6.2 Un exemple d´ etaill´ e : le Congo
6.2.3 Analyse des donn´ ees
Isso exposto, apresentaremos agora uma reflexão tão pontual quanto a de Bergson no que tange às relações que se estabelecem entre os preceitos da moral no Evangelho e as leis sociais que os seguem de perto. Trata-se da obra de Paul Ricœur, Amor e Justiça. Veremos que são visíveis as semelhanças dessas reflexões com aquelas empreendidas por Bergson, principalmente nos seguintes aspectos: a compreensão da moral presente no Evangelho como
347 Ibid. p.73 348 Ibid. p.74 349 Ibid. p.73-74 350 Ibid. p.77
351“Il eût fallu condamner l'esclavage, renoncer à l'idée grecque que les étragers, étan des barbares, ne pouvaient
revendiquer aucun droit. Était-ce d'ailleurs une idée proprement grecque?” (ibid. p. 77)
supra-ética e superabundante, a compreensão dessa superioridade como algo de paradoxal, a percepção na justiça de um misto entre supra-ética e ética, a distinção entre a poética do ágape e a prosa da justiça (que pode ser comparada à distinção que Bergson faz entre a moral aberta que é difícil de formular e a moral fechada muito bem expressa em fórmulas gerais e abstratas) e, ainda, a diferenciação entre a justiça enquanto corpo de leis ou aparelho judiciário e uma
ideia de justiça que estaria bem mais próxima do amor (que pode ser comparada à diferença
estabelecida por Bergson entre uma justiça natural de origens mercantis e o ideal moderno de justiça, cujas relações com o cristianismo também são por ele explicitadas). Ambos os filósofos tornaram patente a tensão entre o que há de paradoxal e superabundante na ética cristã e o que há de tendência ao equilíbrio na noção de justiça. O mais importante nessa comparação é trazer à tona a lógica interna do conceito de Justiça, acrisolado nas regras e nas leis e pairando acima delas como um ideal.
No texto Amor e Justiça, Paul Ricœur tenta encontrar uma dimensão conciliadora entre esses dois elementos cuja relação normalmente apresenta-se problemática na medida em que se trataria, para o autor, do entrecruzamento de uma dimensão supra-ética com um dimensão ética. Ou seja, antes de empreender uma aproximação dialética entre amor e justiça, o filósofo reconhece uma desproporção entre esses termos, assim como sua pertença a esferas diferentes de discurso.
A necessidade de lançar uma ponte entre a poética do ágape e a prosa da Justiça, entre o hino de louvor e a regra formal é justificada pelo fato de que ambos os discursos remetem à
praxis: “os dois regimes de vida, segundo o ágape e segundo a justiça, remetem ao mesmo
mundo de ação em que ambicionam se manifestar.353"A teoria do ágape poria, entretanto, de
saída, o problema de se saber até que ponto se trata de uma construção capaz de descrever ações realizadas por pesssoas na realidade ou de uma mera utopia. Nesse sentido, Paul Ricœur cita o livro de Dostoiévski, O Idiota, como exemplificação do mal-entendido e da confusão suscitada pela tentativa de aplicação do ágape em situações concretas.
Segundo Ricœur, a lógica do amor é a lógica da superabundância, enquanto a lógica da justiça é a lógica da equivalência. Enquanto a justiça busca dar a cada um o que lhe é devido, estabelecendo uma correlação razoável entre delitos e penas, o amor se caracteriza pelo perdão e pela gratuidade. A questão de Ricœur é saber se, apesar dessas divergências, é possível e/ou necessário estabelecer uma relação entre ambos.
O amor resiste à análise ética, à tentativa de clarificação conceitual, primeiramente na sua forma de exposição como louvor, mas, principalmente, na paradoxal forma imperativa na qual se exprime: "Tu amarás ao senhor teu Deus e amarás ao próximo como a ti mesmo". Qual o estatuto deste mandato? Como é possível comandar um sentimento? Tal comando é comparável aos princípios morais, tais como o são o imperativo categórico e mesmo os princípios utilitaristas?
Interpretando a obra de Franz Rosenzweig, A estrela da redenção, Paul Ricœur encontra possibilidades de resposta para estas questões. O comando de amar surge da ligação de amor entre Deus e uma alma solitária: "O comando de amar é o amor ele mesmo se recomendando ele mesmo.354"Tal comando contém as condições de sua obediência pela essência terna de seu
apelo: "Ame-me". Ou seja, trata-se de um uso poético do imperativo. Tal uso torna o comando do amor irredutível, em seu teor ético, ao imperativo kantiano. A tentativa de Paul Ricœur de estabelecer uma dialética entre amor e justiça partirá justamente dessa separação entre o uso poético do comando e o comando em sentido estritamente moral.
A justiça é uma atividade comunicacional, argumentativa, se impõe através do confronto discursivo, racional, analógico. A marca maior da justiça está nesse formalismo. Entretanto, para além da justiça tomada assim na perspectiva de aparelho judiciário de um Estado de direito, há os princípios de justiça ou a ideia de justiça, cujas fronteiras com o amor são mais tênues, mais difíceis de traçar. Mas, mesmo nesse sentido, a quase total identificação da justiça com a justiça distribuitiva reforça a sua antinomia em relação ao amor. "Dar a cada um o que lhe é devido" seria a fórmula mais geral da justiça355, em contraposição às características de
generosidade e gratuidade próprias do amor.
Na tentativa de superar as divergências entre amor e justiça acima apontadas, Paul Ricœur irá encontrar em Lucas, 6 uma tensão viva a ser trabalhada entre a regra de ouro (que anunciaria a regra de justiça) e o novo mandamento (que anunciaria a nova lei do amor). O imperativo do amor não é auto-suficiente, mas se sustenta naquilo que Ricœur chamou de economia do dom356: "O amor ao próximo, sob a forma extrema de amor aos inimigos, encontra
no sentimento supra-ético da dependência do homem criatura, sua primeira ligação com a
354 RICŒUR.P. Amour et justice. p. 22
355 "os indivíduos não teriam existência social sem estas regras de distribuição [...] é aqui que intervém a justiça
enquanto justiça distributiva , como virtude das instituições que presidem a todas as operações de partilha" (idem. Parcours de la reconnaissance. Trois études.p.325)
356 "O comando de amar seus inimigos não é auto-suficiente: ele é a expressão supra-ética de uma vasta economia
economia do dom.357"Também a significação dita supra-ética do novo mandamento advém da
economia do dom, isto é, da projeção ética mais próxima daquilo que transcende a própria ética: "porque te foi dado, dá à seu turno".
Essa expressão constituiria uma possibilidade de redução ética da supra-ética presente na economia do dom. Entretanto, em sua aplicação prática, a economia do dom desenvolve uma lógica de superabundância aparentemente oposta à lógica da equivalência que prevalece no princípio de justiça358. Em Luc 6, 32-34, a regra de ouro (ou a lógica da equivalência) parece
ser desautorizada pelas graves palavras de Jesus representando o novo mandamento do amor ou a lógica da superabundância:
E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também os pecadores emprestam aos pecadores para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, aos vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes em troca. (Lucas 6:32-35)
No entanto, apesar dessa aparente contradição, a regra de ouro ("aquilo que queres que os homens vos façam, fazei-vos a eles" Luc 6, 31) e o mandamento de amar os inimigos – ou simplesmente o mandamento do amor – estão presentes em um mesmo contexto. Isso sugere uma outra perspectiva na qual o amor, ao invés de contradizer a regra de ouro, fornece-lhe uma nova interpretação no sentido da generosidade, lançando assim um comando "que em razão de seu estatuto supra-ético, só acede à esfera ética ao preço de comportamentos paradoxais e extremos.359" Tratar-se-ia de engajamentos singulares extremos que, segundo Paul Ricœur,
ofereceriam uma extrema dificuldade de aplicação prática devido ao fato de erigirem a não equivalência em regra geral. Tais posturas, historicamente assumidas por indivíduos como Francisco de Assis, Gandhi ou Martin Luther King, arriscariam virar-se do supra-moral para a não moral ou mesmo para o imoral, caso não passassem pelo crivo do princípio de moralidade resumido na regra de ouro e formalizado pela regra de justiça.
Por sua vez, a justiça ou lógica da equivalência receberia de sua confrontação com a lógica da superabundância ou do amor a capacidade de superar a má interpretação utilitarista a
357 Ibid. p.33
358"[...]entrando no campo prático, a economia do dom desenvolve uma lógica de superabundância que, em um
primeiro momento ao menos, se opõe polarmente à lógica de equivalência que governa a ética cotidiana" (ibid. p.35)
que está sujeita. Assim a fórmula geral: "eu dou para que tu me dês" seria corrigida pela fórmula "dá, porque te foi dado". As palavras de Jesus em Luc 6, 32-34 seriam então menos uma crítica à lógica de equivalência da regra de ouro que uma crítica contra uma sua possível interpretação perversa utilitarista. Da antinomia inicial entre amor e justiça, Paul Ricœur chega então à justiça como mediador necessário para o amor, na medida em que o amor, sendo supra-moral, requer o crivo da justiça para entrar na esfera prática da ética:
Desorientar sem orientar é, em termos kierkegaardianos, suspender a ética. Em um sentido, o comando de amor, enquanto supra-moral, é uma maneira de suspenção da ética. Este só é reorientado ao preço de uma retificação da regra de justiça, de encontro à sua inclinação utilitária360.
Haveria, portanto, segundo Ricœur, uma complementaridade entre a lógica de superabundância e a lógica de equivalência ou entre o amor e a justiça. O imperativo ético do amor necessita do ideal ético da justiça, assim como a justiça deve ser complementada pelo mandamento do amor. Trata-se aqui de fundamentar a ética para além de sua funcionalidade legal, descobrindo no amor o móbil para a renovação constante das leis que visam ao ideal de justiça:
[...] a empresa de exprimir esse equilíbrio na vida cotidiana, no plano individual, jurídico, social e político é perfeitamente praticável. Eu diria mesmo que a incorporação tenaz, passo a passo, de um grau suplementar de compaixão e generosidade em todos nossos códigos - código penal e código de justiça social - constitui uma tarefa perfeitamente racional, embora difícil e interminável361"