As lentes daquilo trazido por Spink e Frezza (2013) sobre a produção de sentidos no cotidiano a partir da análise das práticas discursivas nortearam a presente pesquisa. Para além de repousar em um método de pesquisa, essa é uma proposta teórico-metodológica que se pauta na análise das práticas discursivas e se afilia a Psicologia Social dentro da proposta epistemológica construcionista.
Embora surja da Psicologia Social, o viés construcionista social perpassa essa área de compreensão. Pesquisadores oriundos de diversos campos contribuem com reflexões para o debate, compondo uma empreitada essencialmente interdisciplinar – cientistas políticos, antropólogos, historiadores, sociólogos, educadores, entre outros (Spink, 2010). O Construcionismo Social traz uma série de desconstruções dos moldes tradicionais de se fazer ciência. Começando pela negação da visão representacionista em que a mente é tomada como espelho do mundo.
No construcionismo, o conhecimento não é dado como algo que habita dentro da cabeça das pessoas, nem se trata de um conteúdo produzido de modo frio ou abduzido, é, sim, construído coletivamente, através de trocas linguísticas, com as peculiaridades que este processo possui (Gergen, 2009).
A reação ao representacionismo é um dos três movimentos interdependentes do qual resultam a perspectiva construcionista. Segundo Spink e Frezza (2013), além desse ponto, ligado à Filosofia, a construção desse viés epistemológico também se relaciona com a Sociologia do Conhecimento, a uma crítica à retórica da verdade e no campo da Política a busca por empoderamento (empowerment) de grupos marginalizados socialmente.
O construcionismo é nutrido pelo descontentamento com os moldes tradicionais, desafiando os pilares últimos do conhecimento convencional. Parte do questionamento em relação a um mundo dado tanto pela ciência quando pelo senso comum. Pauta-se em uma crítica que estende suas raízes ao social, pondo em xeque a crença de que as categorias ou entendimentos gerados a partir da observação merecem confiança. Uma vez que os critérios materiais para identificar essas categorias, “comportamentos”, “fenômenos” ou “entes” são delineados pela historicidade, pelo contexto sociocultural ou mesmo não existem em determinadas conjunturas (Gergen, 2009).
Partindo deste viés, em um estudo ou pesquisa, a compreensão não pode ser algo autonomamente conduzido pela natureza e sim o resultado de um processo construído pelas relações entre pessoas. Desse modo, a investigação invariavelmente é atraída às bases históricas e culturais das diversas formas específicas de construção do mundo inerentes a cada contexto peculiar (Gergen, 2009, p. 303).
O olhar construcionista distancia-se de qualquer ideal de neutralidade ou de uma separação sujeito-objeto. Segundo Ibáñez (1994, como citado em Spink, 2010, p.55), em se tratando da compreensão sobre o “conhecimento”, a primeira desconstrução necessária é a da dicotomia sujeito-objeto. Agora, concebidos juntamente com o conhecimento, como construções sociais. Sendo esse último (o conhecimento), por sua vez, quem cria/determina tanto o sujeito quanto o objeto.
Para o Construcionismo discutido por Ibáñez – vale frisar a existência de vários construcionismos (Spink, 2010), é impossível separar a consciência do pesquisador sobre o mundo do mundo em si. Quanto à existência de diversos construcionismos, Hacking (1999) se pronuncia afirmando que a ânsia por libertação daquilo que está ou se tornou “instituído” ou “essencializado”, da crítica ao “status quo”, é o ponto de encontro entre os vários
construcionismos. Destacando a existência de uma base crítico-política nas pesquisas erigidas sob as lentes da perspectiva construcionista.
Alinhado a essa essência, o presente estudo não nega o posicionamento político. Coloca-se ao lado das populações rurais que sofrem com negligências e injustiças históricas e pretendeu produzir conhecimentos, juntamente com a comunidade rural do Arisco do Sutero, que possam vir a serem ferramentas de empoderamento, permeando, quiçá, um processo de emancipação da população desta localidade.
No tocante à natureza deste estudo, ele está mais alinhado a categoria qualitativa. Contudo, parte do mesmo viés de pensamento daquilo trazido por Menegon e Spink (2013), ao tratarem da tradicional dicotomia entre a natureza quanti ou quali de uma pesquisa. Embora, destaquem mérito na abordagem qualitativa, as autoras mostram que essas duas categorizações apenas apontam versões da realidade.
Segundo as estudiosas, ao se aceitar plenamente a posição construcionista, assume-se a visão de que esses enquadramentos também são socialmente construídos. Dissipa-se, então, uma dicotomia por outra: qualitativo versus quantitativo por realismo versus construcionismo. Na perspectiva construcionista, a investigação tem como foco principal os processos pelos quais as pessoas descrevem, explicam ou contabilizam o mundo no qual vivem. O aspecto fundamental são os termos que subsidiam a maneira como o mundo é compreendido, sendo esses contentos artefatos sociais frutos de trocas historicamente situadas (Spink, 2010).
Assim, as práticas discursivas – a linguagem em uso, a produção de sentido e de posicionamentos constituem o cerne de análise, como trouxe Spink e Frezza (2013):
Propor que a produção de sentido é uma força poderosa e inevitável da vida em sociedade e buscar entender como se dá sentido aos eventos do nosso cotidiano fez com que novos horizontes se abrissem e novas perspectivas pudessem ser consideradas. Quando a questão do sentido não pode mais ser respondida somente no âmbito da língua, da sintaxe e da semântica; quando a produção do conhecimento começa a ser questionada por desconsiderar, justamente, aquilo que é sua base, o senso comum; quando a Psicologia Social começa a fazer sua própria crítica quanto ao que
produz e quanto à despolitização daí resultante, tem-se, então, a configuração de um contexto propício para novas buscas: conceitos, métodos, epistemologia, teoria, visão de mundo. É, portanto, no bojo desse movimento que se vem construindo essa nova proposta que denominamos práticas discursivas e produção de sentido. (Spink & Frezza, 2013, p.21).
A produção de sentido é uma prática social dialógica que implica a linguagem em uso. Estando embasada enquanto abordagem teórico-metodológica a partir de três dimensões básicas: linguagem, história e pessoa. É um fenômeno sociolinguístico, tendo em vista que o uso da linguagem sustenta as práticas sociais geradoras de sentido, que, por sua vez, também são uma “construção social, um cometimento coletivo e interativo em que na dinâmica das relações sociais, historicamente datadas e culturalmente localizadas as pessoas constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos que os cercam” (Spink, 2010, p.34). É através das práticas discursivas, da linguagem em ação, que as pessoas produzem sentidos e posicionam-se em relações sociais do dia-a-dia, em cada interlocução. São elementos constitutivos das práticas discursivas: as formas ou speech genres (moldes mais ou menos fixos de enunciados), a dinâmica (que são os enunciados, orientados por vozes), e os conteúdos ou os repertórios linguísticos.
Ao se trabalhar neste viés não se procura estruturas ou formas universais de associar conteúdos. Parte-se do pressuposto de que esses conteúdos se agregam de uma forma em determinados contextos e de outras maneiras em conjunturas diferentes. Os sentidos são fluídos e contextuais. Tendo isso em vista, para estudar os sentidos, ao invés da noção estática de identidade, usa-se a noção de posicionamento.
Posicionar-se, segundo Spink (2010,p.37), quer dizer navegar pelas múltiplas narrativas com que se entra em contato e se articula nas práticas discursivas. Ao se dedicar ao estudo das práticas discursivas, o interesse central está no modo como as pessoas falam, nos repertórios linguísticos utilizados e nas vozes presentes nessas falas (Nascimento, Tavanti &
Pereira, 2014). Por sua vez, a compreensão do que seriam os repertórios linguísticos passa por uma matriz que abarca três tempos: o Tempo Longo, o Tempo Vivido e o Tempo Curto.
O primeiro deles se relaciona à longa história de construção de aportes culturais que fazem parte dos discursos de um dado período histórico, saberes e conhecimentos produzidos e reinvocados pela tradição, religião, senso comum, ciência e por diversos domínios consagrados do saber. O segundo, diz respeito ao tempo de socialização nos grupos sociais dos quais participam a família, a escola, amigos, as pessoas da sociedade. Por fim, o Tempo Curto é o tempo da interação dialógica, o aqui-agora, o momento em que se pode compreender a dinâmica da produção de sentido. É nesse tempo em que se tornam presentes as memórias culturais do Tempo Longo e as memórias pessoais do Tempo Vivido (Spink, 2010).