Sobre os sentidos de envelhecimento produzidos pelas e pelos rurais durante as conversas na comunidade do Arisco do Sutero, entre as primeiras associações estiveram: ser velho, idade, trabalhar menos, viver muito, experiência, tranquilidade.
Pesquisador: O que é envelhecer?
É a pessoa ser velho. (Jurema, feminino, 70 anos).
É, só pela idade né? (Mufumbo, masculino, 69 anos).
O envelhecimento é a gente passar aquele tempo daquela idade. Né? Que passou de novo pra velho, aí é idosa. (Xique Xique, feminino, 68 anos).
É... é... é... que eu estou envocado24. É que eu trabalho, eu tô trabaiando pouco agora né?! Num é como de primeiro. Nera?! Tô vivendo como Deus quer. (...) É. Trabaiar menos. (Juazeiro, masculino, 85 anos).
Experiência... É... Experiência e tranquilidade. (Marmeleiro, masculino, 61 anos).
É, pode ser a pessoa vai trabaia, vai lutando pela vida, vai lutando pela vida e a palavra de envelhecer vem se explicar que o caba viveu muito (...) É! Viveu muito. (Jucá, masculino, 71 anos)
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A respeito da associação entre envelhecimento e ser velho: o envelhecimento aparece aqui como um estágio em que se tem início um processo. Sendo a marca de uma etapa da vida em que já se é velho e a partir de onde se fica ainda mais velho. Jurema (feminino, 70) fez essa associação e, logo em seguida, coloca uma imagem futura dela, dali a alguns anos. Denotando uma processualidade iniciada do ser velho em diante.
Durante a dinâmica da conversa/entrevista, o pesquisador perguntou se ela (Jurema) se via enquanto uma pessoa que envelhece. A coprodutora da pesquisa completou: “Vejo. Me vejo sim. Uma pessoa velhinha. Já pensou eu ficar com uma bengalinha?! Andando...”. (risos).
Ao mesmo tempo em que, na interação dialógica, foi possível observar a imagem como um objetivo. Essa mesma projeção coloca o avançar do processo, o envelhecimento, como marcado por uma série de decadências físicas. Segundo Doll (2012), as transformações fisiológicas levam o organismo a menores reservas das capacidades físicas e maiores dispêndios de “energia” quando em novas situações ou a desafios que exigem adaptação. Aspectos ambientais, estilo de vida, trabalho, prevenção e alimentação também influenciam significativamente o envelhecimento. Ocorrem transformações irreversíveis, mas nem todas são assim.
Vale salientar que no construcionismo, não se nega a existência de um limite para o tempo de vida humana, bem como, a ocorrência de transformações físicas ocorridas ao longo da existência dos seres humanos. Todavia, esse “fato” é construído, implicado e vivido por seres humanos, por sua vez, também edificados de acordo com regras e normas, com o cosmos coletivo, com o arcabouço cultural do grupo ao qual estão inseridos.
Sobre a associação entre envelhecimento com idade, há, ao que se pode constar, uma permanência com padrões que definem o cruzamento de uma linha de anos vividos para se
estar em envelhecimento. Foi colocado por boa parte das coprodutoras e coprodutores que as pessoas se tornam idosas a partir dos sessenta anos de idade. Uma continuidade com os discursos institucionalizados de tempo longo, presentes na maioria dos países industrializados. Entretanto, Xique Xique (feminino, 68 anos) colocou uma ruptura com esses discursos padronizantes: “Acho que passou dos quarenta já é idosa”.
Outras falas associam o envelhecimento a um processo que se inicia ainda na infância e que “retorna” a ela. Macambira (feminino, 66 anos coloca): “Envelhecer eu acho que é porque a pessoa é pequeno, ai de pequeno tem que ficar véio, tem que ficar um veinho bem véio assim... morrer, vai virar criança de novo (risos). Eu acho que é assim”. Macambira ainda completa: “É, porque num vai ficar em cima de uma cama?! Com o povo cuidano dele como quando ele era pequenininho.”
Embora, a infantilização seja algo bastante recorrente em nossa sociedade e, como colocou com Gusmão (2001), está ligada à pessoa idosa não se comportar de maneira esperada25 , ao juízo do pesquisador, o posicionamento de macambira é uma colocação ligada ao cuidado à pessoa idosa em estágio avançado no processo de envelhecimento.
Ao contrário de um menosprezo e de um incômodo por qualquer desordem ao cosmos social, é uma fala que denota zelo. Xique Xique (feminino, 68 anos) expressa linha de ideia similar ao dizer: “Uma pessoa idosa... Ela merece muito respeito. A gente tem que tratar as pessoa idosa, como se trata uma criança, porque... Porque é pra ser assim mesmo”.
A coprodutora da pesquisa continua: “Porque tem muita gente... Que uma pessoa idosa eles discrimina. Diz assim: Ah, aquela mulher véa! Ou: Aquele homi véi ! Mas, não é assim. A gente tem que respeitar. Porque a gente é novo. E feliz do que fica velho. Né?” Esse
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posicionamento denota que, diante da série de adversidades enfrentadas, viver muitos anos é algo digno de admiração e estima.
Macambira e Xique Xique são idosas bastante ativas e autônomas, algo comum na comunidade entre essa camada etária da população local. As únicas possíveis exceções são as pessoas idosas que não puderam participar da pesquisa e se posicionar a respeito. Há, sim, uma única pessoa idosa que sabidamente se encontrava enferma. Mas, recebendo os cuidados da família. Ao que se pode observar a partir das visitas a campo e reforçar com as interações, não foi constatado nenhuma idosa ou idoso em um lugar de inatividade ou isolamento.
Esse ponto, liga-se à uma outra associação feita com envelhecimento: trabalhar menos. Mais uma vez, o trabalho ocupa um lugar central na vida nas produções discursivas dos coprodutores da pesquisa. Como já colocado, as pessoas idosas continuam ativas, realizando atividades ligadas à agricultura, à pecuária, ao contato com a natureza, ao cuidado da casa e da família. Todavia, essa diminuição tem a ver com a intensidade e maneira com que desempenham. Para eles, diferentes de outrora.
Imbuzeiro (masculino) aos oitenta e cinco anos costuma limpar, plantar e colher três mil covas de terra (um hectare). Mesmo com uma limitação em uma das pernas. Algo imposto não pelo processo de envelhecimento, mas por um acidente há poucos anos com um animal de tração. Ele (Imbuzeiro) e outros idosos relatam diminuições principalmente nas capacidades físicas advindas do processo de envelhecimento. Falam de uma menor resistência (cansam-se mais rápido) e da diminuição da força. Alguns contam estarem tendo mais dificuldades com a memória de médio e curto prazo.
Baltes e Smith (2006) apontam que eleger, aperfeiçoar e compensar novas estratégias tem sido visto como a forma pela qual as pessoas idosas têm conseguido ser mais ativas e adquirido mais bem estar. Elas têm administrado essa “escassez” das reservas físicas, tosando quantidade e valorizando aspectos qualitativos.
Na velhice, a arte de viver consiste numa busca criativa de novos e menores territórios do que aqueles que se administrou no passado. O mesmo vale para as culturas. Culturas que oferecem aos idosos novas formas de seleção, otimização e compensação são as que mais os ajudam a maximizar os ganhos da velhice. (Baltes & Smith, 2006, p.25).
Envelhecimento entre os coprodutores do estudo foi associado ainda a viver muito. Na comunidade, há histórico de pessoas que atingem idades bastante elevadas. No ano de 2012, faleceu uma mulher da comunidade que estava com cento e cinco anos de idade. A idosa era bastante respeitada por todos. Ao longo da vida, exerceu uma gama de atividades, era conhecedora de diversos processos de produção artesanal, teve vários cônjuges e criou muitas filhas e filhos. Tendo adoecido subitamente e morrido algum tempo depois. Porém, até tal momento, levava uma vida extremamente ativa (dando conta das atividades domésticas, artesanais e agrícolas).
Tomando os últimos cinco anos, viveram na comunidade, quatro pessoas octogenárias. Atualmente duas são encontradas. Em meados 2014, aos oitenta e seis anos, uma mulher idosa que também viveu de modo bastante ativo, sendo igualmente respeitada e integrada aos ritos da comunidade, teve um mal cardíaco súbito e veio a falecer.
Em outubro do ano de 2017, outra pessoa, com oitenta e dois anos, veio a falecer. Vivera tendo algum contato regular com a comunidade até os últimos dois anos de vida. Logo após mudar para o centro urbano continuou trabalhando e indo ao Arisco do Sutero, mesmo aposentado. A morte se deu em decorrência de complicações renais. Quadro clínico manifestado alguns anos após se mudar para a cidade com a esposa. Momento em que assumia, entre outras mudanças, um modo de vida menos ativo (deixou os trabalhos na agricultura e em contato com a natureza) e com mais isolamento. Passou a ir poucas vezes à comunidade.
Por fim, apareceram como primeiras associações para envelhecimento experiência e tranquilidade. Paula (2016) coloca que classicamente em decorrência da experiência advinda com o enfrentamento das adversidades a sabedoria sempre esteve associada à velhice. Inclusive no oriente, o nome Lao Tsé, do grande filósofo chinês se traduz para “velho sábio”. O autor trata da impossibilidade de sabedoria em tempos de capitalismo para os idosos, apontando uma série de desembocaduras que inviabilizam uma vida serena na atualidade.
Marmeleiro (masculino, 61 anos) foi quem trouxe em seus repertórios essas duas associações. A afirmação que se segue pode soar especulativa, mas, possivelmente estava fazendo referência ao modelo de velhice que possui na família: o falecido pai dele. Como trouxe (Spink, 2013) somos um conjunto de vozes que nos atravessam (do tempo de socialização e do tempo longo) e se presentificam no momento da interação.
O pai de Marmeleiro faleceu com quase noventa anos de idade, de um mal cardíaco súbito. Era uma pessoa bastante ativa, respeitada e muito conhecedora das dinâmicas de uma vida de trabalho, família, contato com a natureza, saberes populares bem como religiosos. Ele era um tipo de curandeiro na região, uma referência nos momentos de angústia daqueles que viviam sem assistência alguma do Estado. Muitas pessoas o procuravam para uma reza, indicação de uma erva e palavras acalentadoras.
O pesquisador teve a oportunidade de conhecê-lo antes de seu falecimento há alguns anos, também de recolher informações sobre esse quando em visitas a campo. Durante a conversa com Marmeleiro, ele citou bastante os “saltos” devido a experiência adquirida que o pai dava. Por exemplo, sendo um pequeno agricultor se deslocava a outros municípios para conseguir empréstimo para financiar a produção.
O pai dele era bastante sereno e tranquilo. Uma pessoa que alcançara a paz que expressava pela experiência acumulada ao longo dos anos e a distribuía. Sendo muito admirado e respeitado por todos nas adjacências. Assim como o filho.
Além desses repertórios apresentados e discutidos, algumas falas usam figuras e lugares comuns as práticas discursivas já apresentadas para associar o envelhecimento a um processo que dura toda a vida. Também para uma etapa penúltima antes da morte. No próximo tópico, serão apresentados os sentidos produzidos sobre velhice, sobre ser idosa ou ser idoso.