CHAPTER 3 CHECKS AND ADJUSTMENTS
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Assim como foi exposto à necessidade que a busca pela paz tem na obra agostiniana, também se faz de grande valia demonstrar a importância que esta procura também tem para o pensamento do reformador alemão, “a relação que aí se estabelece entre ordem social, o bom governo e a paz social (...) é preciso lembrar que ele está enraizado na tradição clássica e, portanto, não consegue a ordem social senão em termos da justiça, que dá a cada um o que lhe é devido.”364 Ou seja, este enraizamento na cultura clássica que Lutero tinha, fez
com que ele desse grande consideração a temática, o que coloca os dois principais autores desta dissertação em grande contato, apesar das inerentes diferenças entre os seus pensa- mentos que vêm sendo mostradas.
O governo ou regimento secular tem uma valiosa contribuição para o pensamento do teólogo do Sacro Império, pois para ele este deve garantir a paz por meio da justiça, que é valorizar e retribuir a cada um o que lhe é devido, isso deve ser feito tanto com recompensas quanto com exortações. Iisto é, para sua reflexão o governantes tem não apenas o direito, mas a prerrogativa de punir aqueles e aquelas que por acaso venham atrapalhar a paz e coe- são social. E a função deste deve ser promover o que é justo e assegurar o bem comum. “Confrontado com o mau governo, faz uso do recurso que lhe é próprio e, mediante a pala- vra, exorta à justiça e retidão. Não admite, nem fomenta a rebelião, pois considera que al- gum governo, ainda que mau, seja preferível à anarquia.”365
Evidentemente, isso não significa que em nenhum momento o pensador moderno não discorde dos governantes, inclusive, quando estes tentaram cercear a liberdade de culto dos luteranos ele “reivindica, em suma, que sejam respeitadas a consciência dos luteranos e a ordem jurídica do Império, para que pudesse resolver a questão religiosa mediante a pala-
364 BECK, N. L. J. A Paz Social – Introdução. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Volume 6: Ética: Fundamentações da Ética Política – Governo – Guerra dos Camponeses – Guerra contra os Turcos – Paz so- cial. São Leopoldo; Porto Alegre: Sinodal; Concórdia. 1996. p. 469.
365 BECK, N. L. J. A Paz Social – Introdução. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Volume 6: Ética: Fundamentações da Ética Política – Governo – Guerra dos Camponeses – Guerra contra os Turcos – Paz so- cial. São Leopoldo; Porto Alegre: Sinodal; Concórdia. 1996. p. 469.
vra, vale dizer, por meio do diálogo.”366 Isso se deu quando o imperador quis proibir que os
seguidores das ideias da Reforma continuassem a praticar uma religiosidade que não fosse submissa ao papado em 1530. Mas confrontar por meio das ideias os governantes que impe- dissem sua liberdade religiosa não fez com que ele fosse a favor de conflitos sangrentos, como os que de fato ocorreram na Europa após o período do surgimento do protestantismo, “permanece, porém, a singela exortação de Lutero como testemunho de que jamais admitiu, nem estimulou a guerra e rebelião como formas de resolver questão religiosa e realizar a paz social.”367 Posto que quando os príncipes luteranos foram derrotados belicamente pelo im-
perador ele os incentivou a não prosseguir em conflitos armados, já que isso poderia gerar cada vez um maior aprofundamento do caos social, o que é diametralmente oposto a sua insistência e valorização pela busca da paz.
Na ocasião do avanço dos turcos sobre a Hungria e a Boêmia, que amedrontava o povo e governo do Sacro Império Romano Germânico, Lutero se pronunciou e fez a seguin- te exortação ano de 1539: “considero que a melhor defesa doravante será armar-nos contra eles em oração, para que Deus queira conduzir os acontecimentos misericordiosamente, afastando este açoite, e perdoando os nossos pecados que são grandes e numerosos.”368 Nes-
ta posição, o reformador desincentiva a posição que se tornara corrente naquele período de lutar, belicamente, contra o avanço dos turcos. Estas posições fazem parte da visão do pen- sador alemão de que:
Ao enaltecer o governo secular como governo de Deus, Lutero vol- tou-se contra um desprezo do poder secular (...) [Lutero] viu o cris- tão comprometido a assumir tais funções [serviço militar, o ofício do juiz, função pública] instituídas por Deus, porque justamente o cris- tão – liberto da ânsia de poder e de ganância pelo Espírito Santo – pode exercê-las conforme a determinação dada por Deus. Envolvi- mento social era, para ele, dever cristão.369
366 BECK, N. L. J. A Paz Social – Introdução. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Volume 6: Ética: Fundamentações da Ética Política – Governo – Guerra dos Camponeses – Guerra contra os Turcos – Paz so- cial. São Leopoldo; Porto Alegre: Sinodal; Concórdia. 1996. p. 471.
367 BECK, N. L. J. A Paz Social – Introdução. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Volume 6: Ética: Fundamentações da Ética Política – Governo – Guerra dos Camponeses – Guerra contra os Turcos – Paz so- cial. São Leopoldo; Porto Alegre: Sinodal; Concórdia. 1996. p. 469.
368 LUTERO, Martinho. Exortação a Todos os Párocos à Oração pela Paz. In: LUTERO, Martinho. Obras Sele- cionadas. Volume 6: Ética: Fundamentações da Ética Política – Governo – Guerra dos Camponeses – Guerra contra os Turcos – Paz social. São Leopoldo; Porto Alegre: Sinodal; Concórdia. 1996. p. 520-521.
369 JUNGHANS, Helmar. Temas da teologia de Lutero. Tradução Ilson Kayser, Ricardo W. Rieth, Luís M. San- der e Leticia Schach. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 52.
Ou seja, a posição de Lutero em se opor a guerras e a rebeliões não significa, de maneira alguma, um desprezo do governo secular para se favorecer apenas a vida dita religiosa. Mas está embasada no fato de que para o autor a paz deve ser uma busca constante e que sempre permeia as relações sociais, e que os cristãos e as cristãs são agentes dessa busca, seja por meio de suas funções no campo do regimento religioso, ou mesmo no regimento secular. Pois “Deus não institui os distintos estamentos para que indivíduos deles tirassem proveito material ou espiritual próprio, mas a fim de propagar sua mensagem, resguardar a paz.”370 E
acrescenta: [para] promover a vida em comunidade, para cada pessoa brota de sua respecti- va função em um governo ou estamento a responsabilidade ético-social a ele associada por Deus.”371 Isso procura demonstrar que assim como é para Agostinho, para Lutero a busca
pela concórdia, justiça, ordenança e paz também é imperativo e dever daqueles são partíci- pes do reino de Deus.