A história da localidade do Cabula foi marcada por movimentos de resis- tência negra durante os séculos de existência da escravidão. A área que repre- senta o miolo da cidade do Salvador pertenceu a freguesia de Santo Antônio Além do Carmo. Era nos períodos colonial e imperial a expressão da segregação socioespacial da capital soteropolitana.
A hipótese que se levanta é que a localidade, que representava uma área pouco habitada, foi inicialmente ocupada por índios tupinambás que foram adentrando os espaços de Salvador no momento em que os europeus domi- navam as localidades próximas ao mar, e também por negros.
A terminologia, Cabula, sugere que os primeiros povos africanos a se estabe- lecerem no local foram de origem banto, e de acordo com estudos etnográficos e de etnômios, esses povos africanos vindos principalmente do Congo e Angola foram os primeiros cativos africanos adotados como mão de obra na Bahia. As terras do Cabula, em um viés burocrático e oficial foram doadas juntamente
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com outras da capital, ainda no início da colonização, pelo governador geral Tomé de Souza ao seu primo e protetor D. Antonio de Atayde – I Conde de Castanheira, como retribuição a ajuda prestada pela sua indicação ao cargo de governador geral do Brasil. Posteriormente as terras foram herdadas pelos seus descen- dentes, e passou a pertencer a D. Eugênia Maria Josefa Xavier Telles Castro da Gama Ataíde Noronha Silveira e Souza, a VII marquesa de Niza (VASCONCELOS, 2002), que também herda terras em Itaparica e ilhas do entorno, Rio Vermelho, Arembepe, Capoame, dentre outras localidades. (TEXEIRA, 1978)
Não há relatos sobre a efetiva ocupação e utilização do solo pelos membros dessa nobre família, do contrário, foi uma herança administrada a distância por meio de representantes e procuradores (TEXEIRA, 1978), o que potencializou a ocupação de negros na condição de libertos. Em 1839, a marquesa de Nisa vende as terras do Cabula para um importante e rico latifundiário urbano o Sr. Tomás da Silva Paranhos. Sob sua posse, e posteriormente dos seus herdeiros, as terras do Cabula foram sendo paulatinamente fragmentadas em lotes, e ven- didas a outros roceiros, que passam a produzir as famosas laranjas de umbigo. A área era propícia para atrair os grupos sociais oprimidos, primeiro porque localizava-se a pouco mais que cinco quilômetros do primeiro núcleo urbano de Salvador, e mais ou menos com a mesma distância da Baía de Todos os Santos. Segundo, porque os portugueses consideravam como uma localidade inós- pita, com muitas colinas e morros elevados, originalmente com mata atlântica fechada, rios e pântanos.
Nos relatos do cronista Luís do Santos Vilhena, no final do século XVIII a localidade é referenciada com ponto de passagem, um ponto estratégico, mais especificamente estrada, no qual este elucida que são difíceis de transitar, pois eram estreitas, seguindo como gargantas sem desvios, cercadas por mata densa e silvestre, com trechos de grandes desfiladeiros. (VILHENA, 1969) Para este observador, essas estradas poderiam representar locais propícios a emboscadas e ataques.
Diante do momento tenso no qual os movimentos de resistência negra estavam se tornando frequentes, o entorno dessas estradas poderia possibilitar a formação de moradas ocultas de escravizados fugidos. No caso específico da
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estrada do Cabula, os traçados já aparecem no cartograma produzido por Carlos Weyll, publicado na Alemanha em 1851, mas que pode ter sido levantado entre 1845 a 1846. (VASCONCELOS, 2002) Nessa representação, bem como nos documentos históricos, há informação de que era a camada mais pobre e priori- tariamente de negros libertos, que viviam como pequenos agricultores de sub- sistência que ocupavam a localidade, com suas habitações humildes, isto é, resi- dências térreas, construídas com estacas preenchidas de barro e cobertas com telhados de palhas de palmeiras. (COSTA, 1989) São esses modelos de moradias, também representados nos desenhos de Rugendas (1979), que serão conside- rados na modelagem para o desenvolvimento do museu virtual do quilombo do Cabula, que teve como espaço demarcado pelas autoridades da época os sítios do Saboeiro, Barreiras e Buraco (atual entrada do Beirú/Tancredo Neves).
Pautando-se no contexto apresentado, pode-se destacar alguns ambientes, conteúdos, objetos, personagens e edificações que serão modelados para integrar o museu virtual, principalmente no trajeto que vincula a parte mais urbanizada da freguesia de Santo Antônio Além do Carmo ao segundo distrito, trecho rura- lizado. Assim, destacam-se:
• Mapeamento - Cartograma:
· Mapa de Salvador no início do século XIX;
· Mapas da freguesia de Santo Antônio Além do Carmo; · Mapa das estradas e localidade do Cabula.
• Edificações:
· Convento da Soledade, ocupado pelas religiosas Ursolinas, no Queimado - 3D;
· Casas que ficam nos arredores do convento e que ainda conservam arquitetura do período, em uma vista aérea (ZOOM);
· Pequenas e esparsas roças ao longo da estrada que liga Soledade a Cruz do Cosme (atual Largo do Tamarineiro) em uma perspectiva aérea;
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· Cabanas humildes nas roças, cuja construção referem-se a residências térreas, construídas com estacas preenchidas de barro e cobertas com telhados de palhas de palmeiras;
· Pequenas e esparsas roças ao longo da estrada que liga a Cruz do Cosme a Rua da Vala, em uma perspectiva aérea;
· 02 jumentos pelos caminhos em uma perspectiva aérea. • Vias/caminhos: (Perspectiva aérea)
· Estrada que liga Soledade a Cruz do Cosme - Essa estrada é atualmente a localidade da Caixa D’Água; (Imagem 3)
· Estrada que liga a Cruz do Cosme a Rua da Vala (Barros Reis). Essa estrada é atualmente a localidade do Pau Miúdo;
· Estrada que liga a Rua da Vala ao Largo do Cabula (por meio da Antiga Ladeira do Cabula), cortando o Rio Camarojipe;
· Rio Camarojipe;
· Entroncamento na Rua da Vala e subida da Ladeira do Cabula, sem residências.
· Antiga estrada do Cabula até o ponto do quilombo. Nesta deve-se adotar as seguintes características: estreitas, seguindo como gargantas sem desvios, cercadas por mata densa e silvestre, com trechos de grandes desfiladeiros.
• Personagens do contexto a modelar:
· 01 representantes de escravos de ganho atuando na parte urbana desta freguesia;
· 02 sujeitos simulando funcionário público na parte urbana desta freguesia; · 01 negro crioulo andando na estrada com perfil de camponês;
· 02 negros trabalhando em roças no Cabula, com perfil de camponês.