2. DÉFINITION DE LA NOTION DE TRANSPOSITION DIDACTIQUE
2.2 Modèle de transposition didactique de Chevallard
Por tudo isso, a recepção do pensamento de Derrida é repleta de mal-entendidos. O próprio autor afirma, na sua última entrevista, que muito dela se falou e pouco se compreendeu; talvez ninguém ainda o tivesse lido. Os mal-entendidos não foram apenas epistemológicos, mas também políticos. Se itens atrás arrolei as leituras correlacionistas, aqui é possível ver as consequências políticas dessas leituras. As confusões proliferaram devido ao uso da expressão "texto" e do famoso dito "il n'y a pas hors-texte". As interpretações correlacionais transformaram a primazia da escritura em relação à linguagem, como já mostrado, em um enunciado profundamente "anti-realista", correspondendo em termos políticos a uma espécie de solipsismo do significante que reduziria a atividade filosófica (e de
60 PEETERS, Benoît. Derrida, pp. 95-96. Sobre o contexto político da época, ver Only in the form of rupture: an interview with Jacques Rancière; Theory from structure to subject: an interview with Alain Badiou; A philosophical conjuncture: an interview with Étienne Balibar and Yves Duroux; DERRIDA, Jacques & MALABOU, Catherine. La contre-allée, pp. 96-98. O próprio Derrida descreve a cena com riqueza de detalhes em Política y amistad: entrevistas com Michael Sprinter sobre Marx y Althusser, passim; Sobre el marxismo. Diálogo com Daniel Bensaïd, p. 85ss.
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DERRIDA, Jacques & MALABOU, Catherine. La contre-allée, p. 39; PEETERS, Benoît. Derrida, pp. 405- 415. O filósofo Jan Patocka, signatário da "Carta 77" e morto após interrogatório brutal em 1977, foi um dos textos que seminou Donner la mort, de 1999.
todos os campos influenciados pela filosofia) a uma crítica textual ou a jogos de palavras. Para tanto, nem vou citar as interpretações que qualificaria simplesmente de obtusas62,
62 Os casos são muitos. Talvez somente Foucault tenha sido alvo de tantos ataques raivosos e difamatórios como os que sofreu Derrida (e reagido com o mesmo espírito aristocrático). A tese compartilha explicitamente o que Caputo chama de "axiomática da indignação", ou seja, uma revolta assumida contra os ataques completamente descabidos, sem leitura direta, baseados em boataria, conversas de bar e relatos jornalísticos, contra a desconstrução (ver, com a narração do diversos eventos, CAPUTO, John. Deconstruction in a nutshell: a commentary, pp. 36-44). O ataque mais escandaloso talvez tenha sido o abaixo-assinado contra a atribuição de doutorado honoris causa em Cambridge, promovido por 19 filósofos, entre eles Ruth Marcus (discípula de Ayer que já havia se oposto à conferência de Derrida em Yale), W. V. O. Quine e o matemático René Thom (ver PEETERS, Benoît. Derrida, pp. 436-437, 538-540). Em Against deconstruction, John Ellis publica um libelo contra a desconstrução ao começar lamentando que ela não tenha sido, como "se ouve usualmente", enterrada. Ellis "reclama", por exemplo, de que os "desconstrucionistas" clamam que é necessário todo um background filosófico para entender a desconstrução como se isso fosse algo negativo, contraditório ao "debate" (ELLIS, John. Against deconstruction, pp. vii-ix). O livro como um todo, mesmo vindo de um especialista em literatura alemã, é o retrato da recepção caricatural realizada por certos setores da filosofia analítica ortodoxa e dogmática em torno do pensamento de Derrida (ver, p.ex., idem, pp. 13-14, 16, 21, 26, 29, 53-56, 61-62, 65, 81-82, 114- 152 etc.). Entre tantos exemplos de erros grosseiros de interpretação, Ellis afirma que Derrida reivindica para si o obscurantismo ao afirmar, contra Searle, que sua obra era "difícil" (idem, p. 16), como se um professor de ensino secundário de química, ao dizer que cálculo estequiométrico é difícil, estivesse afirmando aos estudantes que é obscuro ou místico. Sobre o tema, a melhor chave-de-leitura parece ser a de François Cusset, quando relaciona a tendência com o anti-intelectualismo e primazia do "common sense" da cultura anglo-saxônica (comparar CUSSET, François. Filosofia Francesa, pp. 41-57 e ELLIS, idem, pp. 83-88 e 142-147). A análise de Ellis é a imagem de toda discussão fora de foco (dos dois lados) no cenário. Ela só faz sentido como contraponto ao "desconstrucionismo" (Culler, Stanley Fish, Barbara Johnson etc.), não a Derrida. Outras críticas populares desse gênero foram as de Alain Renaut e Luc Ferry, em Pensamento 68, a de John Searle em Reply to Derrida (que acabou gerando Limited Inc), e em menor escala a de Jurgen Habermas em O Discurso Filosófico da Modernidade, ao utilizar a obra de Jonathan Culler (que não por acaso é o personagem principal das polêmicas de Ellis, Searle e Habermas), "uma vez que utiliza o estilo analítico de argumentação", para analisar Derrida, tomando posição ao lado de Searle (HABERMAS, Jürgen. O Discurso Filosófico da Modernidade, p. 267-279). Mais tarde Searle passou a usar a expressão "terrorismo intelectual", de Foucault, para definir o trabalho de Derrida, e ao vir ao Brasil declarou os estudos em torno da obra como "favela intelectual". Outro episódio bizarro ocorreu quando seus inimigos (velados ou declarados), aproveitando a publicação do livro de Victor Farias sobre Heidegger, chamam Derrida de "fascista" (!) por utilizar as obras do alemão (ver DERRIDA, Jacques, Entretien. In: Heidegger en France, pp. 110-113; PEETERS, Benoît. Derrida, pp. 459-485). A estratégia, apesar de baixa e inconsistente, foi reciclada recentemente (2013) no Aniversário do Collège International de Philosophie, fundado pelo próprio Derrida. No mesmo sentido foi o caso Paul De Man. O famoso "Sokal Hoax", que gerou uma gigantesca polêmica sobre o pós-modernismo (conhecida como "Science Wars"), embora não diretamente mencione seu nome, o atingiu, em especial pela menção na introdução de Imposturas Intelectuais (na edição brasileira, consta a menção de Derrida "pobre Sokal" na contra-capa; e ele também consta entre os referidos no artigo-embuste que gerou toda polêmica). Finalmente, como não poderia deixar de ser, até mesmo nos obituários o já morto Derrida foi desrespeitado (para além da descrição bizarra de seu "método", é pessoalmente ofendido ao ser chamado de "filósofo abstruso") sem qualquer fundamento (<http://www.nytimes.com/2004/10/10/obituaries/10derrida.html?_r=0>, acesso em 9/7/2013), merecendo o New York Times várias respostas formais de diversos intelectuais, dentre as quais Gayatri Chakravorty Spivak e Judith Butler, a essa desonestidade (<http://www.humanities.uci.edu/remembering_jd/letter_list.htm>. Acesso em 09.07.2013). O obituário da The Economist foi igualmente lamentável, acusando-o de obscurantismo, contradições propositais e lamentando que continuasse a ser citado (Disponível em: <http://www.economist.com/node/3308320>, Acesso em 09.07.2013). Limited inc. Seria um exercício de exorcismo de uma força diabólica a ameaçar a segurança dos filósofos? “L’exorcisme conjure le mal selon des voies elles irrationelles et selon des practiques magiques, mystérieuses, voire mystifiantes. San exclure, bien au contraire, le procédure analytique et la ratiocination argumentative, l’exorcisme consiste à rèpéter sur le mode de l’incantation que le mort est bien mort. Il procède par formules, et parfois les formules théoriques jouent ce rôle avec une efficacité d’autant plus grande qu’elle donne le change sur leur nature magique, leur dogmatisme autoritaire, l’occulte pouvoir qu’elles partagent avec ce qu’elles prétendent combattre” (DERRIDA, Jacques. Spectres de Marx, pp. 84-85). Não se pode deixar de perceber o quanto a imagem de "corruptor da juventude" diabólico, disseminada por alguns filósofos dogmáticos e moralistas em um país onde essas figuras ainda são
imputando ao autor uma série de afirmações jamais ditas e totalmente destituídas de mínima capacidade hermenêutica para interpretar certos enunciados cujo conteúdo envolve uma discussão filosófica repleta de pressupostos e por isso dona de uma longa história. Fico com autores que passam por esse crivo. É o caso de Michel Foucault63, que faz a seguinte crítica:
Não direi que é uma metafísica, a metafísica ou sua clausura que se esconde nessa "textualização" das práticas discursivas. Irei muito mais longe: direi que é uma pequena pedagogia historicamente bem determinada que, de maneira muito visível, se manifesta. Pedagogia que ensina ao aluno que não há fora do texto, mas que nele, em seus interstícios, nos seus brancos e seus não-ditos, reina a reserva da origem; que não é portanto necessário procurar em outro lugar, mas que aqui mesmo, não nas próprias palavras, mas nelas sob rasura, nas suas grades, se diz o "sentido do ser". Pedagogia que inversamente dá à voz dos mestres essa soberania sem limites que lhes permite restabelecer indefinidamente o texto64.
Bem próximos à leitura de Foucault, veja-se o que afirmam Gilles Deleuze e Félix Guattari (com quem é possível traçar também tantos pontos em comum com o filósofo franco-argelino nas mais diversas áreas) na seguinte passagem de Mil Platôs:
O sistema-radícula, ou raiz fasciculada, é a segunda figura do livro, do qual nossa modernidade se vale de bom grado. Desta vez a raiz principal abortou, ou se
muito fortes, divertia o pensador franco-argelino (responsável, segundo um acusador, inclusive pela poligamia dos mórmons...). Alguns filósofos como Christopher Norris e Arcady Plotnisky têm dedicado boa parte dos seus escritos a refutar, pacientemente, esses absurdos: ver, p.ex., NORRIS, Christopher. Derrida, pp. 172-193; idem, Limited Think: how to not read Derrida, pp. 17-36; Deconstruction, Postmodernism and Philosophy: Habermas on Derrida, disponível em < www.ceeol.com>; idem, Deconstruction as Philosophy of Logic, passim; Wrestling with deconstructors, pp. 57-62; idem, Structure and Genesis in Scientific Theory: Husserl, Bachelard, Derrida. , pp. 107-139; PLOTNISKY, Arcady. "But It Is Above All Not True": Derrida, Relativity, and the "Science Wars". Disponível em <http://pmc.iath.virginia.edu/text-only/issue.197/plotnitsky.197>; idem, The knowable and the unknowable: modern science, non-classical thought and "two cultures", p. 157ss. Pretendo mostrar pelo próprio texto da tese que o problema não são as críticas a Derrida, que não hesitarei em fazer, mas a difamação e a bufonaria que percorre um grande número de não-leitores que fala sobre o que desconhece totalmente. Sobre o tema, conferir ainda BOURETZ, Pierre. D'un ton guerrier en philosophie: Habermas, Derrida & co. Paris: Gallimard, 2010, especialmente pp. 19-72 e 115-187; DERRIDA, Jacques & MALABOU, Catherine. La contre- allée, pp. 33-34; DERRIDA, Jacques. Notas sobre desconstrucción y pragmatismo, pp. 152-154; CHEVITARESE, Leandro. A 'resposta' que Derrida não concedeu a Sokal: a desconstrução do conceito de contexto, pp. 88-102.
63 MONTAG, Warren. Spirits Armed and Unarmed: Derrida’s Specters of Marx, pp. 75-76 (no texto, o autor compara as recepções praticamente inversas da obra de Derrida em Foucault e Althusser).
64 "Je ne dirai pas que c'est une métaphysique, la métaphysique ou sa clôture qui se cache en cette 'textualisation' des pratiques discursives. J'irai beaucoup plus loin : je dirai qui c'est une petite pédagogie historiquement bien déterminée qui, de manière très visible, se manifeste. Pédagogie qui enseigne à l'élève qu'il n'y a rien hors du texte, mais qu'en lui, en ses interstices, dans ses blancs et ses non-dits, règne la réserve de l'origine ; qu'il n'est donc point nécessaire d'aller chercher ailleurs, mais qu'ici même, non point dans les mots comme ratures, dans leur grille, se dit 'le sens de l'être'. Pédagogie qui inversement donne la voix des maîtres cette souveraineté sans limites qui lui permet indéfiniment de redite le texte" (FOUCAULT, Michel. Mon corps, ce papier, ce feu, p. 267, tradução livre).
destruiu em sua extremidade: vem se enxertar nela uma multiplicidade imediata e qualquer de raízes secundárias que deflagram um grande desenvolvimento. (...) Vale dizer que o sistema fasciculado não rompe verdadeiramente com o dualismo, com a complementariedade de um sujeito e de um objeto, de uma realidade natural e de uma realidade espiritual: a unidade não pára de ser contrariada e impedida no objeto, enquanto que um novo tipo de unidade triunfa no sujeito. O mundo perdeu seu pivô, o sujeito não pode nem mesmo mais fazer dicotomia, mas acede a uma mais alta unidade, de ambivalência ou sobredeterminação, numa dimensão sempre suplementar àquela de seu objeto. O mundo tornou-se caos, mas o livro permanece sendo imagem do mundo, caosmo-radícula, em vez de cosmo-raiz. Estranha mistificação, esta do livro, que é tanto mais total quando mais fragmentada. Não basta dizer Viva o múltiplo, grito de resto difícil de emitir. Nenhuma habilidade tipográfica, lexical ou mesmo sintática será suficiente para fazê-lo ouvir. É preciso fazer o múltiplo (...)65.
Quem mais poderia ser o pensador do Livro que, além de acrescentar ambivalência e uma dimensão suplementar, faz uso de habilidades tipográficas ou lexicais? Evidente que a referência é a Derrida, em especial a Da Gramatologia e toda questão do Livro e do suplemento, e aos enxertos e duplicações que realizava à época nos textos, por exemplo em
Timpanizar (1972) ou Glas (1974). Derrida seria, por isso, o extremo anti-materialista, aquele
que deslocaria a questão das estruturas concretas da sociedade e das relações de poder para jogos textuais que a desconstrução trataria de efetivar, idealista extremado, "desvirtuador da luta da esquerda", como até mesmo o liberal-irônico Richard Rorty supreendentemente o censura, associando-o à Identity Politics66. Ainda que bem menos rigoroso e responsável que os filósofos mencionados, o texto do provocativo coletivo anônimo de extrema-esquerda
TIQQUN é outro exemplo ainda mais agudo da acusação de "apoliticidade" da desconstrução,
terminando por etiquetá-la como o próprio pensamento do "Império":
A desconstrução é o único pensamento compatível com o Império, quando não seu pensamento oficial. Aqueles que a celebram como "pensamento fraco" acertam o
65 DELEUZE e GUATTARI, Mil Platôs, vol. 1, p. 14. Se Glas (1974), segundo Benoït Peeters, é uma resposta a Anti-Édipo (1972), possivelmente Mil Platôs (1980) também é uma resposta a Glas (PEETERS, Benoît. Derrida, p. 319). Pierre Bourdieu articulou o mesmo tipo de crítica contra Derrida (BOURETZ, Pierre. D'un ton guerrier en philosophie: Habermas, Derrida & co, pp. 280-282).
66 RORTY, Richard. Para realizar a América, pp. 111-143; CUSSET, François. Filosofia Francesa, pp. 127- 158; BOURETZ, Pierre. D'un ton guerrier en philosophie: Habermas, Derrida & co, pp. 81-95, 115ss. Slavoj Zizek pode ser incluído igualmente na galeria dos que reduzem a desconstrução às práticas linguísticas e à "esquerda cultural": ZIZEK, Slavoj. Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, pp. 17, 25- 26. Outros nomes importantes de "detratores" da desconstrução pelos mesmos motivos poderiam ser Edward Said e Noam Chomsky (CUSSET, François. Filosofia Francesa, pp. 190-195). Por outro lado, também Manuel DeLanda, pelo ângulo teórico, critica a desconstrução como estratégia linguística pós-fenomenológica, preferindo o realismo deleuziano (DELANDA, Manuel. Intensive Science and Virtual Philosophy, p. 2).
alvo: a desconstrução é uma prática linguística que tende inteiramente a uma única finalidade: dissolver, desqualificar toda intensidade, e em si mesma nada produzir67.
O próprio Derrida denuncia, com alguma indignação, uma suave, mas bastante perniciosa mudança da tradução francesa de A Ideologia Alemã, de Karl Marx, para associar esse tipo de crítica à desconstrução, associando-a a um idealismo e à ideologia, em La carte
postale:
Podemos ver (...) a palavra "desconstrução" cair do céu no texto de Marx. Até aqui, "aufgelöst" era fielmente traduzido por "resolvido" ou "dissolvido". Uma tradução recente de A ideologia alemã diz "podem ser desconstruídas" para "aufgelöst werden können", sem outra forma de processo e sem a mínima explicação. Eu não me demoraria sobre a ingenuidade teórica ou sobre a malícia tática de uma operação como essa se ela não tendesse a desviar o leitor. Pois uma vez concluído o amálgama, a apropriação incorporada, dá-SE a entender que a "desconstrução" está destinada a permanecer limitada à "crítica intelectual" das superestruturas. E fazemos como se Marx já o tivesse dito68.