• Aucun résultat trouvé

IMPROVING LOW PERFORMING DISADVANTAGED SCHOOLS

Dans le document Equity and Quality in Education (Page 106-121)

Além dos investimentos em maquinário, naquele começo dos anos 1970 iniciou-se uma transformação no fazer jornalístico, e a atuação se dava na perspectiva de que jornalismo é um serviço público, que atende ao interesse público e atua como mediador entre a sociedade e os poderes constituídos. Buscava e passou a ter credibilidade e prestígio junto aos formadores de opinião. Tornou-se o período em que viveu “fase áurea, em termos de tiragem, circulação e prestígio em todo o estado, com importantes jornalistas e colaboradores [...] era uma escola de jornalismo.” (PEREIRA, 1992, p. 119). Essa afirmativa é reforçada por outro jornalista reconhecido na cidade:

Em SC, os anos 1970 e 1980 foram os tempos áureos do jornal O ESTADO, de Florianópolis. A redação, desde a velha sede da Felipe Schmidt, até o prédio moderno – projetado exclusivamente para o jornal – no Saco Grande – reunia nesta época um grupo dos melhores

25A população dessa região tinha, até ali, muito mais ligação com as capitais

dos estados vizinhos, tanto para buscar acesso às universidades, quanto para encontrar recursos especializados na área de saúde, por exemplo. O mesmo ocorria em relação aos jornais que circulavam ali: o Correio do Povo, de Porto Alegre, era lido em muitos municípios e possuía considerável número de assinantes.

jornalistas do Sul do país. Esse grupo viveu a repressão da ditadura militar e também disse sim à reconstrução democrática, às diretas já, à nova Constituição. (SARDÁ, 2007, p. 73) Acontecimentos políticos como a Novembrada, em 1979, e tragédias como a queda de um avião da Transbrasil, no distrito de Ratones, em 1980, tiveram ampla cobertura jornalística.

Quadro 4. Descrição do episódio Novembrada, ocorrido em 1979. A Novembrada é como ficou conhecido o episódio ocorrido durante visita a Florianópolis do último general a exercer a presidência da República no período militar (1964-1985). O General João Baptista Figueiredo, junto com autoridades locais como o então governador Jorge Konder Bornhausen, estavam no Palácio Cruz e Souza, sede do governo estadual à época, em frente à Praça XV de Novembro, também conhecida como Praça da Figueira. Apesar das faixas e balões festivos para o “João da conciliação”, mote criado pelo governo central para tentar popularizar a imagem do General Presidente, na mão de algumas pessoas, a maioria dos presentes ali aderiu ao protesto contra o regime militar. O general irritou-se com a manifestação (contra a ditadura e a carestia) e fez um gesto considerado obsceno, desencadeando mais revolta. O então presidente sentiu-se ofendido por supostas agressões verbais e desceu à rua para falar com as pessoas. Iniciou-se bate boca, correria e agressões à comitiva presidencial próximo ao Palácio Cruz e Souza e à rua Felipe Schmidt, no trajeto entre o Palácio e o Senadinho, ponto de café famoso à época e onde o Presidente receberia título de associado. Enquanto o Ministro das Minas e Energia, César Cals, levava um tapa no rosto de motorista de táxi revoltado com os constantes aumentos no preço da gasolina, Figueiredo tomou rapidamente seu café e retornou ao aeroporto, encerrando antecipadamente sua visita à cidade. Nos dias seguintes sete estudantes da UFSC (Adolfo Dias, Amilton Alexandre, Geraldo Barbosa, Ligia Giovanella, Marize Lippel, Newton Vasconcelos e Rosangela Koerich de Souza) foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Vários protestos mobilizaram moradores da cidade exigindo a libertação dos estudantes, o que ocorreu duas semanas depois. Mesmo assim houve julgamento militar em Curitiba, e os estudantes foram absolvidos por um voto de diferença (3x2), por falta de provas. O episódio se tornou conhecido por Novembrada por ter desencadeado uma sequência de manifestações populares iniciadas no dia 30 daquele mês, dia da visita. Fonte: Texto da autora baseado em notícias dos jornais da época.

Um dos jornalistas entrevistados para a pesquisa trabalhou no dia da visita do general e conta como acompanhou o processo de divulgação do assunto:

Eu fui escalado pra visita do Figueiredo pra fazer a coisa mais insignificante que era ficar na rua e ver o general passar em revista à tropa que se formava em honra dele. Todo o tumulto aconteceu na rua e eu escrevi na época eram laudas, escrevi acho umas 30 laudas, o que dá milhares de caracteres. [...] eu olhei assim, na cesta do lixo metade das laudas tava no cesto e o resto das laudas riscadas. Quer dizer, a história saiu, mas pela metade. [...] Foi uma história manca, contada pela metade, mas foi o registro possível. O Comelli justificou que tinha recebido ligações de generais, da policia federal e tal, eu até acho compreensível e ele reuniu aquele grupo pra tentar uma cara possível para o texto que estava ali. É, a pressão foi grande. [....] Mas eu reconstituí aquilo, eu e mais dois jornalistas, o Luiz Fernando, o Hilton, nós escrevemos uma história imediata. [...] Daí depois foi publicado no Afinal [jornal alternativo da cidade do início dos anos 1980, de curta existência], a história reconstituída e é referência até hoje. (CAMARGO, depoimento, 2011).

O depoimento extenso é importante por relatar detalhes dos bastidores daquele momento histórico para a política catarinense e nacional. E demonstra também as interveniências que ocorriam sobre os jornais no período militar, em que a censura se dava diretamente sobre as matérias a serem publicadas, muitas vezes impedindo ou recortando o texto final. O outro assunto de grande repercussão foi a queda do avião da Transbrasil que causou comoção na cidade por ser o primeiro desastre aéreo de grandes proporções em Florianópolis e de ter, entre os mortos, figuras populares na Ilha, como o médico Rômulo Coelho. No acidente ocorrido às 20h38min, de 12 de abril de 1980, quando o avião colidiu contra o Morro da Vírginia, no bairro Ratones, morreram 54 pessoas.

Três pessoas, uma mulher e dois homens, sobreviveram no voo que ia de São Paulo para Porto Alegre com escala prevista em Florianópolis.

Todo dia... o jornal é um produto que ele vive...todo dia ele é vivido, é refeito. Então tem momentos assim, por exemplo, momento jornalístico, a cobertura do desastre da Transbrasil. Uma cobertura realmente espetacular, eu não fui lá, mas tenho a impressão que fui dos primeiros a saber. Daí imediatamente telefonei, tinha esse espírito aguçado26. Aí fizeram realmente uma cobertura muito bem feita, que foi muito elogiada, ganhou até prêmios. (COMELLI, depoimento, 2011).

O depoimento demonstra que o proprietário se envolvia com as peculariedades da rotina jornalística e confirma a importância do jornal naqueles anos, quando recebeu prêmios de jornalismo, como o Esso de Informação Científica e Tecnológica por reportagem de Celso Vicenzi: “Esses ilustres (e quase desconhecidos) habitantes da ilha”. O partidarismo explícito começara a diminuir27 nas páginas noticiosas e nos editorias, com o processo de profissionalização. Apesar disso, há no jornalismo quem entenda que notícias e jornais sempre são um instrumento político:

Notícia é a informação transformada em mercadoria, com todos seus apelos estéticos, emocionais e sensacionais; para isso, a informação sofre um tratamento que a adapta

26

A fala é interessante por demonstrar a proximidade do proprietário do jornal com os círculos de poder e como, ao mesmo tempo, era envolvido com a parte jornalística da empresa. Destaco este aspecto já que no último capítulo serão abordadas algumas características da forma de atuação do proprietário no jornal.

27Mesmo assim, ainda em 1982, conforme Fernandes (1998 p. 87) “no ano do

retorno das eleições para o governo do Estado, o posicionamento político do jornal fica explícito em seu apoio a Esperidião Amin”, do PDS (Ex-Arena). Aguiar (1991) analisou os editoriais do jornal e constatou que o candidato Amin não teve nenhuma referência desfavorável, enquanto o candidato da oposição, Jaison Barreto, era classificado como “radical” e “despreparado”. (p. 238 e 241)

às normas mercadológicas de generalização, padronização, simplificação e negação do subjetivismo. Além do mais, ela é um meio de manipulação ideológica de grupos de poder social e uma forma de poder político. (MARCONDES FILHO, 1989, p. 13).

Aos poucos, então, o jornal transitou de um diário essencialmente político para outro de informação geral, centrado no caráter noticioso dos fatos e não mais primordialmente no proselitismo político partidário, embora estivesse também atrelado aos interesses políticos e econômicos de seu proprietário.

Em 1983, O ESTADO, ainda em crescimento, adquiriu uma nova rotativa, para diminuir o tempo gasto com a impressão, aumentar o número de páginas e ter a maior novidade da época: um jornal em cores. Importada da Alemanha, a nova máquina permitia também a impressão em tablóide, tamanho revista e livros. Um dos jornalistas que acompanhou a trajetória do periódico lembra desse processo, o qual considera um causador dos problemas financeiros posteriormente enfrentados pelo jornal:

quem conhece diz que foi decisão errada, pegou um parente dele, foi lá e aí o fabricante empurrou para eles que não seria bem o que precisava. Houve um erro qualquer nessa compra. E assim sempre foi. A mudança importantíssima de mudar para off set, não foi resultado de um planejamento, foi comprado o que estava disponível para vender. Era meio planejado, mas aí era feito do jeito que dava. (VALENTE, depoimento, 2011).

O entrevistado reafirma a ausência de planejamento empresarial, mas a compra do equipamento, embora equivocada para alguns, serviu também como estímulo aos funcionários do jornal, pois aparentemente a empresa estava bem financeiramente. Naquele período da década de 1980, O ESTADO apresentaria seu melhor jornalismo, com reportagens expressivas e de repercussão na comunidade local e regional. Além de matérias mostrando as contradições sociais em Florianópolis, “misto de beleza, insalubridade e grandes deficiências”, a cobertura atingia todo o estado de Santa Catarina, tornando-se referência, entre outros destaques,

as reportagens sobre a primeira grande ocupação de terras ocorrida em vários municípios da região Oeste, em 1985. Mesmo em 1986 e anos seguintes, quando passa a enfrentar a concorrência do jornal Diário Catarinense, o jornalismo de O ESTADO permanece em evidência e baseado no compromisso com o interesse público, conforme demonstram vários relatos. Mas em 1989 os problemas financeiros começam a ser visíveis e ocorre a primeira greve de funcionários, porque

Ia atrasar o salário. E a administração do jornal, em vez de conversar com eles [funcionários], ou invés de me comunicar para que eu conversasse com eles, colocou um aviso no mural. Era um pessoal bem agitado e eu acho que embrabeceram precocemente. Porque vários deles, inclusive alguns que puxaram a greve, depois voltaram a trabalhar no O ESTADO e tiveram situações muito mais graves de atraso de salários. [...] O pessoal mais à direita de dentro do jornal gosta de dizer que a culpa foi minha, por eu ter trazido o pessoal do PT pro jornal, pra Florianópolis. [...] fiquei de 88 a 89, quando deu a greve aquela, eu saí, depois não voltei mais. (VALENTE, depoimento, 2011).

O depoimento acima faz referência aos profissionais que haviam chegado do Rio Grande do Sul, assim como vieram muitos jornalistas a partir do início dos anos 1970, o que se intensificou em 1977. Uma segunda “invasão” de gaúchos na redação ocorreria em 1985, conforme informação do próprio jornal, em matéria retrospectiva no aniversário de 76 anos. A chegada destes jornalistas coincide com o período de redemocratização do país e a eleição do candidato de oposição, Edson Andrino (PMDB), para prefeito, que teve apoio de setores do PT, inclusive com nomes no secretariado do governo municipal. É um momento de renovação política e cultural na cidade, conforme veremos no capítulo três. Além disso, a RBS iniciava a implantação do projeto de instalação de seu jornal, trazendo também profissionais do estado vizinho. São fatores que contribuem, entre outros, para as mudanças em curso que começam a ser mais visíveis na cidade. Talvez se possa dizer que se instalou assim outra onda de transformações, depois daquele

ocorrida nos anos 1970 com a chegada da Eletrosul e a consolidação da UFSC.

Sobre a mesma greve, o advogado trabalhista que atendia o Sindicato dos Jornalistas lembra:

Nessa greve de 1989, o Comelli não me deixou entrar para participar da negociação, eu já era advogado do sindicato, fui vetado de participar da negociação. Veja que coisa mais equivocada, se você quer solucionar um problema, você vai impedir o assessor jurídico da entidade à época de fazer a tentativa de solução? (MELLO, depoimento, 2011). Evidencia-se pelo depoimento uma situação conflituosa de difícil encaminhamento, e uma relação trabalhista desgastada, tanto que os funcionários optaram por entrar em greve.

Dans le document Equity and Quality in Education (Page 106-121)