3.2 Objets de mesure dans les sports collectifs
3.2.2 Objets de mesure du jeu avec ballon et jeu sans ballon
A alta-costura era um privilégio. N ão se podia conceber que o patrão e o em pregado vestissem as m esm as roupas. H oje, isso acontece. É um a questão de m entalidade.
P ierre Cardin, estilista. V eja, 1981.
Impelida pela noção de heterogeneidade e pela noção de acontecimento como constitutivas do discurso, a AD começa a tratar da questão da seleção do corpus a partir da leitura do conceito foucaultiano de arquivo. Uma leitura que já vinha sendo realizada por Courtine (1981) com a reformulação do conceito de formação discursiva embasado principalmente pelo conceito de enunciado proposto por Foucault (2005), e que vai se fortalecendo com essas novas configurações que afetam a AD a partir de 1980.
Diferente da noção de formação discursiva pecheutiana como um lugar estável e homogêneo, a noção de FD em Foucault (2005) liga-se à noção de corpus heterogêneo, instável, em processo de construção, uma vez que ele está apoiada no conceito de enunciado:
Um enunciado pertence a uma formação discursiva, como uma frase pertence a um texto, e uma proposição a um conjunto dedutivo. Mas enquanto a regularidade de uma frase é definida pelas leis de uma língua, e a de uma proposição pelas leis da lógica, a regularidade dos enunciados é definida pela própria formação discursiva. A lei dos enunciados e o fato de pertencerem à formação discursiva constituem uma única e mesma coisa: o que não é paradoxal, já que a formação discursiva se caracteriza não por princípios de construção, mas por uma dispersão de fato, já que ela é para os enunciados não uma condição de possibilidade, mas uma lei de coexistência, e já que os enunciados, em troca não são elementos intercambiáveis, mas conjuntos caracterizados por sua modalidade de existência. (FOUCAULT, 2005, p. 132)
Courtine (1981) critica o conceito de corpus discursivo definido na concepção de formação discursiva fechada, compreendido como um “conjunto de seqüências discursivas estruturado segundo um plano definido em referência a certo estado de condições de produção do discurso”. A partir de suas críticas, ele propõe uma redefinição desta noção para o princípio de estruturação do corpus discursivo:
Uma tal concepção não considerará um corpus como um conjunto fechado de dados que emergem de uma certa organização; ela fará do corpus discursivo, ao contrário, um conjunto aberto de articulações cuja construção não é efetuada já no estado inicial do procedimento de análise: conceber-se-á , aqui um procedimento de análise do discurso como um procedimento de interrogação regulado de dados discursivos que prevê as etapas sucessivas de um trabalho sobre corpora ao longo de todo o procedimento. Isso simplifica que a construção de um corpus discursivo possa perfeitamente ser concluído apenas no final do procedimento. (COURTINE, 1981, p.58)15
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Une telle conception ne considérera pas um corpus discursif comme un ensemble clos de données d´une certaine organisation; elle fera au contraire du corpus discursive um ensemble ouvert d´articulations dont la construction n´est pas effectueé une fois pour toutes à l´etat initial de la procédure d´analyse: in concevra ici une procédure d`AD comme une procédure d´interragation réglée de données discursives qui prévoit les étapes successives d´un travail sur corpus tout au long de la procédure elle- même. Ceci implique que la construction d´um corpus discursif puisse parfaitement n´être achevée qu´au terme de la procédure.
Esta seleção de corpus, que vai se realizando a partir do gesto analítico, ou seja, estabelecido a partir da descrição das configurações do arquivo centrada em um tema, um conceito, enfim de um acontecimento, permite acompanhar as práticas discursivas de uma sociedade. Deste modo, cabe ao analista se questionar sobre o lugar discursivo ocupa dado acontecimento discursivo num determinado arquivo.
Por estas razões, o corpus da AD é composto por variados textos, de gêneros diferentes, veiculados em distintos suportes, mas que se debruçam sobre um mesmo tema, conceito ou acontecimento (SARGENTINI, 2007). O conceito de arquivo em Foucault (2005) apresenta-se de bastante utilidade para AD na seleção do corpus. Variados, diferentes e distintos não significam que a montagem de um arquivo seja tomada de forma aleatória, não se trata de uma “soma de todos os textos que uma cultura guardou” de forma a registrar sua memória, muito menos de compelir textos que foram produzidos por instituições autorizadas a registrar e conservar discursos dos quais se quer ter
lembranças, mas
trata-se antes ao contrário, do que faz com que tantas coisas ditas, há tantos milênios, não tenham surgido apenas segundo as leis do pensamento, ou apenas segundo os jogos de circunstâncias, que não sejam simplesmente a sinalização, no nível da performance verbal, do que se pôde desenrolar na ordem do espírito ou na ordem das coisas, mas que tenham aparecido graças a todo um jogo de relações que caracterizam particularmente o nível discursivo; que em lugar de serem figuras adventícias e como que inseridas, um pouco ao acaso, em processos mudos, nasçam segundo regularidades específicas: em suma, que se há coisas – e somente estas - , não é preciso perguntar sua razão imediata às coisas que aí se encontram ditas ou aos homens que as disseram, mas ao sistema de discursividade, às possibilidades e as impossibilidades que ele conduz (FOUCAULT, 2005, p.146-7)
A seleção do corpus para as análises se coaduna com as propostas de elaboração e seleção que se realizam sob a noção de arquivo, principalmente porque a moda aqui será abordada para além do fantasioso, será requisitada
no social. Segundo a jornalista e consultora de moda Gloria Kalil16, a pirâmide
da moda – alta costura, prêt-a-porter, rua – está invertida. A moda deixou de representar apenas uma classe e tornou-se pública. Ganhou as ruas, passou a atuar em diferentes contextos, sua influência alcançou proporções maiores, extrapolou os limites do consumo e passou a ser importante mecanismo de interação na sociedade.
A atuação da moda no social é fruto de uma série de discursos que foram sendo construídos em diferentes lugares e por diferentes sujeitos, o que possibilitou a construção de uma memória em torno da moda. Embora seja uma memória coletiva, trata-se de diferentes definições, são diversificados os discursos em que figuram a moda. Procuramos, por meio do gesto “arqueológico”, escavar evidências discursivas que permitem compreender o lugar da moda na sociedade. Nossa análise transgride os limites das revistas especializadas de moda e procura se situar em enunciados que se materializam também na literatura, no discurso religioso.
No capítulo a seguir, algumas páginas à frente, estabeleceremos uma relação mais próxima entre alguns conceitos e sua aplicação, pois é o momento em que procuramos vestígios de outros lugares da moda, procurando compreender como se estabeleceu essa relação vestuário, moda e sujeitos de modo a produzir identidade(s).
16 Afirmação da consultora de moda foi pronunciada em uma entrevista do Programa Roda Viva, na emissora de televisão, TV Cultura, no dia 29 de julho de 2009. Fragmentos desta entrevistas podem ser encontradas no site http://www.iptvcultura.com.br/rodaviva/29-06- 2009_GLORIA_KALIL/ (última visita: 14 de julho de 2009)