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É necessário evidenciar que tanto em Agostinho quanto em Lutero, existem possibi- lidades abertas e é impossível determinar apenas uma leitura possível entre estes autores que já foram tantas vezes lidos e relidos. O que existe é sempre a oportunidade de uma nova aproximação, de uma nova leitura. Sabendo que ambos contêm em seus textos, tanto opor- tunidades para a construção de uma sociedade mais ética, onde o social e a boa política são valorizados, mas, ao mesmo tempo, estes autores que estão separados por tantos séculos da presente época, também contem em si limitações, algumas que são próprias de seus perío- dos, outras porque advêm de suas formas de analisar, pensar e refletir a realidade. “À sua maneira agostiniana, Lutero deixa claro que a liberdade cristã não é privada ou comunitária atingindo a perfeição mística aqui na terra pela fé. O pecado se expressa sempre na vida dos salvos que são individualmente iustus et peccator simul.”408 Ou seja, esta dimensão ambígua de ser ao mesmo tempo justificado, sem deixar de ser ao mesmo tempo pecador, é uma constante na vida do ser humano.

Nisso vê-se sempre este aspecto de contrariedade que existe intrinsecamente ao ser humano, o que gera oportunidade e limitações, e que se atém as “declarações ético-sociais de Lutero não pode ignorar que ele argumenta em dois níveis.”409 Uma que é dirigida aos governantes, ou pessoas que dirigem o reinos secular, e outra que é dirigida “expressamente aos cristãos, que são movidos a agir pelo amor cristão, isto é, pelo Espírito Santo.”410 Se-

gundo Westhelle estas recomendações e asserções são feitas pelo reformador baseadas em duas chaves, e que isso remonta a antiguidade cristã. Posto que “desde Agostinho, a tradição oscilou entre esses dois, o que a cruz por si e o que ela nos leva a fazer, muitas vezes ten- tando combiná-los. Essas são as duas ‘faces’ da cruz de Cristo que Lutero distingue cuida-

408 “In his Augustinian manner, Luther makes clear that Christian liberty is not a private or comunal state of mystic perfection attained here on Earth by Faith. Sin expresses itself even in the lives of the saved who are individually justus et peccator simul.” PORTER, J. M. “Luther and Political Millenarianism: The Case of the Peasant’s War”. In: Journal of the History of Ideas. University of Pennsylvania Press. Vol. 42, n. 3 (Jul. – Sep.), p. 389-406, 1981. Disponível em < http://www.jstor.org/stable/2709183>. Acesso em 14/11/2014. p. 391.

409 JUNGHANS, Helmar. Temas da teologia de Lutero. Tradução Ilson Kayser, Ricardo W. Rieth, Luís M. San- der e Leticia Schach. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 58.

410 JUNGHANS, Helmar. Temas da teologia de Lutero. Tradução Ilson Kayser, Ricardo W. Rieth, Luís M. San- der e Leticia Schach. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 58.

dosamente,”411 um sendo a dimensão sacramental, ou do sacramentum, e a outra a dimensão

do exemplo de como se deve viver na terra, ou o exemplum.

Outra concepção que está presente tanto em Agostinho quando em Lutero, é a di- mensão de que a fé cristã aponta para a novidade de vida, novas possibilidades surgem tanto no nível individual, mas, sobretudo, também no nível coletivo e social, porque:

A imagem do deslocamento como abertura para a nova formação que está para acontecer sugere que esse novo (o novum que o Ocidente tantas vezes projetou para o futuro) talvez esteja de fato em um outro lugar. O pensa- mento utópico ocidental, que traduz o não-lugar (u-topos) para um tempo futuro por vir, é movido na imagem espacial de Lutero, para um outro- lugar (hetero-topia). Se concebermos a visão escatológica como um outro mundo que acontece, esse outro mundo poderia ser o próprio mundo do ou- tro, do que é diferente e excluído de nosso mundo.412

Esta visão escatológica que está presente em seus pensamentos gera possibilidades de uma tentativa de modificar a visão, projetando o novum. Ampliando a visão e permitindo que se construa novos projetos de justiça e paz.

Uma das possibilidades que é aberta é a de se estender a ideia de escatologia, apli- cando para que ela tenha um pressuposto mais abrangente, que não seja apenas temporal, mas também espacial. Este “discurso escatológico da modernidade ocidental é que ele tem a ver com o tempo e somente com o tempo – sua suspensão, sua consumação ou seu fim (...) ignora-se a relação entre escatologia e nossa experiência de espaço.”413 Deve-se buscar uma escatologia que não observe apenas a dimensão temporal da utopia, mas faz-se necessário entender a experiência espacial que está presente na esperança cristã. Esta esperança está baseada:

Na tradição apocalíptico-neotestamentário-agostiniana, Lutero percebe um dualismo antitético. O poder de Deus na história está empenhado numa luta sem tréguas com o poder do mal (isto é, o reino do demônio) até o fim dos tempos. Este poder do mal procura desviar a criação da relação salutar com seu criador (isto é, da fé), de forma que, por fim, chegue a destruir a si mesma. Deus luta contra o poder do mal em todas as dimensões da existên- cia criatural, com o propósito de estabelecer o seu reino último de perfei- ção (isto é, o reino de Deus).414

411 WESTHELLE, Vítor. O Deus escandaloso: o uso e abuso da cruz. Tradução de Geraldo Korndörfer. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008. p. 93.

412WESTHELLE, Vítor. O Deus escandaloso: o uso e abuso da cruz. Tradução de Geraldo Korndörfer. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008. p. 118.

413 WESTHELLE, Vítor. O Deus escandaloso: o uso e abuso da cruz. Tradução de Geraldo Korndörfer. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008. p. 151.

Nesta lógica que Deus opera na humanidade existe a concepção de que ele conduz pessoas aos seus eternos desígnios, sendo que especificamente o pensador de Hipona, en- tende “a história do mundo numa tela gigantesca com a luta de dois grupos (civitates). Um é governado pelo demônio, o outro por Deus. Todavia, no presente éon ambos estão fundidos de uma maneira que não pode ser distinguida claramente pelo olho humano.”415 O que é

bastante similar quando, por exemplo, “Lutero, em seu discurso contra Erasmo, intitulado

De servo arbítrio (Do servo arbítrio), afirma que os seres humanos estão ou sob o jugo de

Deus ou sob o jugo do demônio.”416 Mostrando, assim, como este autores têm notórios pon-

tos de contato.

A recepção das metáforas agostinianas e luteranas se desenvolveram ao longo dos anos, e, sobretudo no século 20, acabaram por gerar uma compreensão cada vez mais arrai- gada nas igrejas de que elas não deveriam participar das decisões que tocassem a esfera fora do ‘religioso’. “Isto põe em perigo não apenas a participação teologicamente adequada dos cristãos e das Igrejas na vida social e pública.”417 O que, claramente, é uma má interpretação

da ideia destes autores, pois tanto Agostinho quanto Lutero enfatizam a possibilidade de um ser humano cristão que atua, fazendo diferença na vida da sociedade. Inclusive, este último afirma que o reino de Deus e o reino secular são igualmente dignos de atenção.

Bertelli. São Leopoldo: Sinodal, 1987. p. 9.

415 DUCHROW, Ulrich. Os Dois Reinos: Uso e abuso de um conceito teológico luterano. Tradução de Getúlio Bertelli. São Leopoldo: Sinodal, 1987. p. 40.

416 DUCHROW, Ulrich. Os Dois Reinos: Uso e abuso de um conceito teológico luterano. Tradução de Getúlio Bertelli. São Leopoldo: Sinodal, 1987. p. 40.

417 DUCHROW, Ulrich. Os Dois Reinos: Uso e abuso de um conceito teológico luterano. Tradução de Getúlio Bertelli. São Leopoldo: Sinodal, 1987. p. 57.

É necessário destacar que tanto para Agostinho quanto para Lutero o procedimento ético, preocupado com o benefício da sociedade, e com relações mais justas e fraternas é marca evidente do cristão e da cristã. Ambos em suas respectivas épocas se preocuparam em fazer diferença em suas localidades, e não apenas nelas, mas se preocuparam em influ- enciar além de suas próprias cidades e influenciaram muitos outros ao longo de suas áreas de atuação. Como já foi dito no último capítulo, eles tiveram suas limitações e seus pensa- mentos podem trazer tanto uma interpretação que marca uma forte e séria atuação ética, quanto também podem ser usados para justificar alienações, como inclusive, já foram na história utilizada por grupos que não se preocupam com o bem comum. Cite-se o exemplo do nacional-socialismo alemão do século 20, que se utilizou de alguns pequenos excertos de Lutero para justificarem sua luta constante por uma dita ‘raça’ superior. Porém, apesar des- tes graves desvios, acredita-se e buscou se defender nesta dissertação que também existem claras e ótimas oportunidades de uma rica reflexão que visa à melhora da sociedade e de relações mais equitativas nas reflexões destes dois importantes autores da história cristã.

Um dos critérios comuns que existem entre estes pensadores que podem contribuir para construção de propostas equilibradas e que favoreçam o bem comum está no fato de

que eles baseiam seus escritos na Bíblia. E as Escrituras contêm em si, estas mesmas opor- tunidades e limitações para a construção de um mundo melhor, dependendo da interpretação e da ênfase que se dá a ela. Acredita-se que o melhor prisma para se analisar e se erigir um grupo social mais justo está no mandamento áureo, que já está registrado no Antigo Testa- mento e que se renova nos escritos no Novo Testamento, a noção de que se amar a Deus e ao próximo, pois é claro que o balizador e que “guia a gama das possíveis interpretações espirituais está no duplo mandamento, o amor a Deus e ao próximo. Ele combina a alegoria com o que mais tarde foi considerado o sentido tropológico ou moral e sentido anagógico ou escatológico.”418 Isto é, uma forma saudável de se edificar uma análise ética profunda destes

autores é a própria percepção de que tanto o antigo bispo quanto o reformador moderno buscam balizar suas ações e pensamento tendo este conceito escriturísticos como central.

A partir desta proposição dos autores, de que as relações humanas devem se basear no amor fraternal e caritativo, reside e possibilidade principal da formulação de Estados que sejam mais justos e interessados em gerar melhora na qualidade de vida das pessoas e gru- pos sociais, posto que edificação de uma visão ética e política, “o amor é o princípio nortea- dor das relações político-sociais, havendo, assim, um prolongamento da ordem moral interi- or para a ordem social”,419 ou seja, é possível arquitetar uma sociedade melhor porque

quando as pessoas têm princípios norteadores que se baseiam no amor interiormente, é pos- sível se estender este raciocínio para que as relações exteriores também sejam beneficiadas por esta moral e ordem interna. Logicamente, esta interpretação na qual a interioridade pre- cede a as ações sociais tem suas limitações, já que elas podem ser utilizadas também para justificar uma atuação individual despreocupada com a prática social, inclusive, esta forma alienante de se pensar já se apropriou destes autores na história, como já foi dito, mas, ao que parece, não é esta a proposta dos autores.

Uma explanação que se defende nesta pesquisa é que para os autores a organização interior da vida do ser humano deve ser, necessariamente, seguida de atos práticos em favor da vida. E que é incoerente tanto com o Evangelho quanto com o pensamento destes gran- des autores cristão a compreensão de que as atitudes individuais são constituem -se como um fim em si mesma, sem que isso se aponte para que “a organização dos homens em sociedade

418 WESTHELLE, Vítor. O Deus escandaloso: o uso e abuso da cruz. Tradução de Geraldo Korndörfer. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008. p. 29.

419 COSTA, M. R. C. Introdução ao pensamento ético-político de Santo Agostinho. Recife, São Paulo: Universi- dade Católica de Pernambuco, Edições Loyola, 2009. p. 196.

não tenha outra finalidade senão garantir a paz temporal, ou felicidade dos homens, em vista da paz eterna.”420 É evidente que tanto para o pensador de Hipona quanto para o teólogo

alemão a paz na Terra não é a finalidade última, já que ambos defendem que existem uma realidade eterna. É neste ponto que se acredita existirem as questões mais complexas do pensamento dos autores. Porque nesta altura pode se correr o risco de que o fato deles apon- tarem para a realidade eterna exclui o compromisso ético-político-social no presente, na construção de uma sociedade que seja mais marcadamente conhecida por relações que se baseiam no amor, e que, consequentemente, tem pessoas que lutam mais para que todos possam ter uma vida digna e justa.

Nisso, é importante destacar que para estes pensadores o Estado, a organização social, a política e a vida organizada em leis estabelecidas não é ruim. Pelo contrário, estes pensadores cristãos entendem e defendem a necessidade da organização social para garantir o bem estar comum. Pois “os estados preservam a paz externa e a ordem (...) a paz é absolu- tamente necessária para todos os homens, incluindo os peregrinos da Cidade de Deus, en- quanto eles viverem aqui neste mundo,”421 ou seja, não é possível falar em paz celestial e

eterna sem antes falar de uma paz que também exista no mundo. Logicamente, como já vem sido explorado, estes autores possuem em si possibilidades de libertação e de alienação con- comitantemente, porquanto o fato de que se denomina os pertencentes à Cidade de Deus de ‘peregrinos’ pode trazer uma noção de que eles não pertencem a esta terra, e que, assim, não se importam com os rumos dela.

Porém, a interpretação que se defende neste trabalho é que estes peregrinos são cidadãos e cidadãs atuantes e que buscam dar sua contribuição para uma sociedade melhor, onde a paz reine, e onde as pessoas tenham oportunidade de viver dignamente:

no tratado Sobre a Cidade de Deus e nas demais obras mencionadas, não é defender uma ‘teoria política’, mas a busca da felicidade do homem indivi- dual e coletivo. E que a preocupação com o Estado é apenas decorrência disso, uma vez que o homem não vive isolado, mas em sociedade (...) por tudo isso, defendemos que, em Agostinho, o Estado tem um duplo papel: por um lado, uma finalidade terrena – promover a paz temporal entre os

420 COSTA, M. R. C. Introdução ao pensamento ético-político de Santo Agostinho. Recife, São Paulo: Universi- dade Católica de Pernambuco, Edições Loyola, 2009. p. 196.

421 “The states preserves external peace and order (...) this peace is absolutely necessary for all men, including the way faring pilgrims from the City of God, as long they live in this world.” DEANE, Herbert A. The Po- litical and Social Ideas of Saint Augustine. New York; London: Columbia University Press, 1963. p. 221.

homens -; por outro, uma dimensão teleológica, como instrumento de pre- paração para a Vida Eterna.422

Neste excerto de um dos maiores estudiosos do pensamento agostiniano brasileiro vê-se a importância que é dada na obra do bispo de Hipona para a questão política do Estado. É necessário ressaltar que Agostinho, diferentemente de Lutero, não constrói claramente um pensamento que fala sobre o papel do Estado na sociedade, em outras palavras, não é possí- vel destacar naturalmente no antigo pensador uma teoria política segundo os moldes moder- nos, ou mesmo como alguns dos antigos faziam, o que existem nele é uma dignificação da vida em comunidade, de uma compreensão de que a busca pela felicidade, tanto no nível do indivíduo quanto na coletividade passa, intrinsecamente, pela obtenção da paz. E esta tem uma dimensão que não é exclusivamente terrena, posto que ela seja uma prefiguração, uma parcial preparação teológica de como será a eternidade.

Nisso é marcante relembrar que para o pensamento do bispo antigo a concepção tão necessária de paz não reside no conceito de justiça apenas, mas, sobretudo, no conceito de amor. Entender isso é necessário para se compreender as instâncias do pensamento deste autor que influenciou a tantas pessoas ao longo da história, inclusive dentre estes, o próp rio Lutero que era um monge da ordem dos agostinianos antes de se torna o precursor da Reforma Protestante. Ou seja, em Agostinho diferentemente de Cícero, que era o grande pensador de política reconhecido no mundo romano, onde deve residir o seguro sustentáculo da paz é no amor. Isso se dá porque para o pensador Deus é o próprio criador e sustentador do amor e de toda a vida humana, de outra maneira, se é a divindade que sustenta todas as coisas e ele é quem potencialmente pode assegurar a paz entre os homens, e este Deus é descrito nas páginas bíblicas como sendo amor acima de todos os outros atributos, a paz que é uma necessidade humana deve ser baseada nele, em Deus e no amor.423

Esta lógica da paz que é construída tendo como principal baluarte o amor, acima mesmo da justiça, mesmo que esta não perca a importância e também faça parte secundari- amente. Foi inserido dentro desta dinâmica que “Jesus sofreu porque nomeou a causa do sofrimento, a lei que mata. E nessa nomeação reside o poder de superá-lo. O poder da cruz ensina-nos a reconhecer de onde vem essa nomeação e onde temos que nos posicionar para

422 COSTA, M. R. C. Introdução ao pensamento ético-político de Santo Agostinho. Recife, São Paulo: Universi- dade Católica de Pernambuco, Edições Loyola, 2009. p. 197.

423 Cf. TESELLE, Eugene. Living in Two Cities: Augustinian Trajectories in Political Thought. Scranton: Uni- versity of Scranton Press, 1998. p. 110.

exercê-lo.”424 Ou seja, a condenação e morte do Cristo faz parte da luta contra as forças do mal e contra toda a opressão, nomeando quem são os agentes destas maldades. Isso fez com que o próprio Cristo sofresse a punição capital devido sua coragem e intrepidez em superar o mal, o egoísmo e o abuso pelo pode que há no amor que gera a verdadeira justiça. É den- tro deste escopo que a compreensão de Agostinho e Lutero está inserida, pois ela propicia que se olhe as realidades pela ótica da necessidade de se superar as incoerências e locais de morte por meio da equidade, da justiça, da fraternidade, e todas estas são sustentadas pelo atributo do amor, que sustenta todas as demais qualidades e boas potencialidades humanas. Isso é graça do Criador operando na humanidade. Inclusive, “a palavra ‘caritativo’ deriva da palavra latina caritas, com sentido de assistência direta e ativa aos que se acham em neces- sidade. Ela é motivada pelo amor cristão ou por humanitarismo.”425 É sobre esta qualidade, que se baseia a atuação cristã, sobre esta atitude amorosa em relação ao próximo.

Porém, isso pode gerar uma interpretação perigosa e que limita o pensamento dos autores, sobretudo, o de Lutero que delineia com mais clareza qual é o papel do cristão frente à política, diferentemente de Agostinho, onde a ação política e a ação eclesiástica parecem andar juntas sem que sejam separadas em duas esferas da vida, ou em dois regi- mentos na linguagem luterana. Um erro comum é se pensar que a atuação humanitária ou caritativa, derivada da palavra caritas, é mais cristã do que a atuação política ou mesmo institucional. Isso é um erro que deve ser evitado, pois nos pensamentos dos autores o cris- tão e a cristã são agentes ativos na busca de uma sociedade mais justa, que se baseia no amor, e que busca a paz, que aponta para a vida eterna. Portanto, “a opinião generalizada de que a ajuda ‘humanitária e caritativa’ é de alguma forma mais cristã do que a ação social e política, ou mesmo de que é a única forma legítima de ação cristã, precisa ser corrigida com base em Lutero.”426 Posto que o reformador em seus escritos dignifica o papel das institui-

ções seculares, colocando-os como dignos de receber a maia alta atenção dos seguidores do cristianismo. Isto é, faz-se necessário distinguir o que é a função caritativa, ou amorosa, oriunda dos cristãos e das cristãs, entendendo-se que ela não deve ser executada apenas no sentido individual e assistencialista, mas deve se buscar uma atuação que rompa com todo e

424 WESTHELLE, Vítor. O Deus escandaloso: o uso e abuso da cruz. Tradução de Geraldo Korndörfer. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008. p. 101.

425 DUCHROW, Ulrich. Os Dois Reinos: Uso e abuso de um conceito teológico luterano. Tradução de Getúlio Bertelli. São Leopoldo: Sinodal, 1987. p. 67.

426 DUCHROW, Ulrich. Os Dois Reinos: Uso e abuso de um conceito teológico luterano. Tradução de Getúlio Bertelli. São Leopoldo: Sinodal, 1987. p. 67.

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