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Mise en ´ evidence de la coexistence de deux modes de

6.2 Un exemple d´ etaill´ e : le Congo

6.2.4 Mise en ´ evidence de la coexistence de deux modes de

3.3.1 Instinto, inteligência e religião

Como compreender o caráter absurdo e supersticioso das religiões primitivas se a religião é uma particularidade de um ser definido prioritariamente como inteligente? Como crenças tão desprovidas de razoabilidade e providas de práticas tão distantes da moralidade encontraram guarida sob aquilo que se convencionou chamar religião? Como superstições

360 Ibid. p. 41

puderam e podem ainda governar a vida de seres racionais?362A resposta a essas questões

pressupõe a retomada da perspectiva pragmática de Bergson, ou seja, da aplicação, nesse questionamento, de um aspecto do seu método filosófico que sugere que se questione antes de tudo qual o significado de uma determinada prática ou função psíquica em relação à vida, à sua manutenção e ao seu progresso. Sendo o homem caracterizado por dois traços essenciais, a inteligência e a sociedade, deve-se buscar a interpretação dos fenômenos que o envolvem reconduzindo tanto a inteligência quanto a sociabilidade para o âmbito da evolução geral da vida.

A religião estática, chamada também por Bergson de primitiva ou natural, seria uma resposta da natureza à perturbação que a inteligência traz à vida individual ou social, seja quando inclina o homem ao egoísmo, seja quando debilita o ímpeto vital com a ideia da morte. Em ambos os casos entram em cena representações religiosas fabricadas pela função fabuladora da inteligência. São então criados deuses que asseguram punição e castigo para aqueles que, seguindo uma inclinação egoísta, prejudicam a coesão social; figuram-se também potências favoráveis ou desfavoráveis aos anseios individuais capazes de preencher o espaço de indeterminação entre o desejo e sua concretização.

Expliquemos mais pormenorizadamente. O despertar da consciência de si que acompanha o surgimento dessa nova forma de vida que é o ser humano traz consigo uma ameaça que precisa ser contrabalanceada. Essa ameaça é o egoísmo que tem a potencialidade de isolar o indivíduo da comunidade, da sociedade. Contra essa ameaça de dissolução dos laços sociais, a religião impõe comandos e interdições que, envoltos em um manto de sacralidade, induzem à obediência. Outra ameaça além da dissolução dos laços sociais seria a dissolução dos laços que ligam o homem à “vida total do cosmos”: o homem não se vê mais cercado pela natureza e amparado por ela, mas sente-se em uma relação de oposição à natureza, o que amplia e aprofunda o seu isolamento: “com o saber de sua existência como si mesmo, o homem torna- se estrangeiro ao ser do universo, ele se exclui – como já sugere a palavra existência. Assim, para o homem, o primeiro começo do ser é também começo do nada.363”

Em A evolução criadora a ideia de nada aparecia como uma transposição do

modus operandi da inteligência prática para a especulação, criando falsos problemas que

versavam mais sobre aquilo que não é do que sobre aquilo que é. Em As duas fontes da moral

362 BERGSON. Les deux sources. p. 110

363 CASSIRER, E. L'éthique et la philosophie de la religion de Bergson IN Der Morgen, n.9, 1933, p.20-29 e 138-

e da religião, a abertura de indeterminação promovida pela inteligência, isto é, seu privilégio

em relação ao instinto, representa também a fresta por onde entram “dúvidas anormais e mórbidas” que podem fragilizar a nossa capacidade de ação e comprometer o nosso apego à vida. A lucidez acerca da finitude, a consciência da morte significaria então uma negatividade inerente ao processo vital, uma espécie de depressão biológica decorrente da cisão entre a inteligência e o movimento que a gerou. O sentimento especificamente humano em relação à vida faz-se acompanhar inevitavelmente da noção de morte. Diante desse quadro de lucidez e desolação, a religião intervém, não dotando o homem de conhecimentos, mas ninando-o com fábulas que o apaziguam a angústia frente às ameaças de isolamento e aniquilação.

Tendência ao egoísmo, desejo exacerbado, fantasia de onipotência, dificuldade de vislumbrar os seus possíveis descaminhos, reflexão sobre a ideia da morte e receio ante a indeterminação dos acontecimentos e das potências desconhecidas seriam alguns aspectos negativos da inteligência que a vida tentará contornar através da religião. Nesse sentido, antes de ser um fato social, a religião é uma tendência que a vida põe em nós para contrabalançar as imagens mórbidas suscitadas pela lucidez da inteligência frente a condição humana. Trata-se da natureza agindo em nós, através da inteligência, para continuar o trabalho da vida. Essa necessidade biológica de crer e estabelecer sentido responde por uma função fabuladora da inteligência, capaz de gerar imagens alucinatórias e produzir coisas absurdas a fim de despertar a si mesma para algo que está além da sua lógica.

3.3.2 A função fabuladora

O intuito fundamental da função fabuladora é criar representações religiosas. Ela é consequência da nossa tendência a crer e é por ela criada, o que equivale a dizer que, relativamente à religião, essa faculdade seria efeito e não causa: “uma necessidade, talvez individual, em todo caso social, deve ter exigido do espírito esse gênero de atividade.364”É uma

espécie de faculdade poética que detém certos perigos da atividade intelectual por meio de uma contrafacção da experiência. Criando “fantasmas de fatos” que imitam a percepção, a função fabuladora é capaz de impedir ou de modificar uma ação. Assim, pode-se dizer que “um ser

essencialmente inteligente é naturalmente supersticioso e que só os seres inteligentes podem ser supersticiosos365”

Vimos, pois, a que serve a função fabuladora e que perigos ela deveria prevenir. Mas de onde ela vem? Qual a sua relação com outras manifestações da vida? Bergson refere-se a ela como uma “intenção da natureza”, mas alerta que se trata de uma metáfora cômoda para significar que tal dispositivo serve ao interesse do indivíduo ou da espécie.366Seria então melhor

defini-la como um instinto virtual, isto é, uma tendência que seria um instinto caso não incidisse justamente sobre um ser dotado de inteligência.

A inteligência, quando posta a serviço da espécie, é complacente e servil. Insuflada por um instinto virtual, a imaginação se põe a formular representações as mais ilusórias para mitigar o mal que a inteligência insinuava produzir. O instinto monta, então, mecanismos especiais, próprios aos seres inteligentes, a fim de que possa realizar indiretamente aquilo que teria realizado diretamente caso se tratasse de uma espécie menos complexa que o homem. Qualquer instinto tem a sua função, e “os instintos que poderíamos chamar de intelectuais são reações da natureza contra o que haveria de exagero e, sobretudo, de prematuramente inteligente na inteligência. […] A inteligência é, pois, necessariamente vigiada pelo instinto, ou antes pela vida, origem comum do instinto e da inteligência.”367

3.3.3 Sociedade, moral e religião

É, pois, através das representações imaginárias e supersticiosas criadas pela função fabuladora que o homem se defende contra as suas tendências deprimentes. Além disso, a religião reforça o ideário comum a um determinado grupo, contendo por isso as veleidades separatistas através do seu caráter punitivo. O recurso primordial da moral são os preceitos conceituais, racionais e abstratos, enquanto na religião prevalecem as ideias fantásticas. Assim como a moral, a religião também vai no sentido da sociabilidade, mas atua em contraposição à lógica. Seu papel fundamental é compensar o caráter débil do pensamento, restituindo a confiança, reestabelecendo o apego à vida e suprimindo o desamparo. Embora as tendências à sociabilidade, à moral e à religião sejam em geral bem-sucedidas no seu intuito de conter a

365 Ibid. p. 113 366 Ibid. p.114 367Ibid,. p.168

negatividade inerente à inteligência, elas não podem suprimi-las. Com a atualização dessas tendências, torna-se possível a convivência com a negatividade, mas apenas através desses instintos virtuais não é possível à inteligência superar a condição humana. Com a moral e a religião os homens domesticam as suas angústias, controlam a sua doença, mas a doença não é curada.

O homem sabe que vai morrer, sente-se vulnerável, exposto. É receoso, tateia. Não sabe entregar-se à vida como os outros animais. Além disso, é potencialmente transgressor. Segundo Bergson, essa “dupla imperfeição é o tributo pago pela inteligência.368”A natureza, porém, tende

a reestabelecer automaticamente a ordem que a inteligência veio perturbar. Esse reordenamento das coisas é a religião elaborada pela função fabuladora a qual, por sua vez, pertence à inteligência sem ser inteligência pura. Em resumo, a religião estática é “uma reação defensiva da natureza contra o que poderia haver de deprimente para o indivíduo e de dissolvente para a sociedade no exercício da inteligência369”

Sociedade, moral e religião são, portanto, as esferas essenciais onde o humano prolifera círculos da existência encerrados em si mesmo e constantemente ratificados. Uma vez circunscritas essas esferas, a humanidade permanece estacionária e reproduz um modus

operandi que se opõe a formas instituídas por outros grupos. A unidade só se consuma a partir

da exclusão. A cultura ratifica seus contornos se opondo a outros grupos. É no interior de círculos fechados, delineados pelas tendências da vida que se dá a autoafirmação permanente das sociedades em contraposição umas às outras. Há uma padronização das formas de existência, mesmo considerando-se a história, o desenvolvimento e o progresso. O mundo humano, a despeito do seu elevado grau de inventividade, também se fecha em torno de si perpetuando a repetição. A religião estática está sempre ligada à representação, havendo na evolução das representações religiosas um progresso que corresponderia ao processo civilizatório. A religião estática destina-se, em suma, a afastar os perigos da inteligência. Ela é infra-intelectual e natural. É uma detenção de um movimento cuja expansão se realizará “por meio de um esforço que teria podido não se produzir”370, um esforço por meio do qual “o

homem arrancou-se àquele movimento que dava voltas sempre no mesmo lugar.371”

368 BERGSON. Les deux sources p. 216 369 Ibid. p.216

370 BERGSON. Les deux sources. p.196 371 Ibid.p.196