5. Matériaux/dispositifs de remplacement
5.1 Matériaux proposés
Durante as pesquisas, foi possível observar como o cotidiano nos campos naturais da Ilha de Marajó vem reordenando-se. As grandes fazendas foram partilhadas por herdeiros, transformando-se em pequenas propriedades, e em alguns casos comercializadas para pessoas de fora ou adquiridas por trabalhadores. Outras pequenas propriedades surgiram como resultado da política pública de demarcação de terras da União, ou seja, por regularização fundiária para famílias que moravam há muitos anos, como para aquelas que vivem às margens dos rios, ocorrendo, com isso, o usufruto da população local; o reconhecimento das terras de remanescente de quilombos também é um fenômeno recente.
Essa situação gera um sentimento de pertencimento ao local na medida em que essas terras se tornam sua eram propriedade. O fato de se tornarem proprietário, seja de modo individual ou coletivo, seja de usufruto, leva essas pessoas a agirem com outro sentido, isto é, a documentação gera novas oportunidades, como a de acessar programas do governo e, portanto, se envolver em ações de políticas públicas.
Percebia que as dinâmicas de vida dos agentes sociais, nesses momentos, experimentavam novidades a partir de trocas econômicas e simbólicas, agenciando cotidianamente pessoas e na natureza dos Campos do Marajó, como mostro no item seguinte a partir de alguns agentes sociais que figuraram nesse cenário.
II.4.1 O campo não está totalmente modificado
Observei que o cotidiano descrito no item anterior vem se alterando, porém há práticas que têm se mantido na vida das pessoas que moram nos campos. Apresento uma narrativa de acontecimento recente e que é recorrente junto aos grupos locais, como o rapto de mulheres para o casamento. Essa prática tem garantido muitos casamentos. Assim, embora muitos casais tenham abdicado do rapto, este ainda se repete e, mesmo assim, é um motivo de aborrecimento para os pais da moça. Alguns deixam de abençoar a filha; não perdoam o genro e ficam sem se falar por muitos anos. Há casos em que só voltam a se comunicar quando aparecem os netos.
A experiência é algo de comum acordo entre os “noivos” e não uma imposição de uma pessoa a outra158. Esse tipo de situação159 fiquei conhecendo a partir de uma conversa que tratava de um acontecimento de casamento por rapto. As pessoas teciam sua opinião sobre o caso, mostrando-se insatisfeitas pelo fato de o homem, autor dessa proeza, já ter se envolvido, antes desse casamento, com outras duas mulheres, deixando uma delas com filhos.
O fato era mais grave agora, diziam, porque entre os quatros filhos do casal, essa menina-moça era a única filha e tinha apenas quinze anos de idade. As pessoas detalhavam o grau de aborrecimento a que o pai chegou e o estado de sofrimento dele. Mas esse fato também me foi relatado pelo pai da moça. Segundo ele, a filha havia sido criada pelos avôs, pois o casal tem mais três filhos. Ele deixou que os avôs a criassem porque haviam se apegado muito a ela desde que era bebê.
No período do rapto, a moça está em sua casa porque eram férias escolares. Assim, o rapto ocorreu em uma tarde. A filha, muito ardilosa, segundo seu pai, convenceu a mãe para que um de seus irmãos fosse buscar o boi (búfalo) para fazer o transporte de frutas para alimentar outros animais (porcos, galinhas, patos, e outros). Com a saída do irmão, ela, que já havia arrumado suas roupas e deixado em um lugar que facilitasse a fuga, disse à mãe que iria pegar umas laranjas, e assim conseguiu distrair a mãe. Quando o filho chegou com o animal para o transporte das frutas, sua mãe a procurou para ajudar o irmão na coleta dos frutos. Foi quando percebeu que a filha já não estava mais na casa.
O pai, ao inquirir a esposa sobre a filha, confirmou que esta tinha fugido e que a sua mulher sabia do relacionamento da filha com o rapaz que a raptou, embora não tivesse comentado o fato com ele. Então ele falou: “o pai sempre é o último a saber as coisas”, e chorou muito, mas não podia fazer mais nada, apesar de a filha ter apenas 15 anos de idade.
Esse tipo de história ainda é muito frequente. Assim, apesar de saber que as filhas fogem com seus namorados e até mesmo que muitos dos casais são formados dessa maneira, existe sempre um impacto para os pais, a não aceitação (“ritualizada”).
158
Poderia contar várias histórias particulares de casais que se constituíram a partir desse fenômeno, mas vou me ater a uma história, contada para mim pelo pai da noiva durante a pesquisa de campo. Nessa história, há um dado novo que é a bolsa-família recebida pelos pais da mulher raptada.
159 Esse tipo de situação foi me passado logo quando cheguei à cidade de Muaná para fazer visita em uma
área de fazenda, quando procurei contatar pessoas para visitar, a fim de conhecer melhor o cotidiano das fazendas de gado.
Depois, tudo se normaliza. Esse é o caso dos pais do rapaz que raptou a moça; a união do casal foi realizada a partir de um rapto.
O pai adiantou-me que logo procurou a filha e o genro, não para abençoá-la – ainda estava muito magoado –, mas porque a família estava inscrita no programa bolsa- família e como ainda estudava não podia se afastar da escola para não perderem o benefício. Assim, ele logo fez a transferência da filha para uma escola próxima de onde ia viver com o raptor, a fim de mantê-la matriculada para não perder a bolsa.
Nessa narrativa, a honra do pai era algo que se sustentava no respeito e na consideração entre as pessoas. Assim, evitar o contato com a filha e com o genro fazia parte do código daquele pai que havia sido desonrado. Permanecer sem se comunicar, torna-se assim uma atitude para compensar essa desonra não é menos importante diante da perda que poderia ocorrer. Mas o fato de a moça estar inserida no programa bolsa família levou à aproximação imediata deste pai com sua filha, reatando as relações e se comprometendo com o destino dela, transferindo-a para a escola próxima, a fim de que continuasse na escola.
Então o sentido universal de alteridade, mais racional, começa a se sobrepor ao particular, mesmo que este particular esteja impregnado pela necessidade de continuar com o beneficio da bolsa. O valor da honra é superado pela racionalidade. Vejo aqui uma permanência, no entanto impregnada de mudança na relação.