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5. MISE EN œUvRE DE LA CONvENTION : PRIORITÉS ET DÉFIS
Os portugueses precisavam de se apaixonar pelo seu país e por aquilo que este tem de melhor. Era urgente encontrar um símbolo, uma imagem de marca, que pudesse ser transformada em produto de merchandising. Tudo começa em 1931 para a realização do V Congresso Internacional de Crítica Dramática, Musical e Literária. António Ferro conhecera Luigi Pirandello no ano anterior, em Praga, durante o IV Congresso da Crítica, convidando-o para o Congresso em terras lusas. A participação do escritor italiano num acontecimento em Portugal, que arrastasse atrás de si outras figuras importantes da cultura europeia, seria um inestimável serviço prestado à ditadura em ascensão, que Salazar não deixaria, seguramente, de recompensar. Havia a vantagem acrescida de se promover, simultaneamente, a si próprio junto dos outros jornalistas e da opinião pública mais atenta. Ferro sentia, agora, a necessidade de surpreender os congressistas estrangeiros com uma lembrança genuinamente portuguesa, uma peça singular de arte popular.
Decidiu, então, pedir ajuda ao seu colega Artur Maciel (1900-1977), o qual incumbiu Manoel Couto Viana de ir ao norte, à feira de Barcelos, comprar
20 “qualidade do que é português; sentido nacional da cultura portuguesa” (Costa et al. 2005: 1336).
bonecos de barro decorativos. Couto Viana alugou um automóvel e foi à feira de Barcelos na quinta-feira seguinte. Ia parando na frente dos bonecos de barro que só atraíam as crianças, ansiosas por experimentar o assobio. Por ali, viam-se os galos, o músico de barrete espampanante, a galinha rodeada de pitos, o menino na cadeira, o grande boi, a mulher que fia o linho. Custavam, então, pouco mais que cinco centavos. E, Couto Viana ia enchendo os cestos “perante o pasmo e o riso dos feirantes que não atinavam o porquê de um tal fidaurgo adquirir, às dúzias, aquela bonecrada, própria para brinquedo de rapazio labrego” (Viana 1988; Apud Rios 2006: 22).
Entre as figuras decorativas destacava-se o Galo de Barcelos. Os críticos estrangeiros a quem foi oferecido adoraram a surpresa e divulgaram-na amplamente. António Ferro gostou da ideia; levou o galo para o Secretariado de Propaganda Nacional e transformou-o em troféu turístico:
Os primeiros galos tornados símbolos eram vermelhos, por serem cozidos a altas temperaturas, mas António Ferro mandou logo introduzir alterações, como era seu hábito, sugerindo que os pintassem de branco, preto e amarelo primeiro, de outras cores mais folc lóricas depois (Raimundo 2015: 139).
A entronização do Galo de Barcelos como símbolo da portugalidade será feita mais tarde, no decorrer da Grande Exposição do Mundo Português, em 1940, com a sua colocação em lugar bem visível no pavilhão dedicado à vida regional. Ficava assim criado o ícone que hoje conhecemos e, que nunca mais foi despromovido, sendo uma das imagens de marca de Portugal. Muitas das
supostas tradições populares que, ainda hoje, se julgam puras e genuínas, foram inventadas por António Ferro21 – SPN – na década de 1930 e nas décadas seguintes.
Figura XII22
As preocupações de Ferro traduziram-se numa política folclorista da cultura popular, encenando quadros da vida rural, ignorando e omitindo as
21 “Com ele, até o Benfica deixou de ser vermelho para passar a ser encarnado, para evitar conotações políticas com as ideologias de esquerda” (Raimundo 2015: 139).
22 Galo de Barcelos. Os materiais para a construção do galo evoluíram. Há-os hoje em dia de papel, de madeira, etc. O espécime fotografado é em ferro fundido (fotografia de Fred Meireles).
condições de vida difíceis em que os camponeses viviam. A doutrinação folclorista e ruralista do SPN divulgava paisagens campesinas bucólicas, rústicas e puras, longe da modernização, mantendo os seus traços tradicionais e populares, que ao olhar do citadino representavam o país verdadeiramente genuíno, exigindo a sua preservação e garante do que seria a identidade nacional. É na ingénua moldura do barro, nas cantigas sem influências externas, nas tradições intactas e genuínas do povo, na sua pureza e alegria que o SPN procura encontrar o Portugal autêntico ao percorrer as recônditas aldeias de Portugal, com as suas paisagens rurais de postais ilustrados.
É, assim, criado, em 1938, o concurso da “Aldeia mais Portuguesa de Portugal”. Depois de um trabalho de selecção em cada província, entraram em competição doze povoações: Bucos e Vila Chã (Minho); Manhouce e Cambra (Beira Alta); Monsanto e Paúl (Beira Baixa); Azinhaga (Ribatejo); Almalaguez (Beira Litoral); Boassas (Douro Litoral); Nossa Senhora da Orada (Alto Alentejo); Peroguarda (Baixo Alentejo); e Alte (Algarve). As aldeias a concurso da província de Trás-os-Montes, nomeadamente as de Alturas do Barroso e Lamas de Olo teriam sido postas de parte devido às difíc eis condições de acesso e a um reconhecido primitivismo, que a nenhuma dava possibilidades de vitória (vitória que implicava sempre a recomendação feita a nacionais e estrangeiros de visitarem de futuro essa aldeia, como a mais portuguesa de Portugal). Feita a seleção, em 18 de Setembro de 1938, um júri nacional começou a percorrer o país para visitar as aldeias concorrentes, para eleger a aldeia mais portuguesa. Monsanto ganhou o galardão, reunindo as condições de rusticidade e tipicidade, tornando-se, a partir de então, em mais um símbolo da nacionalidade.
Estava preparado o caminho para o que viria a ser o momento alto da atividade do SPN e da propaganda do regime, enquanto promotor da identidade portuguesa. Em 1940 realiza-se em Lisboa a Grande Exposição Histórica do Mundo Português, dividida em três secções: a histórica, a colonial e a etnográfica, e no âmbito da qual se efetuou também o Congresso do Mundo Português, eventos consagrados à gesta dos Descobrimentos marítimos. A Exposição obteve um enorme êxito popular, tendo sido visitado por mais de 3 milhões de pessoas (cálculos, não muito rigorosos, têm situado esse número entre 3 e 6 milhões de visitantes). Prevista para decorrer entre 23 de junho e final de setembro de 1940, a sua duração acabou por ser prolongada até dezembro. Um sucesso do qual Salazar procurou extrair o máximo de dividendos políticos para si e para o regime.
A realização da Grande Exposição e do Congresso do Mundo Português visaram, por determinação do Presidente do Conselho, a comemoração, num só ato e com um relevo excecional, de dois aniversários maiores: os oitocentos anos da Independência de Portugal (1140) e os trezentos anos da Restauração da Independência (1640). Artur Portela, citando as palavras de Salazar, publicadas no jornal Diário de Notícias de 27 de março de 1938, transcreve:
Primeiro, dar ao povo português um tónico de alegria e confiança em si próprio, através da evocação de oito séculos da sua História, que foram simultaneamente oito séculos da História do Mundo, e através da solidez e ternidade da sua independencia. Em segundo lugar, (…) pela pressão do tempo e pelo entusiamo criador, levar os serviços públicos e particulares a acelerar o ritmo da sua actividade, com o intuito de afirmar a capacidade realizadora de Portugal, os seus serviços à civilização (…). Por um e outro modo demonstraríamos com clarez a da
evidência aos nossos próprios olhos e aos olhos de estranhos que Portugal, Nação civilizadora, não findou e continua, pelo contrário, a sua alta missão no mundo (Portela 1987: 71).
A Grande Exposição Histórica do Mundo Português ocupou uma área de 450.000 metros quadrados. Empregou, durante catorze meses, 5000 operários, 15 engenheiros, 17 arquitetos, cerca de 43 pintores-decoradores, com 129 auxiliares e 1000 modeladores-estucadores, sob a orientação de 7 chefes.
Por expressa vontade de Salazar e sob a direção do ministro Duarte Pacheco realizaram-se ou concluíram-se, no âmbito desta Exposição, uma série de trabalhos públicos de grande visibilidade: foram terminadas as obras da Casa da Moeda e as transformações do Palácio de S. Bento; o Parque de Monsanto foi valorizado; iniciaram-se as construções das gares marítima e fluvial de Alcântara, do aeroporto da capital, do viaduto e da autoestrada Lisboa-Cascais; construiu-se o Estádio Nacional; foi rasgada a Avenida do Aeroporto; edificaram-se os primeiros bairros económicos; foram restaurados vários edifícios históricos, como o Palácio de Queluz e o Teatro de S. Carlos.
A Grande Exposição Histórica do Mundo Português decorreu numa extensa área, nos terrenos então praticamente abandonados da Junquei ra, entre Belém e Alcântara, de 23 de junho a 2 de dezembro de 1940. Realizada num momento em que a Europa se encontrava já mergulhada no turbilhão de ferro e fogo em que se transformou rapidamente a segunda Guerra Mundial, a Grande Exposição sublinhava também o ambiente de paz em que, em contrapartida, se vivia em Portugal. Aquele acontecimento constituiu, indiscutivelmente, do ponto de vista político, cultural e ideológico, um grande
sucesso do regime, que, de algum modo, em termos de imagem positiva, chegou aí, ao seu apogeu. Mas marcou, igualmente, o princípio do seu declínio, embora este se viesse a prolongar muito para além do que então muitos acreditavam (Azevedo 1999: 159-160).
Da Grande Exposição do Mundo Português fazia parte o pavilhão da “Secção da Vida Popular”, o qual após algumas reformulações, veio a ser inaugurado em 1948, como Museu de Arte Popular (MAP) (e que se mantém até hoje). O Museu foi concebido de acordo com o programa formulado, em 1946, por António Ferro – então diretor do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) – sob a denominação inicial de “Museu do Povo” e organizado de acordo com a divisão administrativa do território nacional da Constituição Portuguesa de 1933.
Parte significativa do espólio inicial do Museu de Arte Popular provinha do material etnográfico reunido para figurar nas diversas exposições organizadas pelo S.P.N./S.N.I em Portugal e no estrangeiro, nas décadas anteriores à inauguração do museu em 1948. A maioria do acervo exposto no MAP tinha sido anteriormente apresentado ao público na Quinzena de Portugal em Genebra (1935), na Exposição de Arte Popular Portuguesa (1936), nas Exposições Internacionais de: Paris (1937), de Nova Iorque e S. Francisco (1939) e na “Secção da Vida Popular” na Grande Exposição do Mundo Português (1940).
O núcleo do museu resultava de diferentes modelos de incorporação tais como a aquisição, as encomendas diretas a artesãos ou aos artistas- decoradores do S.P.N./S.N.I., as recolhas pelas diversas regiões do território português (reunião de um grande número de objetos durante o concurso da
“Aldeia mais Portuguesa de Portugal” em 1938) e a integração de doações de particulares.
Do espólio do Museu de Arte Popular faziam parte uma série de utensílios e objetos do quotidiano rural e piscatório do povo português. Aqui podíamos encontrar os tapetes de Arraiolos, as colchas bordadas, os lenços dos namorados, etc. Na Sala de Trás-os-Montes, por exemplo, figuravam as famosas máscaras dos caretos transmontanos, mas dos bonecos teatrais não havia qualquer vestígio. Já no Norte, no Porto, no Museu de Etnografia e História do Douro Litoral, era possível ver, ainda que não ao vivo, fotografias de bonifrates de feira:
No Museu de Arte Popular, em Lisboa, encontram-se expostas numa vitrina algumas máscaras utilizadas em manifestações cénicas transmontanas. Quanto a bonifrates, o vazio é completo. No Porto, podem ser vistas, no Museu de Etnografia e História do Douro Litoral, fotografias de marionetas feirenses (Delgado 1968i: 58).
O Museu de Etnografia e História do Douro Litoral, mais tarde Museu de Etnologia do Porto, sito no Palácio de S. João Novo, foi encerrado ao público em 1992. Henrique Delgado visitara o museu em dezembro de 1968, o qual começa a sofrer uma acentuada degradação a partir de 1970, o que levou ao seu fecho.
Dentro do espírito da promoção e preservação do património etnográfico, tema principal da Grande Exposição do Mundo Português, foi projetada outra obra emblemática, inaugurada a 8 de junho de 1940, o mesmo mês da abertura da Exposição de Belém. Tratava-se do Portugal dos
Pequenitos. Este, situado em Coimbra, é desde a sua inauguração um parque
lúdico-pedagógico destinado essencialmente à criança.
Nascido pela mão de Bissaya Barreto (1886-1974) e projetado pelo arquiteto Cassiano Branco (1897-1970), integra desde 1959 o património da Fundação Bissaya Barreto , que tem como patrono este ilustre Professor. Retrato vivo da portugalidade e da presença portuguesa no mundo, o Portugal dos Pequenitos é ainda hoje um referencial histórico e pedagógico de muitas gerações. Para além de ser um espaço de aproximação de culturas e de cruzamento entre povos, o Portugal dos Pequenitos é também uma mostra qualificada da arte escultórica e arquitetónica, pela miniatura e pela minúcia.
A Grande Exposição do Mundo Português e o Portugal dos Pequenitos levam-nos à reflexão de Raul Lino (1879-1974) sobre o património arquitetónico tradicional português, exposta em Casas Portuguesas, de cuja obra extratamos uma passagem:
Para se chegar a apreender o sentido do portuguesismo na arquitectura, é preciso ser-se dotado de gosto, como sucede em geral com todos os estrangeiros que vêm até cá para estudar o nosso país; é necessário o amor das nossas coisas, porque de aí nascerá a compreensão profunda da nossa índole; é indispensável percorrer o país, de olhos abertos e coração enternecido, com a mão ágil prestes a tomar mil apontamentos comovidamente. E a chama do sentimento indefinível das coisas inexplicáveis acabará por baixar sobre o artis ta enamorado (Lino 1992 [1933]: 113).
A Grande Exposição do Mundo Português serviu, acima de tudo, para legitimar os estereótipos que António Ferro – SPN – inventara: a noiva
minhota, o galo de Barcelos, as filigranas, a tricana coimbrã, os tapetes de arraiolos, os pauliteiros de Miranda e Monsanto (como a “aldeia mais portuguesa”), modelo de tradição e bom gosto. Para além de reduzir o popular ao rural, segundo uma idealização estética do camponês transformado em jardineiro da paisagem, António Ferro pretendia “aportuguesar” as paisagens de Portugal, mesmo que isso significasse ignorar a realidade do país e as respetivas estruturas sociais.
Por todo o país havia más construções, e os portugueses viviam em condições de vida muito difíceis. As aldeias – embora situadas numa paisagem rica de tons verdes e frescura de água – constituíam conjuntos de aspeto pobre, senão miserável. Era um país retalhado de caminhos de piso irregular, encharcados de água e de estrume, que servia de espaço de recreio a crianças sujas, piolhosas e assustadiças.