Dentre os agentes responsáveis por esse processo de imersão, podemos destacar a mise-
en-scène. Segundo David Bordwell e Kristin Thompson (2013), os estudiosos do cinema
utilizam esse termo para expressar o controle do diretor sobre o que aparece no quadro fílmico. O cenário, o figurino e a maquiagem, a iluminação e a atuação são articuladas pelo diretor em prol da construção da narrativa e de sua atmosfera. Os autores destacam que um elemento da
mise-en-scène raramente aparece de maneira isolada. Esses elementos geralmente encontram-
se em conjunto e direcionam nossas expectativas sobre os eventos narrativos quase continuamente.
O diretor atua como um mediador, sendo responsável por organizar a coesão e a coerência entre os agentes responsáveis pela construção da mise-en-scène. O termo em questão é polivalente, seu conceito não é algo rígido, e autores apresentam divergências sobre seu significado, entretanto, existem premissas comuns que se complementam. Para Fernão Ramos (2012), o conceito de mise-en-scène define, entre outros elementos, o espaçamento de corpos e coisas em cena. Esse conceito vai ao encontro da crença de Bordwell (2008) de que tudo deve ser expressado pela composição dos atores e objetos e seus deslocamentos dentro do enquadramento.
O termo mise-en-scène, frequentemente traduzido como “encenação”,
vem do teatro, do final do século XIX/início do XX, e surge com a progressiva valorização da figura do diretor, que passa a planejar de forma global a colocação do drama no espaço cênico. Penetra na crítica de cinema na década de 50, quando a arte cinematográfica afirma sua singularidade estilística deixando para trás a influência mais próxima das vanguardas plásticas. Mise-en-scène no cinema significa enquadramento, gesto, entonação da voz, luz, movimento no espaço. Define-se na figura do sujeito que se oferece à câmera na situação de tomada, interagindo com outrem que, por trás da câmera, lhe lança o olhar e dirige sua ação (RAMOS, 2012, p. 02).
Muitos teóricos acreditam que a mise-en-scène é a essência19 do cinema, sua força- motriz e se refere à maneira como a figura aparece no tempo e no espaço. De acordo com Ramos (2012), para o crítico de cinema Michel Mourlet, a mise-en-scène é o coração de um filme. Mourlet a define como a “efervescência do mundo” que aparece na forma de cores e de luzes na tela. Segundo Luiz Carlos Oliveira (2010, p. 1), ao dizer que “tudo está na mise-en-scène”, Mourlet expressa que “o principal do cinema, sua essência, está na forma como o filme nos transporta através daquele universo a um só tempo próximo e desconhecido que a tela oferece”. O autor explica que a mise-en-scène atua como um passaporte para o mundo do filme, nosso meio de fascinação perante as imagens projetadas na tela.
Já Bordwell e Thompson (2013) sugerem que esse termo remete àquilo que o espectador se lembra depois de ter visto o filme, ou seja, entre todos os elementos cinematográficos, a
mise-en-scène diz respeito àqueles com os quais estamos mais familiarizados. Depois de assistir
a um filme podemos não recordar dos cortes ou dos movimentos de câmera, por exemplo, mas quase certamente recordamos de alguns itens da mise-en-scène. Segundo Jacques Aumont (2006, p. 163), a encenação é o instrumento “que permite construir, a partir de elementos do mundo (mesmo que totalmente teatrais), a apresentação convincente de uma história, que nos permite recebê-la com prazer, compreendê-la e atribuir-lhe um estatuto ontológico muito particular (o da simulação lúdica, ou ficção)”.
Para Michel Mourlet20 (1965), citado por Aumont (2006, p. 84), “encenação é a disposição dos atores e dos objetos, os seus movimentos no interior do quadro”. O cineasta canadense Edward Dmytryk21, também citado por Aumont (p. 138), comenta que “encenar, em cinema, consiste em encontrar as melhores disposições (setups) possíveis para contar a história
19 “Essência” é um conceito complicado que foi adotado nesse trabalho pois os autores que discorrem a respeito
de mise-en-scène o utilizam. Devido ao fato de as obras artísticas serem complexas e híbridas, é problemático utilizar apenas um conceito para resumí-las ou definí-las.
20 MOURLET, Michel, Sur um art ignoré, Paris, La Table ronde, 1965.
de forma clara, eficiente e atrativa. Trata-se, desde logo, da arte de organizar a relação entre os atores e os lugares”. Aumont (p. 155) traz ainda o pensamento do cineasta da Nouvelle Vague Éric Rohmer22, que acreditava que “encenar é jogar com os elementos de cada plano - cenário, personagens e as suas deslocações, matéria visual, carnação pictórica - de maneira a que se integrem num grande esquema de conjunto, portador de uma certa “substância emocional””.
Muitos são os profissionais responsáveis pela mise-en-scène, ou seja, para que o quadro fílmico seja composto é necessário o trabalho em conjunto de diversos especialistas. Marcelo Santos (2011, p. 2) ratifica essa afirmação ao discorrer a respeito desse caráter sincrético do cinema que, segundo o autor, se desenvolveu pelas associações da linguagem sonora, visual e verbal, além das artes que advêm dessas três matrizes. Para Santos, a realização de um filme implica na interação de um conjunto de profissionais especializados em áreas que, em outras artes, aparecem como “dominantes”, mas que no caso do cinema são coparticipantes.
Em uma produção cinematográfica, artistas de distintas formações se unem para o desenvolvimento de uma obra complexa. O fato do diretor ser responsável por tomar as decisões fulcrais durante a realização da obra, não exclui a coautoria dos outros agentes, e nem o caráter poético de suas funções no que diz respeito à confecção do filme. Santos (2011, p. 4) destaca que, na produção de uma obra audiovisual, há “um complexo movimento intelectual que relaciona as partes, mensura os resultados dessas associações, realiza e avalia os rumos de cada decisão tomada na produção”.
O roteiro, herança da literatura, serve de guia para a produção que se concentra em tentar trazer à superfície a história ali descrita. A direção de arte (herança das artes plásticas) trata de esboçar os aspectos visuais sugeridos pelo roteiro e pelo diretor; o cenógrafo (herança do teatro e em alguns aspectos da arquitetura) trata de dar vida aos espaços onde a encenação será realizada; o figurinista (herança da moda e do teatro) trata de encarnar no vestuário os aspectos psicológicos dos personagens e da trama; o diretor de fotografia (herança da própria fotografia) trata de escrever a história ali encenada por meio da disposição e articulação das luzes e enquadramentos; o compositor da trilha sonora (herança da música) trata de contar e transmitir os sentimentos das cenas encenadas por meio da música, ainda que inserida na pós- produção, a música tem o caráter de enaltecer e intensificar a encenação. O diretor (herança das outras artes) é um autor complexo que possui a competência conjugada do regente, pintor, escritor, encenador, fotógrafo, arquiteto, poeta e compositor. É sobretudo um mediador de competências cujo discurso se desenvolve por meio da integração e consolidação de uma dialogia entre os outros agentes semióticos envolvidos no processo de criação do filme (SANTOS, 2011, p. 4-5).
O cinema é um empreendimento colaborativo e a contribuição de cada membro da equipe não é algo fácil de estimar. No entanto, há um consenso geral de que a trindade composta pelo diretor, pelo diretor de fotografia e pelo designer de produção é responsável pela aparência
da obra. Para Vincent LoBrutto (2002), muitos cineastas abraçam a câmera como o elemento- chave na visualização cinematográfica, mas a aparência de uma obra é fruto da união desses três profissionais.
Bordwell (2008) defende que o estilo dos filmes deve ser alvo de minuciosa atenção e afirma que o conteúdo das obras só nos afeta devido à utilização de técnicas cinematográficas consagradas. Sem interpretação, enquadramento, iluminação, corte, composição cenográfica, figurino, diálogo e trilha sonora, não seria possível apreendermos o mundo da história. Conforme o teórico (2008, p. 58), “o estilo é a textura tangível do filme, a superfície perceptual com a qual nos deparamos ao escutar e olhar: é a porta de entrada para penetrarmos e nos movermos na trama, no tema, no sentimento - e tudo mais que é importante para nós”. Entraremos, agora, por essa porta para compreendermos um pouco mais a respeito de um dos elementos responsáveis pela criação do universo fílmico.
Optamos nesse capítulo por, a princípio, ponderarmos brevemente sobre a história do design de produção e elucidarmos a diferença entre design de produção e direção de arte, termos que, muitas vezes, são utilizados como sinônimos. Após a explicação, abordaremos algumas questões relativas à área, citando falas de profissionais que buscam esclarecer o trabalho que executam. Então, verificaremos como esse trabalho está presente em algumas obras.