No decorrer dos nossos estudos deparamo-nos com eminentes comentadores que trouxeram à baila a problemática que ora nos ocupa, qual seja, a tensão entre filosofia e espiritualidade na obra de Bergson, mais especificamente sob a perspectiva da complexa relação que se estabelece entre filosofia e mística. Dentre muitos, alguns autores nos chamaram bastante atenção. Primeiramente Anthonie Feneuil, por nos fazer notar que estaria em questão
216BERGSON, Les deux sources de la morale et de la religion, p.248-249.
217“Os filósofos que especularam sobre o significado da vida e sobre o destino do homem não observaram bem
que a própria natureza se deu ao trabalho de informar-nos sobre isso: avisa-nos por meio de um sinal preciso que nossa destinação foi alcançada. Esse sinal é a alegria” (BERGSON, A consciência e a vida in A energia espiritual, p.22).
uma reinterpretação da intuição filosófica a partir dos resultados de As duas fontes, assim como a consequente redefinição do alcance e limite do próprio conhecimento filosófico.
Segundo Feneuil, o que a intuição mística põe de perturbador para o filósofo é uma lacuna entre o absoluto e sua própria consciência individual, ou seja, se a intuição filosófica era até então a possibilidade de apreensão do absoluto na sua imanência, o místico vem testemunhar uma relação primordial que antecede e constitui a própria duração do eu: a emoção de amor que vem de Deus. O absoluto apareceria então para o filósofo irremediavelmente mediado devido à sua participação na mística218. Com a descoberta da duração no Ensaio, seguir-se-ia a
descoberta do potencial de uma filosofia que pensaria em duração, isto é, que, ciente do fato de que a consciência humana deriva de uma consciência mais larga, desvelaria não apenas os dados imediatos da consciência individual, mas também o movimento pelo qual a vida teria criado a inteligência e a matéria219. O aprofundamento dessa descoberta estaria, porém, em tensão, desde
o seu início, pois a descoberta do potencial do esforço de intuição na resolução de problemas e na apreensão do absoluto se faria acompanhar desde o início da necessidade de apropriação dos conhecimentos exteriores220. Em As duas fontes, porém, teria se modificado justamente esse
modo de apropriação, pois “esse caminho de si em direção ao outro na filosofia, esta anexação dos dados exterioressó é agora possível por um desvio, pelo reconhecimento da primazia – para acessar o imediato por excelência, para acessar a identidade da consciência com o seu princípio – de uma experiência não filosófica.221”
Em um dado momento, e no terreno de determinados problemas onde a filosofia é incapaz de ir sozinha, a intuição mística a substituiria. A intuição filosófica continuaria válida no que diz respeito à duração do eu e até mesmo das coisas, mas seria prolongada ou ultrapassada pela descoberta, através dos místicos, de uma transcendência que ela não pode alcançar. A resposta às questões da origem e do destino do homem já não seriam da alçada da intuição filosófica, mas da intuição mística, passando o filósofo, nesse momento, do plano de uma experiência de fato para uma experiência de direito, do papel de intérprete da própria
218FENEUIL, Anthony. De l´immédiatement donné au “detour de l´expérience mystique”. Remarques sur l´unité
de la méthode intuitive chez Bergson. IN PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V.17, N. 1, 32 P. 31-54, JAN./JUN. 2012.
p. 49
219FENEUIL, Anthony. De l´immédiatement donné au “detour de l´expérience mystique”. p. 34-35
220 “Á medida em que a filosofia de Bergson descobre sua potência própria, potência de resolução de problemas e
de apreensão do absoluto não apenas do eu, mas do mundo, ela descobre também a necessidade de se apropriar dos conhecimentos que lhe são exteriores. Estes são no Ensaio os dados da psicologia empírica, em Matéria e memória a psicopatologia, em A evolução criadora […] os dados da biologia” (FENEUIL, Anthony. De l´immédiatement donné au “detour de l´expérience mystique”. p.35)
experiência para o de intérprete de uma experiência que lhe está além. Tudo isso suscitou algumas objeções, como a de Etiénne Gilson: “[...] a partir de então, ele [Bergson] precisaria recorrer à experiência dos outros e falar de alguns fatos sobre os quais tinha ouvido falar.222”A
essa observação fez eco, mais recentemente, Camille de Belloy:
[...] o filósofo se ocupa pela primeira vez de uma experiência que não é a sua, que ele não fez e que ele não está em condições de conhecer, a despeito do eco, da ressonância de simpatia que ela desperta nele. Não é portanto sobre esta experiência que ele vai poder trabalhar. Assim, ao invés de se colocar imediatamente, por uma dilatação do espírito, na coisa que ele estuda, como o queria a Introdução à metafísica, o filósofo será obrigado a permanecer no exterior e olhar seu objeto, o misticismo, como espectador.223
Para Camille de Belloy, o que está em questão, ao se levar em conta As duas fontes da
moral e da religião, é a unidade e o sentido do pensamento de Bergson. Em artigo intitulado Bergsonisme et christianisme. Les Deux Sources de la morale et de la religion au jugement des catholiques, Belloy faz notar que Bergson não se debruçou sobre o cristianismo na sua última
obra como sobre um objeto que teria tentado delimitar através de um método já definido, mas a mística cristã, com o seu vasto conjunto experimental seria, ela própria, um método224.
Bergson não teria, então, tentado apreender a verdade do cristianismo ao final de sua vida e com a ajuda de sua filosofia já completa, mas, ao contrário, teria encontrado em uma determinada tradição do cristianismo, a tradição mística, a possibilidade de aprofundar e talvez mesmo de completar a sua própria filosofia.
Além dos autores já citados, consideramos também a interpretação de Henri Gouhier, para quem a intuição mística seria, “supremamente dilatada, a intuição da duração experimentada em seus diversos níveis na filosofia da natureza”225 e Jean-Christophe Goddard,
para quem é a “franja de intuição ou a unidade virtual de instinto e inteligência o que o místico fixa, intensifica e sobretudo completa em ação."226. Na interpretação desses autores, a intuição
mística seria, portanto, o último nível da intuição filosófica, a plenitude da experiência outrora
222 GILSON, Étienne. O filósofo e a teologia. p.169
223BELLOY, Camille de. Le philosophe et la théologie In Bergson et la religion. nouvelles perspectives sur Les
deux sources de la morale et de la religion. PUF, 2008, p.310
224 BELLOY, Camille de. Bergsonisme et christianisme. Les Deux Sources de la morale et de la religion au
jugement des catholiques. IN Vrin | Revue des sciences philosophiques et théologique;2001/4 - TOME 85; pages 641 à 6; p.665
225GOUHIER, H. Bergson et le christ des évangiles, p.108
226GODDARD, Jean-Christophe. Fonction fabulatrice et faculté visionnaire. Le spectre de l´élan vital dans Les
deux sources. In Bergson et la religion. nouvelles perspectives sur Les deux sources de la morale et de la religion. PUF, 2008, p.106)
empreendida no âmbito da psicologia e da filosofia da natureza. O problema, vimos, é que essa complementaridade entre intuição filosófica e intuição mística acarretaria a objeção de que o último grau da intuição bergsoniana dar-se-ia fora da filosofia, em uma experiência para a qual o filósofo não está apto. Nesse contexto, porém, importa relembrar que a proposta de Bergson é a ênfase na concessão de um valor filosófico à experiência mística a partir da sua agregação, como uma outra “linha de fato”, aos dados biológicos já considerados em Evolução criadora. Não se trata, para Bergson, de deixar a experiência mística por ela mesma, mas de utilizá-la como uma linha auxiliar de pesquisa que conduz o filósofo em direção à verdade227. Nessa
perspectiva, a instrumentalização metódica da experiência mística e não a experiência mesma seria o objetivo da filosofia:
[...] A filosofia, com seus únicos recursos, quer dizer, com a experiência ajudada pelo raciocínio, não me parece poder ir mais longe, tão longe quanto o teólogo que se baseia na revelação e se endereça à fé. Entre a filosofia e a teologia há necessariamente, por esta razão, um intervalo. Mas me parece que eu reduzi esse intervalo introduzindo na filosofia, como método filosófico, a mística que até então tinha sido excluída.228
Se eu trago, nessas páginas, algo de novo, é isto: eu tento introduzir a mística na filosofia como procedimento de pesquisa filosófica.229”
Todos os intérpretes acima referidos sugerem a importância incontornável do estudo da última obra de Bergson para compreensão integral da sua filosofia, ressaltando sempre o aspecto metodológico de seu pensamento. Em acordo com isso, optamos por ler As duas fontes com a confiança de que ali se encontra não um filósofo que se contradiz nos aspectos mais elementares da aplicação de um método pelo qual primou durante toda a vida, mas que, pelo contrário, resulta ali a culminância de um método aplicado à perfeição e que, renovado pelo seu próprio êxito, lança nova luz à totalidade da obra. Compreender o status concedido por Bergson à experiência ou intuição mística é compreender também o que pensa Bergson acerca das potencialidades e limites da própria filosofia. Mas não é tarefa fácil. Acreditamos ser possível
227BERGSON. Le deux sources de la morale et de la religion. p.263
228BERGSON. Extrait d´une lettre a Blaise Romeyer. Apud. Dossier Critique Les deux sources, p.623
229BERGSON apud WATERLOT, L'ellipse: une difficulté majeure du troisième chapitres de Deux Sources. In:
interpretar a intuição mística, a partir de Bergson, tanto como prolongamento último da intuição da duração quanto como o “auxiliar” do método de pesquisa filosófico230.
Haveria, no nosso entender, uma dupla apropriação, por parte de Bergson, da intuição mística, podendo essa duplicidade ser remetida à oscilação do sentido de intuição na sua obra, tomada ora como uma experiência imediata da vida interior, ora como um método mediado pela crítica, pelos dados da ciência, pela junção das chamadas "linhas de fato" e pelas "diferenciações de natureza”. De acordo com isso, a experiência mística seria o momento mais elevado da filosofia quando a intuição filosófica fosse considerada um esforço de introspecção e seria um mero “auxiliar” da filosofia quando a intuição filosófica fosse considerada um método de pesquisa. No primeiro caso, a filosofia desembocaria em um saber não teórico e profundamente transformador, a tal ponto que impele à ação, mais especificamente à ação amorosa e caritativa. O Elã místico seria uma intensificação, no indivíduo, do Elã vital; porém essa intensificação corresponderia a uma ruptura ilustrada na distância que separa o filósofo do santo ou do verdadeiro místico. O último grau da intuição bergsoniana dar-se-ia fora da filosofia, fato passível de ser interpretado como a aceitação, por parte de Bergson, de uma limitação que lhe seja intrínseca, não apenas enquanto tentativa de expressão conceitual (limitação a que chama atenção em toda a sua obra), mas também enquanto tentativa de apreensão do absoluto. No segundo caso, a suposta falência da filosofia seria mitigada, na medida em que o procedimento que lhe compete seria propriamente metódico. A filosofia, ao final, estaria limitada a um conhecimento teórico e exprimível, porém indireto, mediado e possivelmente pouco transformador. Em um caso, teríamos a intuição como um tipo experiência cuja completude ultrapassaria paradoxalmente o esforço filosófico. No outro caso, teríamos a intuição como esforço intelectual cuja completude se daria internamente, dentro dos limites próprios da filosofia. A concessão de privilégio a uma dada perspectiva de significação da intuição (enquanto experiência psicológica ou método de pesquisa) se refletiria, portanto, na interpretação da experiência mística e consequentemente no sentido concedido à atividade filosófica. De nossa parte, afirmamos a dupla perspectiva da intuição bergsoniana: tanto a dimensão metodológica quanto a dimensão da experiência psicológica, pois, como bem coloca
230 “Il suffirait de prendre le mysticisme à état pur, dégagé des visions, des allégories, des formules théologique
par lesquelle il s'exprime, pour em faire un auxiliaire puissant de la recherche philosophique” (BERGSON, Les deux sources de la morale et de la religion. p. 266)
Jean-Louis Vieillard Baron, "a filosofia não é somente um trabalho de reflexão puramente intelectual, embora também não seja unicamente um trabalho sobre si mesmo231"