Será que a preservação de toda essa materialidade assegurar-nos- á, ao menos, a conservação de nossos projetos de felicidade [grifo meu], de nossa condição sensível?
(Teresa Cristina Toledo de Paula)
Quero pensar que a resposta a essa pergunta feita por Teresa Cristina em 1998 seja um ressonante e estridente SIM. Rememoro esses dez anos com freqüência, mas uma notícia recente amplificou a lembrança de alguns mo- mentos às quais meu corpo tem respondido fazendo minhas mãos se fe- charem, esfregando o vazio, um gesto que repeti inúmeras vezes ao tocar tecidos. No final de 2007 dois cursos especializados na formação de conser- vadores e historiadores têxteis estavam na iminência de serem extintos. Um deles, ministrado pelo Textile Conservation Centre, formou a conservadora do Museu Paulista, com quem aprendi os “primeiros passos” na observação de objetos, e tenta ainda manter suas atividades de ensino, o que se justifica pelos compromissos comerciais que tem com outras instituições. O segundo, o Mestrado em História dos Tecidos e das Roupas, pelo qual fui graduada antes de retornar da Inglaterra em 2000, para ensinar nos cursos de moda em universidades brasileiras, foi de fato fechado. Essa notícia sinaliza um mudança de mentalidade com relação à preservação do patrimônio cultural têxtil e afeta a todos que fazem ou querem fazer dos tecidos e roupas seus “projetos de felicidade”.
Meu primeiro estudo de um objeto aconteceu depois da faculdade de Moda, em 1997, quando era estagiária de Teresa (que havia se especializado em conservação têxtil no Textile Conservation Centre em Londres) no Setor de Têxteis do Museu Paulista. A monografia sobre uma coleção de 82 pares de luvas levou um ano para ser concluída e foi a partir da sua elaboração que decidi estudar roupas como um “projeto de felicidade”, como uma forma de fazer sentido da minha sensibilidade aos tecidos.
Em setembro de 1998 estava em Winchester,167 Inglaterra, na primeira aula
sobre Interpretação de Objetos do mestrado História dos Tecidos e das Rou- pas, criado por Lesley Miller dois anos antes. De imediato minha turma de oito alunos teve de analisar um tecido de cor amarela e desenho que parecia um brocado, que eu identificava como sendo os de forro de sofá estofado, e isso era tudo o que eu poderia dizer sobre ele naquele momento. Comecei a observá-lo e descrever o que era possível sem tocá-lo, uma técnica que havia aprendido durante meu estágio em São Paulo.
Os colegas, todos ingleses, fizeram o mesmo, mas, diferentemente de mim, tocaram, reviraram, e até mesmo cheiraram o tecido, o que me deu calafrios, porque estava acostumada a um manuseio cuidadoso de objetos de museus. Não estava acostumada a peças tão antigas e nem a peças que servissem para estudo em sala de aula.
167 University of
Southampton (http://www. soton.ac.uk), cerca de 40 quilômetros ao sul de
Cada um de nós teve um resultado de análise distinta dos demais. O anti- quário notou o design, a padronagem, relacionando-a às influencias orientais no século XVIII; a tecelã notou a complexa técnica de inserção de cores na construção do padrão do tecido; outros perceberam a grande quantidade de cores e diferentes tons empregados ali, o que contrastava muito com tecidos atuais. Bem, eu, a estilista, tive dificuldades em aceitar que aquele fosse um tecido do século XVIII, e preferi acreditar que era uma cópia moderna de alguma peça antiga.
A dificuldade em analisar um tecido causou um certo incômodo, porque es- tava preparada para ouvir e aprender ouvindo a “história da roupa”, mas não estava preparada (nem sequer imaginava poder) para escrevê-la a partir de outros sentidos, especialmente o tátil e olfativo.Essa experiência expõe muito do método de interpretação de objetos que empreguei nesta tese. Em primei- ro lugar, qualquer pessoa sensível aos materiais como tecidos pode estudá- los, porque são os elementos materiais do objeto que importam de início, não sendo necessário um prévio conhecimento da “história da moda”, da roupa e do tecido para interpretá-lo (ainda que isto possa, num segundo momento da pesquisa, ajudar). Em segundo lugar, cada investigador terá suas premissas, porque elas vêm de sua formação e sensibilidade individuais, e este aspecto do processo investigativo é respeitado pelo método de interpretação de obje- tos. Isto significa que não há neutralidade em todos os momentos da análise. Não há neutralidade sequer no primeiro momento de observação do objeto que será enviesado pelo conhecimento e pelos interesses do pesquisador. Em terceiro lugar, é preciso colocar as premissas constantemente em questão e aceitar a opacidade dos objetos que, diferentemente da escrita ou de outra forma de linguagem, não enunciam sentidos. Objetos têm marcas do tempo e do uso que recebem sentidos pelo encaminhamento do pesquisador. A pre- missa, por exemplo, de que por parecer muito novo o tecido amarelo da aula de mestrado não poderia ser antigo vinha de uma percepção constituída pelos objetos antigos que eu vira no Brasil, muito frágeis e em precário estado de conservação, característica muito comum a objetos expostos a climas úmi- dos como o de São Paulo. E, afinal, o tecido era original do século XVIII e seu excelente estado resultava das condições de armazenagem em que esteve ao longo de mais de duzentos anos.
Nem tudo deve permanecer opaco. A dedução é importante, porque aponta caminhos que poderão ser seguidos ou contestados conforme cresce nosso conhecimento coletivo sobre tecidos e roupas. Por isso, procuramos deduzir, através da interpretação do objeto em contextos culturais e históricos. Na análise do vestido Boué Soeurs, por exemplo, o foco esteve em situá-lo nos períodos de sua confecção, de sua circulação e das mudanças, das mesclas ocorridas em sua biografia. Dada a minha formação de estilista e meu in- teresse pela moda e a roupa antiga, mas também contemporânea, não quis escapar de algumas comparações e inferências entre o vestido da década de 1920 e as formas de vestir atuais. Preferi deixar esses insights (em sua maio- ria) nas notas de rodapé, para talvez retomá-los em outro trabalho.
Obviamente que este texto não é definitivo e desdobramentos virão, a come- çar pela argüição da banca de defesa, que não poderá estar registrado aqui.
Editar a tese, assim como escrevê-la, foi um grande desafio. Os modelos de trabalhos de interpretação de roupas são estrangeiros e escritos em condi- ções de pesquisa distantes da minha, especialmente no que diz respeito a financiamento, acervos, bibliografia especializada e o entendimento de que lugar o tecido e indumentária ocuparam e ainda ocupam na universidade, no cotidiano, na cultura. Procurei escrever de forma simples, para exprimir minhas idéias, mas não evitei algum rebuscamento e repetição que vêm das tentativas, dos ensaios, de uma vontade de explorar as marcas do vestido e, por que não, de uma certa invenção na abordagem e na seleção da bibliogra- fia. Um risco que corri.
O texto, portanto, parece inacabado em alguns momentos, e a passagem de um assunto a outro talvez merecesse mais refinamento, mais trato. Mas é assim que ainda vejo o estudo de roupas, fragmentada de certa forma. Preferi não suavizar essas dobras e expô-las como estão ou da forma como pude lidar com elas. Há, no entanto, alguns alinhavos e outras costuras que gostaria de fazer. São questões que me fiz ao reler o texto para escrever algumas conclu- sões.
E se Carmem nunca esteve em São Paulo? Seria possível que o vestido Boué Soeurs, como os demais vestidos da coleção Carmem da Silveira Bettenfeld, fossem herança para Carmencita e que, portanto, jamais teria circulado na cidade na década de 1920?
Não acredito nessa hipótese. Além da informação coletada de que a família morou na Avenida São Luis até a década de 1940, a análise material do vestido refuta essa possibilidade. O estado de conservação do vestido, pre- cário especialmente nas partes em que os tecidos rasgaram, sobretudo nas barras, não é comum a vestidos de alta-costura da mesma época que estão em museus da Europa e Estados Unidos, onde o clima é mais ameno, e cujas condições de armazenagem são bastante controladas. É mais provável que ele tenha sido guardado por Carmem ou pela família por décadas antes da doação feita ao Museu Paulista em 1993. Guardar roupas antigas em gave- tas ou armários com naftalina e protegidas de poeira e luz era uma prática comum às famílias afetadas pela crise mundial de 1929, como as famílias de Tarsila do Amaral e de Maria Amélia de Souza Aranha. A última narrou em livro a trajetória de um vestido comprado pela mãe em Paris em 1925 que é elucidativo. Depois de ter sido usado por dois anos na França (em jantares e salões de hotéis de luxo), é trazido para São Paulo e colocado em uma gaveta onde ficou por muitos anos. O motivo: da última vez que havia vestido o cor- po de sua mãe causara ciúme ao pai, por causa de um elogio feito por outro homem. A autora (e testemunha ocular) escreveu sobre o destino do vestido depois do acontecido:
O vestido causador da desavença, desse dia em diante deixa de ser usado, vindo para o Brasil em 1927. Aqui, sem utilidade aparente, adormece no escuro de um gavetão antigo. Cheirando a naftalina, conserva-se por muitos anos. Essa, a primeira história do Vestido de Gaze Salmão com grossa renda prateada. Desde então, vive na sombra da vida da menina, e hoje, em diálogos mudos, a leva a rememorar o longínquo passado. (ARANHA, 2001: 24).
168 Maria Adelaide Amaral e a figurinista Emilia Duncan
exploraram essa prática na série “Um só Coração”, exibida pela Rede Globo em 2003. O figurino foi mostrado ao público na exposição “O vestir em São Paulo pela lente de ‘Um só Coração”, realizada de 28 de abril a 28 de maio de 2004 na Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo sob a curadoria de Claudia Fares, e organização de Sérgio Garrido e Rita Andrade em 2003.
169 A exposição Gardes-Robes
– intimités dévoilées, de Cléo de
Mérode à... do Musée de la Mode
et du Textile (19 de maio a agosto de 2000), Palais du Louvre, Paris, apresentou suas coleções através da exposição em forma de guarda-roupa de suas doadoras.
A frustração de Maria Amélia é descrita no livro pelo impedimento que se coloca na reutilização do vestido para a confecção de outros vestidos que poderiam ser usados por ela (não pela mãe) em bailes de carnaval ou para confeccionar modelos de estilos mais coerentes com as modas de sua época, o que ela só conseguirá realizar em 1943. Assim ocorrera com um outro ves- tido de renda valenciana que também havia pertencido à mãe, mas que pu- dera ser transformado em um vestido-fantasia “estilo espanhola” em 1938 (ARANHA, 2001:747-5).
Transformar vestidos antigos em novos vestidos, particularmente para car- naval, era uma prática comum no Brasil nas décadas de 1920 e 1930,168
especialmente porque a mudança do design de uma década para outra (às vezes até num tempo mais curto que isso) era tão aparente que um vestido rapidamente ficava démodé e para circular novamente precisava ser reforma- do ou reformulado.