• Aucun résultat trouvé

Marx já apontava o desenvolvimento capitalista como capaz de dividir o mundo em áreas com papéis diferentes na produção: “Uma nova divisão internacional do trabalho, imposta pelas necessidades vitais da grande indústria, converte, desse modo, uma parte do globo em campo de produção agrícola para a outra parte que se torna, por excelência, o campo de produção industrial” (MARX apud BETTELHEIM, 1969, p. 22).

Como forma de retomar as taxas de lucro após a crise dos anos 1970, uma nova divisão internacional do trabalho (DIT) começa a ser gestada no início dos anos 80 e consolida-se nos anos 90. As características principais dessa nova DIT podem ser expressas, sucintamente, em: a) integração da produção mundial em proporções inéditas, ampliando a economia de escala; b) deslocamento do principal da produção industrial mundial para países com condições e infraestrutura propícia para redução dos custos, principalmente, com força de trabalho barata e qualificada (o caso da China e outros países asiáticos); c) adequação ou parqueamento11 dos países do mundo a se conformarem a essa nova DIT, uns no papel principalmente de produtores de commodities, outros no de parques industriais, e outros especializando-se no consumo; d) no surgimento, como resultado e alavanca da enorme capitalização obtida por esse rearranjo da economia mundial, de uma gigantesca máquina de valorização financeira, estimulando os novos investimentos e o consumo em proporções também inéditas.

11 Parquear: verbo transitivo direto. Derivação: anglicismo semântico. Demarcar espaço para parqueamento ou estacionamento, conforme o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.

Se por um lado essa nova divisão internacional do trabalho possibilitou a retomada das taxas de lucro, com um gigantesco aumento da produtividade e da mais-valia (ou seja, da exploração capitalista), e uma expansão crescente dos capitais em todo mundo, criou da mesmo forma um problema: como reinvestir esses lucros de forma ampliada, como prosseguir a necessária acumulação capitalista? O capital, que não consegue ser reinvestido na esfera da produção com a mesma taxa de lucro, tendo em vista a superprodução quase constante de capitais nessa esfera, busca novos espaços e outras formas de acumulação. A ampliação da esfera financeira de valorização do capital e do setor serviços (incluídos aí os serviços em saúde) expressam essa superprodução.

Essa expansão da produção a nível mundial, essa nova divisão internacional do trabalho, possibilitou, de forma metafórica e apenas ilustrativa, afirmar que o mundo dividiu- se entre regiões que produzem matérias-primas e commodities, a “roça” e a “mina” do mundo (Brasil, América Latina, parte da África etc.), as “fábricas” do mundo (China, Índia, leste da Ásia etc.) e os “supermercados” do mundo (EUA, Europa etc.). No entanto, como é intrínseco ao modo de produção capitalista, e de forma ampliada e mais agressiva, na economia mundial da fase imperialista do capitalismo, as contradições entre as formações econômico-sociais, com seus respectivos Estados, não cessou, muito pelo contrário, acirrou-se assumindo novas e mais complexas formas.

Em conjunto com as astronômicas taxas de lucros obtidas pela nova DIT, as crises localizadas em regiões do mundo ou em setores da economia começaram a pipocar, de forma cada vez mais intensa e abrangente, diferente dos anos de relativo crescimento estável do pós- guerra, obrigando aos Estados e Organismos Mundiais enormes esforços tentando sustar o contágio de cada crise específica para o conjunto da economia mundial, na busca de evitar, ou pelo menos prorrogar, uma crise geral. Como dizia Marx (1980a) “todas as contradições da produção burguesa se patenteiam coletivamente nas crises gerais do mercado mundial, e de maneira dispersa, isolada, parcial nas crises restritas (restritas no conteúdo e na extensão).” (p. 968).

Numa rápida relação é possível listar algumas crises posteriores à década de 1970: a crise das moratórias no início dos anos 80 (Brasil, Argentina, México etc.), a crise bancária do sistema de poupança e empréstimos (savings and loans) dos EUA (1985); a quebra da bolsa de Nova Iorque (1987); a crise no Japão com o estouro das bolhas acionária e imobiliária, seguido de duas décadas de recessão, estagnação e deflação (1990); a recessão americana de 1990-1991; a crise do sistema monetário europeu e o ataque à libra esterlina (1992); a crise do México (1994-1995); a crise asiática (1997); a quebra do fundo especulativo Long Term

Capital Management (LTCM) nos EUA (1998); a crise russa (1998); a desvalorização do real no Brasil (1999); a crise da Turquia (2001); a crise da Argentina (2001); o estouro da bolha acionária e a recessão nos EUA (2000-2001); e finalmente a crise geral mais aberta que atinge o conjunto dos países capitalistas em todo o mundo a partir de 2007/2008 (conhecida, de forma equivocada e distorcida, como crise das hipotecas subprime). Essa última crise, pela dimensão e proporção que vem atingindo, pois ainda não foi superada, pode ser considerada como uma crise geral do modo de produção capitalista, semelhante às de 1929 e 1873.

Pode-se assim afirmar que desde o final da década de 1970, o imperialismo vive um período de crise crônica, latente, estrutural, com constante superprodução de capital, diferente do período que vai da II Guerra Mundial até os anos 1970. Caracterizando a fase atual como de um capitalismo senil, Tom Thomas (2007) afirma que “o capital não consegue iniciar uma nova fase, plena e clara, de acumulação ampliada. É senilidade no sentido de um estádio de desenvolvimento que o capital não consegue superar. A senilidade é a crise permanente” (p. 11). Esse mesmo autor, antes ainda do desenrolar dos fatos exemplares dos anos 2007/2008, caracteriza o período atual como um

[...] período histórico em que o processo de acumulação cada vez mais se processa aos solavancos, em que a crise se torna quase permanente, entrecortada por fases de crescimento cada vez mais curtas (ao contrário das crises “decenais” seguidas por retomas bastante sustentadas, típicas da época da maturidade). E é por isso que se pode falar, relativamente aos últimos trinta anos, da crise e não de crises. (THOMAS, 2007, p. 12).

Com o aprofundamento da crise geral principalmente a partir dos anos 2007/2008, aprofundam-se também as principais contradições que caracterizam a nova DIT:

1) Aprofunda-se a contradição entre os blocos econômicos dominantes, os blocos ou países imperialistas (EUA, Europa, Rússia, China, Japão). Apesar de integrados na produção mundial, a crise impõe aos capitais desses blocos (e aos seus Estados) uma ação muito mais ofensiva na defesa de mercados, no controle de fontes de matéria-prima, de rotas comerciais importantes etc. A guerra colonial contra a Líbia em 2011, as ameaças recentes de intervenção na Síria e no Irã, a ampliação da presença militar de vários países em várias partes do mundo, entre outros exemplos, são demonstrativos da intensificação das disputas econômico-militares dos tempos atuais12.

2) Aprofunda-se a contradição pólo dominante x pólo dominado no sistema imperialista mundial. As formações econômico-sociais dominantes amplificam o controle

12 James Petras, (2011) em artigo de 22/12/2011, intitulado Obama eleva as apostas militares: confrontação nas fronteiras com a China e a Rússia, mostra a velocidade e intensidade da escalada militar mundial no início dessa 2ª década do século.

sobre as formações dominadas de suas áreas de influência aumentando a exploração e o domínio sobre a economia desses países.

3) Aumenta a contradição fundamental do modo de produção capitalista: a contradição capital/trabalho. Na tentativa de manter as taxas de lucro as classes dominantes intensificam a exploração sobre as classes dominadas, efeito amplificado pela ação concentrada do Estado em salvar o capital (empresas, bancos etc.) em detrimento das políticas sociais13 para as classes dominadas. As manifestações populares na Europa, nos EUA, em vários países da África e da Ásia atestam esse fato.

4) Aprofunda-se a concorrência capitalista, com os capitais individuais disputando, numa luta de vida ou morte, os mercados ainda existentes e em redução por causa da crise.

5) Finalmente, amplia-se a contradição capitalismo x socialismo, com o retorno das idéias e do debate sobre a superação revolucionária do modo de produção capitalista, modo de produção este que a crise permite apresentar em seus limites insolúveis e suas contradições profundas.

A crise crônica, constante, estrutural que caracterizou a economia mundial dos anos 1980 até o final dos anos 2000 desembocou na crise geral mais aberta a partir de 2007/2008. O excesso de capital criado nesse período (e mesmo na fase anterior) gerou efeitos importantes na constituição e ampliação do capital privado nos serviços de saúde e no setor suplementar de serviços de saúde no Brasil e no mundo. Esse excesso de capital, que transborda das esferas de produção e busca valorização em outros mercados pode ser melhor compreendido utilizando-se o conceito de “supercapitalização”, avançado por Ernst Mandel.

Documents relatifs