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A transferência da corte portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808, abriu um período de aceleração histórica sem precedentes no mundo luso- -americano. Os contemporâneos foram unânimes sobre o caráter memorável desse evento, que não só reforçou a especificidade da América no Império Português, como também deu à antiga colônia um novo valor histórico.

A percepção de que um novo império nascia deu ao tempo presente funções de fundamento mítico capaz de orientar o olhar para o futuro em um período cheio de incertezas. Esta tentativa de investigar o “futuro do presente” foi registrada pela citação frequente da frase de Leibniz, “o presente está prenhe do futuro”, usado como um tipo de mantra pelos mais diversos atores políticos da época.3 Surgiu

2 Araujo 2009b; Kirschner 2009.

3 Para Koselleck, Leibniz esteve no centro da transformação da “esperança em uma máxima da experiência” (Koselleck 2014, 176). A frase parece ter sido escrita pela primeira vez no tratado sobre a Monadologia em 1714 (ver Hölscher 2013, 139). Leibniz era igualmente uma referência para o visconde de Santarém (ver Protásio 2016, 195). Em 1822, um jornal brasileiro escrevia “O presente está prenhe do porvir, diz Leibniz, e pode-se conhecer a conexão por observadores e profundos. As medidas e providências dos homens são

gradualmente a experiência do presente como um momento de transição para um futuro mais brilhante, que era possível antecipar.

A presença da corte também significou a introdução da imprensa no Brasil, aprofundando o projeto reformista de recrutamento de elite local, geralmente educada em Coimbra, para cargos administrativos. A nova corte precisava mobilizar seções mais amplas da opinião pública através de um uso mais sistemático do impresso, seja na forma de panfletos, jornais ou patrocínio de livros publicados pela imprensa régia, agora com sede no Rio de Janeiro. O projeto de reconstrução econômica do reino exigiu um conhecimento mais amplo e regulado de territórios e histórias coloniais. Essas duas funções levaram a uma multiplicação de registros históricos nesse período, produzindo um efeito ambivalente de maior identificação com a monarquia, mas também a crescente conscientização das diferenças de realidade e interesse entre suas partes americana e europeia.

Além das histórias locais, a invasão napoleônica aprofundou a diáspora de estudiosos luso-brasileiros na Europa, multiplicando também pontos de vista e narrativas. Este foi o caso do influente jornal Correio Brasiliense, publicado em Londres pelo letrado luso-brasileiro Hipólito da Costa. Em suas páginas, a história é um guia moral, um juiz e guardião da posteridade, mas também uma fonte de reflexão filosófica capaz de revelar o destino das pessoas.4

Neste último ponto, é central a leitura esclarecida do historiador romano Tácito, especialmente a sua Germania.5 O amor à liberdade e suas instituições, presente na nação portuguesa, foram herdados originalmente desse povo “bárbaro”. É dentro dessas macronarrativas ilustradas que alguns dos principais eventos contemporâneos estavam sendo interpretados, especialmente a expansão napoleônica – a causa da migração do corte para o Brasil – entendida como a ameaça de um retorno a um “despotismo universal” semelhante aos romanos, impedindo “então o Progresso da civilização”.6

proporcionais às suas vistas. O que é cego do futuro tropeçará em mil obstáculos no caminho da vida” (apud Santos 2010, 113).

4 Araujo 2010; Araujo et Varella 2009; Francisco Muraro 2014. 5 Pocock 2005, 234 et seq.

Em geral, podemos dizer que essas metanarrativas podem ser organizadas em três ondas sucessivas principais, mas não mutuamente exclusivas: narrativas de restauração, regeneração e emancipação. As narrativas de regeneração basearam-se em reinterpretações do passado português em busca de princípios para reforçar o reino em seu momento de crise. Na sua forma ilustrada, essas narrativas estão ligadas ao tempo de Pombal e ao discurso do reformismo português. Nessas narrativas, a história de Portugal foi entendida como marcada por sucessivos momentos de decadência, causados por diferentes forças históricas. No início do século XIX, os estudiosos luso-brasileiros, formados em Coimbra e de alguma forma envolvidos com a Real Academia das Ciências de Lisboa, poderiam encontrar a Era de Ouro e os princípios restauradores em um país rural do século XII, de costumes simples e avesso ao luxo, ou no Portugal das grandes navegações dos séculos XV e XVI, ou ainda no passado germânico, no qual projetam noções míticas de um amor à liberdade e uma constituição primitiva, evocada para legitimar as bases absolutistas da monarquia. Nas narrativas de restauração, o Brasil figura como uma espécie de reserva natural a ser explorada racionalmente, uma vez que um novo relacionamento poderia ser estabelecido entre metrópole e colônia, uma relação mais parecida com modelos antigos que modernos. Foram essas narrativas de restauração que orientaram o significado da migração da Corte. Um fato que poderia ser entendido como uma derrota foi significado como uma grande oportunidade para a restauração do reino pelas forças da sua parte americana.

À medida que a corte se enraizava no novo continente, as novas narrativas produzidas a partir do Brasil procuravam dar sentido a esses eventos. Podemos dizer que as narrativas de restauração começam a ser deslocadas pelas narrativas de regeneração. Não era mais uma questão de recuperar o velho reino em sua antiga grandeza, mas projetar um novo Portugal a partir de sua parcela americana. Especialmente com a reestruturação política sob a forma de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, cimentada em 1815, parte da elite letrada e da classe média urbana começou a imaginar uma nova nação portuguesa, um império, com sede permanente na América.7

A derrota final das tropas de Napoleão, nesse mesmo ano, e a crescente insatisfação política na porção europeia da monarquia levaram à dupla pressão para o retorno do rei e à promulgação de uma Constituição. Esta combinação culmina com a Revolução do Porto, em 1820, o retorno de D. João VI, em 1821, e, já em um cenário de narrativas de emancipação, a declaração da independência brasileira em 1822. O esforço da política reformista para promover um maior conhecimento do território colonial acabou ampliando a consciência das diferenças entre metrópole e colônia e o surgimento de novos centros simbólicos de peregrinação como o Rio de Janeiro.8

Esse processo pode ser documentado pela diversidade de fontes para a história do Brasil que foram produzidas a partir de 1808. Histórias provinciais, corografias e dissertações mobilizaram o passado colonial. A leitura de antigas crônicas e histórias ajudou a produzir narrativas de progresso, que deram um novo significado ao fim do antigo sistema colonial. Enquanto esse movimento progressivo pode ser identificado com o reinado de D. João VI, essas narrativas ajudariam a consolidar o projeto de regeneração sobre novos fundamentos de um império entre dois mundos. Com a ausência do rei e a reconstrução do pacto social iniciado com as novas cortes, essas narrativas foram realinhadas em ambos os lados do Atlântico.