IV. Des services de la Justice qui fonctionnent de manière efficiente
IV.1. Dépenses, recettes et investissements
IV.1.4. Modernisation de l’infrastructure et des bâtiments
Talvez valha a pena retomar aqui alguns pontos de que viemos tratando. Iniciamos nosso raciocínio mostrando que a escrita da história, em Tácito, é um meio de evitar que tanto virtudes, quanto más condutas sejam silenciadas, não alcançando a posteridade. Com efeito, Tácito vê, na transmissão de exemplos negativos, uma possibilidade de ensinar aos outros, bem como demonstrar que a manifestação de virtudes sob o Principado foi em grande medida sufocada pela presença do príncipe e vencida pela excessiva adulação e servidão às quais se submeteram homens importantes. Esse sistema de governo influenciou não só a conduta dos mais distintos homens, mas também a escrita da história e a transmissão daqueles exempla dignos de louvor, que, pelos mesmos motivos, deixou-se de narrar de modo imparcial. Tendo isso em vista, mostramos que Tácito se insere numa tradição historiográfica que se utiliza de exempla na narrativa e, neles, identificamos três aspectos: numa dimensão mais formal, o historiador se apropria ou se inspira em exemplos historiográficos, os quais modifica, contudo, a fim de inovar seu próprio texto; ademais, oferece exempla do passado que podem instruir e, por fim, para além do fundo pedagógico, visam garantir que diversos exempla sejam transmitidos à posteridade, tal como um historiador imparcial no exercício de sua escrita, conforme ele se coloca em sua obra.
Quando dizemos imparcial, não perdemos de vista o tom retórico dessa pretensão do historiador. Trata-se de uma máscara que assume para sustentar o fato de que trará a público modelos que rivalizam com a presença do príncipe. De fato, Tácito confere largo espaço à dificuldade de se preservar a imagem de condutas que de fato mereciam destaque sob o Principado e isso se faz mais explícito na biografia do general Agrícola. Vejamos um passo do prefácio, em que o vocábulo uirtus aparece quatro vezes:1
Clarorum uirorum facta moresque posteris tradere, antiquis usitatum, ne nostris quidem temporibus quamquam incuriosa suorum aetas omisit, quotiens magna aliqua ac nobilis uirtus uicit ac supergressa est uitium paruis magnis ciuitatibus commune, ignorantiam recti et inuidiam. 2 Sed apud priores ut
agere digna memoratu pronum magisque in aperto erat, ita celeberrimus quisque ingenio ac prodendam uirtutis memoriam sine gratia aut ambitione bonae tantum conscientiae pretio ducebantur. 3 Ac plerique suam ipsi uitam
narrare fiduciam potius morum quam adrogantiam arbitrati sunt, nec id Rutilio et Scauro citra fidem aut obtrectationi fuit: adeo uirtutes isdem temporibus optime aestimantur, quibus facillime gignuntur. 4 At nunc
narraturo mihi uitam defuncti hominis uenia opus fuit, quam non petissem incusaturus: tam saeua et infesta uirtutibus tempora.
Transmitir os feitos e os costumes dos homens ilustres ao pósteros, como há muito tempo é de costume, nem mesmo a nossa geração, ainda que negligente para com os seus, deixou de fazer todas as vezes que alguma grande e nobre
virtude venceu e superou um erro comum das grandes às pequenas cidades: a
ignorância e a inveja do justo. Mas, entre os antepassados, realizar coisas dignas de memória era mais fácil e havia um campo mais aberto, assim todos os homens conhecidos pelo engenho eram levados a divulgar a memória da
virtude sem parcialidade ou ambição, mas pelo valor, tão somente, de uma
boa consciência. De fato, muitos consideraram que narrar sua própria vida era antes confiança do que arrogância de caráter. Isso não foi motivo de desconfiança ou detração para Rutílio e Escauro, a tal ponto que as virtudes
são mais bem estimadas nos próprios tempos em que mais facilmente são geradas. Mas agora a mim, que vou narrar a vida de um homem falecido, seria
necessária uma licença que eu não pediria para fazer uma acusação, tão furiosos e infestos são os tempos às virtudes. 2
O exórdio da obra em que Tácito homenageia o sogro traz uma avaliação dos costumes passados, como vimos, parte da transmissão da memória da aristocracia romana. Exaltando ainda mais essa tradição, as primeiras palavras do proêmio de Tácito evocam deveras as Origines de Catão, o Velho, figura louvada por diversos autores antigos.3 No excerto reproduzido acima, o historiador situa seu texto na tradição da celebração de homens ilustres, na qual (1) louvavam-se seus feitos e costumes e as vitórias realizadas através de uma nobre uirtus e (2) divulgava-se a memória da uirtus (memoria
uirtutis) dos homens sine gratia aut ambitione. Dessa forma, Tácito se aproxima do
costume das laudationes funebres e não poucas vezes sublinha essa proximidade com o biografado, o que confere à obra um largo tom de afetividade e seu caráter encomiástico.4 Além disso, Tácito aponta que (3) as virtudes são mais estimadas em momentos em que podem ser demonstradas mais livremente, referindo-se, portanto, ao fato de que num passado anterior ao Principado a expressão da uirtus era não só requerida, mas louvável. A reflexão taciteana sobre o passado introduz a problemática em que se insere como historiador: (4) para narrar a vida de um homem falecido, ele precisa de uma permissão, dados os tempos tão avessos às virtudes. O prefácio aponta, então, para a dificuldade de se transmitir os exempla uirtutis, ainda que isso tenha sido sempre uma tradição,
2 TAC., Agr. 1.
3 BIRLEY, 2009, p. 47; DEVILLERS, 2007, p. 212; FORNI, 1962, p. 82; SOVERINI, 2004, p. 102; SYME, 1958, p. 120.
4 Sobre a laudatio, veja-se p. 07, acima. A estrutura da obra evidencia sua filiação retórica e encomiástica: com efeito, Tácito aborda todos os elementos preceituados no terceiro livro das Instituições
Oratórias, de Quintiliano. A discussão acerca de seu gênero é ampla, visto que, apesar do prefácio, alguns
pesquisadores consideram que há partes da biografia que são, na verdade, história. Soverini (2004, p. 09) aponta que se trata de “uma biografia sui generis”, que não se enquadra “nos cânones tradicionais do gênero”. Forni (1962, p. 13) enumera algumas nomenclaturas dadas ao Agrícola de Tácito, das quais citamos: “uma laudatio funebris escrita em atraso”, “uma biografia encomiástica ou laudatória”, “um panegírico mesclado de história”, “uma biografia elogiosa de tom libertário”. Ver Forni (1962) e Soverini (2004) para bibliografia adicional sobre a questão do gênero no Agrícola. Sobre biografia antiga, ver, por exemplo: Kraus (2006) e Stadter (2007).
principalmente se pensarmos no gênero dessa obra, bem como a própria impossibilidade de produzi-los à época. A biografia de Agrícola é publicada por volta de 98 d.C., quando uma nova dinastia imperial se inaugura e abre espaço, segundo o historiador, para a livre expressão literária e de exempla. Nesse caso específico, Tácito vê a possibilidade de compor um elogio a seu sogro e, nesse sentido, todo um exórdio retoricamente construído para ressaltar a dificuldade e a necessidade desse trabalho faz-se imperativo. Mas isso também indica o desejo de mostrar certo viés histórico muito particular ao próprio contexto do autor.
O problema da dificuldade de se expressar virtudes – seja como ação, seja na literatura – é registrado por Tácito também no prefácio das Histórias, obra posterior ao
Agrícola. Ao descrever a situação do Império romano no ano de 69 d.C., ele afirma que
“a nobreza, riquezas, feitos e honras foram desprezados em lugar do crime e [havia] uma morte mais que certa por causa das virtudes” (nobilitas, opes, omissi gestique honores
pro crimine et ob uirtutes certissimum exitium).5 Tudo o que outrora era digno de valor
tornou-se crime, sobretudo as virtudes: motivo de morte ou destruição. Apesar disso, o historiador emenda: “entretanto, este século não foi a tal ponto estéril de virtudes que não tenha produzido também bons exemplos” (Non tamen adeo uirtutum sterile saeculum ut
non et bona exempla prodiderit).6 Tácito deixa saliente em sua narrativa que ele relatará um período de tempo em que, apesar de a manifestação de uirtus (em todas as suas dimensões) encontrar uma enorme resistência, sobretudo porque os valores encontravam- se invertidos, ela é ainda possível. Sua tarefa tal qual historiador que conheceu de perto as dificuldades de expressão é justamente legar à posteridade também esses exempla
uirtutis, muitas vezes silenciados não só pela história narrativa, mas pelo próprio regime.
A ideia de crise de valores que leva à decadência dos costumes romanos, presente tanto em Salústio ao fim da República, quanto em Tito Lívio já no período imperial, é também objeto de reflexão em Tácito. Nos Anais, precisamente no terceiro livro (3.26- 28), o historiador faz uma digressão acerca das formas de governo que existiram em Roma, demonstrando como a corrupção das virtudes levaram, por fim, ao Principado, no qual imperam príncipes desvirtuados. Relembrando a história de Roma desde os reis, passando pelas guerras civis durante a República e pelo estabelecimento dos triunviratos, Tácito afirma que desde o terceiro consulado de Pompeu e durante vinte anos até o advento de César Augusto, “muitas coisas honestas foram motivo de morte” (ac multa
5 TAC., Hist., 1.2.2. 6 TAC., Hist., 1.3.1.
honesta exitio fuere).7 Com efeito, Tácito usa o termo honestum para nomear as ações virtuosas daqueles que contribuíram com a res publica e que eram antes espontâneas. Segundo ele,
neque praemiis opus erat cum honesta suopte ingenio peterentur; et ubi nihil contra morem cuperent, nihil per metum uetabantur. At postquam exui aequalitas et pro modestia ac pudore ambitio et uis incedebat, prouenere dominationes multosque apud populos aeternum mansere.
Não havia necessidade de recompensa, uma vez que era por suas tendências naturais que se buscavam as virtudes. E, como não desejavam nada contra a moral, nada era vetado por medo. Mas depois que a igualdade foi eliminada e a ambição e a violência tomaram o lugar da modéstia e do comedimento, vieram as tiranias, que permaneceram entre muitos povos para sempre.8 Tácito elenca como causas da inversão de valores elementos análogos aos que se encontram já em Salústio, em cuja época “imperavam, em lugar do pudor, da integridade, da virtude a audácia, a largueza, a avidez” (Nam pro pudore, pro abstinentia, pro uirtute
audacia, largitio, auaritia uigebant).9 Ademais, antes disso, o historiador colocara nas
palavras de Mário a acusação de que “estão realmente enganados por contarem com coisas incompatíveis: os prazeres da ociosidade e as recompensas da bravura” (Ne illi
falsi sunt, qui diuorsissumas res pariter expectant, ignauiae uoluptatem et praemia uirtutis).10 De acordo com Juliana Marques (2007), que cita ideia semelhante presente no livro 2, capítulo 38 das Histórias, o historiador trabalha com
um topos da historiografia romana derivado diretamente de Salústio. Tácito expõe basicamente o mesmo raciocínio: a ambição humana era ainda latente nos primórdios de Roma, mas quando o império cresceu, se expandiu e dominou seus inimigos, a riqueza fez surgir as disputas e a luta pelo poder.11 Esses comportamentos viciosos fazem parte do contexto do Principado, sobretudo no que pese à época da guerra civil de 69 a.C., em que uma crise em relação ao regime é evidente. As fontes antigas nos indicam que desde os últimos anos da República há um problema com a manifestação da uirtus. E esse problema ganha nova roupagem quando passa a também representar uma ameaça ao princeps, que deve dispor das melhores
7 TAC., Ann., 3.28. 8 TAC., Ann., 3.26.1.
9 SAL., Cat., 3.3. Tradução de Adriano Scatolin. Martin e Woodman (1996, p. 242) observam uma metáfora interessante nas passagens dos dois autores, que reforça a alusão: os verbos prouenere e incidere em Tácito são do campo semântico das plantas, sendo que o segundo pode ser usado para falar de sementes crescendo. O verbo uigere em Salústio também é desse campo semântico. O mesmo tema da corrupção e vocabulário também em Cat., 2.5. V. também TAC., Ann., 14.15.
10 SAL., Jug., 85.20. Tradução de Antônio da Silveira Mendonça, com pequena modificação. 11 MARQUES, 2007, p. 188 e p. 195. Marques se refere ainda em nota às passagens 10-11 de A
conspiração de Catilina, e 41 da Guerra de Jugurta, que trazem a explicação salustiana para decadência
qualidades e obter a glória, sendo o exemplum máximo. Nesse contexto, a uirtus alheia ocasiona um mal-estar frequentemente referido por Tácito.
Então, mesmo antes da turbulência causada pela disputa pelo poder no ano dos quatro imperadores, ausente a figura exemplar do príncipe, a relação dos imperadores com o comportamento virtuoso se dá de modo delicado, de acordo com a narrativa de Tácito. A biografia de Agrícola trata largamente dessa questão e ainda podemos citar quanto a isso as considerações do historiador sobre as condenações durante o principado de Tibério, pois que “até mesmo a glória e a uirtus têm inimigos” (etiam gloria ac uirtus
infensos habet);12 ou ainda, quanto a Nero, que “cobiçou aniquilar a própria uirtus” (uirtutem ipsam excindere concupiuit).13 Tácito, ademais, rotula Domiciano como um “príncipe hostil às virtudes” (infensus uirtutibus princeps; veja-se infestus em Agr., 1.4; cf. supra).14 Os excertos indicam diferentes momentos do Principado que podem fornecer
uma ideia geral de como a uirtus segue como motivo de morte sob o Principado, período em que se tornar célebre praticando as virtudes em prol da vida pública é incerto, mas não impossível.15 A pergunta que nos cabe, nesse sentido, é como a uirtus se manifesta num
ambiente hostil, tomado por valores que desvirtuam uma ideia anterior de mos maiorum e, na esteira dessa reflexão, quais são as estratégias taciteanas para representá-la em sua narrativa.
Tácito constrói em sua obra uma atmosfera hostil do Principado com relação às provas de uirtus em prol da res publica. A busca pela gloria e a demonstração do grande valor romano, diferentemente de outrora, tornam-se um grande risco, já que esses valores foram monopolizados pelo imperador. Porém, Tácito deixa claro que, mesmo sob maus imperadores, é possível existir homens de uirtus e são especificamente esses exempla que pretendemos observar em nosso trabalho, posto que o historiador não só evoca modelos do passado romano, mas traz à tona outros modelos de virtude que se produziram ao longo do ambiente imperial, mesmo diante dos riscos de se manifestar uirtus, adquirir gloria e tornar-se um exemplum. Tácito exibe a crise da exemplaridade, ao mostrar que “a ideologia competitiva que acompanha a imagem de virtude está agora profundamente sob suspeita”, uma ideologia antes orgânica aos romanos.16 A fim de cumprir nosso propósito,
12 TAC., Ann., 4.33.4. 13 TAC., Ann., 16.21.1. 14 TAC., Agr., 41.2.
15 AUBRION, 1991, p. 2635-6.
16 BARCHIESI, 2009, p. 55: “the competitive ideology that goes with this imagery of virtue is now deeply suspect.” A respeito da questão da exemplaridade para os romanos, veja-se também a obra de Langlands (2018), que discute as dinâmicas memória cultural romana em relação aos exemplos.
observaremos os exempla uirtutis a partir de alguns retratos que Tácito compõe em sua obra. Chamaremos de retratos a imagem que se permite formar a partir da descrição dos atos e traços de uma personagem, bem como das situações por ela protagonizadas. Esses são uma fonte fecunda para observar como Tácito concebe em sua obra a expressão da
C
APÍTULO2|O
S RETRATOS EMT
ÁCITOA importância das personagens na obra de Tácito tem sido há muito sublinhada.1
Apesar de a caracterização ter sido um recurso utilizado por outros historiadores antigos, como Tucídides, Tito Lívio e Salústio, em quem muitos consideram Tácito ter-se inspirado,2 os retratos presentes na obra do historiador chamam a atenção pela frequente presença ao longo de toda a obra. A elaboração de retratos na obra historiográfica é parte da exaedificatio de seu conteúdo; isso quer dizer que, além dos fatos históricos propriamente ditos, faz parte da elaboração do conteúdo também a exposição dos agentes históricos, de suas ações e mesmo características físicas e psicológicas.3 Todos esses aspectos oferecem ao leitor a imagem discursiva de uma personagem, que chamaremos no âmbito deste trabalho de retrato.4 Da composição dos retratos decorre os exempla de que tratamos no capítulo anterior.
Não obstante o uso de argumentos provenientes dos indivíduos ter sido parte da tradição retórica na historiografia, a forte presença desse recurso na escrita a partir do Principado está notadamente relacionada também à mudança de regime político em Roma, bem como às prioridades de representação nesse período. Nessa direção, nota-se uma crescente importância da composição biográfica à época do Império.5
Autores como Cornélio Nepos e Varrão tornaram-se conhecidos no período republicano por comporem obras de cunho biográfico, privilegiando dados da vida das personagens escolhidas e produzindo, assim, grandes retratos de figuras importantes da 1 Aubrion (1991); Daitz (1960). Sobre a caracterização psicológica das personagens: cf. COUSIN, J. Rhétorique et psychologie chez Tacite: un aspect de la “deinôsis”. Révue d’Etudes Latines, 29, p. 228- 247, 1951 e ZUCCARELLI, U. Psicologia e semantica di Tacito. Brescia: Paideia, 1967.
2 Daitz (1960); Syme (1958). Veja-se a análise de Ducroux (1977) sobre a aemulatio de Tácito dos retratos salustianos.
3 Azevedo (2012, p. 48) aponta o preceito de Quintiliano (Inst., 5.10.23-7) para a construção de argumentos a partir de uma pessoa, o que adquirirá verossimilhança ao seguir o decoro da prática retórica em questão.
4 Os termos imagem e retrato costumam referir-se, na história da arte, por exemplo, à representação visual romana, ou seja, às imagines, estátuas, entre outros. Veja-se sobre o tema Tanner (2000), por exemplo. Cf. ainda GREGORY, A. “Powerful images”: Responses to portraits and the political uses of images
in Rome. Journal of Roman Archaeology, n. 7, p. 80-99, 1994. Alguns trabalhos se dedicaram a analisar a questão das imagens principalmente no período augustano, tendo em vista seu efeito de legitimação do Principado; cf. MARTINS, P. Imagem e poder: considerações sobre a representação de Otávio Augusto. São Paulo: Edusp, 2011 e ZANKER, P. The Power of Images in the Age of Augustus. Jerome Lectures, Sixteenth Series. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1988. A respeito das relações entre imagens visuais e verbais como representação entre os romanos, Paulo Martins (2013) propõe uma longa discussão em sua tese de livre-docência. Em nosso trabalho, consideramos imagem ou retrato a composição discursiva a respeito de personagens históricas. Para a etimologia do termo retrato: Azevedo (2012) e Martins (2013). 5 DAITZ, 1960, p. 32-33. Sobre a relação entre biografia e historiografia antiga, veja-se Dorey (1967); Gentili e Cerri (1988); Kraus (2006); Stadter (2007).
sociedade romana, que tinham também como intuito serem exempla. Esses autores se inserem numa tradição encomiástica que tem origem nos elogios fúnebres. Sob o Principado, um dos escritos mais importantes que nos chegaram, que demonstra a tendência de uma individualização do objeto histórico, é A vida dos césares (De Vita
Caesarum), de Suetônio. A obra do biógrafo tem como eixo central o desenvolvimento
narrativo da uita dos príncipes e não os eventos históricos em si. Também a obra de Augusto, escrita por volta do ano 13 de nossa era e intitulada Feitos do divino Augusto, revela a importância do indivíduo e de seus próprios feitos (res gestae) como foco da narrativa histórica e, nesse caso, promove ainda um autoexemplo. Nesse contexto, observa-se que a produção historiográfica romana imperial assimila tal movimento e isso se reflete na obra de Tácito. O título da primeira obra taciteana, A vida de Agrícola, já revela a ênfase em uma personalidade central, cuja vida e retrato serão descritos e objetos de um elogio, entremeados a uma narrativa histórica. Nos Anais, por seu turno, os príncipes ocupam espaço central: é em torno de sua figura que a história analítica se desenvolve. Contudo, não se pode deixar de levar em consideração nesta obra e também nas Histórias o valor das personagens secundárias que nelas são retratadas, uma vez que essas são essenciais para a caracterização do princeps e da construção de uma memória da aristocracia imperial, e é delas que nos ocuparemos em nossa análise. Para além desse contexto de produção que favorece o indivíduo, ainda se verificam em Tácito elementos formais da tradição historiográfica analítica, i.e, que se ocupa da narrativa dos eventos ano a ano e cuja composição integrou componentes biográficos e relatos necrológicos, por exemplo, que remetem em grande medida à priorização do indivíduo no relato.6
O conjunto dos retratos taciteanos pode nos fornecer exempla uirtutis possíveis naquele período. O retrato de Agrícola, por exemplo, é representativo de um deles. Tanto que é do estudo dessa figura romana que provém o tema desta pesquisa: o fito de observar