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1.3 Vers une perspective abstractive

1.3.3 Les microclasses

Desde o momento da criação dos sistemas, foram reunidos diversos stakeholders para suas especificações, para que fossem desenvolvidas ferramentas adequadas às necessidade dos usuários (E2, E4, E5, E10, E27, E31, E35, E38, E39 e E41 – Tabela 11). O papel do usuário como agente da construção do sistema se estendeu durante o desenvolvimento do sistema posterior a implantação, quando aprimoramentos foram incorporados, devido à dinâmica do negócio e do trabalho. A participação ativa dos usuários como agentes na construção e reconstrução dos sistemas trouxe consigo a idéia de que o negócio é que deve ditar o que será a tecnologia, e não o contrário. No Risk e no Portal de Riscos os usuários participaram da especificação e da homologação dos sistemas. Já no Asset, por se tratar de um sistema desenvolvido para todo o mercado, os usuários analisaram o ajustamento da solução aos negócios, especificaram que personalizações no sistema seriam necessárias para as suas atividades e também realizaram testes de homologação. A participação dos usuários no processo de concepção dos sistemas foi ilustrada nos depoimentos abaixo.

O sistema não é construído pela tecnologia. Ele é totalmente especificado pelos vários stakeholders - do que a gente chama de end-to-end process, no qual o sistema vai estar inserido. Fazemos isto na

54 tentativa do sistema se aproximar, ao máximo possível, com o que as pessoas realmente precisam na prática. (E2)

Em qualquer lugar que se faz implantação deste sistema o usuário tem que participar muito, porque tem muita coisa que é parametrizável. Tem que ver o que precisa poder mudar. E quem precisa poder fazer a parametrização é o próprio usuário e não a tecnologia, porque são regras de negócio. O usuário tem que conhecer muito o sistema. (E5)

O Portal de Risco começou em 97, na época em que o banco tinha uma descentralização do modelo de tecnologia - tinha 10 centros espalhados pelo Brasil. Foi criado um grupo para fazer a modelagem. Foi um dos processos mais ricos de modelagem de sistema. Pegou-se todas as normas de produtos e créditos, se leu tudo aquilo, codificou-se em processos para pode automatizar. Isto envolveu gente de todas as áreas: crédito, negócios e tecnologia. (E38)

Os processos de aquisição e melhorias dos sistemas são marcados por disputas, relacionadas a quem tem poder na organização para ter suas solicitações priorizadas (E2, E4, E5, E35 e E37 – Tabela 11). Os departamentos de TI têm volumes de demandas que excedem os recursos e capacidades disponíveis para atendimento. Para lidar com o excesso de demandas, foram incorporadas na estrutura organizacional pessoas responsáveis por definir o que seria modificado no sistema, como isto seria feito e com que prioridade. Na aquisição do Risk, a matriz do Banco definiu o momento certo de desenvolver o sistema, mediante a situação do Banco ter adquirido outra instituição. Os aprimoramentos posteriores deste sistema são conduzidos pelas áreas de gestão de risco e de tecnologia, perante a análise de solicitações vindas de diferentes áreas. O Portal de Negócios foi desenvolvido por decisão das áreas de gestão de risco e de tecnologia, que assim como no caso do Risk, atualmente definem que solicitações e sugestões devem ser convertidas em aprimoramentos para o sistema. No caso do Asset, também as áreas de negócio e de tecnologia definiram em conjunto pela decisão de adquirir o sistema no mercado. Nos dois bancos, há uma pessoa responsável por eleger os aprimoramentos do sistema que devem ser solicitados a KNL, uma vez que era necessário definir as melhorias a serem trazidas para o sistema, dentre demandas de diversas áreas.

Como recursos tecnológicos socialmente construídos, os sistemas pesquisados também tiveram por característica a obrigatoriedade do uso imposta pela organização (E5 a E8, E11, E17 E19, E20, E28, E30, E40 e E44 – Tabela 11). A organização não facultou ao usuário a decisão de utilizar essas ferramentas de TI. Uma vez que os processos produtivos foram

55 estruturados a partir dos sistemas, seu uso se tornou obrigatório. Para integrar os processos, as pessoas precisaram, necessariamente, utilizar os sistemas. Já quais funções e campos elas usam e a forma de uso são variáveis. Os usuários constroem e reconstroem a ferramenta durante o seu uso, mas não pudem optar por não utilizá-las. Associada a obrigatoriedade de uso está a dependência que as pessoas têm do sistema para poderem executar suas atividades, seja por hábito, porque as informações que elas necessitam estão no sistema, ou ainda porque trabalhar fora do sistema gera retrabalho, uma vez que as pessoas também precisam posteriormente acessar o sistema para disponibilizar informações para outros. A obrigatoriedade de uso do sistema foi retratada nos depoimentos abaixo.

É a nossa ferramenta fundamental. Se a gente não tiver ela, pode cruzar os braços. Todo nosso fluxo de proposta vem por ela. (E11)

Se o sistema não existisse, eu não conseguiria fazer nada. O que move o banco é o sistema. (E19)

Sem o sistema, para mim, é inviável trabalhar. (E30)

O nosso dia-a-dia é o Portal de Negócios. Os outros são só auxiliares, para pegar dados e jogar no Portal. Mas hoje o Portal já pega também muitos dados de outros sistemas. (E44)

As entrevistas revelaram que, em princípio, do ponto de vista do usuário nenhum sistema é totalmente perfeito. No lançamento, o sistema já nasce com pontos a serem aprimorados. Isto advém do fato de que a equipe de desenvolvimento não pode aguardar o sistema estar totalmente adequado às necessidades dos usuários para disponibilizá-lo, uma vez que isto atrasaria o ganho de performance que se espera obter e comprometeria a dinâmica do negócio. Além disto, com o passar do tempo, algumas partes e funções se tornaram obsoletas ou desnecessárias e novas necessidades emergiram (E2, E4, E5, E35 e E38 – Tabela 11). As pessoas encontraram espaço para incorporar novas funções à ferramenta de TI, seja por meio do auxílio da tecnologia, seja buscando soluções próprias, como planilhas, macros e sistemas auxiliares desenvolvidos nos departamentos. Além destas novas funções, os entrevistados revelaram diferentes tipos de uso dos SI, explicados na seção seguinte.

Demandas conflitantes fazem com que você nunca entregue um sistema bom, 100%. O que se faz é o que se chama gap zero, o básico. No momento que você põe na produção, ele já nasce com um back log

56 enorme. Então ele já nasce com necessidades de enriquecimento, alterações e, porque isto também vai demorar, vêm as combinações com outras coisas que o usuário tenha mais capacidade de fazer sozinho, ou o que a gente chama, com os sistemas departamentais – que os departamentos tenham capacidade de fazer. A tecnologia se ocupa de desenvolver os sistemas core. (...) Mas com o passar do tempo existe uma série de funcionalidades que vão ficando obsoletas e vão se somando ao lixo que o sistema acaba incorporando na sua transformação. Dificilmente você retira um trabalho feito num sistema, você pode desabilitar uma funcionalidade, mas o lixo no código continua. (E2)

A utilização dos sistemas de gestão de risco demonstrou que o grau de autonomia do usuário influi no processo de construção do sistema na prática:

Você tem que diferir duas coisas: alguns sistemas são sistemas operacionais. São aqueles sistemas que você precisa fazer aquilo acontecer de uma determinada forma, ou a função do banco não está cumprindo com uma determinada lei... Aí você tem menos arbitrariedade, seja quando eu vou liquidar alguma coisa, resgatar um fundo. São processos inflexíveis...Quais são os sistemas que têm mabeabilidade para o usuário: são os sistemas que tratam de informações...Toda esta parte que alguém precisa fazer alguma coisa e prefere que seja de um jeito. Ou seja não existe um caminho padrão desenhado. (E2)

Quando estamos falando dos sistemas do banco, e mais especificamente de análise de crédito, você não tem flexibilidade. O usuário não tem liberdade de ação porque este é um dos objetivos do próprio sistema. O objetivo é padronizar e trazer controle ao processo. É garantir que o que está sendo realizado na ponta, pela área negocial, é 100% aderente a política de crédito traçada pelo banco, ao fluxo do processo e as regras estabelecidas. Ele não permite que os usuários tomem suas próprias decisões. (E36)

A idéia por detrás dos sistemas de gestão de risco foi fazer com que o nível operacional tivesse o mínimo possível de autonomia na concessão de crédito. O sistema impôs aos usuários da rede de agências regras rígidas, estabelecidas para se manter o controle sobre a concessão de crédito num nível decisório superior. Isto deu a este perfil de usuário

57 menos liberdade sobre a utilização do sistema. Já usuários tomadores de decisões quanto à aprovação de crédito gozam de maior liberdade.

A política de aprimoramento dos sistemas segue os fins do sistema, restringindo as pessoas que podem alterá-lo (E7, E23, E37 e E43 – Tabela 11). Uma vez que os sistemas de gestão de risco têm finalidades de controle, usuários do nível operacional, especialmente da rede de agências, têm dificuldades para opinar a respeito do aprimoramento do sistema. A contribuição com idéias de melhorias segue a hierarquia. Só usuários de determinado nível hierárquico contribuem com idéias e têm mais possibilidade de incorporar alterações no sistema – no artefato tecnológico. Os usuários do nível operacional reconstroem os sistemas ao optarem pelo tipo de uso individual que fazem. Os tipos de uso de sistemas de informação e o desenvolvimento dos sistemas foram temas explorados mais adiante nesta tese.

O que reforça os sistemas como algo em constante transformação é a dinâmica do negócio – ela define e redefine constantemente o sistema (E4, E5, E27, E29, E30 e E37 – Tabela 11). Esta dinâmica é tão intensa no setor bancário que os sistemas de gestão de risco de ambas as instituições são parametrizáveis, para que novos produtos e serviços possam ser lançados no sistema por usuários, sem auxílio da área de tecnologia. No Asset, a inserção de novos produtos e demais modificações no sistema fica à cargo da KNL, que detém o código fonte do sistema. O fato desta empresa incorporar no sistema demanda de vários clientes faz com que ela seja mais lenta do que o desejável para incorporar estas mudanças, impondo um freio ao ritmo do mercado. De qualquer forma, as modificações no sistema são tantas, que os clientes também reclamam do sistema ter perdido consistência e incorporado muitas emendas. Constatei, em resumo, que os sistemas foram trazidos para a organização, e nela são mantidos, em um processo no qual os usuários, como agentes, em maior ou menor grau, têm papel essencial na definição do que são as ferramentas e como elas são usadas. Isto se dá diante da obrigatoriedade de uso dos sistemas, imposta pela organização uma vez que os processos produtivos são estruturados com base na tecnologia.

Os principais fatores que emergiram nas entrevistas que permitiram verificar a dinâmica da construção dos sistemas de informação são apresentados na Tabela 11 do Apêndice 3.

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