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Chapitre III : Voix et la remise en cause de l’ideologie

C. Du cri pour au cri pur

A invocação da protecção de Nossa Senhora da Rocha terá marcado a segunda tentativa de golpe militar intentada por D. Miguel em 1824, um ano depois da Vila-Francada. Ao contrário do primeiro, este, conhecido por Abrilada, por se ter realizado no mês de Abril, fracassou. Nesta sua segunda intervenção pública, D. Miguel tinha mobilizado a guarnição de Lisboa e cercado o palácio real, com o pretexto de combater uma conspiração maçónica de que afirmava ser alvo o rei seu pai e toda a família real. O objectivo teria sido, na verdade, afastar os moderados de que D. João VI se rodeara a seguir à Vila-Francada e que eram garante e salvaguarda contra uma deriva ultra-realista. Embora os contornos do episódio não tenham sido, até hoje, inteiramente esclarecidos pela historiografia, é provável que o golpe visasse mesmo destronar D. João VI, substituindo-o pela rainha D. Carlota Joaquina, que, com o filho, se tinha tornado líder do movimento contra-revolucionário em Portugal.

D. Miguel teria mandado gravar a imagem de Nossa Senhora da Rocha dentro de um Coração de Jesus, distribuindo-a no dia 30 de Abril de 1824 pelos seus apoiantes em armas, a quem se dirigiu referindo a grande confiança que nela depositava.13

Enviado para fora do reino pelo seu pai, na sequência do fracasso da Abrilada, sob pretexto da necessidade de se instruir pela frequência de outras cortes europeias, D. Miguel residiria na Áustria nos anos seguintes, colocado sob a tutela do imperador e de Metternich. Seria em Viena que receberia a notícia da morte do seu pai, em 1826, e seria também ali que aceitaria as condições impostas pelo herdeiro do trono português, o seu irmão D. Pedro, à época imperador constitucional do Brasil, para regressar ao reino como seu lugar-tenente e futuro marido da sua sobrinha, D. Maria da Glória, assim que esta atingisse a maioridade. Em Portugal, o regime liberal tinha sido reinstaurado por D. Pedro, que outorgara ao reino uma moderada Carta Constitucional, abdicando em seguida na referida D. Maria da Glória. O projecto de matrimónio de tio e sobrinha coroava, como se sabe, a solução política e dinástica gizada por D. Pedro, com o apoio das potências europeias, que exigia também que D. Miguel jurasse respeitar a Carta Constitucional. O projecto destinava-se, entre outras coisas, a aplacar os ânimos dos realistas mais exaltados, que, desde a morte de D. João VI, em 1826, acalentavam o projecto de ver D. Miguel no trono como rei absoluto e que começaram a movimentar-se desde aquela data nesse sentido.

Em Viena, há notícias que indiciam ter D. Miguel permanecido fiel à sua devoção, sabendo-se, por exemplo, que uma imagem de Nossa Senhora da Rocha de Carnaxide, pendente de uma cadeia de ouro, lhe foi enviada nesse mesmo ano de 1826 pela sua ama, D. Francisca Vadre, uma figura que se encontra sempre presente em todos os períodos mais cruciais da sua vida e que o acompanharia, em 1834, no seu definitivo exílio.14

No mesmo ano, mas já depois da morte do rei D. João VI, quando se negociavam as condições do regresso de D. Miguel a Portugal, D. Carlota Joaquina dirigiu-lhe para Viena uma carta, em que o príncipe era incitado a não aceitar os

13 Silva 1993, 257-258. 14 Lousada et Ferreira 2006, 81.

arranjos político-dinásticos do irmão D. Pedro, a não jurar a “maldita constituição” e a rejeitar o casamento com a sobrinha. Era, finalmente, exortado a ter “sempre fé em Nossa Senhora da Rocha”, que nunca lhe haveria de faltar.15

Tudo indica que, dentro da família real, a devoção a Nossa Senhora da Rocha não tenha sido, no entanto, um exclusivo do sector contra-revolucionário, em que se destacavam D. Carlota Joaquina e D. Miguel. A infanta D. Isabel Maria, irmã de D. Miguel e de D. Pedro, que ocuparia a regência de 1826 a 1828 e que poria em vigor a Carta Constitucional, manifestava a mesma devoção.16

Aquando do regresso de D. Miguel a Portugal, em Fevereiro de 1828, o momento triunfal da sua chegada foi também assinalado por festividades consagradas à Senhora da Rocha em freguesias dos arredores de Lisboa, como Benfica, Porcalhota e na própria Carnaxide.17 No mesmo ano de 1828, a obra de construção de um templo em sua homenagem, em Carnaxide, terá conhecido igualmente um novo impulso.18

D. Miguel ter-se-á deslocado também ali em 1830, como o tinha feito já nesse mesmo ano ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré.19

Não restam dúvidas, na verdade, de que foi durante os breves seis anos que durou o reinado de D. Miguel (1828-1834) que o culto a Nossa Senhora da Rocha conheceu uma maior expansão. Essa expansão foi, antes de mais, territorial, já que existem registos da edificação ou do projecto de edificação de templos a ela consagrados, assim como da formação de irmandades da sua invocação ou, ainda, da colocação de imagens suas em altares de igrejas ou capelas muito longe da região de Lisboa, onde o culto se iniciara. Esta geografia está ainda por fazer, mas sabe-se, por exemplo, que na província do Minho, onde a vitalidade religiosa e a malha paroquial eram mais densas, em 1829, por decisão da Irmandade de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, seria colocada uma imagem da Senhora da Conceição da Rocha na capela do Senhor Jesus do Calvário, junto ao templo. A irmandade mandou afixar uma notícia em que se dizia:

15 Lousada et Ferreira 2006, 90.

16 Nossa Senhora da Conceição da Rocha. Cópia dos documentos… 1883.

17 Favinha et al. 1997, 396. 18 Favinha et al. 1997, 396. 19 Penteado 2001.

o Juiz e mais mesários da Irmandade de N. Sr.ª da Agonia tendo em conta os benefícios recebidos em todo este reino por intercessão da sua Padroeira, a Senhora da Conceição, e com especialidade aquele de haver conduzido à sua Capital, de países tão remotos, e através de tantos perigos e lances, o Monarca mais desejado pelos fiéis portugueses, o seu legítimo soberano o Senhor D. Miguel I, deliberou fazer colocar uma imagem de Nossa Senhora da Conceição da Rocha na capela do Senhor do Calvário. . .20

Em pequenas localidades do mesmo concelho de Viana do Castelo, como Meixedo, Outeiro ou S. Cláudio de Nogueira, há capelas com aquela designação. Neste último caso, supõe-se que a iniciativa da construção terá pertencido a pedreiros da localidade que tinham trabalhado em Carnaxide.

Percorrendo a Gazeta de Lisboa, ainda que de forma pouco sistemática, encontram-se outros testemunhos do mesmo impulso. Assim, por exemplo, em Évora, há notícia da formação de uma confraria da invocação de Nossa Senhora da Rocha, canonicamente estabelecida a 11 de Janeiro de 1830, por iniciativa de um cónego da Sé, que já em 1826 fizera colocar uma sua imagem na paróquia de S. Tiago da mesma cidade.21 Em Portalegre, pela mesma época, foi também edificada uma capela da mesma invocação.

Também em Lisboa, em plena Guerra Civil (1832-34), era publicada, na mesma Gazeta, a 19 de Março de 1833, uma ordem do cardeal patriarca para que se conduzisse a “Milagrosa imagem de Nossa Senhora da Conceição da Rocha que se acha colocada na Basílica de Santa Maria”, em solene procissão para a Igreja de S. Roque, onde deveria passar alguns dias para edificação dos fiéis e agradecimento por ter livrado a cidade de uma epidemia. No mesmo texto, o patriarca tecia um longo louvor à Senhora da Rocha e evocava a linha de continuidade existente entre o tempo do seu aparecimento e o actual:

Meus amados filhos . . . recordemo-nos ao menos da época não muito remota em que começámos a tributar-lhe culto [à Virgem Maria] debaixo do título dessa venerável imagem, quando a Providência dispôs que se descobrisse no seio de uma rocha. . . . Ela foi o sinal maravilhoso que anunciou o termo da execranda rebelião que então maquinava a ruína desta Monarquia. . . . Invocada agora debaixo desse mesmo título e como Padroeira destes reinos . . . ela fará brilhar a mesma virtude e todo o seu poder em favor da Nação aflita contra outros rebeldes que a oprimem.22

20 Vasconcelos 1982, 269-293. 21 Gazeta de Lisboa 1833, 294.

A derrota dos miguelistas, no fim da Guerra Civil, e a expulsão de D. Miguel do reino (1834) retiraram à invocação da Virgem, que se quisera transformar em padroeira da contra-revolução, muita da centralidade de que havia gozado no discurso público dos adeptos da antiga ordem, em particular dos sectores eclesiásticos que lhe eram afectos.

Há notícias que mostram, pelo contrário, a fidelidade de D. Miguel, durante o seu exílio, à devoção que tanto acalentara e à persistência da sua identificação com a causa que ele próprio representava. Em Itália, durante a primeira fase desse exílio, mandou, por exemplo, imprimir em Módena uma estampa de Nossa Senhora da Rocha, que depois fez distribuir em Roma pelos seus adeptos, com a “recomendação de evocarem o seu patrocínio” e “a sua benção” para os esforços que estava a fazer para “salvar a pátria”.23

No Sul de Portugal, pela mesma época, os pobres habitantes da serra do Algarve, que protegiam e davam guarida aos guerrilheiros que aí permaneciam em armas, em nome de D. Miguel, exibiam, penduradas ao pescoço, a par de imagens de Cristo crucificado, retratos de Nossa Senhora da Rocha com D. Miguel do lado oposto.24 O culto à Virgem de Carnaxide também tinha chegado àquelas remotas paragens.