Chegados a este ponto urge repensar a questão da forma e da sua tradi - cional associação dicotómica ao conteúdo. Nos estudos literários, a noção prevale cente de forma deriva sobretudo da sua utilização pela tradição estética e pela estilística. Em ambos os domínios, a forma está dependente duma concepção estática do objecto artístico (ou literário) que é encarado como, por um lado, possuindo certas qualidades materiais, abstraíveis através da análise, e, por outro, um conteúdo ou um sentido. Mesmo quando reconhece uma estrei ta depe ndência entre estas duas realidades, tal tradição insiste em mantê-las separadas.
Ora, importa, justamente, rever o conceito de forma (ou melhor, daquelas qualidades da escrita literária que deram lugar ao uso do termo forma por parte da crítica literária) sem cair no dualismo em que a tradição estética tem incorrido, mesmo quando procura superá-lo.
Se adoptarmos, com Attridge, uma visão da obra literária não como um objecto estático, mas como um acto-evento, como um processo que é essen - cial mente temporal e que se concretiza na “performance” dum leitor, será possível reconceptualizarmos a noção de forma. Recordemos que a obra, como acto-evento inventivo, implica a criação dum outro que suscita a necessidade de reajustamentos, quer na situação particular do leitor, quer nas condições cultu rais em que se dá a sua leitura. Lembremos que a obra resulta duma configu ração peculiar dos materiais culturais de partida, mas que é fracturante em relação a eles e não por eles totalmente explicável. Mais, a sua actualização através duma leitura criativa obriga à revisão e ao questionamento, por parte do leitor, de certos pressupostos e hábitos, quer no plano das convenções que presidem à instituição literária, quer no plano dos parâmetros definidores da sua inserção cultural.
Ora, estas implicações não podem advir apenas do facto de o texto mobi - lizar palavras que consistem em certos sons e formas, mas também do facto de esses sons e formas serem nós de sentido, nexos de significado e, como tal, profundamente enraizados na cultura, na história e nas múltiplas variedades da experiência humana. Quer isto dizer que a sequência formal – a cadeia ou enca - dea mento de sons e formas que são materialmente as palavras – funciona, então, como o encenar (staging) de sentidos e de sentimentos – um encenar que se concretiza numa leitura performativa. (Attridge 2004: 108-109)
ISABEL FERNANDES
LITERATURA: A (IN)DISCIPLINA NA INTERSECÇÃO DAS ARTES E DOS SABERES 41
Ao ler uma dada sequência de palavras, eu apreendo este aspecto dito formal já como significativo, e significativo no contexto particular da minha leitura. Experimento e retenho na memória a corrente de palavras, tal como ocorrem no texto e tal como ocorreram para mim, em mim produzindo certos efeitos – emoções, lembranças, sensações. A ordem peculiar que sustém a sequência sígnica que li estará indelevelmente associada ao prazer profundo que animou a minha leitura e activou o complexo emocional e cognitivo a ela inerente – um prazer que nenhuma paráfrase e nenhum sumário serão capazes de induzir, um prazer que é único e insubstituível. Deste modo se evidencia que o sentido é inerente e indissociável da forma e que forma e sentido acontecem em simultâneo e fazem parte dum mesmo evento, a leitura.
As propriedades que costumam ser enumeradas como pertencentes à forma literária: padrões sonoros, ritmo, variações sintácticas, construção narra - tiva, etc. são precisamente o que determina o tipo de leitura a que Attridge chama literária. As referências que aparecem numa obra – à história, a códigos partilhados, a estados psicológicos – em si mesmas, apenas convidam a uma leitu ra referencial; os pronunciamentos morais suscitam respostas compor - tamentais ou espirituais; a codificação de intenções pode determinar uma leitura biográfica, etc.. Mas, quando a linguagem através da qual se concretizam estas relações extratextuais é organizada de forma significativa, quando apresenta qualidades peculiares que não se esgotam nessas funções de referência, então pode dizer-se que elas estão a ser encenadas, que cada referência para fora do texto é simultaneamente uma referência para dentro do próprio texto, cada metáfora uma encenação da metaforicidade, cada alegoria uma encenação de alegorização, etc. (Attridge 2004: 118). Esta mobilização de sentido perseguida por propriedades formais implica que o texto nunca se projecte simplesmente para fora de si, em direcção ao mundo representado, nunca se transforme em mero índice dum conjunto de realidades exteriores à linguagem.
Aquilo a que Derrida chama gesto de «transcendência» ou leitura «trans - cen dente» (“transcendent” reading) é um momento inerente e irreprimível do acto de leitura, mas ele pode e deve ser complexificado e desdobrar-se numa experiência propriamente literária por acolher a dimensão auto-reflexiva do texto (Derrida 1992a: 44-46). Para usar uma terminologia sartriana, podíamos reformular a questão dizendo que a ambiguidade do signo permite que o atravessemos como se fosse de vidro e assim perseguir, através dele, a coisa
signi ficada, ou que nos detenhamos perante a sua opacidade enquanto signi - ficante (Sartre 1975: 18). Na atitude poética ou literária, este último requisito tem de estar presente. Pode, assim, dizer-se que a obra literária tem ao seu dispor todos os recursos semióticos da linguagem sem que, ao mesmo tempo, sofra das limitações impostas à linguagem puramente referencial pelos propósitos a que esta se subordina. Ora, de facto, o que a linguagem literária promove é um tipo de leitura que suspende provisoriamente tal instrumentalidade.
What literary form does is to produce (in conjunction, of course, with the assumptions and conventions of the literary institution which govern reading at a particular historical moment) a suspension of linguistic instrumentality, a blocking of the aesthetic urge to separate form from content and to assign content alone to the domain of ethics and politics. It is form without formalism. (Attridge 2004: 119)
A literatura não opera, por isso, directamente no terreno da política, mas refracta questões políticas ou éticas de forma efectiva, ao dissociá-las transito - riamente das pressões a que estão sujeitas na arena social, encenando o gesto político ou a decisão ética com recurso a processos linguísticos (ditos formais) que colorem de forma memorável aqueles gestos ou decisões.49Quando dela
fazemos uma leitura literária, a literatura não é um instrumento político, não resolve problemas nem reforma almas, mas tem, apesar disso, uma determi - nante e duradoura efectividade (não subserviente a programas morais ou polí - ticos) que consiste em: “inculcate an informed and disciplined responsiveness not directly connected to advantage, utility, or immediate needs”. (Harpham 2005b: 9 on-line)
Ignorar a dimensão desta refracção literária na representação do político e do ético, é operar um curto-circuito que pode induzir erros grosseiros de avaliação, como reconheceu recentemente Thomas Docherty: “[t]he error of some recent theory has been to believe that one can easily translate from the representation to the real: that to imagine the world differently is to make it so”. (Docherty 2002: 139)
Valorizar uma obra literária pela sua alegada «mensagem progressista», por exemplo, é ignorar que há na representação literária uma dimensão decisiva que extravasa e problematiza os nexos com a realidade histórica e inviabiliza, ou pelo menos desaconselha, operações de transferência directa entre texto e referente.50
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A ‘just’ reading is a reading that goes beyond theoretical assumptions to respond to the unique demand the text makes for a ‘fresh judgement,’ one analogous to the judgement of the just judge.
J. Hillis Miller (2006) “On Literature and Ethics – An Interview with J. Hillis Miller”