Na linha desses prescritos, a prevalência de indivíduos adultos na escalada do ES é um dado que pode balizar a relação dessa fase da vida com a possibilidade de independência financeira e a culminância da disponibilização de recursos financeiros próprios para o lazer e para a demanda de aquisição de equipamentos, que oportunizam a prática das modalidades escolhidas, o consumo de viagens, artigos específicos para montanhismo, entre outros.
Contudo, Tahara (2006, p. 121), ao descrever os elementos impeditivos da aderência à prática das atividades de aventura cita exatamente o preço dos equipamentos, de viagens
40 e a falta de infra estrutura básica de alguns locais. Para o autor, “[...] alguns antes mesmo de iniciarem a prática, compram todos os apetrechos necessários, procuram estar sempre informados, entretanto na hora da prática da atividade propriamente dita, acabam desistindo”.
Apesar de considerar os fatores acima como possíveis limitadores à prática, ao observar os dados relacionados a esta pesquisa, outras questões aparecem vinculadas como impedimento à prática da escalada; o tempo disponível para estar nas vias é uma delas. Foi possível observar que a aquisição de equipamentos não é essencial para se iniciar a atividade, mas que dispor de tempo para frequentar os locais de escalada é imprescindível aqueles que desejam aperfeiçoar a prática e vincular-se aos grupos. Adiantando alguns passos, com o objetivo de fortalecer os argumentos, podemos citar as informações contidas na questão 16, referente aos fatores limitantes à prática, onde somente 6.54% dos respondentes apontam o custo das atividades como obstáculo. Os itens 8 e 9 do questionário indagam se os respondentes adquiriram equipamentos necessários a prática e se acessam revistas, livros e/ou assistem a filmes ou reportagens sobre montanhismo, respectivamente. Sendo que 6.10% dos indivíduos apontaram que não adquiriram equipamentos para sua prática, enquanto a maioria de 93.90% afirmou que tem o material próprio para realizar suas atividades.
Na questão seguinte, 10.98% afirmam não acessar revistas e outros itens de informação sobre o montanhismo, enquanto 89.02% responderam que acessam revistas, livros, assistem a filmes, entre outros veículos de informação sobre montanhismo. É possível afirmar que uma parcela significativa dos respondentes investe seus recursos financeiros para a compra de equipamentos e artigos necessários ou relacionados à prática de sua modalidade apesar de afirmarem que as primeiras incursões podem ser feitas sem investimento inicial em equipamentos, como é possível verificar:
[...] eu tava no 3º ano e um amigo me chamou, ele tinha um amigo que era escalador. Subi, escalei, fui mal, mas adorei. Trabalhei comprei minha sapatilha e dai um tempo comecei a escalar mais e o DuNada me adotou la na Ilha.
Durante as incursões, foi possível ter acesso a relatos de que é comum aos iniciantes em escalada utilizar equipamentos emprestados de outros escaladores para suas primeiras
41 vivências. Ao passo que aderem à prática, adquirem os seus próprios equipamentos. Isto ficou constatado quando iniciei as incursões e foram emprestados a mim, na Pedra da Ilha do Boi, os equipamentos necessários para que escalasse a via das damas.33
A partir dessas visualizações, é possível concluir que após a fase de iniciação e com a intencionalidade de continuar a escalar, os indivíduos tendem a adquirir os próprios equipamentos e aumentam seu consumo em materiais vinculados ao montanhismo. Para Souza et al. (2011, p. 344), “[...] o gosto pode se exprimir de duas formas complementares, ou seja, contemplando as exigências impostas pela necessidade dos agentes e grupos, ou então, como estratégia cuja expectativa é suprir um estilo de vida distintivo e condizente com as posições ocupadas”.
Em análise, possuir estes equipamentos de escalada pode demonstrar o pertencimento ao grupo, bem como a promoção da autonomia dos atores para propor outras formações de grupos. Sobre isto Souza et al. (2011, p. 342) utiliza os ideários de Bourdieu (1998, p.108) a respeito das representações para explicar as lutas pelas classificações de novos grupos ou subgrupos, isto é, “[...] lutas pelo monopólio do poder de fazer ver e fazer crer, de fazer conhecer e de fazer reconhecer, de impor uma definição legítima das divisões do mundo social e, por essa via, de fazer e desfazer os grupos.” Outra informação relacionada à prática e ao consumo dos montanhistas refere-se à periodicidade de viagens e incursões realizadas pelos mesmos. Para o ideário que envolve o ato de viajar, utilizarei a construção de Almeida et al. (2007), que argumenta que
[...] viagem tem no estrangeiro o seu personagem típico, pois o mesmo está vinculado à ideia de deslocamento espacial e ao ímpeto de ir que o colocou em trânsito. A noção de viagem sempre esteve relacionada de alguma forma ao chamado mundo natural - às paisagens exuberantes - e as culturas exóticas, pois ambos atraem os citadinos, impelindo-os a procura de novos lugares, estimulando o seu deslocamento para além do ambiente urbano, como uma forma de experienciar formas de lazer no qual é possível vivenciar o contato com as paisagens e as culturas que nelas vivem e as produzem.
Os dados abaixo apresentam uma revogação da hipótese de que os montanhistas viajariam com certa regularidade com o objetivo de acessar campos de prática distantes de suas residências. Analisemos o gráfico:
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A Pedra da Ilha do Boi é dividida nas seguintes vias de escalada: das damas, dos machos, dos gays e do xixi.
42 GRÁFICO 10 – COM QUE FREQUÊNCIA VIAJA PARA FAZER