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Chapitre III: Place du Nintedanib dans la prise en charge thérapeutique de la FPI

III- Les médicaments antifibrosants

2- Nintedanib

recíproca relevância entre o comunicado nos sucessivos ENs (em si mesmos

simples, compostos ou complexos) que realizam o texto ^ '.

.48.

2 - 2 . 6 . 1 .

A exigência de não contradição e de não tautologia revel a-se, a primeira v i s t a , deveras elementar, pois que, em condições " h a b i t u a i s " ou "nor mais" de comunicação, não sÕ não diremos num dado EN o " c o n t r á r i o " do que f i - cou referido num EN antecedente, como também não diremos sucessivamente "o mesmo acerca das mesmas coisas" (ainda que, eventualmente, "por outras pala- v r a s " ) . Decorreriam da contradição e da t a u t o l o g i a , respectivamente, uma r u - ptura e uma redundância excessiva, que justamente viriam c o n t r a r i a r o desen- volvimento consequente da mensagem, a sua continuidade.

T. van Dijk enuncia esta dupla condição de coerência nos seguin- tes termos genéricos: "We . . . w i l l assume as a rule here that a t e x t i s cohe- rent i f immediatly subsequent sentences/sentoids are not equivalent or contra- d i c t o r y . This rule asserts that texts i n natural language, i d e a l l y (2 9) , are

l i n e a r l y consistent and non-redundant" (van D i j k , 1972, 97).

Como se escreveu acima, esta dupla condição de coerência revela- - s e , a primeira v i s t a , elementar. No entanto, múltiplos problemas surgem a q u i , tendo basicamente a ver, por um lado, com os contornos precisos a dar ãnoção de contradição, e ã de t a u t o l o g i a , e por outro lado, com a definição do l i m i a r a p a r t i r da qual uma e outra bloqueiam (ou perturbam gravemente) o desenvol- vimento da mensagem.

Em relação ã exigência de não t a u t o l o g i a , torna-se claro que ela se a r t i c u l a ã necessidade de se v e r i f i c a r em todo o texto uma progressão no comunicado. (Esta progressão dá cumprimento a uma das máximas de quantidade de Grice, que "prescreve" o carácter "suficientemente informativo" a r e s p e i - t a r pelo locutor em cada intervenção numa conversação). No entanto, como se verá melhor mais abaixo, esta progressão envolve uma sempre ampla retoma, ex p l í c i t a ou i m p l í c i t a , do j á manifestado ( e x p l í c i t a ou implicitamente). Repa- rar-se-ã ainda que a configuração idiomática de uma LN comporta não raro es- quemas construcionais em que se projectam t a u t o l o g i a s , que toda a redundância e, ã_partida, um momento de t a u t o l o g i a , e que, finalmente, a repetição i n s i s - tente do j á comunicado é um recurso intencionalmente u t i l i z a d o para a obten- ção de e f e i t o s comunicativo-expressivos diversificados (por ex, e f e i t o s argu- mentativos).

.49.

Algumas destas observações valem também para a contradição: também em muitas línguas estão "consagradas" combinações de elementos, a p a r t i d a , " c o n t r a d i t ó r i o s " , também em muitas produções verbais se projectam "contradições" que visam a obtenção de e f e i t o s expressivos p a r t i c u l a r e s . A questão da contradição é, porém, bem mais complexa, e deve ser r e f e r i d a a diversos parâmetros, entre os quais interessa destacar "o posto" e "o pres- suposto", e os diferentes "mundos possíveis". (Para alguns dados imediatos sobre estes parâmetros, ver Charolles, M., 1978, 22-31) (3 0) .

2-2.6.2. ( i )

Quanto a norma de relevância, mais do que problematizar a noção complexa que cabe sob t a l denominação (nos seus aspectos l ó g i c o s , pragmáti- cos e semânticos: ver elementos e referências em van D i j k , 1977), interessa sobretudo aqui toma-la de modo singelamente o p e r a t ó r i o , e r e f e r i - l a ao aces- so que, sempre no quadro de uma totalidade de s i g n i f i c a ç ã o que "domina" uma dada produção v e r b a l , reciprocamente se dão os f a c t o s , os acontecimentos, as situações . . . manifestados nos sucessivos ENs de um t e x t o . Tal se consubstan-

c i a e m relações de ordem (seriação cronológica, inclusão de conceitos, i m p l i -

cação l ó g i c a ) , ou, em termos mais correntes (se bem que conceptualmente mais complexos), em relações de causalidade, desdobrável em conexões de necessida- de, p o s s i b i l i d a d e , probabilidade, condição, f i n a l i d a d e (3 1) . (Ver também nú-

mero seguinte).

0 que basicamente aqui se equaciona é a acessibilidade entre os "mundos" sucessivamente recortados na sequência t e x t u a l , onde surgem assina- lados ou indiciados por múltiplos instrumentos verbais (tempo-modo e aspecto v e r b a l , marcadores temporais, modalizadores, r e l a t o r e s , verbos especificamen- te "criadores" de um dado "mundo" . . . ) .

Muitas das conexões por que se manifesta este mútuo acesso entre "mundos" não são explicitamente marcadas, surgindo então como i m p l í c i t a s : são suportadas por inferências e assumpções retiradas ou tomadas na base do con- teúdo das expressões actualizadas ou do conteúdo global vasado num EN ( l o g o , disponíveis para os falantes na base do conhecimento da organização especí- f i c a da língua em que se manifesta o texto) e/ou na base do conhecimento da situação p a r t i c u l a r da produção v e r b a l , e do seu tema, e ainda do conhecimen-

.50.

to do mundo em g e r a l . (Ver adiante, particularmente 2-2.10.)

2 - 2 . 6 . 2 . ( i i )

Os "objectos" (e o que deles se predique) envolvidos nos f a c t o s , acontecimentos, situações . . . recriados nos sucessivos ENs do texto devem também dar-se mutuamente acesso. Tal é conseguido na base das m ú l t i p l a s vias que estabelecem conexões de co-referência e cross-referência (ver acima, par- ticularmente nota 18 e o texto a que ela se r e f e r e ) . Na verdade, a repetição do j a comunicado é um traço imediatamente s a l i e n t e em todo o t e x t o . Reparar- - s e - a , no entanto, que muito regularmente na "repetição" não se consuma uma mera retoma: na paráfrase, na sinonímia, na parasinonîmia, na designação meta- f ó r i c a , na metonimização . . . incrustam-se "elementos novos", em p a r t i c u l a r se- mas a v a l i a t i v o s , modalizadores; na propria retoma por pro-formas ( s u b s t i t u t o s

l e x i c a i s ) algumas "informações novas" podem ser projectadas (exemplo f l a g r a n - te c o n s t i t u i r á a indicação de "reunião num conjunto" de termos inicialmente introduzidos numa enumeração:

Pedro, João e Clara encontram-se todos os sábados; eles são os animadores de um grupo de t e a t r o experimental).

0 mútuo acesso que se dão os "objectos" está intimamente ligado aos diversos "mundos"configurados na sequência de ENs; d i r - s e - ã que a a r t i c u - lação consequente entre os "mundos" sucessivamente recortados no t e x t o envol- ve a permanência (dada pela via de relações de equivalência) de determinados designados a par da introdução de novos designados de algum modo conectados com os j á i n s c r i t o s no(s) "mundo(s)" manifestado(s).

Da mesma forma, a mútua relevância entre os f a c t o s , os aconteci- mentos, as situações . . . manifestados nos ENs do texto postula adequadas co- nexões no que tange ao tempo e ao lugar em que se desenvolvem, em que se l o - calizam. Nos casos em que não se v e r i f i q u e identidade de cada uma daquelas lo calizações, i s t o é, quando os factos, os acontecimentos, as situações . . . não são referidas a um mesmo tempo e a um mesmo lugar, estes devem ser em todo o

c a so reciprocamente acessíveis, ordenando-se e suportando-se adequadamente.

No que respeita ao tempo, o funcionamento do s i s - tema verbal e as conexões de tempo-aspecto com outros localizadores temporais obtêm aqui uma s a l i ê n c i a n o t ó r i a , até agora insuficientemente captada.

. 5 1 .

Em suma, a necessária progressão da mensagem - realizada pela sucessiva e ordenada (de acordo com as observações mencionadas em ( i ) e ( i i ) ) introdução de conteúdos designativos no mundo textual em construção - f a r - s e - - ã , p o i s , constantemente apoiada sobre o j á manifestado, sobre os elementos presentes ( e x p l í c i t a ou implicitamente) nos fragmentos do texto j á a c t u a l i z a dos. DaT exactamente a continuidade de sentido que percorre o todo t e x t u a l . Como diz van Dijk " I t seems i n t u i t i v e l y reasonable to require that newly i n - troduced individuals are related t o at least one of the i n d i v i d u a l s already

' p r e s e n t ' . S i m i l a r l y , we may expect that assigned properties also are r e l a - ted to properties already assigned. And f i n a l l y a change of world or s i t u a - t i o n w i l l also be constrained by some a c c e s s i b i l i t y relations to the world or s i t u a t i o n already established" (van D i j k , 1977, p.94).

Não escapara a atenção que estas considerações de van Dijk se desenvolvem ã roda do designado nos produtos verbais - designado que é aT tomado num sentido muito r e s t r i t o que não contempla dimensões importantes que acima f i z destacar (sob a denominação global de comunicado) atinentes quer ãs forças i l o c u t õ r i a s , ao modo como o locutor assume o seu discurso, em suma, ao(s) rumo(s) discursivo(s) que e(são) dado(s) ã produção verbal.

(Ver acima último parágrafo de 2-2.2. e último parágrafo de 2 . 2 . 4 . ) . Ê claro que a progressão consequente do texto exige também que as "mudanças"e as " d i - ferenças" (van D i j k , 1977, 94) projectadas nestes domínios se dêem também de modo "homogéneo" - o que exige que a transição entre as diferentes forças i l o cutorias seja devidamente "preparada" (tenha-se presente a noção de "condi- ções de preparação" ou de "regras preliminares" de cada acto de discurso: ver Searle, J . 1972).

2 . 2 . 6 . 3 .

Segundo uma terminologia j á consagrada no âmbito da Linguística de Texto (e que se vem adoptando mesmo fora d e l a ) , os ENs que realizam o tex- to (cumulativamente com as representações semânticas que lhes correspondem) perfazem ou constituem a(s) sua(s) m i c r o - e s t r u t u r a ( s ) .

A observância das condições analisadas nos números anteriores (ou seja, das normas de não t a u t o l o g i a , de não contradição, de relevância)

.52.

assegura, assim, a coerência d i t a m i c r o ­ e s t r u t u r a l do texto ­ também chama­ da coerência l i n e a r (ou sequencial ou l o c a l ) , porque aquelas condições se referem directamente a relações entre o designado (o comunicado) nos suces­ sivos ENs do t e x t o .

Correlativamente, toma­se como a macro­estrutura do texto a r e ­ presentação semântica global que corresponde a totalidade de s i g n i f i c a ç ã o intendida pelo locutor (que se reconhece ser intendida pelo l o c u t o r ) . Ano­ Çao de macro­estrutura textual d e f i n e , assim, o que intuitivamente c o n s t i ­ t u i o "sentido g l o b a l " do t e x t o . (Ver, e n t r e t a n t o , 2 ­ 2 . 7 ) .

Ficou referido acima ( 2 ­ 2 . 5 . ) que a totalidade de s i g n i f i c a ç ã o ■Í.Dte.n.djda pelo locutor (ou, mais uma vez, que no termo da interpretação do

t e x t o se reconhece ser intendida pelo locutor) representa o grande p r i n c í ­ pio ordenador da construção do t e x t o , porque ela funda o universo de discur­ so a manifestar. Num sentido i d ê n t i c o , poder­se­ã agora dizer que a ( s ) m i c r o ­ ­ e s t r u t u r a ( s ) e a coerência l i n e a r do texto enraízam na sua macro­estrutura, pois esta precisamente delimita um universo de discurso a p r o j e c t a r ordenada e consequentemente na cadeia de ENs que materializa o t e x t o .

Mais rigorosamente, d i r ­ s e ­ ã que entre a(s) micro­estrutura(s) e a, macro­estrutura do texto há um continuado movimento de interacção ­ pois que simultaneamente as primeiras projectam a segunda (que nelas e sobre elas se constrói gradualmente) e esta se revela ­ e se retoca, e não raro se r e ­ faz ­ concretamente naquela(s). Esta interacção é fundamental, como se verá, na compreensão do texto (ver 2 ­ 2 . 8 . ) .

2­2.7.

A representação dada nos números antecedentes da construção do

t e x t 0 Pe l° locutor revela­se demasiado esquemática. A insistência que foi

posta nas articulações EN a EN oculta a constatação empírica imediata de que não interpretamos linearmente um texto, antes o fazemos pela integração su­ cessiva das representações semânticas que convêm a conjuntos de ENs no inte rior do todo textual (ver 2­2.10).

É, efectivamente, possível reconhecer num texto (pelo menos num texto suficientemente longo) conjuntos de ENs subsequentes que manifestam globalmente o que se designa de "tópicos" ou "temas" que nele são desenvol­

.53.

vidos. Consubstanciam-se estas unidades ou sub-unidades internas ao texto em complexos de f a c t o s , de acontecimentos, de situações . . . que p a r t i c u l a r mente se i n t e r l i g a m , formando uma parcela consistente da mensagem t o t a l vei culada pelo t e x t o . Convém a cada um destes conjuntos de ENs - que realizam o que poderei chamar sequências textuais - uma representação semântica g l o - bal (uma macro-estrutura) traduzTvel num EN (num "macro-enunciado") que su- ma r i z e , por derivação apropriada (desenvolvida na base de um processo de r e - dução semântica) o conteúdo global neles manifestado.

A macro-estrutura do texto pode, p o i s , tomar-se como o complexo organizado de macro-estruturas "intermédias", que correspondem a noção i n - t u i t i v a de "sentido global de um fragmento do t e x t o " ou â de " t ó p i c o " ou "tema". Por outras palavras: a totalidade de s i g n i f i c a ç ã o intendida pelo locutor (que c o n s t i t u i , como vimos, o grande p r i n c í p i o ordenador da cons- trução do texto) pode representar-se como imediatamente organizada, p l a n i - ficada, num conjunto de "tópicos" que ordenada e consequentemente se mani- festam e desenvolvem em sucessivas sequencias integradas de ENs (as quais perfazem outras tantas sequências t e x t u a i s ) .

Sendo assim, a construção do texto pelo locutor pode represen- tar-se mais adequadamente como segue:

intenção comunicativa global

.54.

Como o mostra o esquema agora apresentado, as sequências t e x - t u a i ^ (ou o tópico que em cada uma delas se manifesta) estão envolvidas num complexo de relações similares as que vimos desenvolverem-se no espa- ço textual entre os ENs (ver acima 2 - 2 . 5 . ) . Assim, por um lado, num plano vertica]_, cada uma delas esta articulada ã totalidade de s i g n i f i c a ç ã o de- f i n i d a pelo locutor (ou ã macro-estrutura global do texto) por uma r e l a - ção de t i p o "parte-todo": como t a l , cada uma delas e "dominada" por essa totalidade que nela se realiza como fragmento de um todo; por outro lado, num plano h o r i z o n t a l , as sequências textuais articulam-se entre si por uma relação de t i p o "parte-parte" de um complexo global que constroem e a que, obviamente, convêm. Em suma, o comunicado globalmente projectado em cada

u m a d a s sequências textuais apresenta-se como adequado, simultaneamente,

em relação ã intenção comunicativa tomada no seu todo e em relação aos f r a

gmentos dela j ã manifestados. ~ Tal equivale a dizer que a exigência de não t a u t o l o g i a , de não

contradição e de reciproca relevância a salvaguardar (idealmente) entre o comunicado em cada um dos ENs do texto tem também lugar no que tange i ar- ticulação entre o comunicado globalmente em cada uma das sequências textuais reconhecíveis no texto - pelo que a coerência textual se cumpre também no plano das macro-estruturas.

Aquele mesmo esquema assinala também que os ENs que realizam o texto se ligam a uma dada sequência t e x t u a l , que os "domina" directamente, e que (sõ) através desta se articulam a intenção comunicativa g l o b a l .

Nestas circunstâncias, a coerência l i n e a r do texto é "dominada" por uma coerência global (em que mergulha as suas r a í z e s ) , justamente r e f e - rida ao complexo de interdependências atrás esquematizado, que envolvem as sequencias textuais (ou as macro-estruturas que lhes correspondem) como "par tes" (entre si necessariamente i n t e r l i g a d a s ) de um todo ( d e f i n ï v e l como 4 macro-estrutura do t e x t o ) , que preenchem, em que se integram, a que se v i n - culam.

A coerência textual cumpre-se, portanto, num duplo plano - no

p l a n o d a s micro-estruturas e no das macro-estruturas - pelo que se pode d i -

zer que um texto coerente o é micro-estruturalmente e macro-estruturalmen- te ( 3 2) .

.55.

2-2.8.

Até agora tenho vindo a focar a coerência t e x t u a l preferentemen- te do angulo da construção do t e x t o . Se nos situarmos na óptica da compreen- são do texto pelo receptor - na óptica da constituição do sentido do texto - - observaremos que a coerência textual pode ser genericamente r e f e r i d a ã verj_ ficação de se o comunicado nos sucessivos ENs que realizam o texto dã lugar a configuração, gradualmente desenvolvida, de uma macro-estrutura - imedia- tamente de uma macro-estrutura correspondente a cada um dos "tópicos" nele tratados e, mediatamente, da macro-estrutura (derivada da integração das vã rias macro-estruturas intermédias), que define o "sentido g l o b a l " do t e x t o .

Mais rigorosamente - e porque, como j á se r e f e r i u de passagem e se verá melhor adiante, a compreensão do texto não é l i n e a r - d i r e i que a ca ptação da articulação consequente entre o comunicado nos ENs (ou s e j a , das relações que garantem a coerência l i n e a r sobre que repousa a compreensão do "sentido global"do texto (ou de algum dos seus fragmentos), exige que o r e - ceptor se represente (pelo menor a t í t u l o de hipótese, a confirmar ou a cor- r i g i r posteriormente) um " t ó p i c o " que, como "macro-facto", "macro-aconteci- mento" ou "macro-situação", congregue, u n i f i q u e e " d ê sentido g l o b a l " aos fac t o s , aos acontecimentos, ãs situações . . . sucessivamente manifestados.

Importa assinalar que a "hipótese" assim levantada pelo receptor não é a r b i t r á r i a , pois se apoiará simultaneamente sobre o conhecimento do mundo em g e r a l , sobre o conhecimento da situação de comunicação, sobre o co nhecimento de fragmentos eventualmente j á actualizados do t e x t o - i n c l u i n d o o seu t í t u l o (ainda mesmo quando este seja meramente a l u s i v o ) . Todo este u n i - verso de conhecimento - e as expectativas a ele agregadas - suporta, e f e c t i - vamente, aquela "hipótese". (Ver 2 - 2 . 1 0 . ) .

Por esta via se consuma, a f i n a l , um continuado movimento de vai - -vem entre o local e o g l o b a l , entre as micro-estruturas, as macro-estrutu- ras_ "intermédias" e a macro-estrutura global do t e x t o . Na verdade, como diz van D i j k , as macro-estruturas "determine the global or eve r a i l coherence of a discourse and are themselves determined by the l i n e a r coherence of sequen- ces" (van D i j k , 1977, 95). Ou s e j a , a compreensão global do texto p o s s i b i l i - t a , e guia, a compreensão l o c a l , e ao mesmo tempo resulta desta.

.56.

2-2.9.

A abordagem da coerência do ângulo de compreensão do texto (do ângulo do receptor) permite observar que não apenas são integráveis numa da_ da macro-estrutura os factos, os acontecimentos . . . reciprocamente relevan- t e ^ em termos de conexões de ordem ou de causalidade, (no sentido definido acima em 2 - 2 . 6 . 2 . ) , mas também f a c t o s , acontecimentos . . . ligados simples- mente por uma relação de compatibilidade. Com e f e i t o , a condição acima f o r - mulada que exigia uma conexão de mútua relevância entre os f a c t o s , os acon- tecimentos . . . recriados no texto revela-se demasiado r í g i d a , ignorando ar- ticulações consequentes em termos de mera compatibilidade, i s t o é, de não recíproca exclusão numa dada situação.

A articulação de ENs na base de laços de mera compatibilidade é, porém, visivelmente, mais frouxa que a que se consuma na base de r e l a - ções de ordem (ou de causalidade), e a sua integração num complexo u n i t á r i o pode s u r g i r como problemática. Por i s s o , nas mais das vezes uma dada sequer^ cia de f a c t o s , de acontecimentos . . . conectados por simples compatibilidade exige uma agregação directa ã situação de comunicação - de que dá uma des- crição de t i p o a n a l í t i c o - e/ou a e x p l i c i t a ç ã o do tópico que nela se preten- de manifestar. Esta explicitação é f e i t a habitualmente num EN que abre ou fecha a sequencia, e a que van Dijk chama " t o p i c a l sentence" (van D i j k , 1977, 150). Darei um exemplo t r i v i a l :

0 sol não deixa de aquecer. A CEE nunca esteve tão perto. 0 ca- lendário e l e i t o r a l e escrupulosamente cumprido . . . Tudo parece i r bem no r e i - no de Portugal.

0 EN sublinhado tem justamente um cariz " t o p i c a l " ou "temático", unificando, integrando o comunicado em cada um dos outros - entre os quais não opera nenhum instrumento de conexão.

2-2.10.

A compreensão do texto c o n s t i t u i um processo complexo que, fun- damentalmente, se desenvolve pela integração dos conteúdos vasados em ENs subsequentes numa representação lõgico-conceptual global (num "agregado" con-

.57.

ceptual). Essa integração passa pelo abandono de muitas informações tomadas como "sem consequência" para o entendimento da mensagem. De cada EN do tex- to será retido essencialmente um complexo conceptual que corresponde ao es- quema actancial que suporta esse mesmo EN. (Como se vera melhor em c a p í t u - los subsequentes, o esquema actancial desenha uma constante semântico-fun- ci onal memorizada em competência com uma unidade l e x i c a l v e r b a l , um "scheme d'entendement" - B. P o t t i e r , por ex, 1974, 1978 - que suporta a produção e a recepção de um EN). Aquele agregado conceptual c o n s t i t u i a representação cognitiva integrada de um acontecimento, de um facto - considerados em si e nos participantes ou circunstantes nele regularmente envolvidos (onde assu- mem papéis funcionais, a i d e n t i f i c a r em termos de Casos). Sobre esse comple xo cognitivo projectar-se-ã o que corresponde ã configuração semântica básj_ ca do EN subsequente, e assim sucessivamente ao longo do t e x t o . Resultará deste processo a configuração de macro-complexos cognitivos (ou de macro- -agregados conceptuais) - correspondentes as sequências textuais ou aos "te mas" nelas desenvolvidos (ver acima 2 - 2 . 7 . ) , finalmente integrados numa re_- presentação conceptual global em que se condensa o "sentido" do texto (a sua compreensão f i n a l pelo receptor).

Este processo, sem dúvida ainda incipientemente conheci doe aqui apresentado nas suas grandes l i n h a s , pode ser representado segundo um esque ma que r e t i r o de B. P o t t i e r , 1974, p.79: " développement du discours

™i w2 ã3 ^~*"

J J i i

comprehension comprehension

A B s/ comprehension

comp. I

. / ^^ comp. Z comp. I I

v

compréhension f i n a l e " ,

.58.

A compreensão do texto representa, deste modo, a captação, a reconstrução (nas mais das vezes, como j a se deixou anotado acima, apenas aproximativa) por parte do receptor, do complexo cognitivo (do macro-agre gado conceptual) em que se consubstancia a intenção comunicativa do locutor. Esta representação conceptual mostra-se, assim, por um lado, do angulo do l o c u t o r , o "ponto de p a r t i d a " do processo de construção do texto (processo que envolve a escolha de soluções formais idiomáticas, i s t o é, de elementos l e x i c a i s e esquemas semantico-sintácticos, e a sua projecção adequada emdis^ curso), e por outro lado, do ângulo do receptor, o "ponto de chegada" do pro cesso de compreensão do texto. Esquematizando:

CONCEPTUAL Língua Discurso Emissor (produção) Receptor (compreensão)

A caracterização sumária mais acima apresentada da compreensão do texto mostra que esta não e l i n e a r . Na verdade (veja-se também este ú l - timo esquema) "On conceptualise des tranches de discours, constamment remodelées par la conceptualisation des tranches suivantes" (B. P o t t i e r , 1974, p.36).

.59.

Esta continuada re-elaboração do sentido pode ser esquematizada do seguinte modo, em que se dá adequada s a l i ê n c i a ao constante acréscimo de sentido que se projecta na interpretação:

(Devo a sugestão deste esquema ao Prof. Oscar Lopes)

A re-elaboração do sentido a que vinha aludindo não se faz - - observe-se - apenas na base do conteúdo vasado nas expressões que r e a l i - zam o t e x t o , mesmo incluindo nesse conteúdo as inferências (ou as "implica- ções" ou "quase-implicações" na terminologia empregada por I . B e l l e r t , em B e l l e r t , 1970) e as assumpções, disponíveis directamente a p a r t i r da orga-

.60.

nização semântico-lexical e semantico-sintáctica da língua em que o texto se m a t e r i a l i z a . Nessa re-elaboração do sentido intervém poderosamente o universo de conhecimento do receptor, i s t o é, o seu "saber" (e a sua experiência) ime- diatamente sobre a situação de comunicação e o tema do t e x t o , mas também so- bre o mundo em g e r a l , sobre as "coisas", as "crenças" e outras representações agregadas, numa dada comunidade s ó c i o - c u l t u r a l , ãs "coisas" . . . I n c l u i - s e na- turalmente neste "saber" o domínio de princípios gerais que pautam o exercício do pensamento, nomeadamente daqueles que I . B e l l e r t designa "general rules of reasoning" ( B e l l e r t , 1970, 336), na base dos quais os f a l a n t e s , enquanto se- res i n t e l i g e n t e s , tiram generalizações ou inferências sobre os objectos, os f a c t o s , os acontecimentos que preenchem o mundo ^^K Desse mesmo universo fa zem ainda parte integrante os interesses, os valores, as normas - e a sua hierarquização - que situam especificamente o falante perante si mesmo, peran^ te os outros e perante o "mundo" (complexo de dimensões que se congregam no centro do que correntemente se designa como "formação ideológica" e "formação d i s c u r s i v a " ) .

Efectivamente, a compreensão do texto desenvolve-se na base des- ta interacção entre o verbalizado e o universo de conhecimento do receptor. A captação do sentido global do texto - que envolve, como se v i u , a captação das conexões micro-estruturais e macro-estruturais desenhadas no seu espaço - de- pende da capacidade que revele o receptor de l i g a r os f a c t o s , os acontecimen- tos . . . recriados ã organização conceptual, ã ordenação i n t e l e c t i v a que detém do mundo, ou s e j a , justamente ao seu universo de conhecimento, entendido nas componentes acima levantadas (3 4) . Sublinhe-se que t a l capacidade não é senão

a de u t i l i z a r o universo de conhecimento como elemento de s e n t i d o , que opera basicamente, por um lado, como fonte supletivadora de informações deixadas i m p l í c i t a s pelo locutor na produção do t e x t o , e por outro lado, como baliza para a projecção de um determinado valor de comunicação (ou de s i g n i f i c a ç ã o ) para as expressões actualizadas (3 5) .

. 6 1 .

O comunicado num dado produto verbal é , assim, a resultante glo- bal do e x p l í c i t o e do i m p l T c i t o , ou, noutros termos, o lugar de encontro da interacção do s i g n i f i c a d o , do denotado e conotado, das forças i l o c u t õ r i a s , e