Porém também falamos em ruralização da cidade tanto porque as cidades latino americanas se parecem com “grandes fazendas” devido à falta de desenvolvimento urbano, como pela reprodução das formas de organização e a penetração de cultura de migrantes camponeses e indígenas em bairros periféricos onde se estabelecem.
Para a indústria da moda aproveitar essa onda de crescimento, será preciso se dirigir a esses consumidores de diferentes regiões, adequando as tendências de moda internacionais ao gosto desses “brasis”, aos tipos de corpos com morfologias distintas e às preferências por cores e estilos muito díspares. O “glocalismo” e a “nativização” da moda são relevantes para as empresas de moda que querem vender para todo o país. As equipes de mercado e de produto das empresas de moda raramente conhecem a periferia da sua própria cidade, de modo que falar de regionalização da moda é uma realidade bem distante da rotina do dia a dia de trabalho de designers e planejadores, todos pressionados pelo tempo.
O desafio de fazer roupas adequadas a morfologia de corpos de cada região, não é tarefa simples devido à diversidade. Apesar de já existir um projeto de estudo dos corpos de pessoas em cidades das várias regiões do país, (BASTOS et al., [201-]) o fato é que hoje cada empresa utiliza uma tabela de medidas distinta.
Não é raro vestir um determinado tamanho de uma marca e vestir outro tamanho em outra marca, enquanto uma veste bem e a outra não. Isso tem sido um grande problema para os responsáveis pelo desenvolvimento de produto das indústrias e marcas brasileiras, que compromete muito a aceitação de seus produtos. Cada região tem uma morfologia distinta e por consequência exige tabelas de medidas por região.
Uma profissional da área de produto de uma grande cadeia de lojas explicou a estratégia de expansão da empresa onde atua: abrir lojas em cidades remotas do norte e centro-oeste. Para adotar essa estratégia, a empresa deveria fazer algo para “regionalizar” seus moldes e tabelas de medidas, segmentando suas coleções. Não basta somente substituir manga longa por manga curta e cor neutra por cor viva, mas é importante tratar o Brasil como um continente com uma
biodiversidade que merece atenção. Numa entrevista com a pessoa responsável pela engenharia de produto de cadeia de varejo concorrente da primeira, a coleta de dados mostrou que não há um ajuste de modelagens por região.
Há marcas regionais que pouco conhecemos nos grandes centros metropolitanos do Brasil, que fazem coleções direcionadas para o consumidor das regiões do interior e que têm sucesso na sua proposta de valor. No entanto, quando resolvem expandir para outras regiões, forçosamente acabam por ter que mudar suas coleções.
Esse novo cenário faz do Brasil um mercado com imenso potencial para a indústria da moda nacional. As marcas locais podem atender à evolução das classes médias e abastadas do país, especialmente nas regiões ainda não exploradas do interior. Boa parte dessa população ainda não desenvolveu afinidades claras com as marcas, então é a hora de conquistá-la. Se as empresas brasileiras puderem superar as dificuldades, implementando modelos de varejo inovadores e um gerenciamento sofisticado da cadeia de suprimentos, elas terão uma chance de garantir a fidelidade do cliente antes que as marcas internacionais entrem em seu caminho (LECTRA, 2015, p. 4).