dessa criança?
Participante: Todo o processo, inclusive.
Mesmo o próprio relatório que tenha na escola. Que há relatório. Se há relatório.
Participante: É, geralmente não é um relató-
rio. 90% das vezes você não tem condição de sa- ber dessa criança pelo relatório.
Participante: Você às vezes não vê o aluno,
mas vê pelo professor.
Participante: Eu fiz uma reunião há pou-
quíssimo tempo, na semana passada, exatamente falando desse relatório e, assim, o rico é que nós avaliamos as crianças primeiro, no âmbito da edu- cação especial, e eu não tinha o relatório que era uma peça-chave até para eu desconstruir aquele relatório. Aí a coordenadora não fez a parte dela, então não tínhamos os relatórios. Mas os profes- sores vieram, depois de quatro horas que nós fi- camos com as crianças, os professores vieram para fazer uma hora e meia de ATPC1 já no meio
dessa reunião. Depois esses professores saíram. Então, as crianças vieram, ficaram umas três ho- ras, avaliamos, saímos, vieram os professores e aí nós conhecemos a criança, e perguntamos para o professor da sala quem era aquela criança. Você não tem noção do quão rico foi e os próprios co- ordenadores, ficaram abismados com as falas dos professores. Então, eu nem precisei falar muito, eles mesmos desconstruíram toda uma formação pedagógica, eles mesmo se expuseram como pes- soas que não fazem ideia do que é uma educação. E eu lógico que tive que falar isso, não dessa forma, mas eu tive, “prô, é que agora nós estamos falando de comunicação”, “não, porque...”, “prô, vamos ficar em comunicação. Essa criança na questão de co- municação, habilidade de comunicar-se, é coeso, não sei o quê”, “não, mas eu...”. “Prô, só comunica- ção, tira o comportamento, vamos tirar essa nuvem do comportamento e olhar para a comunicação”. Foi riquíssimo. O professor foi ficando vermelho, e você via que aquilo foi criando um mal-estar, só que no final, ela parou, ela até chegou a ameaçar duas vezes sair da sala, porque realmente eu pus na pa- rede. Aí ela, “não, agora que você está falando, você tem razão, não tinha olhado por esse lado”. Então assim, essa desconstrução é muito difícil, e é isso que o professor precisa fazer, antes dele receber o
1 Horário de trabalho pedagógico coletivo (HTPC) ou aula de
trabalho pedagógico coletivo (ATPC).
psicólogo. Então, acho que hoje o psicólogo, ele é extremamente importante, para o professor, para a gestão, para a sociedade, a comunidade, a escola poder enxergar a sua comunidade através da visão de um psicólogo seria fantástico, porque ela não vê, ela vê aquele pai malcriado, aquele pai que não trabalha, que tá na biqueira, que “cata lixo”, ela tem que ver o outro lado de uma outra forma. Ela tem que parar de falar de uma forma, eu falo para eles, “parece mais uma fofoca do que um relatório peda- gógico, porque está falando que o pai não vai, isso aqui é fofoca, você não garante nada do que está escrito aqui”. Então, nessa construção do Projeto Político Pedagógico, a parceria do psicólogo seria fundamental. Agora pode falar.
Participante: Eu acho que toda avaliação é
um recorte. A gente não consegue recortar todas as nossas questões, em alguns encontros a gen- te tenta fazer o possível dentro do nosso tempo e dentro dos profissionais que a gente tem no Caps. A gente tenta observar principalmente a demanda. O que aquela criança traz de demanda, ao invés de fechar um parecer sobre quem é aquela criança. Então, qual é o sofrimento dela, qual a intensida- de desse sofrimento, ela está apresentando isso que está sendo relatado na escola ou na família, nesse momento que eu estou com ela, nesse mo- mento que ela está em grupo ou que ela está so- zinha, nesse momento que ela está fazendo uma atividade junto com os pais, - a gente tenta juntar os pais também na nossa avaliação para ver como que é a interação, como que é a relação -, e o que ela precisa. Então, é isso que a gente tenta ver. Ela precisa de mais investimento na área pedagógica ou ela precisa de mais investimento de estimu- lação na parte motora ou na parte cognitiva, ela está em uma situação de vulnerabilidade social. A gente tenta ver as necessidades dela, para daí, se a gente vê que ela tem um sofrimento importante, ela tem um comportamento que está prejudicando a adaptação dela nos outros ambientes da vida dela, então, a partir daí, a gente pode ver “ah, va- mos encaminhar para o médico”, aí o médico vai fazer o diagnóstico, também vai fazer uma con- sulta, muitas vezes ele não fecha o diagnóstico na primeira consulta e a gente pode decidir se esse sofrimento é importante, a gente precisa observar mais essa criança, então ela vai participar do Caps. E tem as reuniões de matriciamento, então a gen- te também tem pouco de entendimento da região, daquela microrregião, daquele contexto da criança.
Participante: E como funciona essa reunião
C a d e r n o s T e m áT iC o s C r P s P Psicologia em emerg ências e desastres C a d e r n o s T e m áT iC o s C r P s P Psicologia em emerg ências e desastres C A D E R N O S T E M ÁT iC O S C R P S P
Psicologia, demandas escolares e int
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orialidade: os caminhos do diagnóstico de crianças e adolescent
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Participante: A gente se reúne com as UBS’s,
e tem assistentes sociais, outros profissionais da saúde que também estão contando para a gente um pouco do que está acontecendo naqueles bair- ros do distrito. Então, a gente sabe quais regiões são mais vulneráveis, quais regiões têm mais situa- ções de violência, enfim, várias características que também são comuns à região e não só a criança.
Participante: De quanto em quanto tempo
a criança é atendida? Para você fazer todo esse diagnóstico que você está falando. De quanto em quanto tempo a criança é atendida?
Participante: Semanalmente.
Participante: Se ela faltar em uma delas,
como é que você vai saber que teve uma alteração ou não, ou por quê, se ela não foi. Você vai atrás para saber por que que ela não foi ou simplesmen- te não foi, tudo bem?
Participante: Não, a gente vai e espera 15 dias. Participante: Mas aí vocês não descobrem o
porquê que ela não foi.
Participante: Geralmente, a gente entra em
contato com a família e tenta ver por que ela não foi no atendimento.
Participante: Tem família que se nega? Participante: Sim. Tem todos os tipos de fa-
mília, a gente vê cada situação.
Participante: E toda família acompanha? Participante: Não. Tem muitas famílias que não
acompanham, que não compreendem o diagnóstico.
Participante: Eu acho muito interessante o
que a Ana Paula está trazendo porque, primeiro estou muito feliz com a sua fala, porque pensar em um diagnóstico, em uma triagem baseada no sofrimento, é muito diferente de pensar em um diagnóstico baseado em uma patologia, do tipo, “vamos acompanhar porque tem diagnós- tico de TDH”, “vamos acompanhar porque tem diagnóstico de autismo”. Não. “Vamos acompa- nhar porque existe sofrimento.” E isso traz uma humanização para o tipo de atendimento que é fundamental, essencial para todo tipo de Caps. E eu vejo que, na saúde, pelo que eu acompanho das políticas públicas ou mesmo de reuniões de matriciamento que eu participava há algum tem- po atrás, ficamos em um impasse muito grande de como investigar, como entrar dentro da famí- lia, traz a família, e aí a família normalmente é só
a mãe às vezes, ou às vezes é uma tia, às vezes é a vó, às vezes é um irmão. É muito difícil a gen- te ter acesso à família, a família nuclear que a gente supõe ser a família.
Participante: Mas assim, pelo menos do que
eu já trabalhei em Caps, do que eu já acompanhei, a gente também, como serviço, - e eu acho que a Ana Paula também mencionou muito isso -, tem que preservar esse lugar de que a gente está lá, a gente liga, a gente propõe, a gente escuta deman- da, mas a gente não vai entrar na casa da pessoa e falar, “você tem que vir de qualquer forma”.
Carmem: E se ela vai no Caps, alguém cuida
dela. E isso já é uma coisa, isso já é um ganho.
Participante: Ou alguém obriga a ir, porque
obrigo levar.
Carmem: Mas é o de menos, alguém leva. O
fato de alguém levar já mostra que essa criança tem algum cuidado. Pode não ser o cuidado que a gente gostaria, mas tem. Mesmo que ela falte, al- guns que faltam, eles ligam para dizer que faltou. Então, não tem o padrão, não é assim, toda família é relapsa, toda não, algumas. E quando você liga, eles se desculpam. Do que eu sei é um serviço mui- to bem controlado pela turma da comunidade. E lá tem o conselho gestor, que controla bem o serviço. Então, ele é controlado pela comunidade. E, em ge- ral, muito bem aceito pelas famílias, né?
Participante: Pelas escolas também. Carmem: Tanto que as famílias, elas parti-
cipam. Eu não sei, eu sou fã do serviço. Eu acho que é um serviço que dá certo. E o que eu queria
dizer é que tem uma outra compreensão, não sei se dá tempo, se é pertinente falar. Não é uma ou- tra compreensão, mas é uma compreensão sobre saúde e doença que talvez a gente ainda quer to- mar remédio para passar a dor. Não entenda, mas que é outra luta, que não é a luta da educação, mas que é a luta da saúde mental, é uma outra compreensão no sofrimento, e não na patologia, porque é assim que essa pessoa é, e de respeitar essa pessoa do jeito que ela é.
Participante: Aí você fala na questão da de-
ficiência ou da doença mental?
Carmem: De qualquer coisa. A Ana Paula está
dizendo uma coisa maravilhosa, que é assim “olha como a gente mudou do ponto de vista de pensar a saúde mental hoje em dia”, porque a gente está pensando a partir do fenômeno do sofrimento, e a gente não está pensando ela a partir do fenômeno