A proposta de simular um museu virtual de uma temática e contexto que não mais existe é desafiador e requer um trabalho de pesquisa apurado. Segundo a abordagem metodológica utilizada neste projeto, que foi o Design Based Research (DBR) ou Pesquisa Baseada em Design (PBD), os princípios básicos da trajetória da pesquisa são a práxis, a interdisciplinaridade e a resolução de pro- blemas de contextos reais pautada em esforço coletivo. Além desses princípios, a DBR apresenta características como:
• É responsiva - pois a proposta de desenvolvimento de uma solução/ produto, que neste caso é o museu virtual do quilombo do Cabula, é pensada para uma efetiva ação, que visa intervir e investigar novas formas de construções para aprendizagens, e que partiu de uma neces- sidade expressa pela comunidade do Cabula, nas rodas de conversas, em conhecer aspectos da remota da localidade. Na DBR o sujeito e a busca da solução de problemas passam a ser o foco da pesquisa.
• Tem caráter aplicado - conforme foi discutido anteriormente, busca-se a resolução de problemas reais e para tal, faz-se necessário o desenvolvi- mento de pesquisas relevantes, em que a investigação é direcionada a contextos reais, e aplicada ao desenvolvimento de “atores reais, melho- rias resolvendo problemas reais” (RAMOS; GIANNELLA; STRUCHINER, 2009), logo a relevância da pesquisa é para a vida prática.
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• Interação e Colaboração - uma vez que não se trata de uma pesquisa desenvolvida apenas pelo pesquisador, sendo considerando o detentor do conhecimento. Trata-se de um trabalho de autoria e coautoria, de completo engajamento do pesquisador com seus grupos de estudos. Segundo Santos (2014, p. 33), para a DBR tanto o aporte teórico do pesqui- sador quanto o embasamento de vivência da comunidade estão mesmo patamar, e “[...] de acordo com o resultado prático almejado pelo conjunto engajado no pro- cesso, seria nova ecologia cognitiva, que inauguraria uma nova fase na interação entre pesquisador universitário e seus parceiros pesquisadores comunitários”.
• É integradora - Na DBR o pesquisador pode utilizar variados métodos e técnicas de pesquisa, dependendo da fase do planejamento, desen- volvimento ou implantação, mas segundo Cobb e colaboradores (2003), com coerência, consistência e disciplina. Para essa fase que está sendo apresentada no artigo, que é da trajetória de investigação histórica, foi utilizado o método do pensar histórico.
Para o pensar histórico “A História passa a ser um conjunto de prática, resultado e relatório, coerente a partir da atitude do historiador e sua obser- vação do passado”. (MATTA, 2006, p. 51) Nesse caso, a pesquisa na história está associada a elaboração e raciocínio sobre as questões do passado ou presente. Portanto, é imprescindível a utilização do método listado por Martineau (1997) para a efetivação da investigação histórica: elaboração de hipóteses a partir de questões problemas, atividade de pesquisa e crítica de informações, interpretar e adequar as informações e construir conclusões ou chegar a uma síntese inter- pretativa após um trabalho em colaboração.
• Apresenta flexibilidade - O projeto, seu desenvolvimento, a solução/pro- duto da intervenção estão sujeitos em todo processo a alterações. Como na DBR a proposta de construção é coletiva, a pesquisa nunca está aca- bada, podendo sofrer redesign constantes, logo, cada etapa da pesquisa é uma preparação para a próxima, não sendo uma concepção linear, uma
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vez que o processo desta próxima pode ocasionar a necessidade de alte- rações na anterior. (LOBO DA COSTA; POLONI, 2011) Aqui também situa- remos o atual momento em que se encontra o projeto. Uma vez que a etapa de construção histórica pode oferecer significativos resultado, ainda não é o momento de encetar a simulação do museu virtual. É imperioso compartilhar com a comunidade os resultados da pesquisa realizada, para então, com seu auxílio, elaborar o design cognitivo do museu pretendido. • É contextual - Complementando a lógica da flexibilidade, entende-se que os
resultados da pesquisa presentes, em cada etapa, contribuem para informar e atualizar o desenvolvimento e implantação, como foi explicitado acima. Segundo Ramos, Giannella e Struchiner (2009), essa dinâmica possibilita descobertas que transcendem o contexto imediato da investigação, e que podem potencializar o encaminhamento de novos projetos e investigações. Após ter discutido sobre as características da DBR para este trabalho, é impor- tante tornar visível a proposta mais completa do projeto que está em processo de desenvolvimento:
Figura 1 - Mapa cognitivo com a ideia principal do projeto intitulado “Museu virtual do quilombo do Cabula: uma contribuição para a mobilização do turismo de base
comunitária no bairro
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Da proposta socializada no mapa cognitivo, o foco deste artigo é a cons- trução do contexto histórico da localidade do Cabula. Conforme foi visualizado, a pesquisa teve o embasamento de fontes variadas. Iniciou-se com o plane- jamento de um trabalho colaborativo dos participantes engajados no projeto, isto é, a coordenadora do projeto e professora da UNEB, a estudante douto- randa integrada ao Doutorado Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento (DMMDC), a estudante integrada a graduação da UNEB, as professoras e professor do CEEPBA e os estudantes também pertencentes ao CEEPBA.
De acordo com o planejamento inicial, ocorreu divisão de atividades, no qual o grupo de professores e alunos do CEEPBA realizariam um levantamento dos moradores mais antigos e experientes da localidade do Cabula e entorno. Para tal, foi necessário: um mapeamento das pessoas idosas e cuja residência no bairro era antiga, leitura e discussão de textos sobre o assunto, assim como diálogo com pesquisadores experientes, agendamento com moradores de importantes localidades históricas que integram a área do Cabula, como Pernambués e Engomadeira, respeitando a disponibilidade da equipe de fil- magem para registro dos depoimentos.
Um outro grupo de pesquisadores, coordenado pela aluna de graduação ficou responsável por realizar as entrevistas e transcrever os depoimentos, para uma posterior análise que veio a contribuir na compreensão do contexto histórico.
Vale ressaltar que alguns professores do CEEPBA passaram a integrar a equipe como voluntários, sendo atraídos pelo teor da pesquisa articulado ao TBC, temática que dialoga com os cursos ofertados por essa instituição de edu- cação profissionalizante.
Um terceiro grupo ficou responsável pela pesquisa documental e cartográ- fica, sendo coordenado pela estudante da pós-graduação. Essa investigação teve início com o levantamento de fontes bibliográficas e jornais. A primeira referência que a equipe de pesquisa teve acesso, foi um jornal do Beirú, de pro- dução comunitária, que apresentava resumidamente a história da localidade, mas disponibilizava um trecho de importante fonte documental da época do quilombo.
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Após isso, buscou-se outras referências bibliográficas. Muitas contribuíram para a construção do contexto mais geral referente a cidade do Salvador no início do século XIX. Raras foram as fontes bibliográficas que apresentavam uma problematização mais consistente, no campo da história social, e um detalha- mento sobre a localidade do Cabula no período indicado, de forma que possibi- litasse a construção do design cognitivo do museu, dentre essas, destacam-se as produções do historiador da escravidão e resistência negra João José Reis, que pautado na dimensão da história social apresenta efetivas contribuições sobre a história de resistência negra no Cabula, em variados momentos. Outras obras apontaram informações pontuais no bojo de outros contextos temáticos.
O importante foi que a necessidade da busca por detalhamentos sobre a vivência no quilombo do Cabula direcionou a pesquisa para uma investigação nos documentos do APEBA e em outros, no qual as fontes documentais pesqui- sadas foram de tipologias variadas: ordenações Filipinas, cartas expedidas ao rei de Portugal, cartas régias, cartas do governo a várias autoridades, correspon- dências recebidas de autoridades diversas, documentos do projeto resgate, alvarás, portarias, escrituras de compra e venda de terras e cartografia histórica.
A partir desse momento, as informações sobre a história desse quilombo foram emergindo, e ao tempo em que o grupo, em suas reuniões, construíam uma lógica histórica do quilombo, também sentiu-se a necessidade de melhor preparação, assim, empreendeu-se: palestras sobre o Projeto Turismo de Base Comunitária; realização da Rota da Horta com moradores de Pernambués e Saramandaia, organizado mediante princípios do TBC; visita técnica realizada na Comunidade Quilombola Kaonge com estudantes e professores do CEEPBA e da UNEB, para conhecimento sobre prática de Turismo Étnico-Racial; curso de História Oral, 4 horas; curso de História da Bahia, 40 horas e participação em grupos de pesquisas dedicados ao estudo sobre quilombo, escravidão e temas correlatos.
Durante todo processo de estudo, planejamento e construção histórica ocorreu a socialização dos resultados obtidos na pesquisa e diálogo com a comunidade, seja por meio dos eventos em que o grupo participou, ou nos eventos em que a equipe organizou e também nas publicações realizadas, como:
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artigo publicado na coletânea Turismo de Base Comunitária e Cooperativismo pela EDUNEB (Editora da UNEB); participação no III Encontro de Educação Profissional e Feira de Ciências e Tecnologias Sociais, no Centro de Convenções da Bahia (CCB) e construção de maquetes-modelo hospedagem comunitária para o Coletivo de Mulheres do Calafate e para Comunidade Kaonge por alunos da professora Flávia Souza do CEEPBA.
A trajetória de pesquisa histórica possibilitou a equipe ricos momentos de aprendizado, vivência e tornou possível os resultados que serão apresentados a seguir.