2.2 Normes africaines
2.2.2 Normes africaines objectives
Para Anísio a democracia não se daria naturalmente e sim através de uma educação intencional e organizada. A partir da escola se teria a possibilidade de uma educação democrática, apesar de a escola nem sempre ser um instrumento da democracia pelo contrário era onde muitas vezes se perpetuam as desigualdades sociais. No entanto, não é qualquer educação que produz democracia, tem de ser uma educação com a finalidade especifica de formar o regime democrático.
A sociedade democrática é a sociedade em que haja o máximo de comum entre todos os grupos e, por isto, todos se entrelacem com idêntico respeito mutuo e idêntico interesse. As relações entre todos os grupos e o sentimento de que todos têm algo a receber e algo a dar emprestam a grande sociedade o sentido democrático e lhe permitem fazer-se o meio do desenvolvimento de cada um e de todos ( TEIXEIRA nº 62, p.7, abril/jun.1956).
A escola democrática é aquela que põe em prática o ideal democrático e tem atitudes democráticas entre professores, alunos, administração, na elaboração dos currículos, nos métodos de ensino, na organização das atividades. Se o modo de governar da escola não for democrático ela não pode governar para a democracia. Anísio nos alerta que a experiência democrática não é fácil, “porque a própria escola não surgiu com a democracia, mas com e
para a aristocracia, e está (ainda está) muito mais apta a formar aristocratas do que democratas”. (TEIXEIRA, nº 62, p.7, abril/jun.1956).
Historicamente a escola média e superior sempre tinha sido destinada para as classes dominantes, enquanto que a escola primária de constituição mais recente buscava a formação do cidadão comum com orientações democráticas. No entanto, como a escola não pode ser deslocada de seu contexto social, o autor afirma que a escola primária sofreu duas deformações: uma social e outra pedagógica.
No que se refere à deformação social, a escola primária brasileira se fez uma escola paternalista destinada à educação dos governados em oposição à educação que era destinada aos governantes, ferindo dessa forma seu ideal democrático de educação para formação de um povo. Em relação à deformação pedagógica, a escola primária implantou modelos europeus que não resolviam os problemas educacionais brasileiros e tornaram a escola intelectualista apesar das tentativas constantes de renovação de sua pedagogia.
para se fazer uma escola de formação humana, em que o indivíduo aprenda a afirmar sua individualidade numa sociedade de classes abertas, em que a aptidão e o êxito lhe determinem o status- mais dependente de condições pessoais do que propriamente de hierarquia social pré- estabelecida.(TEIXEIRA, nº 62, p.8, abril/jun.1956).
A escola democrática não visa a uma formação complementar, mas a uma formação comum, uma sociedade de todos e para todos onde o respeito ultrapassa a hierarquia social, onde o prestigio de um determinado segmento social dar lugar a déia de pertencimento a uma comunidade, um país ou até mesmo a humanidade. Esse modelo de escola valoriza a vida, a aprendizagem se dá através da experiência, das atividades próprias da vida, extraindo delas seu potencial educativo, oportunizando situações que estimulem a reflexão do aluno. Nesse ambiente não se levam em conta as diferenças sociais e sim as individuais, a história de vida de cada um que pode ser somada ao processo educativo, “[...] em que se destruam os isolamentos artificiais e as prevenções segregadoras, visando o estabelecimento de uma verdadeira fraternidade humana”. (TEIXEIRA, nº 62, p.9, abril/jun.1956).
Anísio faz uma distinção entre o “saber das coisas” herança da escola tradicional, de cunho aristocrático onde na melhor das hipóteses o aluno consegue falar sobre as coisas, e o “saber sobre as coisas” estimulado pela escola democrática que consiste em ensinar-se a fazer as coisas, centra-se nas atividades comuns do dia a dia e extrai-se delas todo seu potencial educativo. Dessa forma, o saber não é um acúmulo de conhecimentos inúteis mas o domínio
de um repertório que ajude a resolver problemas pertinentes à condição humana e à concretização de uma ideal de homem. (TEIXEIRA, nº 62, p.9-10, abril/jun.1956).
Partindo da ideia de que “toda ação é um ato partilhado”, a escola deve promover a participação de todos, inclusive dos alunos, tendo em vista que o desenvolvimento da criança é um desenvolvimento em conjunto, ninguém se desenvolve sozinho, mesmo características particulares de determinado indivíduo só serão desenvolvidas em razão de outros; a escola deve ser organizada em “comunidades”, sejam elas de pais, de alunos, de professores, de funcionários onde a “experiência escolar” tenha a possibilidade de se transformar em “experiência democrática”. (TEIXEIRA, nº 62, p.3-27, abril/jun.1956).
A democracia não vai ser acrescentada à vida, ela vai ser aprendida e praticada na escola e transplantada para a vida fora da escola, as atividades escolares valorizam a participação e proporcionam “crescimento emocional, intelectual, e moral” e se afastam dos velhos métodos de ensino. Afinal,
Na escola tradicional, a segregação, que isola e aliena, manifesta-se de todas as formas, pelo ensino de culturas passadas sem articulação com o presente, pelo ensino abstrato sem ligação com os fatos, pelo ensino oral e livresco sem relação com a vida, pelo ensino de letras, sem referencia com existência, enfim por todos aqueles exercícios que rompem a continuidade entre o mundo e a experiência do aluno e a sua aprendizagem. (TEIXEIRA nº 62, p.3-27, abril/jun.1956).
Anísio afirma que as questões colocadas anteriormente podem até servir como princípios para uma educação democrática, mas segui-los não significa que se vai se alcançar essa tão almejada educação.
A escola com uma formação tradicional é uma instituição “especializada”, com “uma sala de aula, ‘matérias’ para aprender, horários, notas, regras especiais de disciplina...”. A escola é envolvida por um clima de artificialidade seja no modo de aprender, na disciplina e no modo de avaliação do rendimento dos alunos. Nessa instituição, a ordem escolar só poderia ser obtida pela “[...] completa docilidade por parte do aluno ou por dura imposição da escola”. No entanto, essa instituição tende a gerar “indivíduos conformistas ou rebeldes” que não contribuem para a construção de uma sociedade democrática. (TEIXEIRA 1956, Nº 62, p. 13).
Quanto à “escola progressiva” os programas e as atividades dos alunos estão diretamente relacionados com seus interesses e necessidades, o professor não é mais o detentor de todo o saber, mas um “guia”, um facilitador no processo de ensino. (TEIXEIRA,
1956, Nº 62, p. 13), as condições de aprendizagem da escola se assemelham a outras organizações sociais como a família, o trabalho, o clube, a igreja. As atividades escolares não são impostas, procura-se estimular a participação dos alunos. Essa nova forma de organização escolar por si só não garante que teremos uma escola democrática, mas aponta caminhos para efetivação de uma escola democrática.
Para que se possam ocorrer os processos democráticos de educação a escola precisa ser transformada numa instituição que favoreça as “experiências formadoras”. A escola baseada na informação e na disciplina não é capaz de “educar”, mas apenas “ensinar e adestrar” (1956, Nº 62, p. 14), mas não basta só a transformação dos métodos de ensino, as relações entre os funcionários da escola, os professores e os dirigentes também precisam ser baseadas no princípio democrático.
As experiências de participação podem gerar atitudes de “cooperação, de responsabilidade, reconhecimento dos méritos de cada um, de participação integradora na vida comum e de sentimento de sua utilidade no conjunto”. (TEIXEIRA, 1956, Nº 62, p. 14) Na instituição com esses tipos de experiências o processo democrático surgirá naturalmente, a democracia não será acrescentada à escola, mas ela se dará na forma como são conduzidas as atividades escolares.
Para Anísio a sociedade democrática é
uma sociedade de pares, em que os indivíduos, a despeito de diferenças individuais de talento, aptidão, ocupação, dinheiro, raça , religião e mesmo posição social, se encontram associados, como seres humanos fundamentalmente iguais, independentes mais solidários.
Não é algo que “exista ou já tenha existido”, também não é algo pelo qual o homem tenha “tendência natural”, só a partir de uma atividade educativa intencional se poderia transformar os homens contra suas tendências hereditárias, socais e até biológicas. Uma sociedade democrática parte-se, portanto de “uma afirmação política, uma aspiração, um ideal ou, talvez uma profecia...” (TEIXEIRA, 1956, Nº 62, p. 15).