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3. DERIVATION OF THE SOURCE TERM

3.4. Core damage mechanisms and progression

Para inserir o panorama da moda contemporânea na era globalizada, é preciso contextualizar os termos globalização, mundialização, termos esses que têm conotações e significados distintos, segundo ilustres teóricos, alguns deles aqui citados.

Importantes transformações ocorreram nas últimas três décadas, afetando a vida dos sujeitos em níveis profundos. Scarlett Marton em entrevista sobre o anticlímax da sociedade contemporânea (CPFLCULTURA, 2012) lembrou que na década de 1990, iniciou-se uma transformação na sociedade como um todo, que pode ser considerada a 3ª revolução, a informacional, e com ela, surgira um sentimento crescente de uma sociedade planetária.

De todas as teorias que abordam a relação entre as mudanças tecnológica e econômica que resultaram no processo cunhado de globalização, duas delas serão mais relevantes para esse estudo: a sociedade em rede e os espaços de fluxos de Manuel Castells e a transformação técnico-científico-informacional de Milton Santos, fundamentada no espaço como um complexo de sistemas de objetos e de ações, nomeadamente, a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a existência de um motor único na história. Os outros autores, aqui citados, fundamentarão os conceitos que são pertinentes a essa discussão (GARAY, 2005, p. 46).

Castells (1999b, p. 98) referindo-se à origem da tecnologia informacional, mencionou que “a utilização dessas tecnologias nos anos 80 condicionou seus usos e trajetórias na década de 1990”. Castells (1999b) lembra que, nos anos 1990 com a privatização da internet, a tecnologia se tornou comercial.

Castells (1999a, p. 411) escreveu que

foi apenas no final do século XX que a economia mundial se tornou verdadeiramente global, com base na nova infraestrutura propiciada pelas tecnologias da informação e da comunicação, com a ajuda da política de desregulamentação e da liberalização postas em prática pelos governos e pelas instituições internacionais.

Castells (1999a, p. 411) define que economia global “é uma economia com capacidade de funcionar como uma unidade em tempo real em escala planetária”.

Castells (1999a, p. 411) se refere a três grandes mudanças ocorridas na década de 1990: a revolução da tecnologia, a economia informacional/global e a cultura da virtualidade real. Esses três fatores convergiram para “uma redefinição histórica das relações de produção, poder e experiência em que se baseia a sociedade [...] Essas transformações conduzem a uma modificação também substancial das formas sociais de espaço e tempo e ao aparecimento de uma nova cultura”.

Castells (1999a, p. 414) explica a economia globalizada que se formara nesse período: Após o fim do estatismo como sistema, em menos de uma década o capitalismo prospera no mundo e aumenta sua penetração nos países, culturas e domínios da vida. Não obstante um panorama social e cultural bastante diversificado, pela primeira vez na história, todo o planeta está organizado com base em um conjunto de regras econômicas em grande parte comuns. É, todavia, um tipo de capitalismo diferente daquele formado ao longo da Revolução Industrial ou do capitalismo resultante da Depressão dos anos 30 e da Segunda Guerra Mundial, sob a forma de keynesianismo econômico e ênfase no estado do bem-estar social. É uma forma de capitalismo com objetivos mais firmes, porém com meios incomparavelmente mais flexíveis que qualquer um de seus predecessores. É o capitalismo informacional, que consta com a produtividade promovida pela inovação e a competitividade voltada para a globalização a fim de gerar riqueza e apropriá-la de forma seletiva.

Surgiu uma nova forma de capitalismo, cujas características eram a globalização das principais atividades econômicas, a flexibilidade organizacional e um maior poder para o patronato em suas relações com os trabalhadores. A poderosa economia global, novos processos de industrialização e o empoderamento dos países asiáticos formaram a base multicultural de interdependência econômica que é a condição contemporânea (CASTELLS, 1999a).

Castells (1999a, p. 414) afirma que, mais do que nunca, este capitalismo informacional está

inserido na cultura e é equipado pela tecnologia, mas, desta vez, tanto a cultura como a tecnologia dependem da capacidade de conhecimentos e informação agirem sobre conhecimentos e informação em uma rede recorrente de intercâmbios conectados em âmbito global.

A mudança significativa do capitalismo keynesiano vinculado ao industrialismo fordista, para um tipo de acumulação de capital flexível, foi objeto de várias teorias, entre elas as de como explicado por David Harvey ao teorizar essa transição que se iniciou a partir dos anos 1970. De acordo com Harvey (2001) e Swyngedouw (1986), a introdução de novas tecnologias nos processos industriais permitiu a transição de um tipo de produção fordista, baseada em economias de escala, para uma produção just-in-time, baseada em economias de escopo, com fabricação em pequenos lotes. No fordismo, a produção era voltada para os

recursos das firmas, enquanto na produção just-in-time, a produção é voltada para a demanda de mercado.

Uma evolução ocorreu no trabalho dos sujeitos, pois no novo capitalismo, havia menos especialização do trabalhador e a aprendizagem e a corresponsabilidade do trabalhador eram valorizadas. Como ideologia, o consumo de massa da era fordista veio se individualizar. A transição para esse novo capitalismo também significou a passagem do modernismo para o pós- modernismo e a individualização acabou por formar a sociedade do “espetáculo” (HARVEY, 2001, p. 169).

Com a revolução informacional, a vida dos sujeitos passou a ter mais velocidade. O tempo se tornou relativo. Virtual ou real, o tempo passou por um processo de compressão.

O termo globalização está relacionado com o processo que é descrito por Castells (1999a) como um conjunto de regras econômicas que está sendo a base da organização do planeta. Esse novo processo, o qual Castells (1999a) chama de capitalismo informacional, difere do capitalismo keynesiano por ser flexível, por estar inserido na cultura, por estar sendo sustentado pela tecnologia e por estar intimamente ligado a uma corrente de informações que flui na rede de intercâmbios em âmbito global.

Castells (1999a) define que as redes financeiras globais são o centro nervoso do capitalismo informacional. Essas redes financeiras fazem parte de um mercado que, segundo Castells (1999a, p. 420), é

manipulado e transformado por uma combinação de manobras estratégicas acionadas por computadores, psicologia das multidões a partir de fontes multiculturais e turbulências inesperadas causadas por graus cada vez maiores de complexidade na interação entre os fluxos de capital em escala global.

Santos (2008, p. 239) define que “o meio técnico-científico-informacional14 é a cara

geográfica da globalização”. Esse meio assegura o funcionamento dos processos encadeados a que se está chamando de globalização.

Para Santos, a mudança qualitativa e substancial que a sociedade contemporânea experimenta se fundamenta na possibilidade técnica que se tem para conhecer e explorar tudo em escala planetária. Assistimos assim à universalização de técnicas e ações, que permeiam grande parte das dimensões da vida social (produção, intercâmbio, capitais) (SANTOS, 1996b apud GARAY, 2005). Não é uma universalidade homogênea nem desafortunada, por ter intenções claras de agentes hegemônicos, o que Santos identifica como uma “globalização perversa”. Santos defende que mais que um espaço de globalização, existem espaços de

14 O termo o meio técnico-científico-informacional cunhado por Milton Santos se refere à união da ciência, tecnologia e informação em que os objetos técnicos tendem a ser ao mesmo tempo técnicos e informacionais.

globalização, unidos por redes que não são nem maciças nem específicas, controladas física e informacionalmente por uns poucos atores em seu próprio benefício Santos (1995, p. 13 apud GARAY, 2005, p. 53).

Garay (2005,p. 47 ) explica que há críticas ao paradigma informacional proposto por Castells (1996, p. 65), por representar uma ruptura histórica e por marcar um determinismo tecnológico que penetra o centro da vida social e da mente dos sujeitos, enquanto a proposta de Santos (2000, p. 34) defende que os objetos técnicos são apropriados de modo específico pelo espaço técnico pré-existente.

Ambos os autores, Castells e Santos, veem a globalização como um processo perverso. Santos defende que a unicidade das técnicas, na qual o computador é a peça central, possibilita a existência de uma finança universal, responsável por impor ao globo “uma mais-valia mundial” controlada pelos interesses de empresas e grupos hegemônicos (SANTOS, 2001, p. 24).

Castells (1999a) menciona que a globalização cria buracos negros e uma estratificação social baseada no conhecimento, que cria pessoas excluídas no mundo, por não terem acesso à tecnologia, que acabam criando redes de crime, o que ele denominou de conexão perversa.

Ortiz (2009) explica o porquê de ter separado os termos “globalização” do termo "mundialização” relacionando o primeiro à economia e à técnica e o segundo à cultura, no âmbito dos universos simbólicos. Ele distingue ainda internacionalização de globalização e mundialização de nação. Ortiz (2009, p. 246) define internacionalização como uma mera extensão das operações econômicas de uma empresa para além das fronteiras nacionais, enquanto globalização seria um fenômeno de natureza qualitativamente nova. A globalização, segundo Ortiz (2009), é como um conceito que se aplica à produção, à distribuição de bens e serviços, organizados a partir de uma estratégia mundial, voltada para um mercado mundial.

Ortiz (2009, p. 241) menciona a “sociedade global” e uma “visão de mundo”, como um universo simbólico específico da civilização atual, resultado da integração dos dois processos, a globalização da economia e a mundialização da cultura.

Ortiz (2009, p. 246) defende que não haveria uma “cultura global” ou uma “identidade global”, pelo simples fato de que a unicidade postulada no plano econômico e tecnológico seria imprópria para se compreender a dimensão cultural contemporânea. Segundo ele, os dois conceitos, mundialização da cultura e globalização da economia e da técnica são úteis para explicar a diversidade cultural, hoje tão controversa.

Warnier (2003), ao escrever sobre a mundialização da cultura, defende que não há uma convergência das culturas do mundo inteiro para um modelo único, nem uma unificação do

planeta pela “cibercultura”. Warnier (2003, p. 34, tradução nossa) acredita na fragmentação cultural, que descreve dessa forma:

A humanidade é constitutivamente destinada a produzir clivagens sociais, reservas de grupos, distinção cultural, modos de vida e de consumo muito diversos, em suma, que ela continua a ser uma formidável máquina de produzir a diferença cultural, a despeito de todos os processos que agem em sentido contrário [...] a cultura é sempre particular e local, em função do isolamento e da distinção dos grupos. Por outro lado, ela se agrega, em função da disposição em rede das comunidades locais e suas recomposições.

Os significados dos conceitos de globalização, ordem global e ordem local, devem ser elucidados para que o contexto da moda contemporânea seja compreendido e os processos de desenvolvimento de coleções levem em consideração os novos paradigmas. Parece óbvio, nas nem sempre é o que acontece no setor. A pesquisa de tendências é baseada em referências internacionais, que raramente são traduzidas para os gostos regionais, ou seja, não são “nativizadas”.