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1 Normalisation intra-puce

CHAPITRE 4. ACQUISITION DES MESURES D'EXPRESSION

1. NORMALISATION INTRA-PUCE

As épocas henriquina e manuelina

É sob a administração do infante D. Henrique que começa uma nova épo- ca para o modus vivendi dos freires da Ordem de Cristo. Homem de espírito místico, visionário e empreendedor, iluminado por fervorosa fé católica, empreende a primeira reforma dos Estatutos da Ordem em 1434, em que pro- curou actualizar as normas do regime de bens e disciplinar as obrigações monástico-militares quotidianas.

Apercebe-se igualmente da urgência em erigir uma casa-mãe para a Or- dem de Cristo, de modo a garantir uma vida em comunidade criteriosa e proporcionar assistência religiosa aos seus elementos e população laica, com a celebração da Missa e a recitação das Horas Canónicas. O Infante determi- na, por isso, que os religiosos que ainda servissem na igreja de Santa Maria do Olival passassem a viver somente no Castelo e a oficiar na capela fortifi- cada dos Templários, a Charola. Ele próprio ali fixou residência, elevando- -se os Paços henriquinos localizados junto à alcáçova do Castelo. Planeou- -se, simultaneamente, a alteração arquitectónica da Charola «pera esta egreja poder servir de conuento de religiosos», adaptação realizada a partir de 1430.1 Assim, foi aberta uma porta principal voltada a Este que permitiu o acesso da população ao culto divino, pois a porta que a Charola tinha era inte- rior, comunicando apenas com a muralha que levava à alcáçova do Castelo.2

1 AA.VV., Anais da União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo, Tipografia

Gouveia e A gráfica de Tomar, Tomar, 1943 – I, p. 183.

Para que os exercícios do culto divino fossem devidamente oficiados pe- los freires, «mandou fazer o dito senhor iffante Dom Anrique coro no arco (…) da capella [futuro arco manuelino] que est[á] contra poente o qual fez de baixo do dito arco no mociço [= maciço] da parede altura do andar do conuento de huma braça, (…) ao qual acrecentou huma pequena sacada so- bre a mota [exterior; = mata] e outra sobre a egreja com hum peitoril que tiraua hum pouco da graça da egreja».3 A construção deste coro alto ronda o ano de 1460 e podia albergar até vinte pessoas;4 teria na rectaguarda uma espécie de varanda virada para o exterior, aberta na espessura da parede da Charola.5 Segundo recentes investigações de Maria José Travassos Bento, a estrutura do coro ficava exteriormente encaixada entre dois contrafortes da Charola; o acesso ao coro era feito por uma escada, subindo pelo grosso da parede da igreja no lado norte, comunicando com o dormitório dos freires e com o claustro.6 O seu cadeiral devia estar disposto lateralmente deixando o eixo central livre para facilitar o contacto visual com o altar,7 que ocupava a parte central da edícula (de oito colunas) pois esta seria a zona mais ilumina- da «e se poder ver deos de todas as partes arredor».8

Foram ainda construídos uma pequena sacristia, a sala capitular e dois claustros, concluídos por volta de 1453. O claustro do cemitério, com ligação à Charola, para além de vir a ser o Panteão da Ordem, servia para «as fun- ções eclesiasticas como Procisoes e outras como a do Lava[-]pes em quinta feira mayor».9 A este claustro sucede-se um segundo, com dois andares, devido ao desnível do terreno. O claustro superior destinava-se às acomoda- ções dos freires, e o inferior, às tarefas quotidianas domésticas, passando por isso a ser designado por claustro da lavagem ou do lavor. Segundo Frei Ber- nardo da Costa, devia ser chamado de claustro das ciências, pois foi um es- paço onde se chegou a ensinar e discutir teologia.10

3 AA.VV., op. cit., 1943 – I, ibidem.

4BRAGA, Maria Manuela Correia, Os cadeirais de Coro no final da Idade Média, Dis-

sertação de Mestrado em História da Arte da Idade Média, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 1997, p. 68.

5 DIAS, Pedro, A arquitectura gótica portuguesa, Lisboa, Editorial Estampa, 1994, p. 69. 6 BENTO, Maria José Travassos, O Convento de Cristo em Tomar, Do Infante D. Henrique

às empreitadas manuelinas, Direcção Geral do Património Cultural, 2013, p. 73.

7 BENTO, Maria José Travassos, op. cit., ibidem.

8 «Forma e fortaleza desta casa. A capella desta egreja esta em meo della e he hua charo-

la oitavada e em cada oitavo fica seu arco vão, e parece que se fez assi pera o altar estar em meo della e se poder ver deos de todas as partes arredor» (BNL, Cod. 8523, n.º 12, fl. 2v; JANA, Ernesto, op. cit. – 1990, p. 72).

9 BNL, Cod. 501, fl. 91. 10 IDEM, ibidem.

Fig. 16 – Planta da Charola com localização do coro henriquino e do cadeiral, representado por duas barras.11

Fig. 17 – Perfil poente do Castelo e Charola, com coro henriquino.12

11 Planta da autoria de BENTO, Maria José Travassos, op. cit., p. 73. Imagem cedida

gentilmente por Maria José Bento.

12 Desenho da autoria de BENTO, Maria José Travassos, op. cit., p. 71. Imagem cedida

As fontes históricas referem-nos, todavia, que «athe o anno de 1497 não se vivia no Convento de Thomar em modo de religião nem a Igreja era bem servida no Culto Divino, nem tinha conversos, nem ornamentos para isso, e na cerca da Villa, onde esta situado este Convento vivião leigos cazados, e de toda a sorte, e muitos dos Freires vivião em baixo, por onde lhe parecia sem nenhum modo de vida regular».13

A degradação moral que caracterizava o clero português nas instituições monástico-religiosas e militares em finais do século XIV, perdurou durante o século XV e estendeu-se até ao início do século XVI. A situação dos freires clé- rigos e cavaleiros de Cristo não divergia das demais Ordens; os primeiros não viviam em comunidade e ignoravam a prática da sua Regra, negligenciando o serviço religioso; os segundos geriam mal as suas comendas, do que resultava diminuição do seu rendimento económico, metade do qual devido à Ordem.

Fig. 18 – Reconstituição conjectural do Castelo, Charola e Convento de Tomar

no tempo da administração do infante D. Henrique.14

13 BNL, Cod. 8842, fl. 203v.

14 BENTO, Maria José Travassos, op. cit., p. 99. Imagem cedida gentilmente por Maria

Fig. 19 – Castelo e Convento de Tomar com destaque para os claustros e ruínas henriquinos (na actualidade).

Apesar da falta de observância monástica, não será prudente pensar-se que desde as determinações henriquinas até esta data não se terá cumprido qual- quer serviço ou devoção religiosas na Charola do Convento. Desde 1434 que se tem indicação que esta capela templária, à qual o Infante se tornara muito dedicado por ter muitas relíquias de santos, era muito frequentada pelos fiéis no dia de S. Tiago Maior, contribuindo com as suas esmolas para a sua con- servação e propagação do culto divino.15 Em 1443 este culto estaria já enrai- zado, uma vez que as fontes nos documentam que nesse dia «se costumava [ali] reunir (…) grande multidão de povo».16 É, portanto, plausível que um grupo de freires tenha aceitado oficiar na Charola e viver permanentemente no Castelo em resultado das decisões do Infante.

O prolongamento das obras henriquinas não terá interrompido a normali- dade do serviço e devoção religiosas, e a conclusão destes trabalhos faz igualmente imaginar que mais freires tenham passado a residir e a cumprir regularmente as suas obrigações religiosas no Convento a partir do terceiro terço do século XV.

15 ROSA, Amorim, op. cit. – 1972, VIII, p. 390. 16 IDEM, p. 452.

A reforçar as anteriores suposições, atente-se igualmente nas Definições da Ordem de 1503, sobre o preceito religioso do Ofício Divino no Convento, cujas palavras nos parecem confirmar o seu cumprimento e regularidade ao referirem o «que antiguamente sempre no dito conuento se fez e costumou fazer».17 Na realidade, dever-se-á interpretar aquela situação à luz da depen- dência financeira da Ordem com relação à Mesa Mestral, que nem sempre se disponibilizava a pagar atempadamente as despesas ordinárias da comunida- de conventual, ocasionando por vezes o abandono do Convento por parte dos freires.18

Até 1497, o Convento não possuía bens, rendas nem direitos, usufruindo apenas do parco rendimento da comenda do Sonegado, propriedade do Dom Prior. É neste sentido que nos últimos anos do século XV, D. Manuel atribui aos freires alguns privilégios financeiros, entregando ao Dom Prior parte da administração do Convento e o celeiro de Tomar, o que desta forma lhes permitiu uma maior independência económica, assegurando concomitante- mente a permanência dos freires e o cumprimento regular do culto divino: «daqui em diante todos seião mui bem pagos do que hão de aver, e não te- nham rezão de se agravarem, nem queixarem das ditas pagas antes tenhão mais azo de estarem, e continuarem no dito Convento e servirem nelle a Nosso Senhor e rezarem, e cantarem suas horas como devem».19O monarca completará estas mercês com algumas rendas destinadas às despesas com o Ofício Divino e com a Missa (hóstias, cera, incenso, azeite, vinho), alimen- tação, vestimentas e calçado dos freires. Não se consegue, contudo, concluir, pela leitura das fontes consultadas, qual terá sido exactamente o ano em que podemos considerar a existência de uma comunidade de freires permanente no Convento, embora possamos apontar como ponto de partida o ano de 1492, e a sua reunião final, para o ano de 1499. Neste ano, D. Manuel reforça a sua vontade para que todos os freires clérigos, e somente eles, dali em di- ante passassem a viver somente no recinto do Convento e aí se “fechem”,20 só podendo sair com autorização do Dom Prior. Foi igualmente um derradei- ro esforço de moralização da disciplina interna da Ordem. Assim se deverá ter completado a comunidade dos freires de Cristo no seu Convento em To- mar durante a última década do século XV.

Em 1499, D. Manuel favoreceria ainda o Convento, à semelhança do que sucedera em 1492, com a oferta de algumas alfaias litúrgicas nobres, orna- mentos e mais vestimentas para os freires, determinando, desta vez, obras de

17 BNL, Cod. 735, fl. 140.

18 SOUSA e SILVA, Isabel L. Morgado, op. cit. – 2002, p. 149. 19 ANTT, MCO, OC/CT, Maço 50.

recuperação e beneficiação da Charola. O seu interior foi decorado com ro- sas e estrelas de ouro num campo de azul, e o seu coruchéu foi restaurado, porque chovia no coro,21 o que denota o empenho do monarca em exaltar o serviço religioso do Convento e o seu espaço sacro.22

Fig. 20 – Charola antes das obras manuelinas ainda com o coruchéu.

Pormenor da iluminura do frontispício do Livro IV da Extremadura, Leitura Nova.

Nestas listas de ofertas régias não estão incluídos livros litúrgicos que nos pudessem ajudar a desvendar a natureza espiritual e/ou musical dos mesmos. É de crer, no entanto, que o Convento já possuía alguns livros de apoio ao

21 IDEM, ibidem.

22 A iluminura quinhentista que decora o frontispício do Livro IV da Extremadura da

Leitura Nova (1503), exibe a feição da Charola antes das obras manuelinas posterio- res. Nesta fonte iconográfica podemos identificar as casas dos leigos dentro da cerca do Convento, o coruchéu, a porta henriquina a nascente e o terreiro exterior manuelino com os seus dois tabuleiros e escadarias; do lado direito, identificam-se as duas portas na muralha, que davam acesso ao claustro da lavagem e aos Paços henriquinos, mais tarde conhecidos por Paços da rainha D. Catarina, em virtude da monarca regente aí ter residido.

serviço litúrgico, alguns deles com notação musical, uma vez que as Horas eram celebradas e cantadas pela sua comunidade. Por esta altura, a prática musical dos freires seguiria o rito monástico, musicalmente baseado no can- tochão. Podemos ainda conjecturar que, durante as décadas finais do século XV, já se exercitaria no Convento de Cristo, para além do cantochão, alguma forma primitiva de polifonia, como por exemplo, o fabordão. Este canto harmónico improvisado, que não exigia um conhecimento técnico aprofun- dado, difundiu-se naturalmente e com grande aceitação na prática musical litúrgica na segunda metade do século XV e no seguinte.23

Até ao início do século XVI, não se denuncia documentalmente a prática de canto de órgão, ou seja polifonia, e de cantochão, nem se infere a coexis- tência de ambas no Convento de Cristo. A dificuldade na procura de esclare- cimento através da análise das fontes históricas e normativas daquela época deriva igualmente do facto de que, no caso da Ordem de Cristo, estas serem «escassas, diremos mesmo, raríssimas para o século XIV, não abundando também no século XV e primórdios do século XVI».24 Esta dificuldade é ainda sobremaneira agudizada pela ausência, até à data, de quaisquer fontes musicais pertencentes ou originais da Ordem desse período, que nos permi- tissem descobrir quando se terá escutado pela primeira vez o canto polifóni- co no Convento, e de que modo se terá dado a sua evolução e consequente introdução na liturgia. Baseando-nos, por conseguinte, nas fontes históricas, estas demonstram que D. Manuel foi o grande impulsionador do desenvol- vimento musical do Convento de Cristo no dealbar do séc. XVI, desejando que a sua comunidade religiosa sirva solenemente no Altar e no Coro. Para tanto, promove a formação cultural e teológica dos freires e cimenta a evolu- ção da prática musical, obrigando a que todos os religiosos saibam ler e can- tar. Administrador da mais poderosa Ordem Militar Portuguesa, e senhor de uma Capela Real de elevado nível musical,25 quererá que o Convento de Cristo corresponda “musicalmente” a essa condição, ao promover a discipli- na na sua prática religiosa, a que não poderia faltar uma organização musi- cal; à semelhança do que conclui Isabel Morgado Sousa e Silva, «a Ordem de Cristo era a imagem reflectida da sua própria governação».26

23 ALEGRIA, José Augusto, O ensino e prática da música nas Sés de Portugal (da

Reconquista aos fins do século XVI), Biblioteca Breve, vol. 101, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação, 1985, pp. 84-85.

24 SOUSA e SILVA, Isabel L. Morgado de, op. cit. – 1997, p. 42. 25 NERY, Rui Vieira & CASTRO, Paulo Ferreira de, op. cit., p. 23.

26 SOUSA e SILVA, Isabel L. Morgado de, «Uma dinâmica política concertada:

D. Manuel, administrador da Ordem de Cristo e rei de Portugal», As Ordens Militares

e as Ordens de Cavalaria na construção do mundo ocidental, Actas do IV Encontro sobre Ordens Militares, Edições Colibri/Câmara Municipal de Palmela, 2005, p. 341.

Podemos assim supor, que o desenvolvimento da prática musical no Con- vento de Cristo deveria ser a imagem reflectida da Capela Real de D. Manuel, o que antecipa o alargamento da prática polifónica reservada ao Paço e Câmaras nobres, às Capelas das Sés que se verificou nas décadas seguintes.27 Este desenvolvimento terá derivado igualmente das novas medi- das régias que garantiam o sustento económico do Convento. Com efeito, o registo relativo às rendas e rações atribuídas aos freires de Cristo contido no Livro de Doações, Previlegios, Consedidos ao Convento de Tomar (1502 a

1527), mostra-nos que, em Maio de 1502, D. Manuel abre caminho para a organização da prática polifónica no Convento de Cristo, procurando ali manter, pela primeira vez, a presença permanente de um professor de canto de órgão (talvez em acumulação com funções de Mestre de Capela). São igualmente atribuídas rações a um tangedor de órgãos (organista), a um mes- tre de gramática e a um mestre de teologia:

«desta era de quinhentos e dos em diante dee e pague ao (…) dom prior e freires (…) cento e oitenta mil rreais. que vem por ano noventa mil rreais na forma e maney[ra] contheuda neesta carta sem hir contra ella em parte ne em todo porque assy he nossa mercee. (…) E com tal condiçam que no dito Convento aja pera sempre hũa reçam pera huũ meestre de gramatica que ensine nelle. E outra reçam pera huũ tangedor dorgaos. E hũa reçam e mea pera hũa pessoa que tambem ensine de theologia. E outra reçam pera que ensine de canto dorgaao».28

Entre 5 e 8 de Dezembro de 1503 celebrou-se no Convento de Tomar o Capítulo Geral da Ordem de Cristo, presidido por D. Manuel, do qual resul- tariam as Definições de 1503 e que oficializam, pela primeira vez, o cargo de tangedor do órgão29 e do mestre de gramática.30 Percorrendo a mesma linha de decisões, podemos pensar que o mesmo se verificaria para o mestre de canto de órgão e para o mestre de teologia. Tal, porém, não acontece, o que poderá significar que, em 1503, se contemplaram apenas as pessoas que já existiam em funções. Com efeito, encontrou-se notícia da actividade de Frei Vasco de Vilhena, mestre de gramática em 1501,31 e as primeiras referências

27 BRITO, Manuel Carlos & CYMBRON, Luísa, op. cit., p. 40; NERY, Rui Vieira &

CASTRO, Paulo Ferreira de, op. cit., p. 32.

28 ANTT, MCO, OC/CT 35, fl. 13

-

13v. 29 BNL, Cod. 735, fl. 148v.

30 IDEM, fl. 146v.

encontradas sobre o tangedor de órgão datam de 1500,32 fazendo parte das listas de beneficiados do Convento desse ano.33

Uma outra explicação que se poderá avançar para a “inexistência” oficial do cargo de mestre de canto de órgão nas Definições de 1503 será esta: talvez não tenha sido possível encontrar, ou deslocar para Tomar, quem se mostras- se qualificado para exercer esta função, ficando consequentemente o lugar por ocupar. O mesmo se terá passado com o mestre de teologia.

No caso do mestre de canto de órgão, esta circunstância levanta uma ou- tra questão. A prática de canto de órgão, ou polifonia, exige uma Capela de cantores especializada que a execute, em oposição ao Coro formado por todos os freires para a prática do cantochão. Esta Capela de cantores seria formada por freires seleccionados pelas suas qualidades vocais e poderia con- tar, ou não, com os tradicionais meninos do Coro para as vozes de soprano. Na ausência destes, alguns dos freires podiam recorrer à técnica de falsete.

A existência de uma Capela de moços, ou de freires, no Convento, não é clara no início do séc. XVI. Os documentos da Mesa Mestral de 1500 refe- rem-se ao pagamento de rações dos freires, não especificando, contudo, a quem se destinariam; em 1502, às trinta rações atribuídas, acrescenta-se uma ração a repartir por dois moços,34 não havendo indicação das suas tarefas no Convento. Os textos normativos de 1503 alargam um pouco esta escassez de informação; na cláusula que diz respeito aos trajes que se devem usar no Ofício Divino mencionam-se os moços que servem no Coro e no Altar,35 o que indicia uma possibilidade de estes servirem no Convento não apenas como acólitos. No entanto, a ausência de uma maior especificação das tare- fas destes rapazes, não nos facilita nem conduz à conclusão de que existia um grupo de moços de Coro nesta altura, pronto a ser ensinado e dirigido por um mestre de canto de órgão. A situação é idêntica quando se tenta identifi- car uma Capela de cantores formada por freires.

Vejamos, de seguida, a crónica que nos relata o Capítulo Geral de 1503, de modo a tentarmos saber um pouco mais sobre o que realmente se terá passado. Esta é a crónica mais antiga e contemporânea que se conhece de uma cerimónia capitular realizada no Convento de Cristo. A sua descrição é- -nos legada por Frei Francisco, escrivão do cartório da Ordem até ao ano de

32 Também o físico do Convento é mencionado no ano de 1501, em carta onde se estipu-

la a quantia que o Convento deve receber para este se manter ao seu serviço (ANTT, MCO, OC/CT 35, fl. 58). Somente em 1503 se confirma oficialmente o seu cargo (BNL, Cod.735, fl. 148v).

33 SOUSA e SILVA, Isabel L. Morgado de, op. cit. – 2002, p. 183. 34 ANTT, MCO, OC/CT 35.

1530.36 O documento descreve-nos o protocolo faustoso e a solenidade desta cerimónia. Perante D. Manuel, reuniu-se na velha Charola templária uma assembleia de cerca de sessenta dignidades, onde se incluía o descobridor Pedro Álvares Cabral, e «se começou, pellos freires que todos [38] no coro [henriquino] estavam, hũa missa do Spiritũ Sancto solepnemente cantada».37 Quando a missa terminou, os freires desceram do coro segundo a sua posição hierárquica, formando uma procissão que se iniciou ao hino Veni Creator começado por «frei Gonçalo Mendez, cantor da hordem».38 O cortejo saiu pela porta principal da Charola, entrou no claustro da lavagem pelo andar inferior e prosseguiu até à sala capitular, construída em tempo do infante D. Henrique, magnificentemente adornada para a ocasião. Ao longo de todo o percurso, repetiu-se sucessivamente o mencionado hino, até que, quando