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Dans le document Equity and Quality in Education (Page 74-82)

impressão a frio off set14, assim como de outro sistema de composição, aquisição de aparelho de telex e radiofoto, dinamização da distribuição e reforma gráfica, o jornal começou a viver a fase considerada “áurea” por todos os depoentes, como veremos ao longo do trabalho. A chegada das máquinas que permitiram maior flexibilidade e recursos de composição das páginas, e a contratação de jornalistas profissionais, teriam ocorrido “por acaso”, conforme o depoimento abaixo:

Eles estavam pretendo fazer mudanças, porque estava se modernizando tudo no pais... Mas o processo estava arrastado, aí vem o Jornal de Santa Catarina e eles levam susto. Daí vão atrás e tem aquele golpe de sorte com as máquinas15, e fazem de uma hora para outra. Outro golpe de sorte foi que a equipe que estava tocando o Santa em Blumenau se desentende e vem embora. Então eles têm a máquina que precisam já no porto e a equipe

13 Máquina que funciona por meio de rotação de formas cilíndricas, em torno

das quais o papel enrolado em bobinas se desenrola e recebe a impressão.

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O sistema off set refere-se off set litography (litografia fora-do-lugar), para designar a impressão indireta, em que a tinta passa por um cilindro intermediário, antes de atingir a superfície. Na litografia, ao contrário, a impressão era direta, com o papel tendo contato direto com a matriz. A off set garante boa qualidade para médias e grandes tiragens, além de imprimir em praticamente todos os tipos de papéis.

15Um grupo de empresários do Paraná havia comprado os equipamentos para

instalar jornal naquele estado e desistiu do projeto, permitindo a O ESTADO tê- los prontamente, diferentemente do longo processo que seria ter que ainda iniciar a importação das máquinas.

que eles necessitam caindo fora de um jornal. Nem precisaram fazer força, veio tudo para O ESTADO para fazer o jornal em off set. (VALENTE, depoimento, 2011).

Observa-se pela declaração que a modernização do jornal, depois continuamente destacada, foi resultado do acaso, distante de qualquer planejamento empresarial. Mas constituiu-se num marco que permitiu ao jornal firmar-se como periódico mais importante do período em Santa Catarina. Os anos 1970 e 1980 de fato marcaram o auge do jornal, pela diagramação e formato adaptados ao que se fazia em todo o país e pelas reportagens produzidas na redação. Além de jornalistas formados vindos do Rio Grande do Sul, o jornal contratou em 1971 o colunista Beto Stodieck, que seria um dos ícones do periódico nos anos considerados “áureos”. Pela importância do jornalista para o jornal e para a cidade, e por ser citado também em outras partes desta tese, resumimos a trajetória do colunista no quadro a seguir.

Quadro 3. Biografia resumida do colunista Beto Stodieck.

Irreverente e controverso, Sérgio Roberto Leite Stodieck (Beto), de família tradicional da capital catarinense, filho do historiador Henrique Stodieck e de Maria da Graça Leite Stodieck, começou sua atividade como colunista em julho de 1971 no jornal O ESTADO, aos 25 anos. Formara-se em Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro e tivera sólida formação intelectual e cultural. Fez parte da geração jovem da cidade de Florianópolis nos anos 1970: “...Beto Stodieck, que mais do que um cronista porta-voz da juventude classe média ilhoa, era também um dos principais personagens da vida noturna de Florianópolis entre as décadas de 1970 e 1980” (COSTA, 2004, p.134). Da mesma geração de jovens faziam parte ou eram próximos em idade, Sérgio da Costa Ramos, Cacau Menezes, Laudelino Sardá, ou seja, muitos daqueles que nos anos 2000 o evocam como símbolo de um tempo, ou que lamentam a não existência de uma identidade própria para Florianópolis.

Stodieck era quem mais divulgava eventos juvenis e também organizou espaços culturais, como uma galeria de arte. Enquanto colunista realizou seu trabalho alternadamente entre os jornais O ESTADO e Jornal de Santa Catarina, em períodos intercalados em cada um deles, em quase 20 anos de atuação. Ao surgir, em 1971, no jornal O ESTADO Beto

Stodieck em letras garrafais ocupava de alto a baixo a parte esquerda da página 2, em duas colunas de notas. Desde o início, além de divulgar e comentar eventos artísticos e culturais, notícias sobre pessoas conhecidas e trivialidades diversas, Beto falava de problemas da cidade, especialmente os relacionados ao crescimento desordenado e à descaracterização arquitetônica: “A Beira Mar está naquele quase-não- quase pronta há algum tempo. De certa forma bonita e, talvez, um pouco provinciana.[...] as construções estão surgindo loucamente, sem um mínimo de estética...” (O ESTADO, 14.07.1971). ). Tratou muitas vezes também da controversa relação entre os antigos moradores da cidade, os “manezinhos16

”, e os novos moradores que chegavam, considerados “de fora”.

O primeiro período no jornal O ESTADO durou pouco, transferindo-se já em 1973 para o Jornal de Santa Catarina, sediado em Blumenau, um periódico recém criado mas de grande impacto na imprensa catarinense de então. Com editorias17 bem definidas, o colunista teve espaço no caderno Variedades, à página 17, mas com tamanho idêntico ao jornal anterior, embora seu nome aparecesse de forma menos ostensiva. Em 1980 Stodieck retorna ao O ESTADO e divide a página 14 com outro

16 Termo popular que define o nascido em Florianópolis, especialmente o nativo

do interior da Ilha de Santa Catarina. Considerado pejorativo por muitos anos, passou a ter significado valorizado depois que o carnavalesco Aldírio Simões (1942-2005) criou,em 1987, o troféu Manezinho da Ilha outorgado no Dia Municipal do Manezinho (31 de maio) a pessoas que contribuem para a preservação e valorização da cultura e do modo de vida da cidade, e de Gustavo Kuerten, campeão mundial de tênis se definir como “manezinho”. Fantin (1999) em capítulo de sua tese fala da ressignificação do termo a partir do sucesso de Guga, e da disputa do termo durante as eleições municipais de 1996. A autora observa que na ocasião, o uso político da figura do manezinho que prevaleceu e deu o tom foi conservador. (p. 238) Fantin conclui que “a figura do manezinho é ambígua, pode ser manipulada, pode variar de significado conforme o contexto é, simultaneamente, representante do atraso e do progresso. Tanto serve à direita como à esquerda. É símbolo do antigo. É a modernidade do arcaico. É também a utopia dos alternativos que querem manter o ´jeito manezinho de ser`. É, enfim, um emblema que pode ser lido de várias formas e, dependendo do foco, vai produzir distintos olhares sobre a cidade e sua dinâmica cultural.” (FANTIN 1999 p. 239)

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São as páginas definidas por áreas temáticas que abrangem os assuntos noticiados pelo jornal. Ex: editoria de esportes, de política, de polícia, etc.

colunista, Zury Machado. Produz neste período alguns textos maiores, como O negócio é atravessar a rua, uma crônica do cotidiano em que ironiza o desprezo de comerciantes a pessoas trajadas de modo simples, e que por isso deixariam de realizar vendas importantes. Observa-se no texto, a cadência das palavras, o trocadilho, e a inserção do nome da loja como quem não quer nada, a fina ironia quanto à preocupação com as aparências de uma camada economicamente superior da cidade (ou assim autoavaliada), um tema outras vezes trazido à coluna.

Volta ao Jornal de Santa Catarina em setembro de 1983 e ocupa posição privilegiada na última página, geralmente a 20, com seu nome em destaque à esquerda. Seus textos são expressões subjetivas e pessoais, e nem sempre em conformidade com o discurso majoritariamente aceito. O próprio Stodieck tentava definir seu estilo, dizendo ser um colunista “social/lógico”, e mostrar as diferenças da sua coluna em relação ao que se conhecia por colunismo social. Procurava apresentar-se como profissional ético e dar um significado social ao seu ofício. No penúltimo ano de sua coluna, ele reafirma na nota É verdade: “Não existe mal maior à imprensa do que o jornalista que bajula o poder. Denigre a profissão, empobrece a classe.” (O E, 11 de agosto de 1989) Nesse período, no jornal O ESTADO, ao qual retornara no ano anterior, Beto ocupa à página 15 a metade superior, com seu nome pequeno à esquerda, em diagramação organizada e muitas fotos. Vários anúncios publicitários e histórias em quadrinho completam a página onde está a coluna, que seria publicada até julho de 1990, um mês antes de sua morte, em 6 de agosto do mesmo ano.

Fonte: Dados compilados pela autora a partir da verificação dos jornais citados e de PORTO: LAGO (1999).

No aspecto gráfico de O ESTADO, o modelo imitado era o do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, que passara por reformulação gráfica e editorial alguns anos antes18, e teria “inaugurado o moderno jornalismo brasileiro, sobretudo a partir da definição de critérios identitários em torno da questão da profissionalização.”(MATHEUS & BARBOSA, 2008, p. 114). A partir dessa transição para um novo jornalismo, O ESTADO começou a ser visto então como um impresso digno de

18Em junho de 1959, o jornalista Janio de Freitas tirou os fios das páginas [uma

linha que separava as colunas de textos]e aumentou fotografias no Jornal do

credibilidade, numa perspectiva do ideal e busca da neutralidade/imparcialidade jornalística, como se observa em depoimentos:

com a transformação de O ESTADO se criou aquela estrutura de redação, que não existia, o jornal na verdade era um instrumento político até ali. Com a transformação ele passou a ser olhado pelos próprios donos com uma visão mais profissional, tratando mesmo do jornalismo. E aí se criou aquela estrutura de redação, com editoriais, com editor chefe, com secretario de redação, editorias, aquelas coisas normais numa redação de jornal. [...] Até ali, as pessoas estavam acostumadas com uma coisa menos profissional, mais na base da amizade, do oba oba. (MEDAGLIA, depoimento, 2012).

O depoimento confirma como a mudança no enfoque do jornal causou impacto no público leitor e no círculo de correligionários do PSD, mesmo que não tenha deixado de ser também um instrumento político. As mudanças internas exigiam também a readequação do espaço físico da redação e demais setores do impresso. A sede definitiva, em área de 1.500 m2 concluída em 1976 e construída especialmente para as necessidades de espaço físico do jornal, ocupou as margens da SC-401, no bairro Monte Verde. “Quando fomos lá para SC 401, eu fiz o prédio, fiz com meu dinheiro, tirava de outro lugar para fazer lá. Teve pressão, enfrentei, mas conseguimos fazer. O prédio era meu, não era da empresa, também não era de amigo meu19.” (COMELLI, depoimento, 2011). Mas a forma da construção, vista do alto, lembra uma cruz, e somado ao fato de estar situado em frente ao cemitério, permitiu comentários de que não havia sido uma boa solução20.

19A justificativa final faz alusão às especulações ocorridas durante o processo

de falência do jornal, de que teria retirado de seu nome parte do patrimônio para não pagar dívidas.

20Dirigentes contestam a simbologia da interpretação: “Não tem nada a ver, a

cruz é um projeto arquitetônico, feito pelo arquiteto Moises Lyz de acordo com as necessidades de fluxo ao jornal. Aqui era a redação, ao lado a administração,

O período de consolidação, iniciado a partir da instalação em prédio próprio, permitiu tornar-se um jornal considerado de referência, daquele tipo destinado ao leitor interessado no mundo público, e que tinha credibilidade e prestígio junto aos formadores de opinião. Nesse período “áureo” sua circulação ficava entre 20 e 30 mil exemplares diários21

, embora os números da tiragem nunca tenham sido citados no expediente. “No auge, de 1973 até 1987 teve em média 35 mil assinantes, e vendia naquele tempo ainda, muito jornal avulso. O ESTADO ele tinha, sabia mexer com a sensibilidade das pessoas, então ele vendia naquele tempo, em média 7 mil exemplares por dia.” (SCHLINDWEIN, depoimento, 2011).

Conforme dados do IBGE que mostram a evolução da população de Florianópolis, a cidade tinha em 1970, 138.337 habitantes, número que subiu para 255.390 em 1991. Ou seja, no período abrangido pelo depoimento, a cidade aumentava de 150 mil para mais de 200 mil moradores. No estado, a população cresceu de menos de três milhões para mais de quatro milhões de pessoas, ou seja, de 2.901.660 habitantes em 1970 para 4.541.994 moradores em 1991. (IBGE, Censo Demográfico 1950/2010). Considerando-se que o jornal abrangia todo o estado, o número de leitores, entre assinantes e compras avulsas, representa apenas 0,011% da população daquele período. Se considerada apenas a população de Florianópolis daqueles anos, a proporção aumenta para 0,17% dos moradores como possíveis leitores a área comercial e industrial. Tem aquele jardim no meio, para dar fluxo, era um corredor que ligava fácil para dar acesso à impressão, circulação, comercial. O projeto foi feito assim mesmo”. (SCHLINDWEIN, depoimento, 2011).

“Mas eu até brincava, porque ele é assim, uma cruz. Não foi proposital, mas depois eu dizia que isso aqui... o jornal pra você carregar, realmente é uma coisa de cruz...[...] Nossa preocupação era a parte interna. Por dentro tinha um jardim bonito, era bonito”. (COMELLI, depoimento, 2011).

21Estimativa de um ex-editor chefe do jornal dos anos 1980. Número próximo

ao citado por Pereira (1992), de que ao longo dos anos 1980 eram impressos 27 mil exemplares de terça a sábado, e 32 mil aos domingos. Numa pesquisa junto ao IVC – Instituto Verificador de Circulação fui informada de que não há dados referentes ao jornal O ESTADO, por não ter sido filiado a esta entidade nacional. Assim, não há como comprovar os números estimados pelos entrevistados.

do jornal. No entanto, como entre a população há também crianças e um exemplar atende muitas vezes a uma família inteira, essa proporção fica ainda mais insignificante. São números pouco alentadores, mas não muito diferentes do que ocorre em todo o país, que nunca teve um grande número de leitores e, onde, “em 2000, cada grupo de mil brasileiros comprava 44 exemplares de jornais” (NOBLAT, 2007, p. 16).

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