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et "Marnes dolomitiques"

4.2.5 Les Marno-calcaires

O primeiro ponto de crítica de Searle à ideia de que explicações sobre a mente podem ser (ao menos parcialmente) computacionais é uma estranheza em relação à tese da realizabilidade múltipla do mental. Ele nos apresenta o que parece ser uma consequência indesejável desta tese:

…nessa concepção, você pode construir um ‘cérebro’ que funcione exatemente como o seu ou o meu a partir de gatos e ratos e queijo, ou alavancas, ou canos de água, ou pombos, ou qualquer outra coisa… Você simplesmente precisaria de uma quantidade incrível de gatos, ou pombos, ou canos de água, ou o que quer que fosse. (SEARLE, 2006, p. 295).

A consequência indesejável surge quando a realizabilidade múltipla não é definida em termos de produção de efeitos causais, mas de atribuição computacional. Por exemplo, assim como para computadores, a realizabilidade múltipla é válida para termostatos. Se definimos um termostato como um instrumento para medir a temperatura, então há um enorme conjunto de coisas capazes de cumprir esta função (ou seja, de produzir os mesmos efeitos causais); todas elas serão termostatos. A função também parece restringir este conjunto, pois nem tudo pode cumprir o papel causal de medir temperatura. Por outro lado, para computadores basta que algo seja capaz de cumprir as operações básicas de uma máquina de Turing para que seja considerada um computador. A atribuição é, segundo Searle, feita em termos meramente sintáticos.

Já aqui, como em outras passagens, nos parece que Searle simplifica questões complexas. Reavaliemos os exemplos anteriores. Primeiramente: “medir a temperatura” é um efeito físico? Temperatura é o grau de agitação das moléculas de um sistema. Atribuímos um número em uma escala (Celsius, Fahrenheit ou Kelvin) que corresponde a um determinado grau de agitação. A agitação das moléculas, propriamente falando, é física, mas sua divisão 56 Apesar de, naturalmente, contribuir para esta conclusão na medida em que, se não mais estamos obrigados a ver a mente como um software, também não mais estamos obrigados a ver no cérebro o hardware que o implementa. Isto, entretanto, parece implausível na medida em que, uma vez que sempre podemos interpretar qualquer órgão do corpo humano como que realizando computações, o cérebro não seria exceção a isso (ainda que possamos dizer, seguindo Chalmers (2011), que implementar computações é diferente de ser um computador). Os motivos para essa possibilidade de interpretação ficarão mais claros adiante (seção 4.5, p. 76-80).

em graus (maiores ou menores) ou mesmo a atribuição de um número a certo grau de agitação não o são; são atribuições dependentes de um ser humano, que não só mede como interpreta estes dados (o motivo para estas considerações ficará mais claro adiante). Por outro lado, considerar algo um computador não é uma atribuição totalmente desvencilhada de exigências físicas. Minimamente, um computador é, como o próprio Searle reconhece, algo capaz de realizar as operações de uma máquina de Turing: mover uma fita para a esquerda ou para a direita, escrever e apagar símbolos na fita, etc. (2006, p. 293). Ora, estes são requisitos físicos! Sua extrema simplicidade, porém, parece fazer Searle ignorar isto.

As dificuldades no tratamento de Searle destas questões parecem surgir dos tipos de requisitos que ele procura na Teoria Computacional da Mente – ou no Cognitivismo, como ele nomeia a tese de que o cérebro é um computador digital (idem, p. 288). Ele diz:

Queríamos saber se não havia algum sentido no qual os cérebros fossem

intrinsecamente computadores digitais, de certa forma como as folhas verdes

intrinsecamente realizam fotossíntese, ou os corações intrinsecamente bombeiam sangue. Não é uma questão de arbitrariamente ou ‘convencionalmente’ atribuirmos a palavra ‘bomba’ a corações ou ‘fotossíntese’ a folhas. Há uma ocorrência efetiva do fato. (SEARLE, 2006, p. 297; grifos do autor)

Concordamos com Searle: é possível que, intrinsecamente, o cérebro não seja um computador. Mas Teorias Computacionais da Mente (ao menos a Teoria Representacional da Mente) nunca pretenderam que ele “intrinsecamente” o fosse. A Hipótese da Linguagem do Pensamento é atribuída à mente única e exclusivamente com base em um argumento para a melhor explicação: há propriedades compartilhadas entre a mente e a linguagem que não são explicadas por teorias melhores. Claro, pode-se sempre jogar a teoria pela janela e escolher ficar com explicação nenhuma se se está tão preocupado com o verdadeiro caráter intrínseco do funcionamento do cérebro.

De qualquer forma, Searle defende a ideia de que a tese da realizabilidade múltipla desemboca numa tese da realizabilidade universal, da qual surgem os problemas apresentados. Ele sustenta esta passagem numa noção de computação de aceitação aparentemente ampla, expressa em duas ideias: a de que cada objeto possui uma descrição sob a qual ele é um computador e a de que a cada programa corresponde um objeto suficientemente complexo tal que ele o implementa sob alguma descrição (SEARLE, 2006, p. 297-298). Curiosamente, ele menciona a possibilidade que acreditamos ser uma possível

resposta a este problema, a saber, impor restrições à noção de computação, mas apenas para logo deixá-la de lado porque “…o problema realmente profundo é que a sintaxe é essencialmente uma noção relativa ao observador.” (SEARLE, 2006, p. 299). Perceba que somar esta definição de computação com a tese da realizabilidade universal torna toda atribuição computacional trivial.

O problema aqui nos parece muito claro: Searle supõe haver uma definição canônica ou padrão de computação (e, mais que isso, que ela pode ser encontrada em livros- texto de computação), quando, na verdade, não há. Encontrar tal definição tem sido um problema filosófico que se arrasta já há alguns anos; portanto, não só é suspeito aceitar tão prontamente definições de computação de livros científicos como também o é tomar a questão como resolvida sem nem mesmo considerá-la, ainda mais estando ciente de autores que, à sua época, já o faziam.

Acreditamos que nem tudo das críticas de Searle até aqui deve ser rejeitado ou descartado, mas que o problema está mal colocado. Colocada de outra maneira, a tese da múltipla realizabilidade parece ser um sério problema para teorias computacionais da mente, mais do que Searle talvez faça parecer. Se queremos defender que a mente humana é uma espécie privilegiada de computador por operar computações de tipo semântico (processar informação semântica), ou seja, que deve interpretar os símbolos com os quais opera para poder operar computações, então muito do que nos permitia caracterizá-la como um computador se perde. Seria jogar fora a principal vantagem teórica das Teorias Computacionais da Mente: a ideia de que ela não está atrelada a estruturas físicas particulares. Porém, estamos longe de saber por que tal concepção seria defensável, isto é, por que devemos pensar que a mente é um tipo privilegiado de computador. Se não temos uma defesa adequada para esta afirmação, então bem podemos afirmar que é a caracterização computacional da mente que está errada de saída. E podemos defender, sem prejuízo para esta concepção, que o acesso aos itens processados, apesar de ser essencial à mente humana, não é essencial para a caracterização de suas operações, isto é, de suas computações57.