Apesar de a abundância de escritos sobre Jacques Derrida praticamente inviabilizar hoje em dia um total conhecimento do campo de estudos em torno da sua obra, poderíamos dizer com algum risco não apenas que Derrida apenas ocasionalmente tocou no tema, como que, salvo até bem pouco tempo atrás, a comparação entre Derrida e o materialismo era bem escassa e subestimada entre os intérpretes. Depois da primeira leva de trabalhos na própria França ainda nos anos 60 e início dos 70 - vinculados a Tel Quel e outros - e o "materialismo anômalo" de Paul De Man, são raros os textos nesse sentido, podendo-se destacar apenas, como reconhecido na biografia de Benoît Peeters, a posição relativamente isolada de Catherine Malabou e Bernard Stiegler em torno da aproximação com Marx nos anos 80 e
47 Diz, ainda como outro exemplo, Lawlor: "At the very moment in which I undergo the aporia, I cannot ask what language is (the phenomenological question) or why language is (the ontological question), since these questions ask for an essence, all of which, according to Derrida, are themselves made possible by language" (LAWLOR, Leonard. Derrida and Husserl, p. 6). E, de modo ainda mais suave, Fernanda Bernardo: "Insistimos: daí a impossibilidade de sair da linguagem, da idealidade ou do sentido. Desde que o signo apareceu, isto é, desde sempre, não há qualquer hipótese de encontrar algures a pureza da 'realidade', da 'unicidade', etc; valores agora inscritos na estrutura do re-envio e da difer-ença" (BERNARDO, Fernanda. O dom do texto, p. 166).
sobretudo o brilhante livro, leitura com a qual a tese mais se identifica (e estranhamente pouco citado, apesar de ser verdadeira revolução no campo ainda em 1993) de Christopher Johnson, Writting and System in the Philosophy of Jacques Derrida48. As relações, contudo, foram reaquecidas após “Espectros de Marx” e recentemente, a partir da “virada especulativa”, os escritos sobre o tema começaram a ganhar muito fôlego. Durante a pesquisa, surgiram diversos novos textos fazendo essas conexões, com o destaque para Timothy Morton, Tom Cohen, Aaron Hodges, Paul Livingston, Henry Staten e Vicky Kirby, além dos próprios Catherine Malabou, Christopher Johnson e Bernard Stiegler, segundo suas respectivas áreas de interesse.
O principal candidato contemporâneo a ocupar o espaço de leitura materialista não- correlacional é Martin Hägglund, no seu seminal "Radical Atheism: Derrida and the autoimmunity of life"49. Para além de tantos méritos, o livro desenvolve até o limite o tema da finitude, mostrando a errância finita como constituição imanente - ontológica, poder-se-ia dizer - do pensamento de Derrida, e por isso o aproximando do materialismo, ainda que no
48 Se os trabalhos de Stiegler e Malabou são preciosos e penetrantes, eles contudo já estão marcados, desde sempre, pelos traços do pensamento dos próprios filósofos, não se restringindo a uma hermenêutica imanente da obra derridiana. Nesse sentido, a obra de Christopher Johnson, de todas as lidas na pesquisa, é o mais preciso apanhado do pensamento de Derrida. Embora tenha lido muito tardiamente o livro (na etapa finalíssima da pesquisa, em outubro de 2013), a identificação com a leitura de Johnson foi total, tendo este abordado, já em 1993, temas que apenas hoje estão em evidência como "ontologia", "sistema" e "materialismo" em Derrida, contrariando com isso a doxa de parte dos intérpretes (os adeptos do free play e do "textualismo"), para quem seria proibido falar essas palavras "metafísicas", e as leituras mais tímidas, que apenas procuram adequar Derrida aos standards de outras tradições a fim de "domesticá-lo". Uma das explicações para isso deve ser não apenas a proximidade de Johnson com filósofos que espelham essa tradição, mas pouco conhecidos, como Michel Serres (que, apesar de Johnson não mencionar, foi colega de Derrida como estudante na ENS), revelando os links com o materialismo atomista que a filosofia francesa, a partir da introjeção da termodinâmica e da cibernética, recuperou, mas igualmente pela menção a um texto que foi fundamental para a tese, o trabalho de François Dagnognet sobre Hyppolite, figura que Johnson identifica, praticamente solitário, como central nas transformações do cenário da época (JOHNSON, Christopher. System and writting in the philosophy of Jacques Derrida, p. 202, nota de fim 12).
49 As reservas ao livro se dão fundamentalmente em dois flancos: primeiro, a leitura que Hägglund realiza de Levinas, parecendo não compreender os elementos da ética da alteridade (que é confundida com uma teologia do Um, justamente seu oposto) (esse é o único ponto da polêmica em que subscrevo CAPUTO, John. The Return of Anti-Religion, pP. 32-124 (especialmente p. 56; para a resposta - não-convincente nesse ponto - de Hägglund: The radical evil of deconstruction: a reply to John Caputo, pp. 126-150). Segundo, sua ideia de que as teses de Derrida são puramente descritivas, motivo atacado por quase todos os autores da revista recentemente dedicada a Radical Atheism. Se Hägglund desafia a tradição filosófica em nível ontológico, postulando uma finitude que simplesmente elimina o desejo de imortalidade, mantém-se em nível estritamente tradicional em nível epistemológico, sem atentar, por exemplo, para a própria desconstrução que Derrida efetua em torno da oposição constativo e performativo, que já seria suficiente para duvidar dos seus enunciados em torno da pura descrição. Ademais, tentarei mostrar porque é equivocado trabalhar o pensamento de Derrida como lógica, pois a escritura ultrapassa o gap empírico/transcendental. Por outro lado, apesar das críticas, possivelmente trata-se de um dos melhores livros escritos em torno da obra de Derrida, como tantos já comentaram. Ver as críticas, que subscrevo na maioria, de JOHNSTON, Adrian. Life terminable and interminable: the undead and the afterlife of the afterlife, pp. 147-189; NAAS, Michael. An Atheism that (Dieu merci!) still leaves something to be desired, pp. 45-68; HADDAD, Semir. Language remains, pp. 127-146.
livro o último venha retratado como "ateísmo"50. Hägglund ataca o "desejo de imortalidade" da tradição mostrando como a finitude radical é a condição fundamental de qualquer das estruturas que Derrida investigou (por exemplo, hospitalidade, dom, justiça). Esta tese não apenas radicaliza o motivo de Hägglund, como pretende encontrar estruturas ainda mais amplas e gerais que abrangem toda problemática da auto-imunidade. Ela devora esse motivo como uma parte da sua escritura. Nesse sentido, como já dito na introdução, ela cobiça o rigor com que Hägglund pretendeu apresentar a lógica interna dos escritos de Derrida.
Comentando o trabalho de Hägglund, Aaron Hodges faz uma distinção interessante entre dois tipos de materialismos: de um lado, o materialismo prático ou polêmico, típico de um estilo de pensamento marxista, que começa por indagar as condições históricas de experiência de uma teoria em primeiro lugar, recusando-se a aderir aos protocolos sistemáticos idealistas e intervindo, ao contrário, no contexto da prática da filosofia mesma (Hodges coloca Althusser e Jameson como modelos); de outro, o idealismo-materialista (Adorno, Zizek) aceitaria a impossibilidade de pensar a matéria como tal (injunção idealista que viria de Kant), mas exatamente para abrir a filosofia para o momento não-conceitual. Hodges assinala que os "novos materialismos" emergentes no século XXI (Brassier, Meillassoux, o próprio Hägglund) surgem na crítica a ambos modelos: "se o absoluto - o que é, em si mesmo, radicalmente separado e indiferente à existência humana - pode ser pensado não-metafisicamente, então as pressuposições de uma filosofia que subjuga seus postulados de verdade ou objetividade ao ponto de vista transcendentalmente constitutivo do humano, e que por isso proíbe acesso ao mundo ou à realidade sem mediação do pensamento ou da linguagem, são minadas"51. É sob esse solo (sem subscrever o postulado do "absoluto") que pretendo, como Hägglund e Hodges, ler o materialismo derridiano. Assim, como afirma o último, o "arquimaterialismo tenta mostrar que, pensando rigorosamente o espaçamento do
50
Ainda que Derrida tenha declarado mais de uma vez seu ateísmo, parece que o motivo materialista pode ser mais "desconstrutivo" do que o próprio ateísmo, em especial pela via estratégica que o autor jamais ignorou na construção dos seus argumentos. Em carta a Catherine Malabou, ele afirma por exemplo: "Départ demain pour New York, après une rencontre sur Postmodernism and Religion (deux choses qui me sont étrangères, vous les savez, mais ils me trouvent partout entre les deux, vous les savez aussi, il faut s'y faire, se débattre, tout cela va très vite. Mon atheísme progresse dans les églises, toutes les églises, vous comprenez ça, vous ?)" (DERRIDA, Jacques & MALABOU, Catherine. La contre-allée, p. 99). Ainda: DERRIDA, Jacques. Les temps des adieux: Heidegger (lu par) Hegel (lu par) Malabou, p. 30; DERRIDA, Jacques & ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã..., p. 198). A argumentação de Hägglund, ao enfatizar que o desejo de imortalidade é auto-contraditório, como pontua Caputo, leva a uma subjetivização do ateísmo, efeito inverso ao postulado pelo filósofo nórdico. Ao me aproximar do materialismo, cobiço uma objetividade maior que o ateísmo de Hägglund (definido, na sua maior parte, pelo contraste com a chave da teologia negativa para o pensamento derridiano) (para uma crítica teológica não-correlacional dessa chave, ver HORWITZ, Noah. Reality in the name of God, pp. 1-58).
tempo, a filosofia não precisa abrir mão da articulação da abertura inorgânica do orgânico, a abertura não-viva da vida, a abertura sem sentido do sentido, e a abertura material do pensamento para a ciência sozinha"52.
Por outro lado, os fatos nublam um pouco os tipos dessa divisão tripartite: o próprio Marx, principal representante do "materialismo prático", inicia sua trajetória investigando o atomismo grego e Derrida, nesse caso contra Hägglund e Hodges, poderia ser visto como adepto com reservas de todos os "lados" do materialismo. Sem a simplificação habitual do materialismo político, sem a metafísica da presença que ainda alimentava o materialismo ontológico, é possível ver, ao mesmo tempo, o olhar para as condições de poder que geram os discursos e a inscrição da filosofia no concreto sensível, numa crítica constante à "metafísica". Como procurarei mostrar, há razões necessárias para essa cumplicidade, e nesse ponto a tese irá pensar a questão do rastro (trace), muito bem articulada por Hägglund, fora do campo de uma lógica, ainda por porventura distinta da lógica clássica. É nesse ponto que, apesar das diferenças, Hägglund encontra Meillassoux: para ambos, o transcendental é intangível, pensado como lógica e por isso no "éter" do pensamento. O pensamento da escritura literalmente derruba essa lógica, e é essa questão justamente que parece faltar a
Radical Atheism, ainda muito clássico na sua divisão entre empírico e transcendental (ou entre
ontologia e epistemologia)53.
Isso gerará uma economia entre correlacionismo e materialismo em plano assimétrico, não propriamente de oposição, mas de deslocamento. A tese redescreverá a ideia de "correlacionismo" não como uma fuga do pensamento absoluto, mas como uma perda da riqueza do mundo material em nome de um suposto privilégio constitutivo do humano, confinando-se a filosofia ao âmbito da linguagem. A aproximação se dará em forma de não de um realismo, mas de um materialismo experimental. Ataque simultâneo à epistemologia que se cinge à linguagem e à separação entre natureza e cultura, entendendo o materialismo como uma tese ontológica que fratura ambos postulados no mesmo golpe. No fim das contas, quando Heidegger afirma que "os vegetais e animais, embora se achem numa tensão com o ambiente, nunca estão livremente na clareira do Ser - e só essa é o 'mundo' -, por isso lhes
52
HODGES, Aaron. Martin Hägglund's Speculative Materialism, p. 103.
53 Apesar de Radical Atheism comparar Kant e Derrida e afirmar que este contribuiu para dissolver a distinção entre empírico e transcendental, o trabalho mantém, como veremos, o que nomeia ultranscendental, ponto que será problematizado ao longo da tese (HÄGGLUND, Martin. Radical Atheism, p. 10, 19, 28 etc.). O próprio Hägglund, contudo, se contrapôs a Meillassoux em HÄGGLUND, Martin. Radical atheist materialism: a critique of Meillassoux, pp. 114-129.
falta a linguagem"54, o privilégio da linguagem e o privilégio do humano se identificam, constituindo a matriz antropocêntrica que domina a filosofia moderna e, em tempos de Antropoceno, exige resposta. "Movimento dos sem mundo" contra a hegemonia filosófica do humanismo. Ela manterá oposição, por isso, à interpretação "correlacionista" - e por isso antropocêntrica - de Derrida. Antes, porém, cumpre tomar todas as precauções e desvios nessa associação entre Derrida e o materialismo, tradição da qual ele sempre esteve próximo física e espiritualmente.
54
HEIDEGGER, Martin. Sobre o Humanismo ou Carta sobre o humanismo, p. 44, 55, 68. Ver ainda DERRIDA, Jacques. L'animal que donc je suis, pp. 282-283.